UM LONGO CAMINHO PARA CASA
Danielle Steel


  Nota do corretor
  Este livro foi scaneado e corrigido por Airton Simille Marques que,
para tal se utilizou de um sintetizador de voz. por tanto pode haver
erros de paragrafo, acentuao, pontuao e diagramao. Para impresso
braille deve ser corrigido novamente.
  O texto foi justificado para uma melhor leitura sem cortes nas
palabras.
  Fim da nota

UM LONGO CAMINHO PARA CASA
Danielle Steel

 813.5
 S813
 LON

  30 323 657
  Biblioteca Publica do Parana
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Segunda TIRAGEM

EDITORA RECORD RIO DE JANEIRO - SO PAULO - 2000

  Nota da contra capa
  Aos sete anos de idade, Gabriela Harrison se sente um estorfo na vida
dos pais. Ela acredita, segundo lhe dizem, que  a culpada pelo rancor
da me e pelo fracasso de seu pai ao tentar protege-la. Seu mundo  uma
mistura confusa de terror, traio e dor. E seus familiares, na vida
aristocratica que levam, no conhecem limites mem respeito por ninguem.
Gabriela sabe que no existe um lugar seguro para se esconder. Depois do
fracasso do casamento deles e seu abandono para ser criada num convento,
o unico refugio da menina  o que ela escreve. Apenas suas histrias
imaginarias so um subterfugio para a enorme solido que a consome.
Quando resolve se tornar freira, uma grande reviravolta esta prestes a
acontecer. Gabriela se envolve com um padre e se v novamente numa
situao de conflito e sofrimento. Apos uma terrivel tragdia que os
envolve a jovem vai para Nova Yorque e, como unica forma de se recuperar
e se sentir definitivamente liberta dos traumas e problemas que a
assombram decide encarar o passado de frente. Mas um romance emocionante
da autora de O fantasma, Entrega expecial e Maldade.
  Fim da nota

    s crianas que morreram, tanto aquelas de que tomamos conhecimento,
quanto  as de que deveramos tomar. E s que sobreviveram e conseguiram
sair daquele lugar horrvel onde tinham a conscincia de que suas vidas
e suas almas estavam em perigo  constante... os filhos de uma guerra
que, mais do que qualquer outra, deveria  nos fazer chorar.
  Que possamos nos tornar sbios e bravos o bastante para proteg-las.
Que  nenhuma outra criana venha a morrer por omisso de nosso amor,
nossa coragem e nossa  misericrdia.
  E para Tom, que me deu coragem suficiente para dizer essas coisas.
  De todo meu corao e com todo meu amor.
  d.s.

Captulo 1

  Um relgio tiquetaqueava ruidosamente no corredor, enquanto Gabriella
Harrison  permanecia em silncio, na escurido absoluta do closet
repleto de casacos  pesados, que arranhavam seu rosto quando ela
comprimia o corpo magro de seis anos o mais  que podia entre eles. Ela
tropeou num par de botas de inverno da me, ao tentar ir mais para o
fundo do closet. Sabia que ali ningum a encontraria. J se  escondera
antes nesse lugar, que sempre fora um bom esconderijo, onde nunca
pensavam em procur-la, principalmente agora, no auge do vero
nova-iorquino.
  O ar era asfixiante ali; os olhos arregalados no escuro, a menina
esperava,  mal ousando respirar, enquanto ouvia passos abafados
aproximando-se a distncia.  O  rudo spero dos saltos da me retumbou
ao passar diante da porta, como um trem  expresso cruzando
estrondosamente a cidade; ela quase podia sentir com alivio o  ar soprar
seu rosto, dentro do closet abarrotado.
  Gabriella permitiu-se respirar novamente, por um breve instante, e
ento tornou a prender o flego, como se at mesmo o som de sua
respirao pudesse atrair a ateno da me.
   J aos seis anos, ela sabia que a me tinha poderes sobrenaturais.
Que podia  encontr-la em  qualquer lugar, quase como se fosse capaz de
detectar seu cheiro, a atrao da  me ao filho inevitvel, fatal, os
olhos profundos e castanho-escuros capazes de  tudo ver, tudo saber.
Gabriella sabia que, independente de onde se escondesse, a me  acabaria
por encontrla. Mas se escondia assim mesmo, pelo menos tinha de
tentar, para escapar da me.
  Gabriella era pequena para sua idade, o tamanho e o peso abaixo da
mdia, e  tinha um qu de duend, com imensos olhos azuis e os cachos
louros e macios. As  pessoas que no a conheciam bem diziam que parecia
um anjinho. Tinha um ar assustado a  maior parte do tempo, como um anjo
que houvesse cado na Terra, sem saber o que  esperar daqui. Nada do que
havia encontrado em seus breves seis anos de vida era o que  poderiam
lhe ter prometido no cu.
  Os saltos dos sapatos da me tornaram a passar por ali matraqueando,
pisando o  cho com mais fora dessa vez. Gabriella soube
instintivamente que a busca havia  se intensificado. O closet de seu
prprio quarto a essa altura j estaria revirado,  assim como tambm o
armrio debaixo das escadas, atrs da cozinha, o alpendre  fora da casa,
no jardim. Moravam numa casa estreita no East Side, com um jardim
pequeno e bem-cuidado. A me odiava o trabalho de jardinagem, mas um
japons  vinha duas vezes por semana para aparar as plantas, cortar o
pequeno trecho de grama e  manter o jardim em ordem. Mais do que
qualquer outra coisa, a me odiava  baguna, odiava barulho, odiava
sujeira, odiava mentiras, odiava cachorros e, acima de tudo,  Gabriella
tinha motivos para suspeitar, odiava crianas. As crianas mentiam,
dizia a me, faziam barulho e estavam sempre sujas. A toda hora, ela
mandava que  Gabriella no se sujasse, que ficasse em seu quarto e que
no incomodasse  ningum. A menina no tinha permisso para ouvir rdio
ou brincar com lpis de cores, pois, quando  o fazia, sempre deixava
tudo sujo da tinta dos lpis. Certa vez, tinha estragado seu melhor
vestido. Isso fora quando o pai estava longe de casa, num lugar  chamado
Coria. Ele fcara dois anos por l e voltara no ano anterior. Ainda
tinha um uniforme num canto do fundo do armrio, Gabriella vira uma vez,
quando estava se  escondendo. Os botes eram brilhantes e lustrosos, e o
tecido arranhava. Nunca  vira o pai vestido com ele. Seu pai era um
homem alto e magro, e bonito, com olhos da mesma cor dos  seus, cabelos
louros, tambm como os seus, s um pouquinho mais escuros. E, em  sua
volta da guerra, pensou que ele parecia o Prncipe Encantado da histria
da  Cinderela. A me parecia-se com a rainha de alguns dos livros de
histria que  Gabriella lia. Era bonita e elegante, mas estava sempre
zangada. Coisinhas pequenas  importunavam-na muito, como a maneira de
Gabriella comer, principalmente quando  espalhava migalhas por toda
parte ou derrubava um copo. Uma vez, derramara suco no vestido  da me.
Fizera muitas coisas nesses anos que no deveria fazer.
  Lembrava-se de todas elas, sabia o que eram e esforava-se para no
repeti- las, mas no podia evitar. No queria aborrecer ningum, no
queria que a me  ficasse zangada com ela. No era de propsito que se
sujava, deixava as coisas carem no  cho ou esquecia o chapu na
escola. Eram acidentes, ela sempre explicava, os  olhos imensos
implorando misericrdia  me. Mas, por mais que se esforasse, por
algum motvo as coisas erradas sempre aconteciam.
  Os saltos altos e finos tornaram a passar pelo closet, desta vez mais
devagar,  e Gabriella sabia o que isso significava. A busca estava
chegando ao fim.  Restava o ltimo dos esconderijos, e agora era apenas
uma questo de tempo antes que a  me a encontrasse. A criana com os
olhos imensos pensou em entregar-se, s  vezes a me lhe dizia que no
teria sido punida se tivesse tido coragem bastante para  faz-lo. Na
maioria das vezes, porm, ela no tinha. Tentara aquilo uma ou duas
vezes, mas era sempre tarde demais, dizia a me; se tivesse confessado
antes, teria  sido diferente. Teria tudo sido diferente se Gabriella se
comportasse  adequadamente, se respondesse quando lhe falavam, ou no
falasse quando no lhe dirigiam a  palavra, se mantivesse seu quarto
limpo, se no empurrasse a comida para l e  para c no prato, fazendo
com que as ervilhas cassem pelas bordas e deixando manchas de  gordura
na mesa. Se ao menos Gabriella pudesse aprender a se comportar,
responder apenas quando lhe falassem e no arranhar os sapatos no
jardim. A lista de suas  falhas e transgresses era interminvel. Ela
sabia muito bem o quanto era  horrvel, o quanto fora m durante toda a
vida, o quanto eles a amariam se ela apenas fizesse o que lhe mandavam;
e  sabia tambm que no a amavam por causa dos constantes desgostos que
lhes  causava.
  Era uma criana m, tinha conscincia, uma triste decepo para os
pais, e  isso a afligia muitssimo. Saber disso era o fardo esmagador
que vinha  carregando por toda a sua curta existncia. Teria feito
qualquer coisa para mudar isso, para  conquistar o amor e a aprovao
deles, mas at agora nada fizera alm de  desapont-los. A me deixava
isso bem claro para ela o tempo todo. E o preo que Gabriella  pagava
era o lembrete constante de suas falhas.
  Os passos agora pararam diante da porta do closet, e, durante um breve
 momento, fez-se um interminvel silncio antes que a porta se abrisse
de  supeto. A luz  filtrou-se por entre as roupas, penetrando as
entranhas do armrio, onde Gabriella se  escondia, e ela fechou os
olhos, como para se proteger contra a claridade. Era  uma fresta mnima
de luz estendendo-se em sua direo, atravs dos casacos, mas para
Gabriella parecia a luz radiante da vulnerabilidade. Podia sentir o
perfume  forte da me no ar e pressentir sua proximidade. O farfalhar da
saia que a me usava era como  um rudo de advertncia para Gabriella, e
ento, lentamente, os casacos foram  afastados, deixando  mostra o
fundo do closet. E por um longo e silencioso momento, os  olhos de
Gabriella encontraram-se com os da me. No houve qualquer som, nenhuma
palavra trocada entre elas. Gabriella sabia que era melhor no explicar,
pedir desculpas  ou mesmo chorar. Seus olhos j enormes pareceram ficar
maiores do que o rosto,  enquanto via a fria inevitvel crescer nos
olhos da me. Ento, com um gesto nico e  sobre-humano, a mo da me
investiu em sua direo, agarrou-a por um dos braos,  levantou-a do
cho e puxou-a para a frente com tamanha velocidade, que o ar pareceu
deixar  os pulmes de Gabriella com um pequeno silvo, enquanto ela
aterrissava, vacilante, de p, perto da me. E, num instante, veio o
primeiro golpe, jogando-a ao cho  com tamanha fora que deixou a
criana sem flego. No se ouviu gemido de dor,  nenhum som em absoluto,
quando a me golpeou com fora o alto de sua cabea, tornando-a  pux-la
com uma das mos, para p-la de p novamente, e esbofete-la com toda a
fora com a outra mo. Para Gabriella, o som do tapa foi ensurdecedor.
  - Voc est se escondendo outra vez - gritou a mulher alta e magra
para  Gabriella.
  Ela quase chegava a ser bonita, e poderia mesmo s-lo, se houvesse
algo  diferente em seus olhos, outra coisa que no fosse a fria
desenfreada estampada em seu  rosto. Seus cabelos escuros e compridos
estavam presos num coque frouxo. Era  elegante e graciosa, e tinha uma
silhueta adorvel. O vestido que usava era bem cortado,  uma pea cara
de seda azul-marinho. E, nos dedos, usava dois pesados anis de  safira,
que, nesse momento, tinham deixado sua marca no rosto de Gabriella, como
j  haviam feito antes.
  Havia um pequeno corte na cabea da menina e marcas de um vermelho
vivo onde seu rosto fora esbofeteado, um vergo produzido por um dos
anis j  visvel na bochecha. Eloise Harrison bateu na orelha direita
da menina e ento a  sacudiu, segurando-a pelos braos, gritando diante
de seu rosto minsculo e devastado.
  - Voc est sempre se escondendo! Sempre nos causando problemas! Est
com medo  do que agora, sua menina mimada? O que foi que voc fez? Fez
alguma coisa errada, no  foi?  claro que fez... por que outro motivo
estaria se escondendo no closet?
  - Eu no fiz nada... eu juro... - As palavras mal passavam de um
sussurro,  enquanto Gabriella arfava, lutando para respirar. Os golpes
pareciam tirar-lhe  todo  o ar, roubar toda a vida de sua alma, enquanto
ela olhava para a me, implorando,  os olhos cheios de lgrimas. - Me
desculpe, mame... Me desculpe...
  - No, no desculpo... Porque voc nunca se arrepende de verdade, no
? Voc  me deixa enlouquecida o tempo todo, fazendo coisas estpidas
como se esconder...  O que voc espera de ns... sua infeliz? Meu Deus,
no posso acreditar no que eu e  seu pai temos de aturar... - Ento
empurrou a criana para longe dela, e  Gabriella deslizou sobre o piso
bem encerado, indo parar a alguma distncia, mas no longe  o bastante,
e um sapato de camura azul e salto alto chutou com fria cega a  coxa
pequena e magra que tremia. Os hematomas maiores ficavam sempre nas
pernas e  braos, no corpo, onde no podiam ser vistos pelos outros. O
dano  causado ao rosto sempre desaparecia em algumas horas. Era como se
a me soubesse  instintivamente onde aplicar os golpes. Afinal, tinha
prtica bastante para isso. Vinha fazendo aquilo havia anos.
Praticamente toda a vida de Gabriella.
  No houve remorso ou palavras de consolo para a menina cada aos seus
ps.  Nenhum esforo para se desculpar ou para tranqiliz-la. Gabriella
sabia que, se  se  levantasse rpido demais, poderia despertar a fria
da me novamente, assim ficou ali  esperando por um longo tempo, a
cabea baixa, o rosto encharcado pelas lgrimas  silenciosas, ainda se
encolhendo devido aos golpes recebidos. Gabriella sabia que erguer o
rosto manchado pelas lgrimas para a me s a deixaria mais furiosa,
assim  manteve os olhos voltados para o cho, como se pudesse
desaparecer, ficando ali deitada  para sempre.
  - Levante-se... o que est esperando? -As palavras agressivas,
seguidas por  outro puxo no brao e um ltimo golpe na lateral da
cabea. - Meu Deus,  Gabriella... eu odeio voc... sua menina
pattica... olhe como voc  nojenta... est toda  suja... olhe a sua
cara! - De repente, sem mais nem menos, duas manchas de  sujeira haviam
aparecido, misturadas s lgrimas, no rosto angelical.
  Qualquer um com um mnimo de humanidade teria sido tomado por intensa
agonia  vendo-a assim, mas no sua me. Eloise Harrison era uma criatura
de outro mundo,  e  tudo menos o que se poderia chamar de me.
Abandonada pelos pais ainda muito pequena,  mandada para morar com uma
tia em Minnesota, vivera num mundo frio e solitrio  com a tia solteira,
que mal lhe dirigia a palavra e que, na maior parte do tempo, a
obrigava a carregar lenha ou limpar a neve com uma p nos invernos
rigorosos.  Estavam em plena Depresso ento, seus pais haviam perdido
quase todo o dinheiro que  tinham e foram para a Europa viver do pouco
que lhes restava. No havia lugar  para Eloise em seu mundo, ou em seus
coraes. Haviam perdido o filho, irmo de Eloise,  devido  difteria, e
nenhum dos dois sentia grande afeio pela filha. Eloise  ficara com a
tia em Minnesota at completar dezoito anos, quando ento voltara a Nova
York para morar com primos. Reencontrara John Harrison aos vinte anos e
casara- se com ele dois anos depois.
  Conhecera-o em criana, quando era amigo de seu irmo. E os pais dele
haviam  sido mais felizes do que os dela. Sua fortuna permanecera
intacta durante a  Depresso.
  Bem-nascido, bem-criado, bem-educado, embora sem grande ambio ou
fora de  carter, John arranjara um emprego num banco e reencontrara
Eloise pouco depois.  Ficara imediatamente deslumbrado com sua beleza.
  Eloise era bonita ento, e jovem, uma beldade, podia-se dizer, e havia
nela  uma certa frieza que o deixava enlouquecido. Ele pedia, implorava,
cortejava,  desejava desesperadamente casar-se com ela, e quanto mais
insistia, mais arredia ela se  mostrava. Foram necessrios praticamente
dois anos para que a convencesse a  tornar-se sua mulher. John quisera
filhos quase que de imediato, comprara uma linda casa  para ela, e tinha
tanto orgulho dela que quase explodia de satisfao sempre que  a
apresentava a algum. Mas levou mais dois anos para convenc-la a ter um
beb.  Ela sempre dizia que precisava de mais tempo. E, embora nunca
houvesse dito isso  abertamente, ter filhos no era o que de fato
queria. Sua prpria infncia fora to  desagradvel que no se sentia
particularmente atrada pela idia de ter filhos.  Mas aquilo
significava tanto para John, que ela acabou cedendo. E arrependeu-se
quase  imediatamente depois. Teve uma gravidez difcil, com enjos
violentos at perto  do fim, e o parto foi um horror que ela soube que
nunca mais se repetiria e de que ela  sempre se lembraria. Na mente de
Eloise, apesar da adorvel trouxinha cor-de- rosa que puseram em seus
braos no dia seguinte, aquilo simplesmente no valia a  pena. E desde o
incio aborrecia-a ver quanta ateno John dedicava ao beb. Era  o tipo
de paixo que ele um dia tivera por ela e, de repente, o marido s
parecia  pensar em Gabriella... se ela estava agasalhada o bastante...
se no estava com  frio... se comera... se algum trocara a fralda da
menina... se Eloise vira o quanto era  doce o seu sorriso... Ele pensava
que era impressionante o quanto ela se parecia com a me dele. S de
ouvi-lo, Eloise tinha vontade de gritar todas as vezes em  que via a
filha.
  Rapidamente ela voltou s suas prprias atividades, indo s compras,
aos chs  vespertinos e aos almoos com as amigas. E, mais do que nunca,
ela queria sair  todas as noites. No tinha absolutamente qualquer
interesse no beb. Ela admitiu para vrias das mulheres com as quais
jogava bridge nas tardes de quarta-feira que considerava a criana
incrivelmente  entediante e bas tante repulsiva. E a forma como ela
falava sempre as divertia. Ela era to  franca, que as outras mulheres
achavam engraado. Na realidade, ela mostrava-se menos maternal do que
nunca. John, porm, estava convencido de que ela aos  poucos iria se
acostumar. Algumas pessoas simplesmente no tinham jeito com  bebs,
dizia ele a si mesmo sempre que a via com Gabriella. Ela ainda era muito
jovem, estava  com vinte e quatro anos, e era muito bonita. Ele tinha
certeza de que, quando o beb comeasse a fazer mais gracinhas,
rapidamente conquistaria a me. Mas esse  dia nunca chegou, no para
Eloise, ou para Gabriella. Na verdade, quando  Gabriella comeou a
engatinhar por toda parte, puxando as coisas, ficando de p junto 
mesinha de centro e atirando os cinzeiros no cho, quase enlouqueceu a
me.
  - Meu Deus... olhe a baguna que essa criana faz... Est sempre
derrubando e  quebrando as coisas, e tem sempre alguma coisa nela
suja...
  - Ela  s um beb, El... - dizia ele delicadamente, tomando Gabriella
nos braos e abraando-a, e ento  colando os lbios  barriga da filha,
fazendo um rudo que a divertia.
  - Pare com isso, que coisa mais nojenta! - repreendia-o Eloise,
severamente,  olhando-o com repulsa.
  Ao contrrio de John, Eloise quase nunca tocava a filha. Uma bab que
tiveram no incio compreendera tudo rapidamente e partilhara suas
concluses com o pai da menina. Ela disse que Eloise tinha cimes da
filha.  Aquilo pareceu ridculo a John, mas, com o tempo, ele comeou a
ter dvidas. Todas as vezes em  que falava com a menina, ou a colocava
no colo, Eloise ficava zangada. E quando  Gabriella estava com dois
anos, Eloise batia em suas mozinhas todas as vezes em que as  estendia
para tocar alguma coisa na sala de visitas ou no quarto dos pais. Ela
achava que Gabriella deveria ficar restrita ao seu quarto e expressava
essa sua  opinio.
  - No podemos tranc-la l em cima - objetava John quando a encontrava
em seu  quarto, sempre que chegava em casa depois do trabalho. - Ela
destri tudo - respondia Eloise, como sempre parecendo zangada.
  Mas ficou ainda mais furiosa quando John fez um comentrio sobre como
o cabelo  de Gabriella era bonito; e seus cachinhos, adorveis. Foi no
dia seguinte que Gabriella  cortou os cabelos pela primeira vez. Eloise
levou-a ao salo com a bab e,  quando retornaram, os cachinhos haviam
desaparecido. E quando John expressou sua surpresa, Eloise  explicou que
cortar o cabelo era bom para a sade da menina.
  A rivalidade comeou a tornar-se sria quando Gabriella aprendeu a
falar  frases e corria pelo corredor, soltando gritinhos para ver o pai.
Pressentindo o  perigo prximo, em geral ela passava ao largo da me.
Eloise mal conseguia se conter  enquanto observava John brincar com a
menina, e quando ele finalmente comeou a  critic-la pelo pouco tempo
que passava com a filha, um abismo comeou a crescer entre  Eloise e o
marido. Estava cansada de ouvi-lo queixar-se com ela por causa do  beb.
Em sua opinio, aquela era uma atitude pouco masculina e, honestamente,
repugnante.
  A primeira surra de Gabriella aconteceu quando ela estava com trs
anos, numa  manh em que acidentalmente a menina derrubou um prato da
mesa do caf da manh,  quebrando-o. Eloise estava sentada pouco 
vontade ao lado dela, tomando seu caf. E, sem  hesitar, no instante em
que o prato caiu, ela estendeu o brao e esbofeteou a  menina.
  - Nunca mais faa isso... entendeu? - Gabriella ficara simplesmente
fitando-a,  os olhos cheios de lgrimas, o rostinho uma mscara de
choque e mgoa. - Voc  est me ouvindo? - tornou a gritar para a
menina. A essa altura, os cachinhos j  haviam reaparecido, e os imensos
olhos azuis fitavam a me, confusos. - Me  responda!
  - Desculpe, mame... - John acabara de entrar na sala e via o que
estava  acontecendo com incredulidade, mas estava to chocado que nada
fez para impedir.  Receava interferir e tornar as coisas ainda piores.
Ele nunca vira Eloise to furiosa. Trs anos de raiva, cime e
frustraes  vinham  tona como um vulco que havia muito ameaasse
entrar em erupo.
  - Se fizer isso de novo, Gabriella, vou dar uma surra em voc! - disse
Eloise  de modo ameaador, sacudindo a criana pelos braos at os
dentes dela comearem  a bater. - Voc  uma menina muito, muito m, e
ningum gosta de crianas ms. -  Gabriella olhou do rosto da me,
tomado pela fria, para o pai de p junto   porta, mas este nada disse.
Teve medo de dizer. E, assim que Eloise percebeu sua  presena, tomou a
criana nos braos e levou-a de volta para o quarto, deixando- a l, sem
o caf da manh. Deu-lhe um tapa com fora no traseiro antes de sair.
  Gabriella estava deitada na cama, soluando, quando a me saiu para
voltar   mesa do caf.
  - No era preciso fazer aquilo - disse john, baixinho, quando Eloise
veio  tomar mais uma xcara de caf.
  Ele percebeu que suas mos estavam trmulas e que ela ainda parecia
zangada.
  - Se eu no fizer isso, voc um dia acabar com uma delinqente
juvenil nas  mos. Disciplina  uma coisa boa para as crianas. - Os
pais de John haviam sido  bons para ele, que ainda estava perplexo
diante da reao de Eloise. Mas ele tambm  tinha conscincia de que a
filha a deixava extremamente nervosa. Eloise nunca  mais fora a mesma
depois do nascimento de Gabriella e atualmente estava sempre  aborrecida
com ele por causa de alguma coisa. Suas esperanas de ter uma famlia
grande e feliz tinham desaparecido havia muito.
  - No sei o que ela fez para aborrec-la, mas no pode ter sido assim
to  terrvel - disse ele, com calma.
  - Ela jogou um prato no cho de propsito e o quebrou. No vou aturar
pirraa!  - replicou Eloise, com aspereza.
  - Talvez tenha sido um acidente - disse ele, tentando apaziguar, mas
conseguindo apenas piorar a situao. Nada havia que pudesse dizer em
defesa da  filha. Eloise simplesmente no queria ouvir.
  - Disciplinar Gabriella  meu dever - afirmou Eloise, entredentes. -
Eu no  lhe digo como dirigir o escritrio - acrescentou, e ento deixou
a mesa.
  Dentro de seis meses, "disciplinar" Gabriella tornou-se uma tarefa de
tempo  integral para a me. Havia sempre um novo crime que a menina
cometera que exigia um bofeto, uma surra ou uma sesso de  palmadas:
brincar no jardim e sujar os joelhos na grama, brincar com o gato do
vizinho e arranhar os braos ou sujar o vestido; cair na rua e ferir os
joelhos e sujar  todo o vestido e as meias de sangue fora uma ofensa
particularmente abominvel,  que lhe custara a surra mais sria at ali,
pouco antes de seu quarto aniversrio.
  John sabia dos castigos fsicos e muitas vezes os presenciava, mas
achava que  nada havia que ele pudesse fazer para impedir Eloise, e at
mesmo consolar a menina  depois tornava as coisas piores, e ento era
mais simples aceitar as explicaes  de Eloise sobre as razes por que
ela tinha de bater, esbofetear ou surrar a filha.  No fim, ele chegou 
concluso de que era melhor nada dizer e tentava no pensar no que
estava acontecendo a Gabriella. Tentava dizer a si mesmo que talvez
Eloise estivesse certa. Ele no sabia. Talvez uma rgida disciplina
fosse boa  para as crianas, se era o que ela dizia.
  Seus pais haviam morrido num acidente de automvel, e no havia
ningum com  quem ele pudesse falar, ningum a quem ousasse contar o que
Eloise fazia com a  filha.
  Gabriella certamente era uma criana exemplar; ela mal falava, limpava
a mesa  cuidadosamente, dobrava as roupas com cuidado em seu quarto,
fazia tudo que lhe  mandavam e nunca respondia com insolncia  me.
Talvez Eloise tivesse razo. Os  resultados eram com certeza
impressionantes. E quando ela se sentava  mesa das  refeies com os
pais, os olhos pareciam imensos em seu rosto e ela permanecia em
completo  silncio. Era lamentvel apenas que o pai viesse a confundir
pavor com boas  maneiras.
  Mas aos olhos menos generosos de Eloise, Gabriella estava sempre muito
aqum  da perfeio. Havia sempre um motivo a mais para repreend-la,
puni-la ou uma  nova  razo para lhe dar umas "palmadas". As surras
passaram a ser mais longas e mais  freqentes, os bofetes pareciam
pontuar cada troca de palavras entre elas, os  safanes, os socos, os
tapas sonoros em todas as partes de seu corpo. Havia ocasies em  que
John temia que Eloise pudesse machucar Gabriella seriamente, mas ele
guardava para si mesmo os comentrios sobre o modo como a mulher estava
criando a filha. Para  ele, parecia que a cautela era a melhor atitude;
ento John se empenhava ao mximo em convencer a si mesmo de que o que
ela estava fazendo no  era errado, tomando cuidado para nunca ver os
hematomas. Segundo Eloise, a  criana caa com freqncia, e era to
desajeitada que no podiam deix-la andar de  bicicleta ou aprender a
andar de patins. As privaes que a me lhe impunha eram  obviamente
para proteg-la, os hematomas um sinal de que ela era de fato to
desastrada  quanto Eloise dizia.
  Por ocasio de seu sexto aniversrio, as surras de Gabriella haviam se
tornado  um hbito para todos eles. John as evitava, Gabriella as
esperava, e Eloise  claramente sentia prazer com elas. Se algum tivesse
lhe dito isso, ela teria se sentido  ultrajada. Aquilo era para o
prprio bem da menina, alegava ela. Era  "necessrio".
  Evitava que ela se tornasse ainda mais mimada do que j era, Eloise
teria  explicado. E a prpria Gabriella sabia o quanto ela era m de
verdade. Se no  fosse m, a me no precisaria bater nela... se no
fosse m, o pai no deixaria a me  surr-la... se no fosse m, eles a
amariam. Mas Gabriella sabia, mais do que  nngum, o quanto ela era
imprestvel, o quo terrveis eram seus crimes. Sabia de tudo  isso
porque sua me lhe dizia.
  E, cada no cho naquela tarde de vero, quando a me a obrigou a
levantar-se,  puxando-a por um brao, e a esbofeteou mais uma vez antes
de mand-la para o  prprio quarto, ela viu o pai observando-as da
porta. Ela sabia que ele assistira ao  espancamento e nada fizera a
respeito, como sempre. Os olhos dele pareciam  pesarosos quando
Gabriella passou por ele, mas ele nada disse. No estendeu os braos
para  consol-la, no tentou toc-la, simplesmente desviou os olhos,
recusando-se a  ver a expresso nos olhos da filha, incapaz de
suport-la por mais tempo.
  - V para o seu quarto e fique l! - As palavras da me retiniam nos
ouvidos  de Gabriella, enquanto esta percorria de mansinho o corredor,
apalpando o rosto  com os dedinhos trmulos. Ela sabia que agora era uma
menina grande, sabia que as  coisas que fazia que deixavam a me to
zangada eram horrveis de verdade, e  quando entrou furtivamente no
quarto e fechou a porta, um soluo escapou de seus  lbios, e ela correu
para a cama e agarrou-se  boneca. Era o nico brinquedo  que lhe
permitiam ter, a boneca que a av, me de seu pai, lhe dera antes de
morrer. Tinha olhos  azuis e clios grandes, e lindos cabelos louros, e
Gabriella a amava de corao.  O nome da boneca era Meredith e era a
nica aliada da menina. Gabriella a abraava  apertado agora,
embalando-a, sentada na cama, perguntando-se por que a me lhe  batia
com tanta fora... por que ela, Gabriella, era assim to terrvel... e
tudo de  que podia se lembrar nesse momento era do olhar do pai quando
ela passara por  ele. Parecia decepcionado, como se tivesse esperado que
ela fosse melhor do que era  de fato, aquele pequeno monstro que a me a
acusava de ser. E Gabriella  acreditava naquilo. Fazia tudo errado, e
sabia disso. Ela se esforava muito, mas no havia  como agradar-lhes...
no havia como impedir o inevitvel... nenhuma sada para  escapar.
  E, sentada ali, segurando a boneca, soube no fundo de sua alma que
aquilo  nunca teria fim. Ela nunca seria boa o bastante, nunca iria
conquistlos.  Durante toda sua vida soubera que eles no a amavam, e
estava havia muito convencida de que  no merecia ser amada. No merecia
coisa alguma alm da dor que a me lhe  infligia.
  Sabia disso, mas ainda assim se perguntava por que tinha de doer
tanto... por  que a me estava sempre to zangada com ela... o que ela
fizera para que eles a  odiassem... E, ali deitada, chorando em
silncio, o que sabia era que no havia respostas e  que ningum poderia
salv-la disso tudo. Nem mesmo seu pai. Tudo que tinha no  mundo era
Meredith, sua nica amiga, sua boneca. No tinha avs, tias ou tios,
amigos  ou primos. No tinha permisso para brincar com outras crianas.
Provavelmente por ser to m. Certamente no iriam gostar mesmo dela.
Ningum iria. Quem poderia  gostar dela, se nem mesmo seus pais
gostavam, se ela era to m?... Sabia que  no podia contar a ningum o
que eles faziam com ela, pois isso s iria provar o  quanto ela era m,
e quando perguntavam na escola o que havia acontecido com  ela, ela
sempre dizia que cara da escada ou que tropeara no cachorro, embora
no  tivessem cachorro. Mas ela sabia que esse era um segredo que tinha
de guardar,  pois, caso contrrio, as pessoas saberiam o quanto ela era
horrvel, e Gabriella no queria  que ningum soubesse disso.
  A culpa no era de seus pais, ela tambm sabia disso. Era sua, por ser
to m,  por cometer tantos erros, por deixar a me to zangada. Era
tudo culpa sua. E,  deitada ali na cama, pensando em tudo isso, podia
ouvir as vozes dos dois. Como sempre  acontecia, eles estavam gritando,
e ela sabia que isso tambm era culpa sua. s  vezes, depois da me
puni-la, ela ouvia o pai gritando com a me, como estava fazendo  agora.
No conseguia entender o que diziam, mas provavelmente era sobre ela...
sua culpa com certeza... ela era at mesmo pior do que eles diziam. Ela
fazia os  dois brigarem. Fazia com que ficassem com raiva um do outro.
Ela fazia todos  infelizes, quase to infelizes quanto ela prpria.
  Gabriella chorou at dormir, quando a noite caa, sem jantar, e,
enquanto  mergulhava no sono, sentindo o rosto doer e a coxa latejar no
ponto onde a me a  chutara, tentou pensar em outros lugares, em outras
coisas... um jardim... ou um  parque... com pessoas felizes... e
crianas rindo enquanto brincavam... todos  brincavam e queriam que ela
brincasse com eles... uma mulher alta e bonita vinha em sua  direo,
estendia os braos para ela e lhe dizia que a amava... Era a sensao
mais maravilhosa do mundo e, enquanto pensava nisso, tudo o mais em sua
vida desapareceu, e ela  mergulhou no sono, abraada  boneca.
  - Voc no tem medo de que um dia desses acabe por mat-la? -
perguntou John  incisivamente  mulher, que lhe dirigiu um olhar ao
mesmo tempo divertido e  desdenhoso.
  Ele j havia bebido mais do que uns poucos drinques quando parou
diante dela,  olhando-a, oscilando levemente. O hbito de beber comeara
mais ou menos na  mesma  ocasio em que as surras. Era mais fcil do que
tentar encontrar uma explicao para  estas ou para o comportamento de
Eloise. A bebida amenizava e chegava a tornar  uma situao intolervel
quase suportvel para ele, ainda que no para Gabriella.
  - Talvez ela no acabe uma bbada como voc, se eu enfiar um pouco de
juzo  naquela cabea. Isso ir poup-la de muito sofrimento mais tarde.
- Eloise  estava sentada calmamente no sof, olhando-o com desprezo,
enquanto ele se servia de mais um  martni.
  - O mais doentio disso tudo  que acho que voc acredita mesmo nisso.
  - Est insinuando que sou muito dura com ela? - perguntou Eloise,
visivelmente  furiosa por estar sendo questionada.
  - Muito dura? Muito dura? Voc j deu uma boa olhada nas marcas no
corpo dela?  Como  que voc acha que ela as consegue?
  - No seja ridculo tentando me culpar por isso. Ela cai de cara no
cho o tempo todo. - Eloise acendeu um cigarro e recostou-se no sof,
observando-o beber o martni.
  - Eloise,  comigo que est falando. Quem voc est querendo enganar
aqui? Sei  o que voc sente por ela... e ela tambm... pobrezinha, no
merece isso.
  - Nem eu tampouco. Voc tem idia do que sou obrigada a suportar? Ela
 um  monstrinho debaixo daqueles cachos, com aqueles olhos azuis
grandes e inocentes,  pelos quais voc  apaixonado.
  Ele olhou para ela como se um vu que cobrisse seus olhos tivesse sido
 erguido, arrebatado pela fora do lcool em seu organismo.
  - Voc tem cimes dela, no , El? Essa  a razo disso tudo , no 
mesmo?  Puro cime. Voc tem cime de sua prpria filha.
  - Voc est bbado. - Ela descartou o comentrio com um movimento do
cigarro,  no querendo ouvir o que ele dizia.
  - Estou certo, e voc sabe disso. Voc est doente. Eu s lamento por
ela, que  ns a tenhamos tido. Ela no merece uma vida como essa que ns
lhe damos... que  voc lhe d... - Ele no assumia qualquer
responsabilidade pela crueldade da mulher e  tinha grande orgulho pelo
fato de nunca ter encostado a mo em Gabriella com o  intuito de
puni-la. Mas tampouco fazia alguma coisa para proteg-la.
  - Se est tentando fazer com que eu me sinta culpada em relao a ela,
no  perca o seu tempo. Eu no me sinto. Sei o que estou fazendo.
  - Sabe mesmo? Voc a espanca brutalmente quase todos os dias.  isso o
que  imaginava para ela? - Ele parecia horrorizado ao esvaziar o copo,
sentindo os  efeitos de seu quarto martni. s vezes era preciso ainda
mais para apagar a lembrana das coisas que a mulher  fazia.
  - Ela no  uma criana fcil, John. Precisa que lhe ensinem a lio.
  - Bem, voc j fez isso, El. Tenho certeza de que ela vai sempre se
lembrar  das lies que ensinamos. - Seus olhos comearam a embaciar-se
ao pronunciar  aquelas palavras.
  - Espero que sim. As crianas no precisam de muito paparico. Isso no
 bom  para elas. Ela tambm sabe que estou certa. Nunca discute comigo
quando eu a  castigo. Sabe que merece.
  - Ela tem medo demais para argumentar, e voc sabe disso.
Provavelmente ela  tem medo de que voc a mate se ela disser alguma
coisa ou tentar resistir.
  - Voc fala como se eu fosse um monstro assassino, pelo amor de Deus.
- Ela  cruzou as pernas bem-torneadas, mas j fazia muitos anos agora
que ele no se  sentia mais atrado por ela. Ver o que ela estava
impondo  filha deles o fizera  comear a odi-la, mas no o suficiente
para tentar impedi-la, nem para separar- se dela. Ele no tinha coragem
para isso, e estava lentamente comeando a odiar-se tambm  por esse
motivo.
  - Devamos mand-la logo para um internato, simplesmente para tir-la
daqui,  para mand-la para longe de ns dois. Ela merece isso.
  - Merece uma educao adequada de nossa parte antes disso.
  -  assim que voc chama isso? "Educao"? Voc viu a marca no rosto
dela  quando foi para a cama hoje?
  - J ter desaparecido pela manh - retrucou Eloise, tranqilamente.
  Ele sabia que isso provavelmente era verdade, mas detestava ter de
admiti-lo.  Eloise parecia sempre saber a intensidade certa de fora a
usar para que os  hematomas nunca aparecessem nas reas expostas do
corpo de Gabriella. As marcas nas partes  superiores dos braos e das
pernas, porm, eram outra histria. Eloise era uma  expert.
  - Voc  uma megera doente - foi tudo que conseguiu dizer para a
mulher ao  deixar a sala e dirigir-se, vacilante, para o quarto.
  Era isso o que ela era, mas parecia no haver coisa alguma que ele
pudesse  fazer a respeito. Ele parou diante da porta aberta do quarto da
filha, a caminho  do  seu, e fitou a escurido. No havia sinal de vida
ali, nenhum som, e a cama parecia  vazia, mas quando entrou devagarzinho
no quarto e olhou mais de perto, viu um  pequeno volume no p da cama e
soube que era Gabriella. Ela sempre dormia daquela forma,  escondida na
parte inferior da cama, para que a me pensasse que no estava ali se
fosse procur-la. As lgrimas afluram aos seus olhos, enquanto olhava
para a  massa pequena de terror e de abuso fsico que mal se via e que
era sua filha.  Sequer ousou ajeitar sua cabecinha no travesseiro vazio.
Isso s serviria para exp-la  outra vez  raiva de Eloise, caso esta
viesse v-la. Ele deixou-a ali,  solitria, isolada e aparentemente
esquecida, fez meiavolta e dirigiu-se ao prprio quarto,  assombrado
diante das injustias da vida, da desumanidade que sucedia  sua  filha,
e ainda assim ele sabia, enquanto se afastava, sabia que nada havia que
pudesse  fazer para salv-la. Ao seu modo, ele era to impotente diante
da mulher quanto  Gabriella. E odiava a si mesmo por isso.

Captulo 2

  Os convidados comearam a chegar pouco depois das oito horas na casa
da Rua 69  Leste. Estavam l alguns colunveis, um prncipe russo
acompanhado por uma jovem  inglesa e todas as mulheres com quem Eloise
normalmente jogava bridge. O diretor do  banco em que john Harrison
trabalhava tambm estava l com a mulher. Os garons,  de black-tie,
serviam champanhe em bandejas de prata, enquanto os convidados iam
chegando.  Gabriella os observava, escondida, sentada no topo da escada.
Ela adorava ficar  olhando as visitas quando os pais davam festas.
  A me estava muito bonita com o vestido preto de cetim; e o pai,
elegante e  charmoso no smoking bem cortado. Os vestidos das mulheres
cintilavam quando elas  entravam no vestbulo e as jias brilhavam sob a
luz das velas quando apanhavam as taas  de champanhe e pareciam
deslizar para onde estavam as vozes e a msica. Eloise e John adoravam
dar festas. Faziam-no com menor freqncia agora, mas ainda  recebiam
com fartura, de tempos em tempos. Gabriella adorava ver os convidados
chegando e, depois, deitar-se na cama ouvindo a msica.
  Era setembro, o comeo da temporada social de Nova York. Gabriella
tinha  acabado de completar sete anos. No havia nenhum motivo especial
para a festa  daquela  noite, apenas uma reunio com os amigos, alguns
dos quais Gabriella reconhecia enquanto  espiava. Havia uns poucos de
quem tinha sempre gostado e que eram bons para ela nas raras ocasies em
que a viam. Ela quase nunca era apresentada aos amigos dos  pais,
raramente era vista e jamais lhe dispensavam muita ateno. Ela
simplesmente ficava l, escondida na parte de cima da casa, quase
esquecida. Eloise no  achava que as crianas devessem ser vistas em
eventos sociais, e a existncia de  Gabriella em suas vidas podia ser
qualquer coisa, exceto importante para ela. Vez ou  outra, uma das
amigas perguntava pela menina, principalmente durante os jogos de
bridge, e ela descartava as indagaes com um gesto gracioso da mo,
como um inseto  incmodo que cruzasse seu caminho e pudesse ser
rapidamente enxotado. No havia  fotografias de Gabriella na casa,
embora houvesse muitas de Eloise e John, em molduras de  prata. Nunca
tiravam fotografias da menina. Registrar sua infncia no era de  nenhum
interesse para eles.
  Gabriella sorriu ao ver uma mulher loura muito bonita chegando ao
vestbulo l  embaixo. Marianne Marks usava um vestido de chiffon branco
que parecia flutuar  quando ela andava, conversando com o marido. Aquela
era uma das amigas mais chegadas de  seus pais, e o marido trabalhava
com John. Marianne usava um colar de diamantes, que brilhava em seu
pescoo, e as mos moviam-se graciosamente ao pegar a taa  de champanhe
de um dos garons. Ento, como se pressentisse algo, olhou para  cima e
parou quando viu Gabriella. O rosto da mulher pareceu iluminar-se e, com
o  brilho das velas do candelabro, era quase como se tivesse uma
aurola. Nesse  momento Gabriella percebeu que aquele fulgor vinha de
uma fina tiara de diamantes. Para  Gabriella, Marianne parecia a rainha
de um conto de fadas.
  - Gabriella! O que voc est fazendo a em cima? - Sua voz era suave e
clida,  e ela dirigiu-lhe um amplo sorriso, acenando para a criana
escondida no ltimo  degrau da escada, com a camisola rosa de flanela.
  - Shhh... - Gabriella ps um dedo sobre os lbios, com uma expresso
preocupada. Se soubessem que ela estava ali, ficaria em apuros.
  - Ah... - Marianne Marks entendeu de imediato, ou pensou ter
entendido, e  subiu rapidamente para ir v-la. Usava sandlias de salto
alto de cetim branco,  mas no fez qualquer barulho. O marido esperava
l embaixo, sorrindo, observando a  mulher e a linda criana que agora
cochichava, enquanto Marianne a abraava.
  - O que est fazendo aqui em cima? Vendo os convidados chegarem?
  - A senhora est to bonita! - exclamou Gabriella, fascinada, enquanto
 balanava a cabea afirmativamente, respondendo  pergunta da mulher.
Marianne  Marks era  tudo o que sua me no era. Bonita e agradvel,
tinha olhos grandes e azuis como os  de Gabriella e um sorriso que
iluminava tudo  sua volta. Parecia um ser  encantado para a menina, que
muitas vezes no podia deixar de se perguntar por que no  tinha uma me
como ela. Marianne era mais ou menos da mesma idade de sua me e
parecia sempre triste quando dizia que no tinha filhos. Talvez tivesse
havido um erro,  talvez Gabriella tivesse sido destinada a uma mulher
como aquela e tivesse ido  parar com seus pais por engano... Talvez
porque fosse to m e precisasse de castigo.  Ela no conseguia imaginar
Marianne castigando algum. Era to boa e gentil, e  parecia sempre to
feliz, especialmente nesse momento em que se inclinava para beijar
Gabriella, que pde sentir-lhe o perfume suave e delicioso. Gabriella
odiava o  perfume da me.
  - Voc no pode descer um pouco? - perguntou Marianne, querendo tomar
Gabriella nos braos e lev-la l para baixo. Havia alguma coisa na
menina que  parecia sempre toc-la e apoderar-se de seu corao. Tudo na
garotinha despertava em Marianne o  desejo de am-la e proteg-la. Ela
no sabia por que se sentia dessa maneira,  mas Gabriella era uma dessas
almas raras e frgeis que enternecia as pessoas, e  Marianne
experimentava essa sensao agora, enquanto segurava a mo pequena e
fria, os dedos incrivelmente delicados. O aperto era firme e quase
suplicante.
  - No, no... Eu no posso descer... Mame ficaria brava comigo. Eu
devia  estar na cama - sussurrou ela. Sabia qual era a penalidade por
sair da cama e  desobedecer s ordens; ainda assim, no conseguia
resistir  tentao de espiar as pessoas  chegando s festas. E, vez ou
outra, havia uma gratificao como esta. -  uma  coroa de verdade? -
Marianne parecia a Fada Madrinha da Cinderela, e Robert Marks,
esperando pacientemente pela mulher ao p da escada, estava muito
charmoso.
  - O nome disso  tiara - Marianne deu uma risadinha. Gabriella era
obrigada a  cham-la de tia Marianne ou de sra. Marks. Havia castigos
rigorosos se chamasse os amigos dos pais, ou qualquer outro adulto, pelo
primeiro nome, e ela sabia  disso. - No  uma bobagem? Era da minha
av.
  - Ela era uma rainha? - perguntou Gabriella, sria, com aqueles olhos
imensos  e inteligentes que sempre tocavam o corao de Marianne Marks
de uma maneira que  esta no entendia muito bem, mas que sentia
intensamente.
  - No, era apenas uma senhora engraada de Boston. Mas ela esteve com
a rainha  da Inglaterra uma vez. Foi quando usou isto. Eu achei que
seria divertido us-la  esta noite. - E, enquanto explicava, desprendeu
a tiara cuidadosamente dos cabelos  louros penteados com elegncia e,
com um nico gesto, colocou-a graciosamente  sobre os cachos tambm
louros de Gabriella. -Agora voc parece uma princesinha.
  - Pareo? - Gabriella sentia-se horrorizada com aquela possibilidade.
Como   que uma pessoa m como ela podia se parecer com uma princesa?
  - Venha... Vou mostrar a voc - sussurrou a mulher loura e bonita,
pegando a  mo da menina e atravessando o corredor do andar de cima at
chegar a um espelho  grande e antigo. Quando Gabriella olhou para a
imagem refletida com olhos arregalados, sobressaltou-se com o que viu: a
mulher bonita a seu lado, olhando-a com um  sorriso terno, e a pequena e
elegante coroa de diamantes tremeluzindo no alto de sua  prpria cabea,
enquanto Marianne a segurava.
  - Ah...  to bonito... e a senhora tambm... - Era um dos momentos
mais  encantados de sua curta vida, um momento que se imprimia para
sempre em seu corao, enquanto as duas permaneciam ali. Por que  essa
mulher era sempre boa para ela? Como podia? Por que ela e a me eram to
diferentes? Para Gabriella, esse era um mistrio para o qual no havia
explicao, embora  soubesse, havia anos, que jamais fizera qualquer
coisa para merecer uma me como  essa.
  - Voc  uma garotinha muito especial - disse Marianne, suavemente, ao
se  inclinar para lhe dar outro beijo; em seguida desprendeu a tiara
delicadamente  da cabea da menina e tornou a coloc-la na sua, dando
uma ltima olhada no espelho. -  Seus pais tm muita sorte.
  Mas os olhos de Gabriella tornaram-se desesperadamente tristes com
aquelas  palavras. Se Marianne soubesse como Gabriella era m, jamais
diria uma coisa  dessas.  Ela sabia que a me poderia contar uma
histria bem diferente  mulher, e que o  faria.
  - Acho melhor eu descer agora. O pobre do Robert est me esperando.
  Gabriella fez que sim com a cabea, circunspecta, ainda maravilhada
com o que  Marianne havia feito: o beijo, a tiara, o toque suave, as
palavras doces. Sabia  que se lembraria daquilo tudo para o resto de sua
vida. Para ela, era um presente  que significava mais do que a mulher
podia saber ou suspeitar.
  - Eu gostaria de morar com a senhora. - Gabriella deixou as palavras
escaparem  enquanto segurava a mo da mulher e as duas dirigiam-se
lentamente ao topo da  escada.
  Marianne achou estranho que a menina dissesse aquilo e no podia
imaginar o  que a levava a dizer tais palavras.
  - Eu tambm - disse, de maneira suave, odiando ter de soltar a mo da
criana,  sentindo um aperto no corao e vendo algo de to doloroso nos
olhos dela que a  afligia fisicamente. - Mas seu papai e sua mame iam
ficar muito tristes se voc no  estivesse aqui para faz-los felizes.
  - No iam, no - disse Gabriella com inocncia, o que fez Marianne
olh-la  demoradamente, imaginando se a menina tinha feito alguma coisa
errada naquele  dia, ou se havia levado uma bronca dos pais. Para ela,
em sua ingenuidade, era  praticamente impossvel que algum brigasse com
uma criana daquelas.
  - Eu vou voltar e acenar para voc daqui a pouquinho. Posso vir aqui
em cima  at o seu quarto? - Prometer-lhe alguma coisa parecia o nico
jeito de deix-la,  de aliviar sua prpria conscincia por deixar
aqueles olhos, aquela aparncia de  splica que pesava agora em seu
corao. Mas Gabriella sacudiu a cabea com  gravidade.
  - A senhora no pode vir me ver - disse, sria. O preo a ser pago
seria quase  insuportvel, caso a me viesse a descobrir. Eloise
detestava quando suas amigas  falavam com Gabriella. Seria ainda pior se
descobrisse que algum tinha ido l em cima  para v-la. Gabriella sabia
que a me a culparia por incomodar os convidados e  que sua fria no
conheceria limites. - Eles no vo deixar.
  - Vou ver se consigo dar uma es capulida mais tarde... - prometeu
Marianne,  comeando a descer os degraus, e ento mandoulhe um beijo
sobre o ombro  elegante. O  vestido parecia novamente flutuar ao seu
redor,  medida que ela se movia. Marianne  parou no meio da escada e
olhou para a criana que a observava. - Vou voltar,  Gabriella... Eu
juro... - E ento, sentindo no peito algo estranho e desconfortvel que
no  compreendia muito bem, desceu o resto do caminho correndo para o
marido.
  Ele bebia a segunda taa de champanhe e conversava com um conde
polons muito  atraente, cujos olhos se iluminaram imediatamente ao
avistar Marianne. Ele  beijou-lhe as mos, e Gabriella ficou
observando-os. V-los conversando, rindo e depois  dirigindo-se
lentamente para junto dos outros convidados era como assistir a uma
dana.
  Gabriella queria descer as escadas correndo e grudar-se quela mulher,
para,  nela, encontrar segurana e proteo. E, pressentindo os olhos da
criana ainda  fixos sobre si, Marianne olhou para cima uma ltima vez e
acenou, enquanto desaparecia  de braos dados com o marido, enquanto o
conde, dizendo algo engraado,  arrancava dela uma risada lmpida.
Gabriella fechou os olhos ao ouvi-la e encostou a  cabea no corrimo
por uns instantes, lembrando e sonhando. Ainda podia ver a  pequena
tiara em sua prpria cabea e sentir o olhar da mulher e o seu perfume
delicioso. Mais de uma hora se passou antes que os ltimos convidados
chegassem, e  Gabriella, sentada em silncio, ainda os observava.
Nenhuma outra pessoa a  avistou ou mesmo olhou para cima. Chegavam,
sorrindo e conversando, deixavam seus agasalhos,  pegavam o champanhe e
se dirigiam ao interior da casa, indo encontrar-se com  seus pais e os
outros convidados. Havia mais de cem pessoas ali, e ela sabia que a me
jamais viria saber como ela estava. Supunha que a menina estivesse na
cama, como  deveria. Em nenhum momento passou pela cabea dos pais que
ela pudesse estar espiando as  pessoas que chegavam e sendo m, como de
costume, desobedecendo s ordens.
  - No saia da cama e no se mexa... nem mesmo respire - tinham sido as
ltimas  palavras da me. Mas a seduo da magia l embaixo havia sido
mais forte. Ela  gostaria de poder ir at l e comer alguma coisa.
Quando os ltimos convidados chegaram,  j estava morrendo de fome e
sabia que havia muita comida na cozinha: tortinhas e  bolos, chocolates
e biscoitos. Tinha visto um  presunto enorme ser preparado naquela tarde
e tambm rosbife e peru. Havia  caviar, como sempre, embora ela no
gostasse. Tinha provado uma vez, mas o gosto  de peixe era muito
acentuado, e, de qualquer maneira, a me no queria que ela comesse.
Estava proibida de toc-lo, assim como em tudo o mais que era servido
nas  festas.
  Entretanto, adoraria provar um dos bolinhos. Havia bombas, tortinhas
de  morango e mil-folhas, seus preferidos. Todos estavam to ocupados
aquela noite,  que ningum se lembrou de lhe dar o jantar. E ela sabia
que era melhor no pedir nada  me  quando esta estava se aprontando
para uma festa. Eloise tinha ficado horas no  quarto, passando um longo
tempo na banheira, fazendo o cabelo e a maquiagem. No tivera  tempo
para pensar na filha, e Gabriella sabia que era melhor assim. Sabia o
que  aconteceria caso pedisse alguma coisa. A me estava sempre com os
nervos  flor da pele  antes de uma de suas festas.
  Gabriella podia ouvir a msica tocando mais alto agora. As pessoas
danavam no  fundo do salo, e a sala de jantar, a de visitas e a
biblioteca estavam  abarrotadas de gente. Podia ouvi-los rindo e
conversando e aguardou um longo tempo, na  esperana de ver Marianne
novamente, mas ela no voltou, e a menina sabia que no tinha o direito
de  esperar. Provavelmente havia se esquecido.
  Gabriella ainda estava sentada l, torcendo para v-la pela ltima
vez, quando a me passou rapidamente no corredor l de  baixo,
procurando alguma coisa, e imediatamente sentiu a presena da filha. Sem
hesitar por um momento que fosse, olhou para o candelabro e, ento, alm
deste, para o  topo da escada, onde Gabriella estava sentada de camisola
rosa. A menina prendeu  a respirao na mesma hora. Levantou-se de
supeto, descala, e recuou, tropeando  no ltimo degrau e caindo
sentada sobre o magro traseiro. A expresso no rosto  da me lhe disse
de imediato o que estava por vir.
  Sem qualquer som ou palavra, Eloise subiu as escadas como se tivesse
ps  alados, uma mensageira do diabo. Usava um vestido de seda preto,
justo no corpo,  que revelava sua silhueta espetacular e brilhava como
os cabelos escuros, presos num coque  apertado. Tinha longos brincos
pendentes de diamantes e um belo colar, tambm de  diamantes. Mas, assim
como o vestido e as jias de Marianne pareciam deix-la mais serena,
cerc-la com uma aura de luz e suavidade, o que a me usava
acentuava-lhe a  aspereza e tornava sua aparncia verdadeiramente
assustadora.
  - O que  que voc est fazendo aqui? - Ela cuspia as palavras num
sussurro  maligno. - Eu disse para no sair do seu quarto.
  - Desculpe, eu s... - No havia desculpas para o que havia feito.
Menos ainda  por ter atrado Marianne Marks s para v-la... e pior
ainda, experimentar a  tiara... Se a me soubesse daquilo... Mas
felizmente no sabia.
  - No minta para mim, Gabriella - disse, agarrando o brao da menina
com tanta  fora que a circulao foi imediatamente interrompida e,
quase ao mesmo tempo, a  carne comeou a formigar. - No fale nada! -
ordenou, entredentes, enquanto a  arrastava pelo corredor, sem ser vista
pelas pessoas que usufruam de sua  hospitalidade l embaixo. Tivesse
algum presenciado o que acontecia ali, teria ficado chocado,  sem
palavras. E, embora soubesse disso, continuou sussurrando de forma
perversa  para a criana: - No d um pio, seu monstro... ou arranco seu
brao fora. E Gabriella tinha certeza absoluta de que o faria mesmo. No
duvidou por um  momento sequer. Aos sete anos, tinha aprendido muitas
lies sobre a me e sabia  que toda tortura prometida era geralmente
cumprida. Era uma das coisas de que se  podia ter certeza em relao a
Eloise.
  Os ps da menina iam literalmente suspensos no ar,  medida que a me
a levava  para o quarto, quase a arrastando, e o resto do corpinho
oscilava, enquanto  tentava correr ao lado da mulher, para no irrit-la
ainda mais. A porta estava aberta,  e Eloise jogou Gabriella l dentro.
A criana caiu com um baque surdo, torcendo  o tornozelo, mas sabia que
era melhor no fazer barulho, deitada no cho do quarto  escuro.
  - Agora fique aqui! Est me entendendo? No quero ver voc fora desse
quarto  novamente, est claro? Se me desobedecer dessa vez, Gabriella,
eu juro que vai  se  arrepender. Ningum quer ver voc l... ningum
gosta de voc... as pessoas no esto nem a  se est sentada no topo da
escada, como uma coitadinha, uma rf pattica. Voc  s uma criana,
deve ficar no seu quarto, onde no precisem olhar para voc.  Est
escutando? - Na escurido, apenas o silncio. Gabriella estava deitada,
chorando baixinho da dor no tornozelo e no brao, mas era muito esperta
e orgulhosa para  reclamar com a me. - Responda! - A voz vibrou na
escurido do quarto, e  Gabriella temeu que a me fosse se aproximar
para dar a mensagem de forma ainda mais  sucinta.
  - Desculpa, mame - sussurrou.
  - Pare de choramingar e v para a cama, que  o seu lugar disse Eloise
e bateu  a porta. Ainda tinha o semblante carregado por causa do
incidente ao precipitar- se para as escadas e, ento, enquanto descia
apressada, seu rosto pareceu  transformar-se e a lembrana de Gabriella,
ou do que fizera com ela, havia  desaparecido por completo quando Eloise
chegou ao vestbulo. Trs dos convidados estavam ali,  vestindo seus
casacos, e ela beijou cada um deles afetuosamente ao sarem,  voltando
em seguida para a sala de visitas a fim de conversar e danar com os
demais. Era  como se Gabriella jamais tivesse existido. Para ela, no
existia mesmo.  Gabriella nada significava.
  Marianne Marks pediu para que dessem um beijo na menina por ela,
quando estava  de partida.
  - Prometi que iria v-la antes de ir embora, mas a essa altura ela j
deve  estar dormindo - disse, arrependendo-se ao ver a me da criana
franzir a testa  e parecer sobressaltada.
  - Espero que sim! - replicou Eloise, asperamente. - Voc a viu hoje? -
 perguntou, quase distrada, parecendo surpresa, mas no necessariamente
preocupada com o  fato.
  - Vi - confessou a bela mulher, envergonhada, esquecendose do que
Gabriella  falara em relao a no ter permisso para ver os convidados,
e no dando muita  ateno quilo. Quem poderia se zangar com um anjinho
daqueles? Mas havia muita coisa  que Marianne no sabia sobre a me da
criana. - Ela  to adorvel. Estava  sentada no topo da escada quando
chegamos, na camisolinha rosa mais encantadora que j  vi. Subi para
dar-lhe um beijo e conversamos por alguns minutos.
  - Sinto muito - disse Eloise, parecendo um tanto irritada. - Ela no
devia ter  feito isso - disse, desculpando-se, como se a menina os
tivesse ofendido de  maneira aterradora e, aos olhos de Eloise, tinha
mesmo. Havia exposto sua presena, o  que era um pecado imperdovel para
a me; mas Marianne Marks no podia imaginar.
  - Foi minha culpa. No pude resistir a ela, com aqueles olhos imensos.
Queria  ver minha tiara.
  - Espero que voc no tenha deixado que ela a tocasse. Alguma coisa
nos olhos  de Eloise disse a Marianne para no falar mais nada e, ao
deixarem a casa dos  Harrison naquela noite, Marianne comentou o fato
com Robert.
  - Ela  extremamente dura com a criana, no acha, Bob? Pelo modo como
agiu,  era como se a menina pudesse me roubar a tiara, se eu tivesse
deixado.
  - Ela s deve ser muito conservadora em relao a crianas.
Provavelmente  estava com medo de que Gabriella tivesse incomodado voc.
  - Como  que ela poderia? - perguntou Marianne, inocentemente,
enquanto eram  levados para casa pelo motorista. -  a coisinha mais
doce que j vi... to sria e linda. Ela tem os olhos mais  tristes... -
E ento, desejosa: - Queria que tivssemos uma garotinha como ela.
  - Eu sei - disse ele, acariciando-lhe a mo e desviando o olhar do
rosto  decepcionado da mulher. Sabia o que significava para ela o fato
de em nove anos  de casamento no terem conseguido ter um filho. Mas era
algo que tinham de aceitar agora. - Ela  dura com John tambm - afirmou
Marianne depois de uns momentos de  silncio, quando pensava nos filhos
que jamais teriam e na garotinh linda com a  qual havia conversado
naquela noite.
  - Quem? - Aquela altura Robert tinha a cabea em outras coisas. Tivera
um dia  cansativo no escritrio e j pensava no seguinte. Havia tirado
os Harrison e os  comentrios da mulher sobre a filha deles do
pensamento.
  - Eloise. - Marianne o trouxe de volta  noite em questo, e ele fez
que sim  com a cabea. - John danou vrias vezes com aquela garota
inglesa que o  prncipe  Orlovsky trouxe, e acho que Eloise estava
prestes a mat-lo.
  Robert Marks sorriu da avaliao que a mulher fazia da situao.
  - Quer dizer ento que voc no ligaria se eu danasse com ela? - Ele
levantou  uma sobrancelha, e Marianne riu. -A roupa da mulher mal lhe
cobria o corpo. - Ela estava usando um vestido de  cetim cor de carne
que se ajustava ao corpo como uma segunda pele, no deixando nenhum
trabalho  imaginao. Estava maravilhosa, e John Harrison  certamente a
achara muito interessante. Quem no achara?
  - Acho que no posso censurar Eloise - admitiu Marianne, envergonhada.
E  ento, aparentemente sem malicia, voltou os grandes olhos azuis para
o marido: -  Voc  a achou bonita?
  Mas ele sabia que era melhor no dizer, e riu vigorosamente. Naquele
momento  chegaram em casa, na Rua 79 Leste.
  - No vou cair nessa, sra. Marianne! Eu a achei horrorosa , uma
verdadeira  bruxa. Alm disso, com um corpo horrvel daquele jeito,
nunca deveria ter se atrevido a usar aquele vestido. No sei onde
Orlovsky estava com a cabea quando resolveu  lev-la! - Os dois riram
da maneira como ele tentava se desvencilhar da pergunta da mulher, mas
ambos sabiam que ela era de uma beleza admirvel e bem  mais do que
levemente estimulante. Entretanto, Robert Marks jamais havia sentido
interesse por outra mulher que no fosse sua linda esposa, e a ele no
importava nem um  pouco que ela no pudesse ter filhos. Ele a adorava.
Sua nica vontade agora era  levla para o quarto, no andar de cima. No
dava a mnima para a nova amante de  Orlovsky.
  Entretanto, o mesmo no era verdade para John Harrison, que nesse
momento  travava uma discusso parecida, mas muito mais acalorada, no
quarto com Eloise.
  - Pelo amor de Deus, por que  que no tirou logo as roupas dela?
-perguntou  Eloise, com aspereza. Ele havia danado repetidamente com a
to falada jovem  inglesa de vestido de cetim cor de carne justssimo, e
suas danas apaixonadas no  passaram despercebidas nem a Eloise, nem a
Orlovsky.
  - Minha nossa, Eloise, eu s estava sendo educado. Ela bebeu demais e
no  sabia o que estava fazendo.
  - Muito conveniente para voc - disse Eloise, com frieza. - Quando a
ala do  vestido escorregou, exibindo o seio, era por puro acaso que,
naquela hora, voc  estivesse praticamente beijando a mulher. - Ela
andava em crculos pelo quarto, fumando, e  ambos haviam bebido bastante
durante toda a noite.
  - Eu no a estava beijando, e voc sabe disso. A gente estava
danando.
  - Vocs estavam quase fazendo amor, bem ali na pista de dana. Voc me
 humilhou na frente de nossos amigos. - Para Eloise, ele precisava de
castigo.
  - Talvez, se voc se interessasse em dormir comigo, eu no precisasse
danar  daquela maneira com uma completa desconhecida. - No que ele
ainda ligasse. Como  poderia, depois de ver o que ela fazia com
Gabriella? Estava prximo a Eloise, e ambos  falavam alto, mas pelo
menos dessa vez a menina no os ouvia. Dormia  profundamente no quarto.
O ltimo convidado havia sado s duas horas, e eram quase trs  agora,
no momento em que os dois brigavam. Estavam discutindo desde o trmino
da  festa, e as palavras tornavam-se mais e mais colricas, assim como
seus nimos.
  - Voc  nojento - disse Eloise, o mais perto dele que ousava chegar.
 Ambos pareciam enfurecidos, e a verdade  que ele adoraria ter roubado
a garota  de Vladimir Orlovsky, e talvez ainda o fizesse. Sua fidelidade
e seus sentimentos para com  Eloise haviam desaparecido anos atrs.
Cruel como era para a filha, e fria como  era para ele, ela merecia
aquilo, e ele no lhe devia nada.
  - Voc  um canalha; e ela, uma vagabunda! - disse Eloise, querendo
humilh-lo  e feri-lo, mas sem conseguir.
  Ele no ligava mais para o que ela pensava ou dizia. Odiava tudo o que
lhe  dizia respeito, e ela sabia.
  - E voc  uma megera, Eloise. J no  mais segredo nenhum. Todo
mundo sabe.  No h nesta cidade homem que valha alguma coisa e queira
voc. - Ela no  respondeu com palavras desta vez, mas recuou um passo e
esbofeteou-o o mais forte que  pde, quase com tanta fora quanto a
dispensada ao bater na filha.
  - No gaste sua energia. Eu no sou Gabriella - disse, dando-lhe um
violento  empurro. Ela caiu de costas sobre uma cadeira, derrubando-a.
Ainda estava se  levantando quando John saiu do quarto, batendo a porta.
Ele no olhou para trs, no ligava  e, por um momento de loucura, quase
torceu para que a tivesse machucado. Ela  merecia. Infligira tanta dor a
ele e  filhinha, que merecia um pouco de volta.
  Ele no sabia para onde iria naquela noite e no se importava. A essa
altura,  a inglesa estaria na cama com Orlovsky, e ele no poderia
procur-la, embora soubesse o endereo.  Mas havia muitas outras garotas
para as quais ligava de tempos em tempos,  profissionais que usava,
mulheres casadas que ficavam felizes por passarem uma tarde com ele,  ou
solteiras que se iludiam, achando que um dia ele deixaria Eloise, e no
ligavam para a quantidade de lcool que consumia em sua presena. Muitas
mulheres  estavam dispostas a ir para a cama com ele, e John tirava
vantagem delas sempre  que dispunha de tempo. Jamais hesitava em se
agarrar  oportunidade de tra-la. Por que  deveria?
  Desceu as escadas voando e chamou um txi. Quando entrou no carro para
ir  embora dali, Eloise dirigiu-se mancando para a janela, com apenas um
sapato, e  olhou  para ele. No havia dor em seus olhos, nem
arrependimento pelo que dissera ou pelo  que se passara. S havia raiva
e dio em seu semblante. Ela ferira o lbio na queda e  estava furiosa
com ele. To furiosa, que a raiva precisava ser manifestada e  havia
somente um lugar onde poderia faz-lo. Com um olhar desumano, tirou o
outro  sapato e lanou-o longe, saindo do quarto com passos silenciosos.
Tudo o que  sentia por ele, ou no sentia, estava em seus olhos no
momento em que atravessava o  corredor, dirigindo-se quela porta
familiar. E tudo o que sabia, ao entrar no  quarto escuro, era que
queria machuc-lo.
  Com um nico gesto, acendeu as luzes para que pudesse ver o que estava
fazendo  e arrancou os cobertores da pequena cama. A aparncia de que
no havia ningum  ali no a deteve. Sabia que ela estava sempre l,
escondendo-se, m, nociva e  repugnante como o pai. Era to nojenta
quanto ele, e Eloise odiou-a com cada centmetro do seu ser, ao
descobrir aquela forma pequena e cor-de-rosa, enroscada como uma
bolinha na parte inferior da cama, agarrada  boneca... a maldita boneca
que a  me dele lhe dera e  qual estava sempre grudada... Eloise estava
tomada de uma  fria cega ao pegla e bat-la contra a parede,
quebrando-lhe a cabea.  Gabriella acordou num claro ofuscante e viu o
que ela fazia.
  - No, mame, no! A Meredith no!... No... Mame, por favor... -
Gabriella  soluava, enquanto a me destrua a boneca que ela amara por
tantos anos; em  seguida, Eloise virou-se para a filha com um dio
alucinado e comeou a espanc-la.
  -  s uma porcaria de boneca... E voc  uma menina mimada e m...
Arrastou  Marianne at aqui em cima s para v-la, no foi? E o que foi
que voc disse a  ela?... Chorou para ela ver?... Contou a ela sobre
isso? Falou que  isso que voc  merece? Que voc  podre? Sua megera...
Que voc  uma vagabunda? E que eu e seu  pai odiamos voc por nos
causar tantos problemas?... Contou a ela que precisamos punir voc  por
ser to m conosco? Contou? Contou? CONTOU? - Mas Gabriella no podia
mais  responder. Os soluos foram abafados pelos gritos, enquanto a me
a golpeava mais uma vez e  outra e ainda mais uma. No comeo, com o
corpo da boneca que chamara de Meredith e, depois, com o punho, batendo
no peito, no corpo, nas costelas, dando  pancadas, cortando-a, pegando
os cabelos e quase arrancando-os da  cabecinha, esbofeteando-a at que
no conseguisse mais retomar o flego. Os  golpes eram incessantes e no
tinham fim, mais brutais do que se podia  acreditar. Toda  a raiva que
sentia da criana e de John, a humilhao que sofrera naquela noite,
quando ele fora atrs da garota inglesa, era descontada na criana, que
no  fazia idia do que tinha feito para merecer aquilo, embora soubesse
que, em alguma  parte de si mesma, era to m que certamente merecia o
dio da me.
  Gabriella estava quase inconsciente quando a me a deixou naquela
noite. Havia  sangue na cama, e era como se uma faca a cortasse cada vez
que tentava respirar.  Nenhuma delas sabia, mas duas de suas costelas
estavam quebradas. No podia respirar ou  mover-se, e precisava urinar
desesperadamente, mas sabia que, se o fizesse na  cama, a me a mataria
de fato. Os destroos da boneca desapareceram. A me os havia  levado e
jogado no lixo ao sair do quarto, exausta e um tanto saciada. A fria
em relao a John cedera. Tinha alimentado o monstro que havia dentro de
si. Havia comido  Gabriella em seu lugar, devorado, mastigado e cuspido
o que dela restava. Havia sangue emplastrado nos cabelos da menina, que
continuava deitada, e os hematomas que  apresentaria no dia seguinte
seriam os piores que j tivera. Era a primeira vez  que a me realmente
lhe quebrava ossos, e Gabriella estava apavorada, mas jamais  duvidou de
que aquela no seria a ltima.
  Deitada na cama, era incapaz de chorar depois que a me saiu: doa
demais. Em  vez disso, tremia violentamente. Estava desesperada de frio,
e todo o corpinho  sacudia. Os lbios estavam inchados, a cabea doa,
doa cada centmetro do corpo, mas o  pior era a dor seca que sentia
todas as vezes que tentava respirar e no  conseguia. Pensou que talvez
fosse morrer naquela noite e torceu para que assim fosse. No  tinha
razo nenhuma para viver. A boneca estava morta. E sabia que um dia
teria  a mesma sina, nas mos da me. Era s uma questo de tempo.
  Eloise dormiu com o vestido preto de cetim, cansada demais para
tir-lo. E  Gabriella, deitada no prprio sangue, esperava que o anjo da
morte viesse cham- la.  Tentou pensar em Marianne e nos momentos
partilhados com ela naquela noite, mas no  conseguia, no podia pensar
em nada. Sentia tanta dor e odiava a me de tal maneira... O  dio que
sentia era maior que tudo. Quase tornava a dor suportvel. E, naquele
exato momento, enquanto estava deitada na cama, o pai se aconchegava nos
braos de uma  bela prostituta italiana que conhecia muito bem, no Lower
East Side. Gabriella  no fazia idia de onde ele se encontrava, nem
Eloise, mas isso j no importava  para nenhuma das duas. Eloise disse a
si mesma que no queria saber onde ele  estava, queria que fosse no
inferno e, com ela, era onde ele realmente estava. E  Gabriella sabia
que, onde quer que estivesse, jamais a salvaria. Estava sozinha  no
mundo: sem salvadores, amigos ou mesmo sua boneca. No tinha nada. Nem
ningum. Deitada  ali naquela noite, incapaz de se mover, finalmente
urinou na cama, tendo certeza absoluta de que, quando a me descobrisse
pela manh, iria mat-la. Ficou  pensando nisso, desejando-o, imaginando
como seria o fim, quanto mais iria  doer... ou talvez no fosse doer
nada... e, pensando assim, desejando a morte em sua vida,  mergulhou
numa escurido misericordiosa.

Captulo 3

  A porta da frente fechou-se sem rudo na casa da Rua 69, pouco depois
das oito  horas da manh, no dia seguinte  festa. John Harrison subiu
as escadas em  silncio e parou por um segundo em frente ao quarto de
Gabriella, sabendo que  provavelmente ela j estaria acordada. Quando
olhou para dentro do quarto,  porm, viu que ela no se mexia. Os olhos
estavam fechados e ela deitada por cima dos lenis, o  que era raro;
mas ele achou aquilo um bom sinal. Em vez de se esconder junto aos  ps
da cama, estava deitada  vontade. Era mais do que provvel que aquilo
significasse que a me no a incomodara na noite anterior. Com certeza
Eloise  estava cansada demais depois que ele saiu e, de qualquer
maneira, tinha bebido demais para  perder tempo com Gabriella. Ao menos
daquela vez a criana no tinha sido punida pelos pecados do pai. Bem,
pelo menos foi o que ele pensou, enquanto atravessava o  corredor em
direo ao prprio quarto.
  Eloise ainda dormia com o vestido de noite e o colar de diamantes. Os
brincos  estavam soltos na cama, e ela dormia em sono to profundo que
no se mexeu  quando  ele se deitou ao seu lado. John a conhecia bem
demais para saber que, ao acordar,  ela pouco falaria sobre sua sada
impetuosa. Raramente falava. Ela o trataria com frieza e  distncia por
um ou dois dias, mas, uma vez terminada a briga, esta jamais era
mencionada outra vez. Eloise simplesmente a usava contra ele, sem
palavras.
  Assim como John tinha previsto, Eloise acordou s dez, virando-se
preguiosamente na cama, e, quando se viu desperta por completo, olhou
para ele,  nem um pouco  surpresa ao v-lo ali ao seu lado. John ainda
estava adormecido, tentando recuperar a  noite de sono que tinha perdido
no apartamento do Lower East Side. Freqentava  um bom nmero de lugares
como aquele. Eloise no fazia idia aonde ele havia ido depois  de
deix-la. Tinha suas desconfianas, mas jamais perguntaria a ele.
  Ela no lhe dirigiu a palavra ao se levantar. Deixou as jias na
penteadeira e  seguiu devagar para o banheiro. Lembrava-se perfeitamente
de tudo o que se  passara na noite anterior, especialmente do que tinha
acontecido depois da partida dele,  mas no havia nada de extraordinrio
naquilo, nada que merecesse comentrios.  Ela nada tinha para dizer ao
marido.
  Gabriella ainda estava no quarto quando Eloise desceu para preparar o
caf da  manh. A empregada tinha ficado para ajudar o pessoal do
servio de buf com a  limpeza, na noite anterior, e hoje estava de
folga, pois era domingo. Ela era uma mulher  calada e discreta, que
trabalhava havia anos para eles. No gostava de Eloise,  mas a tratava
com civilidade, e Eloise gostava dela porque no se metia onde no era
chamada. Embora consigo mesma desaprovasse a maneira pela qual Eloise
disciplinava a menina, ela nunca interferia.
  Eloise ligou a cafeteira, sentou-se  mesa do caf da manh e pegou o
jornal.  Estava lendo e tomando caf numa xcara de porcelana de Limoges
quando John finalmente chegou e perguntou pela filha.
  - Onde est Gabriella? Ainda na cama?
  - Foi uma noite longa para ela - disse Eloise, com frieza, sem tirar
os olhos  do jornal.
  - Ser que devo acord-la? - Eloise no disse nada, dando de ombros
como  resposta. Ele serviu-se de um pouco de caf,  pegou o caderno de
negcios do Times, que Eloise nunca tocava, e leu por uma  meia hora
antes de comentar novamente sobre a ausncia da menina. - Acha que ela
est doente? - Parecia preocupado. Embora devesse imaginar, no lhe
passava pela  cabea o que havia se passado durante a noite. No
percebia que a mulher sempre  descontava na criana o fato de ele sair
de casa altas horas da madrugada depois de uma  discusso. Deveria ter
desconfiado de imediato, mas, como sempre, no queria  saber de fato.
  Eram quase onze horas quando foi procur-la no segundo andar.
  Encontrou-a trocando a roupa de cama, movendo-se cuidadosamente, como
algum  que estivesse com muita dor, mas, ainda assim, ele parecia no
ver o que tinha  ocorrido.
  - Voc est bem, querida?
  Os olhos da menina encheram-se com as lgrimas no-derramadas enquanto
fazia  que sim com a cabea. Estivera pensando em Meredith, a boneca, e
sentia-se como  se  algum tivesse morrido na noite passada. E tinha
mesmo. No apenas a boneca, mas ela  tambm. Tinha sido a pior surra
dada pela me. E extinguira qualquer sombra de  esperana que ainda
pudesse ter de sobreviver naquela casa. No tinha mais expectativas
nesse sentido. Sabia que era s uma questo de tempo antes que a me a
destrusse por completo. No tinha mais iluses, nem sonhos,
absolutamente nada, apenas a dor  inacreditvel nas costelas e a
lembrana da boneca sendo arremessada contra a  parede, exatamente como
ela sabia que a me gostaria de fazer com ela, mas ainda no  tinha
ousado.
  - Posso ajudar? - Ele se ofereceu para, com ela, colocar a coberta de
volta  sobre a cama, mas a menina sacudiu a cabea. Sabia muito bem o
que diria a me  se os encontrasse assim. Iria acusla de ficar
choramingando para o pai, de manipul- lo ou de tentar coloc-lo contra
ela. - Voc no quer descer para tomar o caf  da manh? -A verdade era
que no queria ver a me. No tinha mais fome, talvez  jamais viesse a
ter. No se importava se nunca mais comesse e, cada vez que  respirava,
era como se um fogo a atravessasse e algum girasse uma faca no meio das
suas  costelas. No podia imaginar-se descendo as escadas ou sentando-se
perto da me   mesa do caf, quanto mais comendo.
  - Est tudo bem, papai. No estou com fome. - Os olhos estavam imensos
e mais  tristes que de costume. Ele disse a si mesmo que provavelmente
ela estava muito  cansada. Recusava-se a ver a dificuldade com que
andava, o local onde os cabelos ainda  estavam grudados pelo sangue, o
lbio que apresentava mais do que uma ligeira  inchao. Ele inventava
histrias da carochinha para justificar tudo aquilo e as contava a  si
mesmo, como vinha fazendo desde o incio.
  - Vamos l. Eu fao umas panquecas para voc. - Como se tivesse que
compens- la por alguma coisa. omo se soubesse de tudo, coisa que ele
negaria de ps  juntos. Se permitisse a si mesmo pensar em tudo o que
Eloise fizera com ela, iria se  sentir culpado demais.
  Entrou no quarto com passos lentos e viu que Gabriella vestia um
suter por  cima do vestido. Aquele era geralmente o sinal de que os
bracinhos finos haviam sido machucados demais para serem expostos. Era
um sinal que sempre reconhecia, mas  jamais admitia. Mesmo aos sete
anos, Gabriella sabia que precisava cobrir-se  para no ofend-los,
principalmente a me, com os sinais visveis da sua "maldade". O  pai
no perguntou se ela estava com frio ou por que usava o agasalho. s
vezes, na praia, usava um suter, uma camisa de mangas compridas ou um
xale, pela mesma  razo. E ningum dizia nada, simplesmente deixavam-na
agir assim. Era um voto  silencioso, um acordo tcito entre eles.
  - Onde est Meredith? - perguntou ele, correndo os olhos pelo quarto e
dando- se conta de que a boneca no se encontrava ali. Ela estava sempre
 mo no  quarto  de Gabriella, mas dessa vez no a viu.
  - Ela foi embora - disse a menina, olhando para o cho, tentando no
chorar  novamente e pensando no barulho da cabea da boneca sendo batida
de encontro   parede e destruda pela me. Sabia que jamais se
esqueceria daquele som, que nunca  perdoaria a me por aquela viso.
Meredith tinha sido o seu beb.
  - O que isso quer dizer? - perguntou, inocentemente, e, ento,
recuando quase  de imediato, decidiu-se por no levar o assunto adiante.
- Desa e coma alguma  coisa, querida. Ainda temos uma hora antes de ir
para a igreja. D tempo de sobra para  tomar o caf da manh - disse,
alegremente, e, em seguida, desceu s pressas,  aliviado  por se livrar
da intensidade daqueles olhos, das profundezas daquela angstia. Sabia
agora que  alguma coisa tinha acontecido durante sua ausncia, mas no
queria perguntar nem saber os detalhes. Hoje no era diferente de
qualquer outro dia. Ele nunca  queria ver o que se passava, se no fosse
obrigado a vlo. E, ainda assim, nada  fazia a respeito.
  Gabriella arrastou-se pelas escadas sem fazer barulho, descendo um
degrau de  cada vez, ofegante, agarrando-se ao corrimo. O tornozelo
doa, e tambm os  braos, a cabea, e parecia que, no apenas duas, mas
todas as costelas estavam  quebradas. Sentia-se enjoada por causa da dor
no momento em que se sentou em  silncio  mesa do caf. Tinha colocado
os lenis no saco de roupas sujas, depois de lavar  algumas partes do
corpo com todo cuidado, e trocado a roupa de cama, e pensou  que talvez
a me no descobrisse o "acidente" da noite anterior. Ela esperava que
no, com  todas as suas foras.
  - Voc est atrasada - disse a me, sem levantar os olhos do jornal.
  - Desculpe, mame - sussurrou Gabriella. Falar doa de maneira
absurda, mas  sabia o que aconteceria caso no respondesse.
  - Se estiver com fome, sirva-se de um copo de leite e faa uma
torrada.
  A menina hesitou, sem querer levantar-se novamente, mas, sem dizer
palavra, o  pai foi preparar o caf para ela. To logo a me se deu
conta do fato, olhou  para  ele com irritao.
  - Est sempre mimando esta menina. Por que  que voc faz isso? -
Olhava-o  incisivamente, aborrecida com acontecimentos que nada tinham a
ver com a  preparao  do caf da manh da filha. Mas, na verdade,
Eloise odiava quando ele fazia qualquer  coisa pela menina ou lhe
dedicava algum gesto de gentileza.
  - Hoje  domingo. - Como se aquilo respondesse  pergunta. - Voc quer
outra  xcara de caf?
  - No, obrigada - respondeu Eloise, bruscamente. - Tenho que me
arrumar para a  igreja daqui a pouco. E voc tambm. - Olhou com raiva
para Gabriella.
  Mas s pensar em mudar de roupa novamente, em tirar o suter e as
roupas de  novo, quase fez a menina chorar.
  - Quero que ponha o vestido rosa com bordado de casinha de abelha e o
suter que faz conjunto com  ele. -As instrues eram claras, como seria
o castigo caso no as seguisse. -  Fique no seu quarto at estarmos
prontos para sair. E no v se emporcalhar, como  sempre, nesse meio
tempo.
  Gabriella balanou a cabea e deixou a mesa em silncio uns instantes
mais  tarde, sem o caf da manh. Ela sabia que hoje levaria mais tempo
do que de  costume  para obedecer s ordens da me. O pai assistia a
tudo sem dizer uma s palavra. Havia  uma cumplicidade de silncio entre
eles.
  Gabriella tornou a subir as escadas lentamente, com mais dificuldade
do que  quando desceu, mas enfim conseguiu chegar ao quarto e procurou,
no closet, o  vestido que a me a mandara usar. Encontrou-o com
facilidade, mas vesti-lo foi outra  histria. Levou praticamente uma
hora inteira para tirar as roupas e entrar no  vestido, enquanto
estremecia de agonia e enxugava as lgrimas que escorriam em
abundncia. O suter foi o ltimo golpe numa manh j deplorvel. Mas
Gabriella  estava pronta,  espera, quando o pai veio lhe dizer que era
hora de ir, e o seguiu pelas  escadas, com os sapatinhos de verniz preto
e meias brancas, o vestido rosa e o  suter que fazia conjunto com ele.
Como sempre, parecia um anjinho.
  - Meu Deus, voc penteou os cabelos com garfo e faca? perguntou a me
com  raiva, no momento em que a viu. No conseguira levantar os braos
para pentear  os cabelos naquela manh e, ingenuamente, esperou que a
me no fosse perceber.
  - Esqueci - foi a nica coisa que lhe ocorreu responder; pelo menos a
me no  poderia dizer que estava mentindo. E pelo menos no fingiu que
tinha penteado.
  - Volte j l em cima, penteie os cabelos, e ponha a fita rosa de
cetim. - Os  olhos de Gabriella encheram-se de lgrimas com a ordem e,
pelo menos dessa vez,  o  pai veio em seu auxilio. Tirou um pente do
bolso do palet e, em vez de lhe  entregar, passou-o ele mesmo pelos
cachos sedosos. Em menos de um minuto ela  estava apresentvel. O sangue
nos cabelos havia secado quela altura e ele fmgiu no  v-lo.
  - Ela no precisa da fita. - Foi tudo o que disse  mulher, enquanto
Gabriella  o olhava, agradecida.
  Com o terno escuro, a camisa branca e a gravata vermelha e azul,
estava mais elegante do que nunca. A me vestia um tailleur de l cinza,
com uma  pele em torno do pescoo, um chapu preto pequeno e gracioso
com vu, e luvas de pelica brancas, que, como sempre, pareciam
imaculadas. Usava lindos sapatos de  camura pretos e levava uma bolsa
de mo tambm preta de couro de crocodilo.  Parecia uma modelo de
revista, Gabriella sabia, embora, como de costume, parecesse to
zangada. Mas daquela vez Eloise decidiu no discutir com John por causa
da fita.  Simplesmente no valia a pena.
  Estavam quase atrasados para a igreja, mas conseguiram chegar em cima
da hora,  de txi, e sentaram-se em um dos bancos, com Gabriella no
meio. A menina soube  imediatamente o que aquilo signilicava. Todas as
vezes que no gostava do modo como a filha se  comportava, ou se ela se
movia um milimetro que fosse no banco, a me apertava- lhe a perna ou o
brao at deixar ali uma marca, ou a beliscava por baixo do  vestido.
  Gabriella sentou-se o mais imvel que pde, mal se mexendo nesse dia,
e  respirando com dificuldade, devido  dor que sentia nas costelas.
Passou a maior  parte  da missa atordoada, em agonia. A me manteve os
olhos fechados por quase todo o  tempo, parecendo rezar em absoluta
concentrao. Vez ou outra, abria-os para  olhar Gabriella.
  Mas hoje, felizmente, todas as vezes que o fez, Gabriella estava
sentada  quieta, prendendo a respirao para que as costelas no doessem
ainda mais.
  Depois, ela seguiu-os, deixando a igreja, diante da qual se juntaram
s  pessoas que conheciam e conversaram com os amigos. Muita gente
comentou sobre a  beleza  de Gabriella, mas a me ignorava tanto os
elogios quanto a menina. E todas as vezes  em que era apresentada a
algum novo conhecido ou encontrava algum que j  conhecia, Gabriella
tinha de apertar a mo da pessoa e fazer uma mesura. No era uma
faanha pequena, haja vista os danos da noite anterior, mas, sabendo que
no  tinha escolha, ela a cumpria.
  - Que criana perfeita! - comentou algum com John, que concordou,
enquanto  Eloise pareceu no ouvir o que disseram. Perfeio era
exatamente o que esperava  dela. E Gabriella fazia o mximo para
corresponder, embora hoje no estivesse sendo  nada fcil.
  Parecia que horas haviam se passado antes de eles se afastarem da
igreja e se  dirigirem ao Plaza para almoar. Havia msica e elegantes
bandejas de prata com  pequenos sanduches. O pai pediu para ela um
chocolate quente, que chegou acompanhado de  um pote inteiro de creme
chantilly. Os olhos de Gabriella arregalaram-se,  deliciados, mas Eloise
pegou o pote e o colocou do outro lado da mesa.
  - Voc no precisa disso, Gabriella. No  bom para a sade. No h no
mundo  coisa mais feia do que criana gorda. - Ela no corria o menor
perigo de  engordar,  como os trs sabiam. Parecia mais uma das crianas
famintas da Hungria de que tanto  ouvia falar quando no terminava o
jantar. Entretanto, no pde provar o  chantilly, e ela sabia melhor do
que ningum que era porque no merecia. Tinha feito a me  perder o
controle na noite anterior. Em sua cabea no havia dvidas de que os
danos da noite passada eram provavelmente culpa sua, por menos que
entendesse o  motivo.
  Ficaram no Plaza at a tardinha, cumprimentando os amigos e observando
os  estranhos. Era um lugar divertido para se ir almoar, e, em
circunstncias  normais, Gabriella teria se divertido, mas hoje no
pde. Sentia muita dor e ficou aliviada quando  por fim se prepararam
para ir para casa. O pai tinha ido buscar um txi, e  Gabriella ficou um
pouco para trs, andando com lentido e observando a me, que
atravessava o saguo com elegncia. As cabeas voltavam-se para ela
quando  passava, como sempre acontecia, e Gabriella olhava para ela com
espanto e dio mudo. Se era to  bonita, por que no podia ser tambm
bondosa? Era um daqueles mistrios para os  quais Gabriella sabia no
haver resposta. E quando saa do hotel, pensando a respeito,  tropeou
num breve instante e, acidentalmente, pisou de leve na parte da frente
do sapato de camura preto da me. Gabriella estremeceu por dentro ao
faz-lo, mas a reao da me foi ainda mais rpida. Ela parou
abruptamente onde estava,  olhou para Gabriella com desprezo e apontou
para o sapato, ultrajada.
  - Limpe - disse, rosnando num tom abafado que parecia a voz do
demnio, ao  menos para Gabriella.
   A me apontava para o sapato com tal arrogncia, que deixaria chocado
qualquer um que a ouvisse, mas, como era de costume, ningum parecia
notar.
  - Desculpe, mame. - Seus olhos eram lagoas profundas de tristeza e
desolao.
  - D um jeito nisso - disse a me, com rispidez, mas Gabriella no
tinha nada  com que limpar a camura preta,  exceo dos dedos, e
comeou a esfreg-los  freneticamente a fim de eliminar a mancha
ofensiva de poeira.
  Pensou em usar o vestido, mas isso faria a me ficar ainda mais
irada... ou o  suter... Tinha de haver algo, mas no havia. No tinha
um nico leno   disposio, ou mesmo um pedao de pano. Ento
Gabriella fez o melhor que pde com os  dedinhos geis. Num exame mais
acurado, parecia que a mancha sumira, mas Eloise  recusou-se a acreditar
quando Gabriella disse isso. Ela fez com que a menina esfregasse
repetidamente o sapato, ajoelhada na calada, diante do hotel.
  - Nunca mais faa isso. Est me entendendo? - disse rispidamente para
Gabriella, enquanto a menina agradecia em orao silenciosa por ter
conseguido  remover a mancha. Se no tivesse conseguido, com certeza
haveria outra surra. Ou talvez ainda  houvesse. Faltava ainda muito para
o dia acabar.
  Tomaram um txi de volta para casa, e a dor intensa de Gabriella
piorava a  cada momento. Ela estava branca como uma folha de papel, e as
mozinhas tremiam  no momento em que as cruzou em silncio, esperando
que a me no as visse at chegar em  casa. No entanto, por alguma
razo, Eloise estava bem-humorada, para variar, e,  embora no fosse
gentil com a filha, considerando-se a cena da noite anterior, tratava  o
marido com surpreendente civilidade. No pediu desculpas por nada. Nunca
o  fazia. Para ela, no precisava fazer isso. Em sua cabea, a briga da
noite passada  tinha sido culpa exclusiva dele e nada por que ela
precisasse desculpar-se ou  justificar-se.
  Mandou Gabriella para o quarto assim que puseram os ps dentro de
casa.  Detestava encontr-la andando pela casa sem nenhuma razo
aparente. Preferia-a  confinada a um espao pequeno, sentada numa
cadeira em seu quarto, mantendo-se longe de  problemas. E era exatamente
isso o que a menina pretendia fazer. No queria provoc-la ainda mais.
Ento, foi para o quarto e l ficou. No tinha nada para fazer, mas
tambm sentia tanta dor que, de qualquer maneira, no poderia ter feito
coisa  alguma, caso tivessem lhe pedido.
  Sentada no quarto, entretanto, no podia deixar de pensar em Meredith,
a  boneca que fora destruda na noite anterior. Sentia profundamente a
sua falta. Meredith tinha sido sua nica amiga, sua confidente, sua alma
gmea. Agora, no tinha ninguem. Ainda pensava nela quando ouviu risos
no corredor, do lado de fora do  quarto, e fcou surpresa ao se dar
conta de que estava ouvindo as vozes dos  pais.
  A me raramente ria de alguma coisa, mas nesse instante em que
Gabriella a  ouviu, parecia quase a risada de uma menina. As vozes
acabaram desaparecendo, e  Gabriella ouviu a porta do quarto deles bater
com fora. Ela no tinha idia do que faziam  l dentro e se perguntou
se no estariam brigando. Mas no parecia que fosse  isso. Pareciam
felizes, rindo. Durante muito tempo, Gabriella ficou ali sentada,
esperando. Uma hora teriam que voltar, pelo menos para lhe dar comida.
  Mas quando a tarde chegou ao fm, ainda no tinham aparecido, e ela
sabia que  no havia nada que pudesse fazer. No podia bater  porta
deles ou cham-los.  Nem  mesmo podia pedir que lhe explicassem por que
a estavam ignorando ou por que a tinham  deixado  sua prpria merc,
esquecendo-se de lhe dar o jantar.
  Acabaram no indo v-la naquela noite. Tinham estabelecido uma espcie
de paz  temporria e a estavam consumando alegremente na privacidade do
quarto. Eloise o  perdoara pela noite anterior, o que era raro, e John
ficou to surpreso com isso, e ela  estava linda de tal maneira naquele
dia, que se sentiu atrado por ela. Isso,  somado ao fato de que bebera
bastante durante o almoo no Plaza, ajudou a enternec-lo  para uma
mulher que em geral detestava. Por algum motivo, ambos estavam
extraordinariamente bem-humorados. Mas nem uma pequena parte desses
sentimentos afetuosos recm- descobertos estendia-se  filha. John sabia
que essa paz era temporria, assim  como Eloise,  mas de qualquer
maneira era agradvel, independente da durao que tivesse. E a  mulher
decidiu no desperdiar nem um minuto do tempo que desfrutavam na cama
dando-se ao trabalho de ir alimentar a filha.
  Gabriella sabia que podia ir l embaixo. Ainda havia sobras da noite
passada,  mas no fazia idia do que podia lhe acontecer se tocasse na
comida. Era melhor  ficar ali no quarto e esperar. No podiam demorar
tanto assim. Afinal, estavam apenas  conversando com a porta fechada.
Mas quando viu dar sete horas, oito, por fim  nove, e ainda dez, ficou
claro que haviam se esquecido dela. Foi ento para a cama,  agradecida
por nada particularmente desagradvel ter-lhe acontecido no dia que
terminava.
  No entanto, ainda poderia acontecer, como na noite anterior, caso o
pai  irritasse a me, ou a abandonasse, saindo sozinho, como fazia com
freqncia,  independente de ela merecer ou no. Tudo era possvel, e
Gabriella teria de pagar o preo por  todas as fraquezas e falhas dele.
Dessa vez, porm, nada aconteceu. Ele no foi a lugar algum, os
pombinhos permaneceram no quarto, e Gabriella finalmente  dormiu, sem
jantar.

Captulo 4

  Aos nove anos, tendo sobrevivido ao comportamento inconcebvel dos
pais por  mais dois, Gabriella encontrara refgio num mundo onde
ocasionalmente podia  fugir deles. Escrevia poemas, histrias e cartas a
amigos imaginrios. Havia comeado a criar  um mundo onde, pelo menos
por uma ou duas horas, os pais e as torturas por eles infligidas
pareciam desaparecer. Ela escrevia sobre pessoas felizes vivendo em
lugares bonitos, onde coisas maravilhosas aconteciam. Jamais sobre sua
famlia  ou as coisas que a me ainda fazia com ela sempre que tinha
vontade. Escrever era  sua nica fuga, o nico meio de sobrevivncia.
Era uma trgua num mundo cruel,  embora aparentemente confortvel.
Gabriella sabia melhor do que ningum que nem o lugar  onde morava nem o
tamanho da conta bancria do pai ou a distino das famlias  de seus
pais protegiam-na do tipo de realidade que constitua o pesadelo de
outras  pessoas. A elegncia da me, as jias que usava e as roupas
bonitas penduradas  no seu prprio closet nada significavam para
Gabriella. Ela conhecia o sentido da  vida melhor do que a maioria das
pessoas, e tambm as amargas contradies da  sua prpria vida. Muito
cedo Gabriella compreendera o que era importante e o que no era. O amor
representava tudo para ela. Sonhava com ele e, sobre ele,  pensava e
escrevia. O amor era o que lhe havia escapado completamente na vida.
  As pessoas ainda faziam comentrios sobre como era bonita,
bem-comportada e  impecvel, como nunca era malcriada, respondia aos
pais ou os desafiava. Assim  como  os professores, os amigos dos pais
comentavam sobre o cabelo adorvel, os imensos  olhos azuis e o pouco
que ela falava. Suas notas eram excelentes e, embora os  professores
lamentassem o fato de Gabriella expressar-se pouco durante as aulas, e
s  responder quando forada, estava mais adiantada do que a maioria das
crianas da  sua idade.
  Lia constantemente, e cedo adquiriu o gosto pela leitura. Assim como a
escrita  precoce, os livros que lia transportavam-na para outro mundo, a
anos-luz do seu.  Adorava ler e, agora, quando a me queria
atorment-la, jogava os livros fora e tomava  dela os lpis e o papel.
Era sempre rpida em descobrir o que mais importava   menina e, ento,
em obstruir todos os seus caminhos de fuga. Mas, quando isso  acontecia,
Gabriella perdia-se em pensamentos, sonhando. Pelo menos no que era  de
fato mais importante, no podiam mais atingi-la, embora no se dessem
conta disso. E, por  motivos que ela mesma desconhecia, Gabriella
instintivamente sabia agora que era uma sobrevivente.
  Eloise freqentemente fazia Gabriella ajudar na cozinha, limpando,
lavando os  pratos ou lustrando a prataria. Reclamava que a menina ainda
era  insuportavelmente mimada e que era sua obrigao fazer-se til em
algum lugar da casa. Gabriella  lavava a prpria roupa, trocava a roupa
de cama, limpava o quarto, alm de tomar  banho e vestir-se sozinha. A
ela no era permitido que ficasse ociosa por um momento  sequer, ao
contrrio das outras crianas de sua idade, que tinham permisso para
brincar no quintal ou em seus quartos, e ganhavam livros e brinquedos
para se distrair.  Sua vida ainda era uma luta constante pela
sobrevivncia e, conforme crescia, o preo que tinha de pagar aumentava,
e as regras do jogo mudavam diariamente. Sua  habilidade estava em
decifrar as ameaas da me, determinar seu humor do momento  e
empenhar-se sempre para no aborrec-la, fazendo todo o possvel para
no se expor  sua  fria.
  As surras ainda eram freqentes, mas agora Gabriella passava mais
tempo na  escola, o que era uma bno, pois a deixava longe de casa
mais horas todos os  dias.  E, inevitavelmente,  medida que crescia, os
pecados que era acusada de cometer  tornavam-se mais srios. Esquecer de
fazer a lio de casa, perder peas de  roupa, quebrar um prato quando
lavava a loua na cozinha. Gabriella sabia que era melhor no  inventar
desculpas para seus crimes. Simplesmente se preparava para o que
viesse. No colgio, era perita em esconder os hematomas das professoras
e das poucas  crianas com quem brincava. Vivia isolada na maior parte
do tempo. No poderia  mesmo ver as outras crianas depois das aulas; a
me jamais permitiria que alguma delas a  visitasse. Para Eloise, j era
ruim o bastante ter Gabriella em seu caminho,  destruindo a casa. No
tinha a menor inteno de convidar outras crianas para ajudar a  menina
na faanha. Agentar uma j era bastante inconveniente. Outra, seria uma
tortura inconcebvel para ela.
  Durante os trs anos em que freqentava a escola, somente duas vezes
os  professores observaram algo estranho com Gabriella. Uma vez, quando
pulava corda  no recreio, o uniforme descobriu a coxa da menina,
revelando os hematomas estarrecedores na  perna. Quando perguntada sobre
o que acontecera, ela disse que cara da  bicicleta no jardim de casa e,
depois de se compadecerem em relao  gravidade do  hematoma e  dor
que ela devia ter sentido com a queda, todos esqueceram o  assunto. A
segunda vez foi no comeo do ano vigente. Gabriella tinha os braos
violentamente  machucados e um dos pulsos torcido. O rosto, como quase
sempre, estava intocado,  e os olhos mostravam-se inocentes, enquanto
ela explicava uma queda horrvel do cavalo  durante o fim de semana. A
menina foi dispensada de fazer o dever de casa at  que o pulso
melhorasse, mas no podia explicar isso  me, ao chegar em casa 
noite; ento,  fez os exerccios assim mesmo, e pela manh os apresentou
no colgio.
  O pai continuava no se envolvendo, como sempre. Nos ltimos dois
anos,  parecia passar a maior parte do tempo fora. Viajava a servio do
banco, e  Gabriella sabia que alguma coisa desafortunada havia
acontecido entre seus pais, embora nunca  tivesse ficado claro para ela
quando isso acontecera ou o que era. Nos ltimos seis  meses,
entretanto, eles dormiam em quartos separados, e a me parecia mais
zangada do que nunca quando o pai estava em casa.
  Ultimamente Eloise vinha saindo com freqncia  noite, sozinha.
Vestia-se e  deixava Gabriella por sua prpria conta quando partia com
os amigos. A menina  no  tinha certeza se o pai sabia daquilo, j que
passava tanto tempo fora e a me ficava  em casa sempre que ele estava
na cidade. Porm estava claro que a atmosfera  entre os dois havia se
deteriorado. Eloise fazia comentrios rudes sobre ele e no  parecia
mais hesitar em insult-lo, estivesse Gabriella presente ou no. A
maiora dos comentrios era sobre outras mulheres, a quem chamava de
piranhas ou vagabundas.  Dizia que ele estava "de caso", uma expresso
que Gabriella ouvia bastante, mas que no entendia bem o que significava
e jamais ousou perguntar. O pai nunca  respondia  me quando ela falava
essas coisas, mas andava bebendo muito mais. E, quando respondia,
acabava saindo de casa, e Eloise ia descontar na filha.
  Gabriella ainda dormia na parte inferior da cama; no entanto, era mais
por  hbito do que por algum xito que tivesse obtido em convencer a me
de que no  estava ali. Eloise sempre sabia onde encontr-la. Gabriella
nem perdia tempo em se  esconder agora. Simplesmente enfrentava o que
lhe era reservado, tentando  encarar tudo com coragem. Sabia que sua
nica misso na vida era sobreviver.
  Tambm sabia que, de alguma maneira, ela devia ter causado a frieza
que havia  entre os dois e, embora a me nunca mencionasse seu nome
quando brigava com o  pai, sabia que, de um jeito ou de outro, era
culpada por tudo o que se passava entre  eles. Com freqncia a me
dizia que todos os seus problemas se deviam a  Gabriella, e esta agora
aceitava isso, alm das surras, como sua sina.
  Por ocasio do Natal, era como se o pai j no morasse mais l. Era
raro que  viesse para casa, e quando vinha, Eloise era tomada de uma
fria incontrolvel.  Parecia, se  que isso era possvel, mais furiosa
do que nunca. Havia agora um nome que  sempre jogava na cara dele.
Gritava com John a respeito de "uma vadia" ou da "piranha com quem voc
est tendo um caso". O nome era Barbara, Gabriella  sabia, mas no fazia
idia de quem era a mulher. No se lembrava de ter  conhecido nenhuma
amiga deles com aquele nome. No entendia o que estava se passando, mas
o pai  estava se tornando ainda mais distante e parecia no querer saber
de mais nada  que dissesse respeito a Eloise. Ele mal falava com a
filha, e na maior parte do  tempo que passava em casa, estava bbado.
At Gabriella percebia, e ele j no  se esforava para esconder seu
estado.
  Na vspera do Natal Eloise no saiu do quarto. John tinha sado no dia
 anterior e s voltou bem tarde aquela noite. Nesse ano no houve
rvore, nem  luzinhas, nem enfeites. No havia presentes para Gabriella
ou para nenhum dos dois. A nica  ceia de Natal para Gabriella foi o
sanduche de presunto que ela mesma fez.  Pensou em preparar alguma
coisa para a me, mas teve medo de bater  porta ou lembrar   me sua
presena. Era mais sensato ficar sozinha, fora do seu caminho. Sabia o
quanto ela estava furiosa porque o pai no se achava presente,
principalmente num dia  como aquele. Gabriella estava com nove anos
ento e era mais fcil entender o  que tinha acontecido, embora os
motivos do dio mtuo dos pais no estivessem  inteiramente claros.
Tinha alguma coisa a ver com a tal Barbara e, com certeza,  com ela
prpria. Sempre tinha, segundo a me. Gabriella sabia disso muito bem.
  Quando ele chegou tarde na noite de Natal, a briga que tiveram no se
limitou  ao quarto do casal. Perseguiram-se pela casa, gritando, jogando
coisas um no  outro e derrubando objetos pelo cho. O pai dizia que j
no agentava mais, e a me,  que mataria ambos. Ela lhe deu um tapa, e
ele bateu na mulher pela primeira vez.
  Instintivamente, Gabriella soube que, uma vez terminada a briga, era
ela quem  sentiria o impacto daquele golpe. Pela primeira vez em um
longo tempo, a menina  desejou ter um esconderijo seguro, um lugar onde
encontrasse proteo ou pessoas a quem  pudesse recorrer. Entretanto,
no havia ningum, e tudo o que podia fazer era  esperar e ver o que
aconteceria. Havia anos que sabia no existirem defensores ou
salvadores em sua precria vida.
  O pai acabou saindo, e ento a me a encontrou. Tudo foi muito
previsvel  quando ela caiu sobre a filha como um enorme e furioso
pssaro preto. Seus  cabelos estavam soltos e esvoaavam atrs dela. Os
punhos eram vigorosos e implacveis.  Gabriella sentiu uma dor aguda no
ouvido direito logo no primeiro golpe, uma  pancada na cabea e uma
srie de outras no peito, e dessa vez a me apanhou um castial e
golpeou  com ele uma das pernas da menina. Gabriella tinha certeza de
que ela acabaria por acert-la no rosto ou na cabea com a pea, mas,
por um milagre, isso no  aconteceu. E, passado o choque dos primeiros
minutos, no teve mais conscincia  de coisa alguma. Eloise estava
dominada por uma fria maior do que qualquer outra que j  houvesse
experimentado na vida, e Gabriella soube que o que fizesse nesse
momento, o que dissesse, poderia custar-lhe a vida.
  A menina nada fez para evitar os golpes que choveram sobre ela naquela
noite.  Apenas esperou, como sempre, que a tempestade se acalmasse.
Quando esta  finalmente cedeu, e a me a deixou cada no cho do quarto,
Gabriella no pde nem mesmo  engatinhar at a cama. Ficou ali deitada,
oscilando entre a conscincia e as  trevas, surpresa ao descobrir que
nada doa. No sentia nada dessa vez, e durante toda a  noite, viu o que
pareciam halos de luz ao seu redor. Uma vez pensou ter ouvido  vozes,
mas no conseguiu entender o que diziam. Era manh quando percebeu que
algum de  verdade falava com ela. A voz era familiar, mas, assim como
as da noite  anterior, no conseguia distinguir o que dizia. Nem chegou
a se dar conta de que era seu  pai. No viu suas lgrimas nem ouviu o
arquejo de horror que ele deixou escapar  quando viu o que Eloise fizera
a ela.
   Gabriella estava deitada em uma poa de sangue, o cabelo emplastrado
grudado   cabea, os olhos embaciados e desfocados uma ferida
apavorante na parte interna de uma das pernas. Ele quis chamar uma
ambulncia, mas teve medo. Em vez disso, sem nem mesmo esperar para
falar com  Eloise, envolveu a filha num cobertor e saiu em disparada
para chamar um txi.
  Quando chegou ao hospital, no tinha sequer certeza de que ela ainda
estava  respirando, mas correu e a deitou numa maca vazia, pedindo ajuda
entre lgrimas  e explicando que ela havia cado da escada. Era uma
histria quase admissvel, levando-se em conta a extenso dos
ferimentos, e ningum questionou o que ele dizia. Colocaram uma mscara
de  oxignio sobre o rosto plido da menina e apressaram-se em lev-la,
rodeada de  enfermeiros com expresses preocupadas, enquanto John os
observava sem  acreditar.
  Ele ficou sentado l por vrias horas, parecendo desorientado, at que
s  quatro da tarde vieram assegur-lo de que a filha de fato
sobreviveria. Sofrera  um traumatismo craniano, alm de ter trs
costelas quebradas, um tmpano rompido e uma ferida  sria na perna. Mas
os mdicos haviam suturado as feridas, enfaixado as costelas  e tinham
certeza de que, depois de uns dias no hospital, ela estaria recuperada
dos ferimentos mais graves. Perguntaram-lhe quanto tempo ele achava que
havia  passado desde a queda da filha at o momento em que a tinha
encontrado, e ele disse que  acreditava que vrias horas houvessem
transcorrido, embora admitisse no ter  certeza de quando ela "cara".
John no contou a eles que no estava em casa.
  - Ela vai ficar bem - garantiu-lhe um jovem mdico interno, e as
enfermeiras  prometeram cuidar muito bem dela.
  John deu uma espiada na filha, mas ela estava dormindo e, sem ir v-la
outra vez, foi embora. Sentia-se atordoado no txi voltando para  casa,
incerto sobre o que dizer. No fazia a menor idia de como deter Eloise,
como pr um basta naquilo, como fazer qualquer coisa, a no ser fugir.
Ao menos  Gabriella estava em boas mos agora. Parecia mesmo um milagre
que tivesse  sobrevivido  surra da noite anterior.
  Entrou na casa numa ansiedade esmagadora e ficou aliviado ao
descobrir, quando  subiu, que Eloise no se encontrava l. No tinha
idia de onde ela pudesse  estar, mas j no ligava. Foi  biblioteca e
serviu-se de uma bebida forte e, ento,  sentou-se para esperar, sem
saber ao certo o que diria para a mulher quando a  visse afinal. O que
poderia dizer a ela? Eloise no era humana. Era um animal, um ser  de
outra galxia, uma mquina que destrua tudo o que tocava. Perguntava-se
agora como podia t-la amado ou tido a iluso de que ela poderia ser uma
esposa para  ele e uma me para a filha. Agora no queria nada alm de
afastar-se dela o mais que pudesse. Queria estar com Barbara naquela
noite, mas no ousou. Sabia que era  preciso esperar por Eloise, para
confront-la, mesmo que fosse apenas por esta  ltima vez. Tinha de
fazer isso agora.
  Ela chegou em casa pouco depois da meia-noite, num vestido
azul-escuro, e, ao  olhar para ela, tudo o que pde pensar  que se
parecia com uma rainha malvada.  A  Rainha das Trevas. E, vendo o estado
em que ele se encontrava, escarrapachado no sof  da biblioteca, Eloise
olhou-o com absoluto desprezo.
  - Quanta gentileza em vir fazer uma visita, John - disse ela, com um
desprezo  gelado na voz, que no lhe escapou, mesmo estando bbado. -
Voc est muito bem. A que devo essa honra? Barbara est viajando? Ou
est atendendo a um outro  cliente?
  Entrou lentamente no aposento, balanando uma bolsinha de contas na
mo.
  Ele estava ciente da vontade enlouquecedora de jogar a bebida em sua
cara au  de bater nela, mas se conteve. Sabia que, independentemente do
que falasse ou  fizesse com ela, desumana como era, jamais poderia
machuc-la. Ela estava fora de seu  alcance, em todos os sentidos.
  - Sabe onde nossa filha est esta noite, Eloise? - Ele atropelava as
palavras,  mas agora sabia exatamente o que queria dizer. Enfim, tudo
ficara claro como  cristal para ele, depois de tantos anos. S sentia
muito por ter levado todo esse tempo  para tomar uma atitude. Mas
Barbara finalmente lhe dera coragem. E o fato de ter encontrado
Gabriella naquele estado s reforara sua resoluo.
  - Tenho certeza de que voc vai me dizer onde ela est, John. Deixou-a
em  algum lugar? Ou quem sabe a deu para algum? Parecia mais divertida
do que  preocupada,
  e agora era fcil ver o monstro que era Eloise. A nica coisa que ele
no  conseguia entender era como se deixara enganar por tanto tempo.
Tinha permitido  isso,  querendo acreditar que ela era outra pessoa, mas
essa era outra histria, algo que ele se  sentia incapaz de enfrentar,
mesmo agora.
  - Gostaria que fosse isso, no ? Que eu a tivesse dado. Por que  que
 simplesmente no a deixamos num orfanato quando ela nasceu? Ou a
abandonamos nos  degraus  de uma igreja qualquer? Voc teria adorado,
no  mesmo? E teria sido to melhor para ela. - Ele lutava  contra as
lgrimas enquanto falava, lembrando-se da vso do corpinho de
Gabriella prostrado sobre a maca. Sabia que era uma cena da qual jamais
se esqueceria.
  - Me poupe de suas teorias sentimentais, John. Ela est na casa de
Barbara?  Voc est pensando em seqestr-la? Se  isso, sabe que vou
ter de chamar a  polcia. - Deixou a bolsa sobre a mesa e sentou-se com
elegncia numa cadeira diante  dele.
  Ainda era uma mulher bonita, mas completamente desprezvel. No tinha
alma. Era um iceberg, e cruel alm de qualquer medida. A mulher com quem
estava  agora era bem menos bonita, mas parecia gostar muito mais dele.
Seus antepassados eram  muito menos aristocrticos, mas ela o amava e
tinha corao. E tudo que ele  queria agora era esquecer Eloise e a vida
que havia levado ao seu lado, e afastar-se dela o  mais que pudesse.
Havia hesitado durante um ano por causa de Gabriella, mas, de  qualquer
forma, no podia ajudla agora, no tinha mais como deter esse monstro.
Tudo o  que podia fazer, estava certo, era salvar a si mesmo.
  - Gabriella est no hospital - anunciou ele, ameaador. Ela estava
quase  inconsciente quando a encontrei hoje de manh. - S de olhar para
Eloise, ele  tremia de dio. Mesmo assim, alguma coisa nele ainda a
temia. Sabia do que ela era capaz e  temia perder o controle e mat-la.
A nica coisa que ela merecia era ser  destruda.
  - Que sorte que voc veio para casa ento, no  mesmo? Que bno
para ela! -  replicou Eloise, com frieza.
  - Ela podia ter morrido se eu no tivesse chegado. Teve um traumatismo
 craniano, costelas partidas... um tmpano rompido... - Mas era bvio,
pela cara  da mulher, que ela no ligava. Aquilo no tinha a menor
importncia para ela. Eloise sentia  tudo, menos culpa pelo que fizera 
filha.
  - Est esperando que eu chore? Ela teve o que merecia! Ao acender o
cigarro e  fit-lo, ela aparentava um controle absoluto e uma
indiferena completa.
  - Voc  louca! - murmurou John, rouco, passando a mo nervosamente
pelos  cabelos. Estava sendo mais difcil do que ele imaginara. Com sua
calma inabalvel e crueldade sem culpa, ela era uma terrvel  oponente.
E muito mais forte do que ele. H muito tempo que John sabia disso.
  - Eu no sou louca, John. Mas voc est parecendo. J se olhou no
espelho?  Parece um doido varrido. - Seus olhos apenas riam dele, que,
de repente, sentiu  vontade de chorar.
  - Voc podia ter matado Gabriella. - Os olhos dele estavam turvos
enquanto  falava, a voz rouca devido s prprias emoes.
  - Mas no matei, matei? Talvez fosse o que eu devesse ter feito. A
maior parte dos nossos problemas foram causados por  ela. Se eu no
gostasse tanto de voc, no ficaria to brava com ela. Nada disso
estaria acontecendo se ela no tivesse surgido entre ns, se voc no
tivesse ficado to enfeitiado  por ela.
  Observando-a, ficou claro para ele que a mulher acreditava de fato
naquilo,  que, em alguma parte deturpada de sua mente, ela se convencera
de que a culpa  era de Gabriella e que a filha merecia tudo o que tinham
feito com ela. Seria  impossvel faz-la ver a insanidade do que dizia,
e agora ele sabia disso.
  - Ela no tem nada a ver com o que aconteceu entre a gente, Eloise.
Voc  um  monstro. O seu cime  insano, e voc odeia aquela criana.
Ponha a culpa em  mim, pelo amor de Deus, e no nela. Odeie a mim, se
for preciso, porque decepcionei voc,  porque fui infiel, porque no sou
forte o suficiente para dar a voc o que  precisa... mas por favor...
por favor... - Comeou a chorar, implorando a ela que ouvisse a  verdade
daquelas palavras. - No a culpe.
  - Ento no v o que ela fez com a gente? Ela virou a sua cabea
completamente. Voc me amava antes de ela nascer. Ns nos amvamos...
agora olhe  para a gente... - Pela primeira vez em anos havia lgrimas
em seus olhos ao olhar para ele. -  Foi ela quem fez isso... - Culpava
Gabriella at pelo fato de ele estar  apaixonado por outra mulher. Para
Eloise, a menina era responsvel por tudo.
  - voc fez isso - acusou-a John, indiferente s lgrimas da mulher. -
Eu  deixei de amar voc quando percebi o quanto a odiava, quando vi como
a  espancava... e  ah, meu Deus, um dia ela vai nos odiar pelo que
fizemos a ela.
  - Mas  merecido. - Eloise retornou  atitude anterior, convencida da
sabedoria de suas palavras. - No me importo com o que fiz a ela. Essa
criana  me custou  tudo... o casamento e nosso amor...
  - Voc a odiou desde o dia em que nasceu. Como  que pde?
  - Naquela poca eu j podia ver o que estava por vir.
  - Voc tem de parar, Eloise, antes que a mate - implorou ele. - Voc
precisa... Vai acabar passando o resto da vida na cadeia.
  - Ela no vale a pena - disse, resoluta.
  Havia pensado nisso antes e tomava cuidado de nunca ir longe demais,
pelo seu prprio bem, no pelo  da menina. Mas, na noite passada,
perigosamente, chegara perto demais.
  Ele compreendia isso melhor do que ela. Tinha visto Gabriella no
hospital e ouvido o que os mdicos disseram. Felizmente, ningum o havia
acusado de surrar a menina. Teria sido inconcebvel para eles,
principalmente dadas suas boas maneiras, o nome respeitvel e o endereo
elegante. Fazer uma pergunta daquelas seria ofensivo e, mesmo que
suspeitassem, e ele esperava que isso no acontecesse, as pessoas no
ousariam  acus-lo de maus-tratos  filha.
  - No vou mat-la, John-assegurou-lhe Eloise, mas era uma promessa
vazia,  vinda de uma mulher sem alma. - Eu no  preciso. Ela sabe o que
espero dela. Sabe a diferena entre o certo e o errado.
  - O problema  que voc no sabe.
  - Eu estou cansada. - Com isso, ela se levantou. - E voc est me
aborrecendo.  Vai dormir aqui ou vai voltar para a sua piranhazinha? E
quando  que isso vai  acabar?
  Nunca, ele se prometeu. Nem num milho de anos. Jamais voltaria para
Eloise.  Mas sabia que precisava ficar ali agora, para acalm-la, at
que a filha retornasse. Por mais que a odiasse, devia isto a Gabriella.
No podia desistir do resto de  sua vida por ela, mas podia apaziguar as
coisas pelo menos at ela chegar em  casa.
  - Vou subir j-afirmou ele, calmamente, servindo-se de um ltimo copo.
  Estava grato por terem quartos separados. Ficaria com medo de dormir
no mesmo  quarto que Eloise agora, temendo que ela o matasse. Saber do
que a mulher era capaz apavorava-o. Havia alertado Barbara a respeito e
tentado avis-la sobre o quanto Eloise era  perigosa. Porm,
ingenuamente, Barbara insistia em dizer que no tinha medo. No  podia
imaginar o monstro que era Eloise. Ningum podia. Com exceo do marido
e da  filha, que sabiam bem demais.
  - Imagino que v dormir no seu quarto esta noite - disse ela, ao sair
do  aposento, e ele ficou olhando a cauda do vestido de noite
arrastando-se atrs  dela.
  Mas John no respondeu. Estava pensando outra vez em Gabriella e no
tinha  foras para dizer mais nada. Limitou-se a ficar observando
Eloise, que subia  lentamente as escadas.
  Naquela noite, quando Gabriella acordou no hospital, no fazia idia
de onde  estava. Tudo era branco e claro, e parecia muito simples. Havia
sombras no teto,  e  uma pequena claridade vinha de um canto do quarto.
Uma enfermeira de chapu engomado  olhava para ela e, to logo os olhos
da menina se abriram, a moa sorriu para  ela.
  Era uma viso incomum para Gabriella. Os olhos da enfermeira pareciam
bondosos.
  - Eu estou no cu? - perguntou Gabriella, suavemente, convencida, e
aliviada  com a idia, de que tinha morrido.
  - No, voc est no Hospital So Mateus, Gabriella. E est tudo bem.
Seu pai  foi para casa ainda h pouco, mas disse que amanh vem ver como
voc est.
  Ela queria perguntar se a me ficara brava por ela estar ali e se
precisava  voltar para casa. Se no melhorasse nunca, poderia ficar?
Havia mil perguntas em  sua cabea, mas tinha medo de fazer qualquer
coisa que no fosse assentir com a  cabea; e, quando fez isso, doeu.
Muito.
  - Tente no se mexer muito. - A enfermeira viu quando ela estremeceu.
Sabia  que o traumatismo causava uma forte dor de cabea  menina, e
ainda havia sangue  escorrendo do ouvido. Seu pai disse que voc caiu da
escada, e voc  uma garotinha de  sorte por ele t-la encontrado. Vamos
cuidar muito bem de voc enquanto estiver  aqui. - Apesar da dor,
Gabriella balanou a cabea novamente, agradecida, e fechou os  olhos.
  Ela chorou durante o sono depois disso, quando o turno mudara, e uma
enfermeira mais velha veio cuidar dela por algumas horas, verificando os
sinais  vitais e trocando o curativo na ferida da perna. A mulher olhou
demoradamente o ferimento e,  depois, tornou a fitar o rosto da menina.
Em sua cabea havia perguntas que, ela  sabia, no seriam respondidas,
perguntas que deveriam ter sido feitas, mas que ningum  teria ousado
fazer. Tinha visto ferimentos como aquele em crianas, mas estas em
geral eram pobres. E, de qualquer forma, depois iam para casa, como esta
tambm  iria. Porm, quase sempre voltavam. A enfermeira perguntou-se se
Gabriella  tambm voltaria. Talvez tivessem se assustado o suficiente
dessa vez e aquilo no fosse acontecer mais. Difcil dizer.
  Gabriella teve perodos intermitentes de sono at a manh e a maior
parte do  tempo durante os dias que se seguiram. O pai veio v-la duas
vezes e explicou para mdicos e enfermeiros que a me no podia vir
porque estava doente. Eles entenderam, compadeceram-se e
congratularam-no pela filha. Era to boazinha, to doce, to
bem-comportada.  Nunca causava  problemas, nunca pedia nada, e estava
sempre agradecida por qualquer coisa que Fizessem. Raramente falava
alguma coisa. Apenas ficava deitada,  observando, mas sorria sempre que
via o pai.
  Ele veio busc-la no dia de Ano-Novo e trouxe roupas para ela.
  Gabriella deixou o hospital com um casaco azul-marinho, um vestido de
l  cinza, meias brancas at os joelhos e sapatinhos vermelhos. Ele
esquecera de  trazer as  luvas e o chapu, e ela parecia muito pequena e
plida ao sair do hospital, depois de  ter agradecido a todos por terem
sido to bons com ela. Antes da porta do  elevador se fechar, ela sorriu
e acenou. Todos concordaram que era uma garotinha muito  boa e
lamentaram que no houvesse mais como ela. Chegara a dizer na noite
anterior que estava triste por ter de ir para casa.
  - Essa  boa! - exclamou uma das enfermeiras com um sorriso, enquanto
corria  para cuidar de uma criana com coqueluche e de outra com
queimaduras graves.  Gabriella tornara-se a queridinha da enfermaria
peditrica, e os funcionrios tambm  lamentavam que ela fosse embora.
Mas no tanto quanto ela prpria.  Odiava ter de deixar esse porto
seguro e retornar  sua vida no inferno.
  A me esperava por ela quando chegou em casa, a testa franzida de
maneira  sombria e os olhos cheios de acusao. No fora v-la no
hospital e dissera  repetidamente a John que todo aquele paparico era
desnecessrio, alm de uma clara afronta.  Ele no discutiu com a
mulher, mas qualquer um podia ver como Gabriella estava  plida ao ser
levada para casa pelo pai. E, por causa dos danos causados ao ouvido, a
menina ainda vacilava um pouco ao andar.
  - Ganhou todas as atenes que queria dos mdicos e enfermeiros se
fingindo de  doente? - perguntou Eloise, asperamente, quando John tinha
ido ao quarto da  menina guardar as suas coisas e arrumar a cama para
ela. O mdico avisara que ela  precisava descansar.
  - Desculpe, mame.
  -  bom mesmo que pea desculpas, menina mimada que s sabe reclamar -
disse  Eloise, fazendo meia-volta e desaparecendo. Gabriella jantou com
os pais naquela  noite e, previsivelmente, a refeio foi uma provao
desagradvel e silenciosa. Era claro que a me estava  furiosa com ela,
e o pai estava perdido num outro mundo. J havia bebido muito  quando se
sentaram para comer. Gabriella derramou um pouco de gua sobre a mesa, e
suas  mos tremiam enquanto ela enxugava rapidamente.
  - Suas maneiras  mesa no melhoraram nada nesta ltima semana. O que
eles  fizeram? Deram comida na sua boca? - perguntou Eloise, cruelmente,
e Gabriella  baixou os olhos, achando melhor no responder.
  A menina no disse uma nica palavra durante o jantar. E, assim que
terminou a  sobremesa, a me a mandou para o quarto. Gabriella podia
pressentir que uma briga se armava e estava aliviada por sair dali.
  Foi para a cama imediatamente e, no escuro, escutou os pais
discutirem. No  foi nenhuma surpresa, ento, quando tarde da noite
ouviu passos em seu quarto.  Tinha certeza de que era a me e
preparou-se para o que estava por vir. Desta vez, as  cobertas foram
retiradas lentamente e a menina contraiu todo o corpinho, apertando os
olhos com fora,  espera que o primeiro golpe a atingisse.  Entretanto,
aps um longo tempo, aquele ainda no tinha vindo. Podia sentir a
presena de algum em p ali do lado, mas no sentia o perfume da me;
no havia qualquer  barulho, e nada acontecia. Depois de esperar por um
momento interminvel, no  conseguiu mais suportar o suspense e abriu os
olhos.
  - Oi... Voc estava dormindo?... - Era o pai que estava ali,
sussurrando, e o  nico cheiro que sentia agora era o hlito de usque.
- Eu vim para dizer...  para  ver... se voc est bem. - Ela fez que sim
com a cabea, confusa. Ele nunca entrava  assim em seu quarto.
  - Onde est mame?
  - Dormindo. - Gabriella suspirou lentamente, aliviada pela notcia,
embora  ambos soubessem que no era preciso muito para acord-la. - Eu
s queria ver voc... - Sentou-se com cuidado na cama. - Eu sinto
muito... pelo hospital... e tudo o  mais... Os enfermeiros disseram que
voc foi muito corajosa... - Mas ele  conhecia melhor do que ningum a
coragem da filha, muito maior do que a dele.
  - Eles foram bons - murmurou ela, fitando o rosto do pai no escuro.
Podia v- lo claramente agora, com o luar que entrava pela janela.
  - Como est se sentindo?
  - Bem... Meu ouvido ainda est doendo... Mas est tudo bem... -A dor
de cabea  desaparecera havia dois dias, e as costelas ainda estavam
enfaixadas; e assim  ficariam pelas prximas duas semanas.
  - Cuide-se, Gabriella... Seja sempre corajosa, voc  muito forte. -
Ela  queria saber por que o pai estava dizendo aquelas coisas, o que
estava de fato  tentando dizer. E no podia deixar de se perguntar por
que ele a achava forte. No se  sentia assim. Na maior parte do tempo s
pensava em como era m.
  Ele queria dizer que a amava, mas no sabia o que falar. E mesmo ele
sabia  que, se tivesse a amado de verdade, no teria deixado a me
espanc-la at quase  a morte.
  Mas Gabriella no fazia idia do que se passava na cabea do pai, que
ficou  ali olhando para ela por mais alguns momentos, ento tornou a
ajeitar as cobertas em torno  dela e deixou o quarto, sem dizer mais
nada.
  Ele hesitou no vo da porta por uma frao de segundo, enquanto a
menina o  olhava, e ento a fechou o mais suavemente que pde. Nenhum
deles queria acordar  a me, e ele foi to silencioso, que Gabriella
sequer o ouviu se afastando na ponta dos  ps. Depois disso, ela se
escondeu novamente na cama e ainda estava dormindo, no dia seguinte,
quando a me escancarou a porta do quarto, gritando com ela.
  - Saia j da! - urrou a voz familiar, fazendo Gabriella saltar da
cama ainda  meio dormindo.
  Os movimentos bruscos trouxeram a dor de cabea de volta, repercutiram
nas  costelas e fizeram-na cambalear um pouco, por conta dos danos no
ouvido.
  - Voc sabia, sua putinha, no sabia? Ele lhe disse? Disse? - Ela
sacudia a  menina pelos braos, sem levar em considerao o lugar onde
esta havia passado a  ltima semana ou os ferimentos que a levaram para
l.
  - Sabia de qu? Eu no sei de nada, mame... - De repente, tinha
perdido a  prtica e, embora tentasse se conter, comeou a chorar. Pela
cara da me,  entendeu que algo terrvel acontecera, mas no podia nem
imaginar o que era. Pela primeira  vez, pelo menos que Gabriella pudesse
se lembrar, a me estava desgrenhada e  desvairada.
  - Sabe, sim... Ele lhe contou no hospital?  isso? E o que foi
exatamente que  ele disse? - Ela sacudia a menina com tanta violncia,
que Gabriella mal podia  responder.
  -Nada... ele no me disse nada... O que aconteceu com papai? - Talvez
estivesse ferido ou alguma coisa lhe acontecera. No conseguia imaginar,
mas a  me cuspiu  as palavras em sua cara antes que pudesse repetir a
pergunta.
  - Ele foi embora, e voc sabia.  culpa sua... Causou tanto problema
para ns  dois, que ele foi embora. Pensou que ele amasse voc, no foi?
Pois bem, no  amava. Abandonou voc, do mesmo modo que me abandonou.
Ele no quer mais nenhuma de  ns... sua putinha... Foi voc que fez
isso, sabia? Voc! Ele foi embora porque odeia voc, tanto quanto me
odeia. - Essas palavras fizeram-se acompanhar  de um tapa sonoro no
rosto de Gabriella. Ele foi embora por sua causa... e no  tem mais
ningum para proteger voc agora.
  E, enquanto a me caa sobre ela violentamente, Gabriella comeou a
compreender. O pai as abandonara. Por isso viera ao seu quarto na noite
passada.  Tinha vindo v-la pela ltima vez... tinha vindo dizer
adeus... e agora se fora... e tudo o  que lhe restava era isso. As
agresses que nunca acabavam, as surras a que se  resumia a sua vida. Na
noite anterior ele falara para ela ser corajosa... que ela era  forte.
Aquelas palavras eram tudo o que tinha agora e, ao lembrar-se delas, com
os punhos da me golpeando-a com mais violncia do que nunca, Gabriella
tentou ser valente e no chorar, mas no  conseguiu. Tudo o que lhe
restara era esse pesadelo. A me dizia que o pai a  odiava, mas ela
sabia que era mentira. Ou no?
  Ele nunca a protegera, ajudara ou defendera. E agora, quaisquer que
fossem suas razes, ele a havia abandonado. E tudo o que ela conseguia
sentir, subindo  garganta como blis, era o medo.

Captulo 5

O resto do ano, at que Gabriella completasse dez anos, foi um
caleidoscpio  de trevas, as imagens movendo-se e transformando-se, mas
conservando sempre o  mesmo tema, os horrores tendo sempre a mesma
intensidade, independente do quanto  variassem as cores.
  O pai sumiu de maneira efetiva, como se tivesse desaparecido da face
da Terra,  para nunca mais ser visto. No telefonava, no mandava uma
carta, no vinha v- la, nem explicar como ou por que aquilo tinha
acontecido, o que ele havia feito ou  por qu.
  E no dia em que a me recebeu a primeira comunicao do advogado de
John,  ficou to enfurecida que, como era de se prever, bateu na filha
at que esta  quase perdesse os sentidos. Foi s a sua prpria exausto
que por fim a deteve. Nos dias que se  seguiram, porm, Eloise no teve
nenhuma misericrdia de Gabriella. Culpoua por tudo, como vinha fazendo
desde o nascimento da menina, e lhe disse que o pai a  odiava tanto
quanto a ela, Eloise. Que j no precisava dela porque a mulher com
quem iria se casar tinha duas filhinhas que a haviam substitudo.
  - Elas no so como voc - berrava a me, cheia de veneno, toda vez
que  mencionava as meninas, o que fazia em todas as oportunidades. -
Elas so bonitas, boazinhas, bem-comportadas, e tudo o que voc  no .
E ele as ama - sussurrava com  crueldade. E um dia, quando Gabriella
ingenuamente tentou argumentar, defendendo  os sentimentos que atribua
ao pai, mas dos quais j no tinha tanta certeza, por conta de sua
desero, a me pegou uma escova e  sabo em p e lavou a boca da menina
at que a espuma lhe descesse pela garganta  e ela vomitasse, tanto por
causa do sabo quanto pelo gosto amargo de sua dor e de sua  perda.
Sabia que o pai a amara, dizia a si mesma, ela sabia... ou achava... ou,
talvez, apenas quisesse acreditar naquilo. At que, finalmente, no
sabia mais o que pensar.
  Gabriella passava a maior parte do tempo sozinha em casa, lendo ou
escrevendo  histrias. Escreveu algumas cartas ao pai, mas, como no
sabia para onde envi- las,  rasgou-as e jogou-as fora. Ele no deixara
endereo, e todas as vezes em que tentou procur-lo, quando a me no
estava em casa, no  conseguiu. No ousaria pedir  me. Sabia onde o
pai trabalhava quando foi  embora, mas, quando telefonou para l,
informaram-lhe que ele deixara o banco e se mudara para  Boston. Para
Gabriella, era o mesmo que tivesse se mudado para outra galxia. E,
quando no seu dcimo aniversrio ele no a procurou, soube que o perdera
para sempre.
  Ainda sentia ondas de pnico, s vezes, quando pensava nisso,
lembrando-se  daquela ltima noite em seu quarto, quando haviam
cochichado sob o luar. Havia  tanta  coisa que gostaria de ter-lhe
dito... talvez se tivesse... se tivesse dito o quanto o  amava, o pai
tivesse ficado e no a tivesse trocado pelas menininhas de que a  me
falava... as duas que eram to melhores do que ela e que agora tinham o
amor de  seu pai. Se tivesse se esforado mais, ou tirado notas melhores
na escola,  embora dificilmente pudesse ter se sado melhor... ou quem
sabe se no tivesse  precisado ir para o hospital de vez em quando... se
no tivesse feito a me  odiar tanto os dois, talvez, ento, ele tivesse
ficado... Ou talvez ele estivesse morto e  fosse tudo mentira da me.
Talvez tivesse sofrido um acidente, e ela no  soubesse. S de pensar
naquilo sentia dificuldade de respirar... E se nunca mais o visse?  E se
acabasse se esquecendo de como ele era? s vezes, ficava olhando
fotografias dele. Havia duas sobre o piano e vrias na biblioteca, mas
quando um dia a me viu que ela as olhava, tirou todas dos
porta-retratos e  rasgou-as em mil pedacinhos. Gabriella guardava uma
fotografia antiga dele em  seu quarto, tirada num vero em Easthampton,
quando ela estava com cinco anos, mas a me  descobriu aquela tambm e a
jogou fora.
  - Esquea o seu pai. Ele no se importa com voc. Por que perder seu
tempo  pensando nele? Ele agora no vai salv-la - dizia, rindo da
flha,  ridicularizando-a, vendo os olhos de Gabriella encherem-se de
lgrimas.
  A nica coisa que a atingia agora, com fora maior do que os golpes da
me,  era saber que jamais veria o pai novamente, como a me lhe
recordava a todo instante, e que ele nunca a amara. No  comeo foi
difcil acreditar, mas depois acabou admitindo que tnha de ser verdade.
O silncio dele s servia como confirmao. Mas, se ele a amava de fato,
Gabriella sabia que um dia teria notcias dele. Tudo o que podia fazer
era  esperar.
  Um ano depois da partida do pai, ela passou o Natal sozinha na casa da
Rua 69.  A me passou o dia com amigos e a noite com um homem da
Califrnia. Ele era  alto, moreno, atraente e no se parecia em nada com
o pai. Falou com ela uma ou duas  vezes, quando veio pegar a me para
jantar fora, mas, quando isso aconteceu,  Eloise deixou claro que no
era necessrio nem aconselhvel que conversasse com a filha  dela.
Gabriella era m, explicou para ele vagamente mais de uma vez, to m,
que ela relutava em lhe contar maiores detalhes. E ele logo compreendeu
que ser  amigo de Gabriella no era a melhor maneira de cair nas graas
daquela mulher.  Era mais sbio evitar a menina. Assim, depois de um
tempo, no lhe dirigia mais a  palavra.
  Havia um desfile constante de homens que vinham buscar Eloise para
sair. O da  Califrnia, porm, era o visitante mais assduo. Seu nome
era Frank. Franklin  Waterford. E tudo o que Gabriella sabia a respeito
dele  que era de San Francisco e estava  passando o inverno em Nova
York. No sabia exatamente por qu. Ele falava muito sobre a Califrnia
com a me, dizendo o quanto ela iria adorar quando fosse l.  E ento a
me comeou a falar em ir para Reno, passar seis semanas. Gabriella  no
fazia idia de onde era tal lugar, ou por que a me queria ir para l, e
eles  nunca explicavam nada a ela. Tudo o que sabia era o que escutava
quando passavam pela porta de seu  quarto, conversando animados, j de
sada, ou nas vezes em que os ouvia na  biblioteca tarde da noite,
bebendo, rindo e conversando. No podia deixar de se perguntar o  que
faria em relao  escola quando ela e a me fossem para Reno.
Entretanto,  no havia como perguntar a Eloise. Sabia que se perguntasse
qualquer coisa a me  ficaria furiosa.
  Gabriella ia levando a sua vida, esperando notcias e explicaes,
verificando  a correspondncia todos os dias ao chegar do colgio,
esperando encontrar uma  carta do pai que lhe dissesse onde ele estava.
Mas no chegava nunca e, quando a me a  viu revirando a correspondncia
um dia, o inevitvel aconteceu. No entanto,  ultimamente as surras eram
menos vigorosas e um pouco menos freqentes. Eloise andava  ocupada
demais com sua prpria vida para se preocupar com a "disciplina" de
Gabriella. Na maior parte do tempo, limitava-se a dizer  menina que ela
era um caso  perdido. O pai afinal se dera conta disso, no era mesmo?
E, quanto a ela, no  podiam esperar que desperdiasse a vida tentando
dar um jeito na filha. No valia o tempo que  se perdia. Ento, deixava
a menina sozinha, por conta prpria, e na maioria das  vezes Gabriella
tinha de preparar seu jantar, quando havia comida na casa, e era
freqente que no houvesse.
  Jeannie, a empregada, saa pontualmente s cinco horas da tarde e,
sempre que  achava que no seria descoberta, deixava alguma coisa para
Gabriella no fogo.  Mas, se demonstrava demasiada preocupao com a
menina, se a "mimava" ou falava muito  com ela, a criana pagava um
preo alto, ela sabia. Ento, fingia indiferena e se esforava para no
pensar no que acontecia com Gabriella depois que ia  embora. A menina
tinha os olhos mais tristes que j havia visto numa criana, e  doa-lhe
s de olhar para ela. Mas sabia melhor do que ningum que no havia nada
que  pudesse fazer para ajud-la. O pai desaparecera, deixando-a sozinha
para viver  sua sina com a me, e Eloise era um demnio. Mas, afinal de
contas, Gabriella era sua  filha. O que Jeannie podia fazer para
ajud-la, a no ser deixar um pouco de  sopa no fogo ou colocar uma
compressa de gua fria num machucado que a criana dizia  ter conseguido
no ptio da escola. Entretanto, at mesmo Jeannie sabia que os hematomas
obtidos  nas brincadeiras da escola no surgiam naqueles lugares do
corpo e naqueles tamanhos. Um dia, havia uma marca de mo nas costas da
menina, que parecia ter  sido desenhada por algum, e a empregada no
teve a menor dificuldade em  descobrir como fora parar ali. s vezes,
chegava a torcer para que a garotinha fugisse;  estaria mais segura
sozinha nas ruas do que com a me. Tudo o que tinha ali eram  roupas
quentes e um teto, mas no tinha calor, amor, mal tinha comida
suficiente para  sobreviver, e no havia ningum no mundo para tomar
conta dela. Mas Jeannie  sabia que, se Gabriella fugisse, a policia a
traria de volta. Jamais interfeririam  entre me e filha, independente
do que Eloise lhe fizesse. E Gabriella havia  muito tinha compreendido
isso. Sabia que os adultos no ajudavam. No interferiam nem vinham
montados num cavalo branco para salv-la. Quase sempre fingiam nada ver,
fechavam os olhos ou viravam as costas. Exatamente como seu pai.
  No entanto,  medida que os meses se passavam e o inverno dava lugar 
 primavera, os acessos de raiva de Eloise pareciam ir se reduzindo 
indiferena.  Ela agora no se importava com o que Gabriella fazia,
contanto que no tivesse de v-la ou  ouvi-la. Recentemente, a nica vez
em que bateu na menina foi quando alegou que Gabriella "fingia" no
escut-la. O "fingimento" devia-se ao simples fato de a  audio de
Gabriella no ser mais o que era antes. Parecia ouvir bem na maior
parte do tempo, mas, de alguns ngulos, ou se havia outros rudos no
ambiente, no  conseguia distinguir as palavras to claramente como
antes. Aquela era uma  seqela de surras anteriores, e Gabriella nunca
se queixava disso, embora s vezes a  prejudicasse na escola. Porm,
ningum parecia notar, a no ser a me.
  - No me ignore, Gabriella! - gritava e caa sobre a menina como um
esprito  da morte, com os punhos em riste.
  Mas ultimamente Frank estava quase sempre presente e Eloise era
cuidadosa  perto dele. Nunca encostava a mo em Gabriella durante suas
visitas, s quando  estavam sozinhas ou quando Frank a desapontava de
alguma maneira, fosse no aparecendo  na hora marcada ou esquecendo-se
de ligar, pelo que ela sempre culpava Gabriella.
  - Ele detesta voc, sua infeliz!  por sua causa que no veio esta
noite!
  A menina no duvidava disso por um momento sequer, perguntando-se o
que  aconteceria se ele parasse de vir. Mas, ao menos por enquanto,
aquilo parecia  improvvel, embora ele comentasse que voltaria para San
Francisco em abril. Gabriella  percebia que isso deixava a me nervosa.
E seu nervosismo se traduzia em algo  bem mais perigoso para Gabriella.
  Em maro, todas as vezes em que ele vinha  casa, os dois fechavam a
porta da  biblioteca para conversar em particular ou ento subiam para o
quarto da me e  ficavam l durante horas. Era difcil imaginar o que
estavam fazendo; eram sempre muito  silenciosos. Ele sorria para
Gabriella ao passar por sua porta, mas nunca mais  parou para conversar
ou mesmo cumpriment-la. Parecia entender que aquilo era  proibido. A
menina era tratada como uma leprosa na prpria casa.
  Em abril, como prometido, ele voltou para San Francisco. Entretanto,
para  surpresa de Gabriella, Eloise no se mostrava desolada. Na
verdade, estava mais  ocupada e feliz do que nunca. Raramente falava com
a filha, o que era uma bno. E  parecia estar tomando vrias
providncias. Passava muito tempo ao telefone,  falando com as amigas, e
sempre baixava a voz quando Gabriella se aproximava, como se  estivesse
contando segredos. Mas, de qualquer maneira, Gabriella no podia ouvi-
los.
  Trs semanas depois de Frank ter partido, ela comeou a arrastar as
malas para  fora do poro, pedindo ajuda a Jeannie para levlas para
cima. Eloise parecia  estar colocando nas malas todas as suas coisas, e
Gabriella perguntava-se quando a me  a mandaria fazer as suas.
Passaram-se vrios dias antes que Eloise, finalmente, dissesse  menina
que arrumasse a sua mala.
  - Para onde vamos? - perguntou Gabriella com um interesse acautelado.
  Era raro que fizesse uma pergunta, mas no tinha certeza sobre que
tipo de  roupas levar e no queria enfurecer a me colocando peas
erradas na mala.
  - Eu vou para Reno - respondeu Eloise, simplesmente, o que no dizia
nada a  Gabriella.
  No ousou perguntar onde era esse lugar ou por quanto tempo ficariam
l, e rezou para acertar na escolha das roupas que levaria. Dirigiu-se
lentamente para  o quarto e comeou a fazer a mala, no podendo deixar
de se perguntar se Frank  estaria l quando chegassem. Ela nem sabia se
gostava dele. Tudo o que sabia  que era  alto, bonito e muito educado
com a me. No gritavam um com o outro como John e  Eloise costumavam
fazer, mas ele tambm no falava com Gabriella. Era difcil dizer se
gostaria dele, se o decepcionaria, como fizera com todo mundo. Essa era
uma  expectativa que Gabriella passara a ter, um medo com o qual vivia.
Sabia que, se amasse  muito algum, essa pessoa acabaria por odi-la e,
provavelmente, a abandonaria,  como seu pai fizera. E se o prprio pai
se sentia daquela maneira em relao a ela,  quem no se sentiria? Mas
talvez com Frank fosse ser diferente. Difcil  adivinhar.
  E, s para aliviar essas suas preocupaes, comeou a escrever
histrias sobre  ele. Quando a me as encontrou, entretanto, rasgou-as,
dizendo que ela era uma  vagabunda e que estava dando em cima dele. No
fazia idia do que a me queria dizer com  isso ou por que estava to
furiosa. Gabriella tinha descrito Frank como o  Prncipe Encantado em
uma das suas histrias e, por causa disso, levou uma surra. Sem  dvida,
ele teria ficado repugnado se soubesse daquilo, mas  claro que no
sabia. A essa altura, ele j estava na Califrnia.
  E, numa clara manh de sbado, duas semanas depois da Pscoa, a me
olhou para  Gabriella durante o caf da manh e sorriu para ela pelo que
parecia ser a  primeira vez em sua vida. Aquilo quase apavorou a menina.
Um brilho nos olhos de Eloise  avisava a Gabriella que, se no tivesse
cuidado, teria problemas.
  - Vou para Reno amanh. - Foi tudo o que Eloise disse, no entanto,
parecendo  feliz. - Suas malas esto prontas, Gabriella? - A menina fez
que sim com a  cabea,  em silncio.
  Depois do caf da manh a me foi verificar o quarto e a mala, e
balanou a  cabea em sinal de aprovao. Gabriella estava aliviada por
no ter cometido  erros  imperdoveis. Viu a me correr os olhos pelo
quarto como se procurasse alguma coisa que ela  tivesse esquecido, mas
parecia satisfeita com o que vira. No havia retratos nas  paredes,
nunca houvera, e a nica fotografia que tinha do pai, sobre a cmoda,
havia sido jogada fora pela me pouco depois de ele ir embora. No havia
nada para enfeitar  o quarto, apenas a cama, a cmoda, uma cadeira,
cortinas brancas simples na  janela e o cho de linleo, que Jeannie a
ajudava a esfregar toda tera-feira  tarde.
  - Voc no vai precisar de nenhuma roupa elegante, Gabriella. Pode
tirar o  vestido rosa da mala. - Foi o nico comentrio que fez.
Gabriella obedeceu,  pendurando-o de volta no armrio, antes que a
desagradasse ainda mais.
  - No se esquea das roupas do colgio.
  As instrues eram confusas, mas ela tinha mesmo colocado algumas na
mala porque eram confortveis e quentes, e por no saber exatamente
quanto tempo passariam em Reno.
  A me virou-se, ento, e fitou-a com um olhar de sarcasmo, bem
conhecido de Gabriella.
  - Seu pai vai se casar em junho. Tenho certeza de que voc est feliz
por  saber.
  Mas tudo o que Gabriella sentiu foi alivio, alm da esmagadora
decepo ao se dar conta de que ele no voltaria nunca mais. Ela j
sabia mesmo, mas agora tinha certeza. Entretanto, estava aliviada por
saber que estava vivo e que no morrera em um acidente terrvel, o que
teria explicado seu silncio  persistente. Ela tinha escrito uma
histria a respeito  e, enquanto a escrevia, esta lhe parecera to
verdadeira, que Gabriella comeara a recear que ele realmente tivesse
morrido e no apenas as abandonado.
  - Voc no vai ter mais notcias dele - confirmou a me pela
milionsima vez.  - Ele no gosta de nenhuma de ns duas. Jamais gostou.
Nunca amou voc e nem a  mim. Quero que se lembre disso, Gabriella. Ele
nunca se importou com voc. - Eloise  fitava Gabriella com uma centelha
de raiva brilhando nos olhos e parecia esperar  uma resposta da menina.
- Voc sabe disso, no sabe?
  Gabriella fez que sim com a cabea, em silncio, querendo dizer que
no  acreditava nela; mas isso poderia lhe custar a vida, e Gabriella
tambm sabia  disso. Era esperta demais agora para pr em risco a sua
vida em defesa do pai. E talvez ele nunca as tivesse amado mesmo,
embora ainda achasse difcil acreditar nisso. Talvez, se tivesse se
comportado  melhor, sido menos impertinente, ele as tivesse amado mais e
ficado... Mas ainda se  lembrava do olhar do pai naquela ltima noite em
seu quarto. Seus olhos tinham  dito que ele a amava, no importando o
que a me dizia agora. Era isso que tornava tudo  to confuso.
  A me saiu com as amigas naquela noite, e Gabriella preparou um
sanduche e o  comeu na cozinha. A casa estava calma e silenciosa, e ela
ficou sentada,  pensando  na misteriosa viagem que fariam no dia
seguinte. O que as esperava em Reno, ou as  razes que as levavam para
l, era ainda um mistrio para Gabriella. Sabia que  teria de esperar
at chegarem ao lugar para descobrir as respostas a suas perguntas.  Era
um pouco perturbador no saber de nada, e ela se sentia estranhamente
triste  por deixar a casa. Este era o lugar onde morara com o pai e
ainda podia v-lo ali,  quando percorria os cmodos ou subia as escadas
lentamente, lembrando-se dos  seus rudos e do cheiro de sua loo
ps-barba. Mas no ficariam fora por muito  tempo, e talvez tudo
acabasse sendo uma grande aventura. Talvez Frank estivesse  l e, dessa
vez, resolvesse falar com ela. Talvez ele at fosse gentil se ela se
comportasse muito, muito bem e, se fizesse todo o possvel para no
deix-lo  zangado, poderia at vir a gostar dela. Prometeu-se que se
esforaria ao mximo, enquanto  subia as escadas devagar.
  Estava dormindo quando a me chegou a casa naquela noite e no a ouviu
 atravessar o longo corredor em direo ao quarto. Eloise sorria
enquanto se  despia: uma  vida inteiramente nova estava prestes a
comear, cheia de promessas e com a  oportunidade de fechar a porta a
todas as antigas decepes. Mal podia esperar  para partir. Ela pegaria
o trem noturno do dia seguinte, mas no dissera nada a Gabriella,  que
ainda no fazia idia da hora em que partiriam.
  Assim, para no se atrasar e irritar a me antes que partissem, a
menina  levantou-se ao raiar do dia e, quando Eloise desceu para tomar o
caf da manh,  s nove horas, Gabriella tinha o caf pronto esperando
por ela. Pousou a xcara na  frente da me, com cuidado extremo para no
derramar. Agora isso raramente  acontecia. A essa altura, aprendera
todas as suas lies  perfeio. O caf estava exatamente na
temperatura que a me gostava. Eloise nada disse, o que pelo menos  era
um sinal de que a menina no fizera nada que a incomodasse. Ainda. Mas
isso podia mudar num instante, como o lampejo de um  raio de vero.
  Passou-se meia hora antes que a me lhe dirigisse a palavra, quando
ento  perguntou  menina se estava pronta. Estava. Fechara a mala antes
de descer e  vestia  uma saia cinza e um suter branco, j tendo deixado
um blazer azul-marinho  cuidadosamente dobrado sobre a cadeira do
quarto, junto  boina tambm azul- marinho e s luvas brancas que usava
sempre que saam juntas. Os sapatinhos de verniz preto estavam
impecveis, sem arranhes, e as meias soquetes brancas apresentavam-se
imaculadas e com o punho dobrado  exatamente como a me gostava. Com os
cabelos louros penteados para trs, num  lindo rabo-de-cavalo, e os
olhos azuis imensos, era uma viso que teria derretido qualquer corao,
menos o da me. Aos dez anos, ainda era uma garotinha adorvel. Ainda
no era uma adolescente  desajeitada, e tambm no era mais um beb, mas
j mostrava sinais de que um dia se tornaria uma beldade, o que em  nada
a ajudava a ganhar a simpatia da me.
  Eloise ficou esperando  porta, enquanto Gabriella subiu para colocar
o chapu, as luvas, o blazer e pegar a mala. Quando a menina voltou, viu
que a me ainda no havia trazido a sua bagagem; perguntou-se
imediatamente se no estaria esperando que ela o fizesse e comeou a
subir as escadas mais uma  vez para ir apanh-las.
  - Aonde voc vai agora? - perguntou Eloise, num tom exasperado. Tinha
milhes  de coisas para fazer e no pretendia perder mais um minuto que
fosse.
  - Pegar as malas da senhora - disse Gabriella sria, virando-se para
olhar  sobre o ombro.
  - Eu fao isso mais tarde. Agora vamos. -As instrues eram confusas,
mas a  menina no podia pedir uma explicao, mesmo agora, nos ltimos
instantes,  quando pareciam prontas para deixar a casa. Percebeu ento
que a me vestia uma saia cinza e um  suter preto antigo que ela s
usava para ficar em casa ou para executar  pequenas tarefas na rua. Ao
contrrio de Gabriella, no parecia  vestida para viajar. No havia nem
mesmo colocado um chapu naquela manh, o que  era raro para a me.
Porm, sem dizer uma palavra, a menina saiu da casa,  carregando a
pequena mala e, subitamente, voltando-se e olhando para a casa onde
conhecera  tanta dor, sentiu uma breve pontada de pavor. Alguma coisa
estava errada, e ela  sabia, mas parecia loucura pensar assim. De
repente, entretanto, tudo o que queria era  dar meia-volta e se esconder
no fundo do armrio do corredor. Havia quase dois  anos que no fazia
mais isso. Tinha aprendido desde ento que se esconder s tornava  as
surras piores. Era melhor submeter-se a elas. Mas, de sbito, naquele
momento, qualquer coisa parecia melhor que seguir cegamente a me
degraus abaixo, rumo a  um destino desconhecido, que poderia ser ainda
pior do que as agonias j  familiares que encontrara ali.
  - Aperte o passo, Gabriella. No tenho o dia inteiro - disse Eloise,
mal- humorada, atravessando rapidamente a calada, de saltos altos, a
fim de chamar  um txi.
  Mas ela no trazia nenhuma mala, e Gabriella soube nesse instante, com
toda  certeza, que, aonde quer que estivesse indo, a me no iria junto.
Mas para onde    que a poderia estar levando com uma valise numa manh
de sbado? Gabriella no fazia  idia e a me nada lhe dizia.
  Eloise deu ao motorista um endereo que Gabriella no reconheceu, no
sentido  leste, e a menina podia sentir o corao martelar enquanto
percorriam as vinte  quadras at l. A incerteza de seu destino a enchia
de pavor, mas ela sabia que, se  fizesse uma nica pergunta, pagaria
caro por ela mais tarde. A me no parecia  disposta a conversar,
enquanto olhava pela janela do txi, perdida em seus pensamentos,  sem
absolutamente nada para dizer  filha. Eloise deu uma olhada rpida no
relgio e pareceu satisfeita pelo horrio apertado no estar sendo muito
comprometido.  Quando chegaram ao enorme prdio cinza da Rua 48, perto
do East River, as mos  de Gabriella estavam tremendo, e ela sentia
nuseas. Talvez tivesse feito alguma  coisa muito terrvel dessa vez e a
me a estivesse levando para a polcia, ou um  lugar parecido, para ser
punida por outra pessoa. Tudo era concebvel numa vida  repleta de
terror como a dela. Nunca havia segurana para Gabriella, em lugar
algum.
  A me pagou ao taxista e saiu  frente de Gabriella, que parecia
mover-se com  uma lentido irritante, enquanto lutava, sem jeito, com a
mala; mas nada do lado  de fora do prdio lhe dava a menor pista de que
lugar era aquele ou por que tinha  ido para l. A me tocou a campainha
e bateu a pesada argola da porta. Era uma  construo impressionante e
bastante austera, observou Gabriella, durante a espera  interminvel
para que algum fosse abrir a porta. Os olhos da menina procuraram
pelos da me por um longo tempo e em seguida voltaram-se para os
prprios ps, para que  Eloise no visse as lgrimas s quais Gabriella
tentava no sucumbir, enquanto  sentia as pernas tremerem, tomada por um
medo excruciante. Finalmente, com uma lentido  agnica, abriu-se uma
fresta na porta, suficiente apenas para que uma cabecinha mida viesse
espreitar.
  - Pois no? - Gabriella no conseguia ver muito alm da me, para
determinar se era um homem ou uma mulher. O rosto ou o pouco que podia
ver, parecia no ter idade nem sexo.
  - Eu sou a sra. Harrison e estou sendo aguardada - disse Eloise, com
aspereza, irritada com os procedimentos vagarosos ao extremo. - E  estou
com muita pressa - acrescentou, no momento em que a porta fechava com um
baque surdo, enquanto o rosto sem identificao ia l dentro verificar a
questo.
  - Mame... - comeou Gabriella, levada pelo proprio terror, embora a
sensatez  devesse t-la mantido calada. Mas ela j no podia. - Mame...
- Sua voz era um  sussurro trmulo quando Eloise virou-se bruscamente
para ela.
  - Fique quieta, Gabriella! No  hora para ser mal-educada, e
certamente aqui  no  o lugar para isso. Ningum vai aturar os absurdos
que eu aturei. - Era  verdade ento... Estava sendo levada para a
cadeia... ou para a policia... ou para um  lugar de punio que desse
conta dos seus dez anos de crimes, que por fim lhe  custaram o pai. Ela
iria pagar por tudo agora. Os olhos encheramse de lgrimas ao som das
palavras da me. Sentia-se como se estivesse esperando pela sentena de
morte,  parada ali, sem entender o que havia acontecido  viagem para
Reno. Ou Reno era isso?  Era assim que chamavam aquele lugar? Onde ela
estava? E o que fariam com ela  ali?
  Quando pensava que o medo no conseguiria ter poder ainda maior sobre
ela, a  porta pesada comeou a se abrir  sua frente, revelando uma
caverna escura  escancarada, atrs de uma velha baixinha e deformada,
vestida com um hbito preto. Para  Gabriella, a mulher se parecia com
uma bruxa. Usava um velho xale preto e andava  com a ajuda de uma
bengala, enquanto indicava s duas que entrassem na escurido com  ela.
Gabriella ofegou, enquanto a mulher gesticulava e, involuntariamente, um
soluo lhe escapou, enquanto a me a pegava pelo brao e a puxava para
dentro do  prdio, com a porta se fechando com um estrondo atrs delas.
O nico som que se  ouvia era o choro de Gabriella.
  - A madre Gregoria vai v-la num minuto - disse a velha a Eloise, sem
sequer  olhar para Gabriella, enquanto a me a sacudia pelo brao e a
olhava com fria.
  - Pare j com isso! - ordenou, sacudindo-a ainda mais forte para
enfatizar a  ordem, mas sem ousar fazer mais do que isso. No vou ficar
ouvindo suas  lamentaes. Pode chorar  vontade quando eu tiver ido
embora, e tenho certeza de que vai  faz-lo, mas me poupe dessa bobagem.
Eu no sou o seu pai e no vou aturar sua  choradeira, e nem tampouco as
freiras. Voc sabe o que elas fazem com as crianas que no se
comportam?
  Ela no respondeu  prpria pergunta, mas, quando Gabriella levantou
os olhos  apavorados, tudo o que pde ver foi uma cruz enorme com um
Cristo moribundo e  coberto de sangue, que a fez berrar ainda mais alto
por tudo o que aquilo significava.  Esse era de fato o pior dia de sua
vida, e tudo o que queria era morrer o mais  rpido possvel, antes que
lhe fizessem qualquer coisa pelos inmeros pecados que havia  cometido
em sua breve vida. No fazia idia do motivo de estar ali, nem de
quanto tempo ficaria, mas a mala que levara no era um bom sinal.
  Os soluos curtos e arquejantes haviam rapidamente se tornado
incontrolveis,  e nenhuma ameaa da me parecia capaz de
interromp-los. Gabriella no conseguia  parar e ainda chorava quando a
freira velhinha veio anunciar que a madre superiora as  aguardava.
Seguiram-na por um longo corredor iluminado apenas por lmpadas  fracas
e pequenos feixes de velas crepitantes.
  Naquela penumbra, a impresso geral do cenrio era a de um calabouo
assustador e,  distncia, Gabriella podia ouvir pessoas cantando
melancolicamente. At o som daquelas vozes lhe parecia  apavorante nesse
momento, a msica que as acompanhava era lgubre e depressiva. Tudo o
que ela sabia  que preferia estar morta do que  ficar ali.
  A velha freira parou em frente a uma portinhola e indicou com um gesto
que  entrassem, antes de desaparecer claudicando com a bengala, os ps
parecendo  deslizar  em silncio sobre o cho de pedras, apesar da idade
e da debilidade. Ao olh-la,  Gabriella tremeu como se sentisse frio. A
me pegou-a pelo brao ento e a puxou para o lugar onde eram esperadas,
e os  soluos da menina s aumentaram quando ela olhou ao redor. L
estava uma freira com olhos de gelo e rosto de granito, de p atrs de
uma mesa gasta,  espera delas. Tinha na cabea uma faixa muito branca e
engomada, e o resto do corpo estava envolto em preto, como todas  as
outras na Ordem, e Gabriella ficou surpresa ao ver como era alta. E, o
mais aterrador de tudo, parecia no ter mos, ao fitar de cima  Eloise
Harrison e a filha. Tinha os braos cruzados, e as mos estavam
invisveis, enfiadas nas mangas grandes do hbito; o nico adorno que
usava era o rosrio de  contas pesadas de madeira, pendurado na cintura.
No havia sinais visveis de  sua importncia na Ordem ou de que fosse a
madre superiora, mas Eloise sabia que  era. Tinham se encontrado duas
vezes nos dois ltimos meses, a fim de discutir  seus planos para
Gabriella. Mas a madre superiora no esperava que a criana fosse  estar
to transtornada. Havia suposto que a menina seria avisada de antemo
sobre os planos da me.
  - Oi, Gabriella - disse a freira, solenemente -, eu sou a madre
Gregoria, e  voc vai ficar algum tempo conosco, como tenho certeza que
sua me lhe disse.
  No havia um sorriso em seus lbios, mas os olhos eram bondosos,
embora  Gabriella ainda no pudesse v-los. Tudo o que fazia era
balanar a cabea  veementemente, enquanto chorava, tanto para mostrar
que no queria ficar ali, quanto para  explicar que a me nada lhe
dissera a respeito da visita.
  - Voc vai ficar aqui enquanto eu estiver em Reno - disse Eloise em
tom  categrico, enquanto a madre superiora observava a conversa com
interesse,  compreendendo facilmente que aquela era a primeira vez que
Gabriella era comunicada do fato e  desaprovando, silenciosa, a maneira
como Eloise tratara a filha.
  Gabriella olhou para a me obviamente apavorada.
  - Quanto tempo a senhora vai ficar l? - Por mais que a tivesse odiado
durante  toda a vida, a me era a nica pessoa que restava a Gabriella,
que no podia  deixar de se perguntar se esse no seria o castigo por
t-la odiado em silncio por  tanto tempo. Talvez a me sempre tivesse
sabido e agora a estivesse deixando ali  para ser torturada e punida por
seus pensamentos malvados.
  - Vou passar seis semanas em Reno - disse Eloise, claramente, sem
oferecer uma  nica palavra de conforto, e mantendose afastada da
criana atormentada,  enquanto madre Gregoria as observava.
  - Eu vou  escola? - perguntou a menina, a voz ainda embargada pelas
lgrimas  que continuavam a sacudi-la. Gabriella soluava e respirava
com dificuldade.
  - Vai estudar conosco - afirmou madre Gregoria numa voz baixa que no
a  tranqilizou.
  De repente, nada lhe era familiar, e o simples fato de estar ali j
era  suficiente para assust-la. As surras da me em casa pareciam
infinitamente  melhores para ela. Se tivesse uma escolha naquele
momento, teria ido satisfeita para casa e  deixado Eloise fazer com ela
o que bem entendesse. Mas a ela no tinha sido dado  o direito de optar.
A me estava indo para Reno, independente de onde ficasse esse  lugar.
  - Temos outras duas meninas aqui - explicou a madre superiora. - So
mais  velhas do que voc e so irms. Uma tem quatorze anos e a outra
tem dezessete, e  acho  que vai gostar delas. Elas esto muito felizes
conosco. - No explicou que as  meninas estavam morando no convento
porque eram rfs. Os pais haviam morrido  num acidente de avio no ano
anterior e a av com quem tinham ido morar, sua nica parente  viva,
morrera inesperadamente no Natal. As meninas eram primas de uma das
freiras da Ordem e, por enquanto, at que pudessem arranjar outra coisa,
esta era a nica soluo  para elas. No caso de Gabriella, tratava-se
apenas de uma medida temporria.  Dois meses, dissera a me, trs no
mximo, mas no dizia nada sobre isso a Gabriella agora,  enquanto a
madre superiora as observava. Parecia haver um desconforto
extraordinrio entre as duas, o que a sbia freira observou com
interesse considervel. Na  verdade, diria at que a criana aparentava
ter medo da me. Sabia que o pai da  menina as abandonara e planejava
casar-se em breve, mas Eloise nada lhe dissera sobre  os prprios
planos, somente que precisava de um lugar para deixar a filha  enquanto
ia a Reno tratar do divrcio. Certamente aquele no era um plano que
tivesse a  aprovao da madre, mas no estava ali para julgar a moral da
me; seu nico interesse era oferecer abrigo para Gabriella. A menina
continuava soluando, e as trs se olhavam, constrangidas, quando Eloise
olhou para o relgio com ares de surpresa.
  - Eu preciso mesmo ir - disse, e uma mozinha a segurou de repente.
Gabriella agarrou-se  saia da me, grudando-se nela, implorando que
no a abandonasse.
  - No v, mame, por favor... Mame... Eu vou ser boazinha... Eu
juro... Por  favor, deixe eu ir com voc...
  - No seja ridcula! - exclamou Eloise, encolhendo-se, recuando para
fora do  alcance da criana, com evidente averso. S t-la assim to
prxima, agarrada a  ela, fazia Eloise querer sair gritando porta afora.
  - Reno no  um bom lugar para crianas - interrompeu a madre Gregoria
com  firmeza. - Nem tampouco para adultos completou com um tom de
desaprovao. A  madre superiora no tinha a menor idia de que Frank
fizera reservas para Eloise num dos hotis- ranchos mais luxuosos e
tinha planos de ficar l com ela durante todo o tempo.  Ele ia ensin-la
a cavalgar  moda do Texas. - Sua me vai voltar logo, Gabriella.  Voc
vai ver, o tempo vai passar rapidinho - disse a freira, bondosamente,
mas  podia ver que a menina estava tomada de pnico, e a me no parecia
se importar ou  mesmo tomar conhecimento.
  A madre superiora fez um leve sinal com a cabea para Eloise,
indicando que  podia ir embora, e, em segundos, Eloise havia  apanhado a
bolsa, apertado a mo da freira e ento se voltado para a filha.  Havia
um sorrisinho em seus lbios, como se no conseguisse conter o prazer de
partir,  e era bvio que nada tinha a dizer, apesar da aflio
aterradora de Gabriella.  Tudo o que desejava era a sua liberdade.
  - Comporte-se. - Foram as suas palavras. - No v arrumar problemas
para os  outros. Eu vou ficar sabendo, se fizer isso.
  E ambas sabiam o que aquilo significava, mas agora Gabriella no se
importava. Colocou os braos em torno da cintura de Eloise e chorou,
tanto pela me que jamais tivera, quanto pelo pai que amara e perdera.
Havia um  poo de terror e solido nela que ia alm de todas as palavras
que tinha para  descrev-lo e, embora nada significasse para Eloise, o
olhar da criana tocara o  corao de madre Gregoria, que esperou para
ver se a me beijaria a filha ou diria  qualquer coisa para confort-la.
No entanto, tudo que Eloise fez foi arrancar os  braos da menina de sua
cintura e afast-la com firmeza.
  - At logo, Gabriella - disse friamente, enquanto a filha a fitava com
olhos  experientes e sbios que compreendiam muito mais do que deveriam.
  Gabriella sabia agora, talvez sempre soubesse, o significado exato e a
 sensao do abandono. De sbito, ficou imvel, os soluos ainda a
sacudindo,  apesar dos  seus esforos para se controlar, e ergueu os
olhos para a me. No disse nenhuma  outra palavra quando Eloise se foi,
sem olhar para trs, fechando a porta com  frmeza.
  Por um momento, apenas uma frao mnima da vida, Gabriella soube
precisamente  o quanto estava s, e talvez fosse sempre estar, quando os
olhos sbios da velha  freira encontraram os seus. Ali estavam duas
almas que haviam viajado longe e visto  muita coisa da vida, e, no caso
de Gabriella, cedo demais. Ela ficou ali parada,  deixando escapar
soluos de partir o corao, enquanto madre Gregoria caminhava
lentamente at ela. Sem dizer uma palavra, tomou-a nos braos e ficou
abraada a  ela. Queria proteger Gabriella de um mundo que a machucara
quase alm de uma possvel  recuperao. Tudo o que madre Gregoria
sabia, sentia e acreditava estava na  fora de seu abrao, e tudo o que
desejava para a criana estava implcito na maneira como a abraava.
Gabriella olhou para ela, espantada, e fechou os olhos, sabendo, sem a
necessidade de palavras, o que acabara de acontecer entre as duas e o
que tinha encontrado aqui. E,  aninhada na delicadeza daquele abrao, as
comportas abriram-se e ela soluou por  todas as perdas, toda a dor e a
tristeza, o terror e a decepo que a vida lhe  infligira. Ela sabia,
com toda a sabedoria de seus dez anos de idade, que ali  estava segura.


Captulo 6

  A primeira refeio de Gabriella no Convento de So Mateus a princpio
lhe  pareceu um ritual completamente estranho, mas por fim lhe trouxe
uma  surpreendente e agradvel sensao. Era um dos raros momentos do
dia em que as freiras podiam  conversar e, depois de acompanhar madre
Gregoria  igreja com toda a comunidade  do convento, durante uma hora
antes da refeio, Gabriella ficara estarrecida com o  nmero de
mulheres e com sua austeridade, sentadas na capela, rezando em
silncio.
  No refeitrio, entretanto, o que momentos antes tinha parecido um
imenso  rebanho de mulheres sem rosto, cobertas de preto, transformou-se
numa multido  de pessoas que conversavam e riam, felizes.
  Gabriella ficou perplexa ao descobrir que muitas delas eram bastante
jovens.  Havia aproximadamente duzentas freiras no convento, das quais
mais de cinqenta  eram postulantes e novias, em sua maioria com pouco
mais de vinte anos de idade.  Havia um grupo de freiras da idade da me
de Gabriella, um outro com a idade da  madre superiora e umas poucas j
bastante idosas. A maior parte delas trabalhava ali  perto, como
professoras no Colgio Santo Estvo, e outras, no Hospital da
Misericrdia, como enfermeiras. A conversa durante o jantar variava de
temas polticos a questes mdicas, de  anedotas das salas de aula a
pequenas dicas sobre todas as coisas, do jardim at  a cozinha. Contavam
piadas e caoavam umas das outras, chamavam-se por apelidos e, ao final
da refeio, parecia a Gabriella que todas as freiras do convento tinham
vindo  at ela dizer uma palavra gentil, inclusive a velhinha
assustadora que tinha aberto  a porta para ela e a me, apavorando-a
ainda naquela manh. Seu nome era irm  Mary Margaret, e Gabriella logo
percebeu que todas no convento a adoravam. Ela havia  sido missionria
na Africa quando jovem e j estava no So Mateus fazia mais de quarenta
anos. Tinha um sorriso largo e sem dentes, e madre Gregoria a
repreendeu com jeitinho, como sempre fazia, por esquecer-se de pr a
dentadura.
  - Ela detesta us-la - explicou uma das freiras mais novas a
Gabriella, com  uma risadnha infantil.
  Gabriella estava mais do que atnita com todas elas. Era como ter sido
jogada  no meio de uma familia de duzentas mulheres amorosas. Pelo menos
nesse instante, no parecia haver uma s ranzinza entre elas. Gabriella
nunca tinha visto tantas  pessoas felizes. Depois de dez anos vivendo
num campo minado com a me, tentando  evitar o mau humor constante e a
fria devastadora desta, era como cair numa nuvem  macia de algodo.
Foram muitas as que pararam para se apresentar e conversar com
Gabriella, que tentava, valentemente, guardar seus nomes; mas isso era
impossvel... irm  Timothy... irm Elizabeth da Imaculada Conceio...
irm Ave Regina... irm  Andrew, ou "Andy", como a chamavam... irm
Joseph... irm John... e aquela de cujo nome  lembrou-se imediatamente
foi irm Elizabeth... ou irm Lizzie... Era uma jovem  muito bonita, com
a pele muito clara e os olhos verdes imensos, que ria desde o  momento
em que Gabriella a viu.
  - Voc  um pouco jovem demais para ser freira, no acha, Gabbie? Mas
Deus  pode aproveitar a ajuda vinda de todos os lados.
  Ningum nunca a chamara de "Gabbie", e os olhos que sorriam para ela
eram os mais gentis e felizes que Gabriella j havia visto. Queria
ficar ao seu lado, conversando com ela, para sempre. A jovem ainda era
uma  postulante e logo se tornaria novia. Disse que recebeu o chamado
quando, aos quatorze anos, pegou sarampo e teve uma viso da  Virgem
Santssima.
  - Isso deve parecer meio sem sentido para voc, mas s vezes  assim
que  acontece. - Estava com vinte e um anos agora e era assistente de
enfermagem na  ala peditrica do Hospital da Misericrdia; sentiu-se
imediatamente atrada por aquela criana  com imensos olhos azuis to
cheios de tristeza. Era fcil ver que eles continham uma longa histria,
uma histria que talvez Gabriella jamais fosse capaz de  partilhar com
elas, mas que lhe custara muito.
  No entanto, o encontro que mais significou para ela foi aquele com
madre  Gregoria, naquela manh, quando a me a deixou. Gabriella no
tinha palavras  para explicar o que tinha acontecido com ela, mas sabia
que havia encontrado a me que jamais  tivera, e comeava a entender por
que aquelas mulheres queriam ficar ali. A  madre superiora observava-a
com ateno, enquanto a menina interagia com as outras  freiras. Era uma
criana tmida e em certos aspectos parecia bastante frgil.  Por outro
lado, havia nela uma fora silenciosa e uma profundidade de alma que no
correspondiam  sua idade e  cautela que demonstrava ao lidar com as
pessoas.  Para a madre superiora, era fcil ver que Gabriella havia sido
bastante machucada. Tendo  visto como a me falava com a filha, madre
Gregoria suspeitava a origem da mgoa  que se impunha, como um vu,
entre a menina e as outras pessoas. Essa era uma  criana que
sobrevivera aos tormentos do inferno e, por motivos que talvez s  Deus
conhecesse, conseguira sobreviver a ele. A madre superiora sentia-se
intrigada para saber se  a alma que suspeitava existir na menina era
daquelas cujo destino era ajudar os outros. Na comunidade havia outras
que tinham chegado quase to devastadas  quanto ela. E, apesar do que
sbia ,a madre pressentia na menina
 dos pedaos partidos ainda por cicatrizar, havia uma integridade e uma
fora  interior profundamente comoventes em Gabriella. Para uma criana
to pequena,  tinha uma presena marcante.
  Apresentaram-na s outras "hspedes", as duas meninas que tinham
ficado rfs  e estavam com as freiras desde o Natal. A mais nova tinha
quatorze anos e era  uma  garota bonita, que ansiava pelo mundo e se
irritava um pouco com as restries do  convento. Seu nome era Natalie,
sonhava com um mundo de rapazes e roupas, e era louca por um  jovem
cantor chamado Elvis. Sua irm mais velha, Julie, tinha dezessete anos e
sentia-se aliviada por ter sido isolada do mundo, agarrando-se 
segurana que havia  encontrado ali. Era desesperadamente tmida e ainda
parecia estar em estado de  choque pelas circunstncias que as haviam
deixado rfs. Desejava tornar-se uma delas  um dia e vinha implorando 
madre Gregoria, havia meses, que a deixasse ficar e  no tomasse nenhuma
outra providncia em relao a elas. Julie no parecia ter muito  o que
dizer a Gabriella quando se conheceram, e Natalie era cheia de segredos,
cochichos e risadinhas, embora Gabriella fosse ainda muito nova para
apreciar de fato toda  a dimenso de sua amizade. Depois de conversar
com ela por uns minutos, Natalie sussurrou , para a irm  Lizzie que
Gabriella era "s uma criancinha", mas, de qualquer maneira, prometeram
ser boas para ela. Passaria pouco tempo l, e todas  estavam certas de
que sentiria muitas saudades de casa, sem os pais.
   Entretanto, no era neles que Gabriella pensava naquela noite, mas na
mulher que a abraara de manh e a consolara. Lembrouse dos braos
fortes  que a envolveram com firmeza e a fizeram sentir-se  protegida
das agonias que tinha suportado, e das quais vinha fugindo havia dez
anos. Nunca conhecera uma pessoa como a madre superiora e,  assim como
Julie, j imaginava como seria viver ali para sempre.
  Dividia um quarto com as outras duas garotas. Era pequeno e simples,
tendo uma  janelinha que dava para o jardim do convento. Deitada na
cama, sem fazer  barulho, podia ver a lua alta no cu, emoldurada pela
pequena janela. Perguntou-se onde a  me estaria naquela noite, ainda em
casa ou no trem, e quanto tempo levaria para voltar daquele lugar
misterioso chamado Reno. Porm, por mais tempo que  resolvesse ficar por
l, Gabriella tinha certeza absoluta de que, pela primeira  vez na vida,
estava completamente segura. Ela mal podia imaginar como seria sua vida
ali,  mas, pela primeira vez em dez anos, sabia que no havia nada a
temer, nenhuma  surra, punio, acusao, nenhum dio do qual fugir.
Estivera to certa de ter sido  levada para ali a fim de ser punida,
quando aguardavam  porta de manh, e agora, com a mesma certeza, sabia
que sua ida  para l havia sido uma bno.
  Naquela noite adormeceu pensando em todas elas, nas freiras que a
haviam  rodeado, como passarinhos bondosos, no refeitrio... irm
Lizzie... irm  Timothy... irm Mary Margaret... irm John... e a mulher
alta de olhos sbios que a abraara  junto ao corao, sem um som, sem
uma palavra, mantendo-a aninhada, como um  passarinho com a asa
quebrada. Mesmo agora, deitada escondida na parte inferior da cama,
como era seu hbito, Gabriella j podia sentir as rachaduras de sua alma
comearem lentamente a emendar-se.
  Vieram acord-las no dia seguinte, como de costume, s quatro horas da
manh.  As trs meninas passaram as duas primeiras horas do dia na
igreja, com as  freiras, rezando em silncio. Finalmente, pouco antes do
sol surgir, a comunidade inteira  comeou a cantar. Gabriella pensou que
nunca ouvira nada to bonito quanto  aquelas vozes que se levantavam em
unssono, louvando a um Deus ao qual ela rogara  durante anos e que com
freqncia Gabriella tivera motivos para duvidar de que a  ouvisse.
  Ali, porm, com o poder da f e do amor daquelas mulheres, o amor Dele
parecia  to bvio e irresistvel; e a segurana que lhes oferecia, to
certa. Ao entrar  novamente no refeitrio com elas, para a primeira
refeio do dia, Gabriella sentia-se  estranhamente em paz.
  O caf da manh era uma refeio silenciosa. Era uma hora de
contemplao e  preparo para o que realizariam ao longo do dia, alm das
paredes do convento, no  hospital e na escola em que trabalhavam,
levando conforto e cura queles que tocavam e  com quem conviviam,
enquanto buscavam viver e expressar a bno de Deus. Elas  se despediam
com sorrisos e acenos de cabea e iam para suas celas ou dormitrios,
dependendo  da idade e do status que ocupavam no convento. As freiras
mais idosas tinham  celas individuais, as novias e postulantes viviam
em pequenos dormitrios, assim como  Gabriella e as duas outras meninas.
E, como elas, Gabriella tambm estudaria ali com duas freiras idosas,
que eram professoras aposentadas. Uma pequena sala de  aula havia sido
montada, e as trs meninas j estavam mergulhadas nos estudos s  sete e
meia da manh. Trabalharam com afinco at o meio-dia, em matrias
apropriadas a cada uma delas, e depois almoaram no refeitrio em
companhia de umas poucas freiras que no trabalhavam fora do convento.
  Gabriella no viu madre Gregoria durante todo o dia. Na verdade, s
tornou a  v-la  noite, na hora do jantar. Os olhos da menina
iluminaram-se, assim como  os  da madre, to logo a avistou. Gabriella
caminhou timidamente em direo a madre  Gregoria, que lhe perguntou,
com um sorriso afetuoso, como havia sido o primeiro dia.
  - Estudou bastante? - Gabriella fez que sim com a cabea com um
sorriso  cauteloso. Havia sido muito mais difcil do que as aulas a que
estava  acostumada, sem recreio ou intervalos, mas a menina estava
surpresa por descobrir que gostara. Havia  qualquer coisa de muito
tranqilo em estar ali e partilhar do que faziam.
  Parecia que todas tinham uma funo, uma meta, um objetivo. No era
meramente a ausncia do mundo que se notava ali, mas a presena de algo
mais, de um modo de dar, em vez de apenas sobreviver e receber. A seu
modo, a  seu tempo, cada uma delas havia chegado  ali por um motivo, e
delas se esperava que esvaziassem a alma diariamente em benefcio dos
outros. E isso, em vez de exauri-las, parecia preench-las. At mesmo as
crianas percebiam esse aspecto da vida ali, tanto Julie e Natalie
quanto "Gabbie", como metade do convento j a  chamava. Gabriella
surpreendeu-se ao descobrir que gostava do apelido.
  Tudo era to diferente da vida que ela conhecera. As mulheres ali eram
 exatamente o oposto da sua me. No existia vaidade, egocentrismo,
raiva ou  fria. Era uma vida completamente devotada ao amor,  harmonia
e  ajuda ao prximo. Todas eram  extraordinariamente felizes e
sentiam-se protegidas. E, pela primeira vez na  vida, Gabriella tambm
se sentia assim.
  Dois padres foram ouvir a confisso naquela noite. Eles iam quatro
vezes na  semana, e as freiras, em silncio, formavam uma fila na capela
aps o jantar. A  irm Lizzie perguntou se a menina gostaria de
acompanh-las. Gabriella fizera a  primeira comunho quatro anos antes e
podia receber o sacramento, embora no  necessariamente com tanta
freqncia quanto as irms, que o recebiam todos os  dias. A maioria das
confisses era breve, e depois todas rezavam em silncio por  um  tempo
considervel, examinando suas falhas e seus pecados como freiras, e
cumprindo a  penitncia que lhes era destinada.
  A confisso de Gabriella foi bastante curta, mas interessante para o
padre que  a ouvia. Depois de dizer quanto tempo havia desde a ltima
vez em que tinha  confessado, admitiu o pecado de com freqncia odiar a
prpria me.
  - Por qu, minha filha? - perguntou o padre, gentilmente.
   Dos dois padres que ouviam a confisso naquela noite, esse era de
longe o  mais velho; um homem bondoso, que tinha quarenta anos de
sacerdcio e um enorme amor pelas crianas. Podia  perceber pela voz da
menina, atravs da grade, que era muito jovem. Madre  Gregoria o havia
informado de que tinham uma criana recmchegada, embora ele no a
tivesse  visto antes da confisso.
  - Por que voc permite que o diabo a tente a odiar sua me?
  Houve um silncio interminvel antes que ela respondesse.
  - Porque ela me odeia - falou, num tom quase inaudvel, mas que
parecia segura  do que dizia.
  - Uma me nunca odeia um filho. Nunca. Deus no permitiria isso.
  Mas Deus havia permitido que uma poro de coisas acontecessem a ela.
Coisas  que, ela tinha certeza, Ele no havia infligido a outras
pessoas. Talvez porque  fosse to m, ou Deus a odiasse tambm, embora,
ali no Convento de So Mateus, essa  hiptese parecesse improvvel.
  - Eu sei que a minha me me odeia.
  Ele negou novamente e continuou com a confisso, recomendando-lhe que
dissesse  dez ave-marias e pensasse carinhosamente na me em cada uma
delas, sabendo que  esta a amava. Gabriella no discutiu, mas percebeu
que era uma pecadora maior do que  ele podia imaginar por odiar a me
tanto assim. Mas no podia evitar.
  Disse a penitncia em silncio com as freiras e ento voltou para o
quarto,  onde Natalie lia uma revista sobre Elvis, que ela comprara  s
escondidas, enquanto Julie ameaava contar tudo para a irm Timmie.
Gabriella deixou-as com suas arengas e pensou sobre o que o padre lhe
dissera no confessionrio. Ela se perguntava se passaria a eternidade no
inferno  por causa do dio que sentia pela me. O que no percebia, nem
os outros tampouco,  era que at ali tinha passado toda a sua vida no
inferno. Com toda certeza,  tivesse algum visto o que era sua vida,
teria lhe assegurado um lugar no paraso.
  Gabriella dormiu na parte inferior da cama, como sempre, e pela manh,
 enquanto se vestiam para ir  igreja, as duas outras garotas caoaram
dela, mas  sem qualquer malicia. S comentaram como era engraado quando
olhavam para a cama e esta  parecia estar vazia. E esse era o objetivo,
 claro, embora o subterfgio jamais a tivesse poupado. Havia muito
tempo, porm, aquilo se tornara um hbito.
  Naquele dia, teve aulas novamente com as duas meninas, e a vida no So
Mateus foi aos poucos se tornando uma rotina para ela: viver na
companhia das freiras e das duas meninas, ir  igreja e estudar.
Gabriella  aprendeu seus hinos, hbitos, as oraes que faziam de manh,
 noite e no meio da tarde. Caa  de joelhos no cho de pedras quando
tocavam os sinos da igreja, exatamente como as freiras, sem nem mesmo
parar para pensar. L pela metade do ms de maio,  conhecia todas pelo
nome e sabia do que gostavam e o que faziam; sorria a maior  parte do
tempo e conversava, descontrada, com todas durante o jantar. Sempre que
possvel, procurava a presena de madre Gregoria, sem falar muito com
ela;  apenas gostava de estar perto dela.
  Era final de maio quando a madre superiora mandou chamla. Era
estranho para  Gabriella v-la no pequeno escritrio; fazia com que se
lembrasse daquele  primeiro  dia, quando tinha ido com a me. Parecia
que tanto tempo se passara. Fazia agora seis  semanas, e Gabriella no
tinha recebido nem um carto-postal de Eloise. E,  embora no tivesse
notcias dela, sabia que a me logo estaria de volta.
  Ela imaginava se no teria feito alguma coisa errada e estaria prestes
a ser  repreendida quando entrou no escritrio de madre Gregoria. A irm
Mary Margaret tinha ido cham-la na sala de aula e, por alguma  razo, o
chamado lhe parecera alarmantemente oficial.
  - Voc est feliz aqui, minha filha? - perguntou a madre, sorrindo
para ela.
  Havia algo de muito comovente nos olhos azuis de Gabriella, que no
combinavam  com a sua idade e a inocncia que se esperava encontrar ali.
Ela sorria com mais  descontrao agora, mas ainda se podia sentir uma
distncia entre a menina e  aqueles que ela temia pudessem fazer-lhe
algum mal. Mesmo ali, havia momentos em que  Gabriella mantinha uma
atitude clara de defesa. Madre Gregoria tinha percebido  que a menina ia
se confessar com freqncia e se preocupava com a possibilidade de que
ainda  houvesse demnios que a atormentassem, demnios que ainda no
havia partilhado.  Gabriella ainda era extremamente reservada.
  - Voc se sente em casa aqui?
  - Me sinto, madre - respondeu Gabriella com simplicidade, mas seus
olhos  estavam preocupados. - Tem alguma coisa errada? Eu fiz alguma
coisa que no  devia? - Era melhor saber imediatamente que castigo lhe
seria imposto, por que delito e por  quanto tempo. A expectativa de
saber era aterradora.
  - No tenha medo, Gabbie. Voc no fez nada de errado. Por que est
preocupada? - Havia tantas perguntas que gostaria de fazer, mas, mesmo
depois de  seis semanas, ainda no ousaria fazlas. Sabia que era cedo
demais para abord-la; talvez  sempre fosse. Gabriella tinha direito a
suas dores particulares e a seus  segredos, mesmo com aquela idade.
  - Fiquei com medo de que a senhora estivesse zangada comigo. Quando a
irm  Mary Margaret foi me buscar, ela disse que queria me ver no
escritrio, e eu  pensei...
  - Eu s queria falar com voc sobre a sua me.
  Um frmito de medo instantaneamente percorreu o seu corpo. A simples
meno   me enchia a menina de pavor, embora soubesse que a veria em
breve e, de um modo  ou de outro, sentisse saudades dela. Gabriella
vinha pedindo sempre a Deus para pr  um fim no dio que guardava, e j
havia rezado um sem-fim de avemarias. De  sbito, perguntou-se se o
padre com quem se  confessava teria comentado alguma a seu respeito com
madre Gregoria.
  A sbia mulher viu as sombras que cruzavam o rosto da criana e pde
apenas  imaginar os horrores que representavam.
  - Ela me telefonou ontem. Da Califrnia.
  -  onde fica Reno?
  - No. - Ela sorriu. - Vamos ter que melhorar sua geografia. Reno  em
Nevada.  A Califrnia  outro estado.
  Gabriella parecia confusa
  - Mas no era para ela estar em Reno?
  -  onde estava. Ela se divorciou e foi para a Califrnia. Disse que
agora  est em San Francisco.
  - E onde Frank mora - explicou Gabriella.
  Mas a freira j sabia. Havia sido uma conversa bastante longa, e madre
 Gregoria insistira em que Eloise deveria, ela prpria, falar com a
filha, mas a me tinha  sido enftica: preferia que a madre superiora o
fizesse.
  - Parece que... - Respirou fundo, querendo escolher as palavras certas
para  no chocar demais a menina. - Parece que sua me e Frank, que acho
que voc j conhece... - Sorriu afetuosamente para a criana, procurando
sinais de  desconfiana ou desconforto,  mas at ali nada via, alm da
expresso apavorada inicial. - Sua me e Frank vo  se casar amanh.
  - Ah - foi a resposta de Gabriella, parecendo, a princpio,
indiferente e, depois, alarmada. No havia trocado mais de dez palavras
com  Frank, e ele parecia sempre a ignorar. E agora a me ia se casar
com aquele estranho. S Deus saberia por onde o pai andava. Ela  ainda
achava que um dia receberia notcias dele, mas j fazia um bom tempo que
ele tinha ido embora. E Gabriella experimentou uma sensao de pesar ao
se dar conta  novamente de que estava sozinha.
  Agora vinha a parte difcil, porm, o resto da histria que a me da
criana  confiara a ela para que contasse  filha nica.
  - Eles vo morar em San Francisco.
  Gabriella sentiu uma breve pontada de desapontamento ao ouvir aquelas
palavras, que significavam que ela teria de ir morar num lugar que no
conhecia.  E tambm  que novamente teria de lutar por sua vida, brigando
a todo momento, a toda hora,  pela  sobrevivncia. Significavam um novo
colgio e novos amigos, ou talvez nenhum.  Significavam ainda viver com
um desconhecido e com a me que tanto temia quanto  odiava.  E deixar
aquelas mulheres que tinha aprendido a amar no convento.
  - Quando  que eu tenho de ir para l? -perguntou Gabriella,
bruscamente.
  Madre Gregoria podia ver que algo havia morrido outra vez nos olhos da
menina.  Ali estava o mesmo olhar daquela primeira vez em que Gabriella
entrara em seu escritrio.
  Houve outra pausa longa e silenciosa, enquanto a madre superiora
pesava as  palavras, cautelosamente, sem deixar de fitar os olhos de
Gabriella.
  - A sua me acha que voc ficaria mais feliz aqui conosco, Gabbie. -
Era a  maneira mais amvel de expressar o que a me de fato tinha dito,
que no  agentava mais a filha e que no queria comprometer a prpria
felicidade ou sobrecarregar o  novo marido com uma filha que ela mesma
jamais quisera. Havia sido cruelmente  franca ao telefone, ao propor
pagar pela hospedagem da menina pelo tempo que pudessem  ficar com ela.
Para sempre, se possvel, foi o que interpretou a freira, e no  estava
errada. Eloise no tinha nenhum plano de levar a menina para San
Francisco e  parecia no sentir qualquer remorso em relao a isso.
Quando a madre perguntou  sobre o pai da criana e a possibilidade de
Gabriella ficar com ele, Eloise lhe  assegurou que ele tambm no a
queria. Madre Gregoria sabia que esta era a  tristeza que percebia nos
olhos da criana, ou pelo menos parte dela. Ela prpria tinha
conscincia de que os pais no a amavam nem a queriam.
  - A minha me no me quer, no ? - perguntou Gabriella, de repente.
  Em seus olhos havia, ao mesmo tempo, vestgios de dor e alivio, o que
deixou  confusa a mulher que a observava.
  -Voc no pode encarar a situao dessa maneira, Gabriella. Ela est
confusa.  Ainda est muito abalada por seu pai t-las abandonado e agora
tem a chance de  comear uma vida nova. Acho que ela quer ter certeza de
que esta vai ser boa, antes de  levar voc.  uma atitude muito sensata
e, embora seja difcil ficar longe dela,   uma demonstrao de amor de
sua parte deix-la com pessoas que gostam de voc e  querem o seu bem.
  Era um pensamento bonito, mas Gabriella sabia que tudo era muito mais
complexo  e compreendia as sutilezas melhor do que deveria.
  - Meus pais se detestam e ela diz que nunca me amaram.
  - Eu no acredito nisso. E voc? - perguntou a madre, delicadamente,
rezando  para que Gabriella no acreditasse, mas temendo que os pais
tivessem sido sinceros demais com ela, assim como Eloise  fora ao
telefone no dia anterior. No havia deixado dvida ao afirmar: "No a
quero comigo." Madre Gregoria cortaria fora a prpria lngua antes de
repetir aquelas  palavras para Gabriella.
  - Eu acho que o meu pai me amava... um pouco... ele nunca... nunca fez
nada  para... - Seus olhos encheram-se de lgrimas ao lembrar-se de
todas as vezes em  que  havia ficado parado  porta, olhando, impotente,
ou escutado seus gritos no quarto ao  lado, enquanto a me a espancava.
Como podia t-la amado? E tinha ido embora,  no tinha? Jamais olhou
para trs, escreveu ou telefonou. Era difcil acreditar que  ainda a
amasse, se  que um dia a amara, o que fazia muito tempo ela duvidava. A
me agora estava fazendo o  mesmo. De certa forma, Gabriella sentia-se
feliz. Aquilo queria dizer que no  haveria mais surras, que no
precisaria se esconder, rezar, implorar, ir para o hospital por ter sido
violentamente  espancada e esperar pelo momento em que a me por fim a
mataria. Isso terminara.  No entanto, significava tambm que teria de
encarar tudo que a me jamais havia sentido por  ela, e que nunca
sentiria. Apesar das palavras doces da freira, Gabriella sabia  que a
me no voltaria. A guerra tinha acabado. Mas o sonho de um dia ser
amada pela  me, de fazer as coisas certas, de conquistar o seu amor,
tambm morreu com ela.
  - Ela no vai voltar nunca mais, no ? - Os olhos de Gabriella
estavam fixos  nos da madre superiora e eram to diretos e claros, a
pergunta que havia neles  to intensa, que a freira sabia que no podia
mentir para ela.
  - No sei, Gabriella. E no acho que ela saiba. Talvez venha a saber
um dia,  mas pode ser que esse dia demore a chegar. - Era o mais honesta
que podia ser,  sem  lhe dizer toda a verdade. Basicamente, a menina
havia sido abandonada pelos pais e,  independente do que madre Gregoria
dissesse nesse momento, Gabriella o sabia.
  - Eu no acho que ela volte... igual ao meu pai. Mame falou que ele
vai se  casar com outra mulher e que tem outras filhas.
  - Mas isso no vai fazer com que ame voc menos. - No podia negar,
entretanto, que ele jamais havia procurado a filha, e a madre suspeitava
que  tampouco Eloise manteria contato com Gabriella. Eram pessoas
desprezveis, e ficava difcil  entender como podiam abandonar uma
criana como essa. Mas madre Gregoria sabia que isso acontecia, tinha
visto antes. Havia chorado por crianas como Gabriella. Sentia- se
feliz, porm, por estarem ali para ajud-la. Talvez fosse esse o modo de
Deus expressar a Sua vontade. Talvez seu lugar fosse ali com as freiras
e, com o  tempo, ela prpra O ouviria e, com todo cuidado, a madre
exps esse seu  pensamento:
  - Pode ser que um dia voc decida ficar conosco, Gabriella. Quando
tiver  crescido. Talvez essa tenha sido a maneira de o Senhor traz-la
para ns.
  - A senhora quer dizer... como Julie? - Gabriella parecia perplexa com
a  sugesto de madre Gregoria. No podia nem imaginar ser uma freira
como as  outras. Eram  muito boas, e Gabriella, malvada demais; s que
elas no sabiam. Ainda tentava  absorver o choque de saber que a me se
mudara para San Francisco e a  abandonara. No pde deixar de se
perguntar se ela j no saberia de tudo quando a deixara ali.  Porm, ao
contrrio da ltima vez em que vira o pai, Gabriella no havia
percebido nem um pouco da ternura, do pesar ou do arrependimento que
compreendera mais tarde, ou pensar naquele ltimo encontro. No houvera
nada disso quando a me a deixara no Convento de So Mateus. Como de
costume, foram apenas ameaas e raiva, alm  da pressa em deix-la.
  - Um dia voc vai saber, Gabbie, se tem a vocao. Deve ouvir com
muita, muita  ateno. Se tiver, voc vai saber com toda clareza. Deus
fala conosco o mais  alto possvel, para que O escutemos.
  - Nem sempre eu ouo as coisas - disse Gabriella, com um sorrisinho
tmido, e  a madre superiora riu, suavemente.
  - Acho que ouve tudo o que precisa. - E ento seus olhos se
entristeceram ao  olhar para a menina. Ela havia recebido bem a notcia,
mas era uma coisa difcil de lhe dizer; ainda mais complicado era viver
sabendo que os pais no a queriam, que era o que tudo aquilo queria
dizer para  Gabriella. Impossvel entender como pessoas, principalmente
na situao dos pais dela,  podiam fazer uma coisa dessas. Mas no era a
primeira vez que acontecia. E  talvez, de uma maneira que nenhum deles
podia entender, aquilo fosse uma bno.
  Apesar das emoes confusas que experimentava, Gabriella sabia disso.
No chorou nem uma nica vez quando madre Gregoria lhe contou. S sentiu
um frio na boca do estmago quando se deu conta de que talvez nunca mais
voltasse a ver os dois. Era uma coisa difcil de entender e, at certo
ponto, Gabriella no compreendia.
  - Voc  uma menininha muito forte - disse a madre superiora com um
tom  misterioso.
  Como resposta, Gabriella balanou a cabea negativamente. No era,
sabia que  no, e se perguntava por que as pessoas estavam  sempre
dizendo isso a ela. O pai tinha lhe dito a mesma coisa na noite em que
partira. Disse a ela como era forte. Mas ela no se sentia forte.
Sentia-se muito sozinha e, na maior parte do tempo, bastante  assustada.
Mesmo agora, tinha medo. E se no pudesse ficar ali? ; Para onde  iria?
Quem cuidaria dela? Tudo o que queria era saber que tinha um lugar onde
pudesse ficar para sempre; um lugar onde no tivesse que se esconder,
onde estaria a salvo e ningum a pudesse machucar  ou abandonar.
  Madre Gregoria entendeu isso. Ela deu a volta  escrivaninha, como
tinha feito da outra vez, e silenciosamente abraou aquela criana to
corajosa, to  forte, to digna. Mas, ao abra-la, a freira pde
senti-la tremendo. Gabriella  no soluou dessa vez, nem implorou ou
esbravejou contra o seu destino, mas se  agarrou com fora  unica
pessoa que lhe havia oferecido amor e conforto, e uma  lgrima solitria
escorreu pelo seu rosto no momento em que levantou o rosto para a
mulher mais velha, com algo de to terrvel e intenso naqueles olhos,
que a  freira quase estremeceu.
  - No me abandone - sussurrou Gabriella num tom quase inaudvel. - No
me  mande embora... - Lentamente outra lgrima veio juntar-se quela
primeira,  seguida por mais duas. Porm, ela mantinha a dignidade,
abraada  mulher que agora lhe oferecia tudo o que  tinha.
  - No vou abandon-la, Gabbie - disse a madre com suavidade, querendo
lhe dar  mais, mas sem saber ao certo como. Voc nunca vai ter de sair
daqui. Esta  a  sua  casa agora.
  Gabriella fez que sim com a cabea, enterrando o rosto no hbito preto
que j  lhe era to familiar.
  - Eu te amo - sussurrou, e madre Gregoria ficou abraada com ela,
enquanto  lgrimas enchiam os seus prprios olhos.
  - Tambm amo voc, Gabbie... todas ns a amamos.
  Naquela tarde, ficaram sentadas de mos dadas por um tempo,
conversando sobre  a me de Gabriella e por que esta decidira deixar a
filha ali. Mas essa atitude no fazia o menor sentido para  nenhuma das
duas, por mais razoveis que fossem as palavras e, por fim, ambas
chegaram  concluso de que no importava. J estava feito. E Gabbie
tinha um lar ali.  Depois, madre Gregoria acompanhou-a at o quarto. Era
tarde demais para a aula,  e ela a deixou ali com seus pensamentos, suas
lembranas e vises da me... os lugares  que tinha usado como
esconderijo... as vezes em que no havia sido capaz de se  esconder... a
brutalidade... a dor... os hematomas... lembrou-se de tudo e sentiu-se
contente porque jamais aconteceria novamente. Mas era difcil acreditar
que  tivesse acabado.
  O que mais a deixaria feliz, porm, era uma outra chance, uma chance
para ser  melhor do que tinha sido, de fazer as coisas certas dessa vez
e conquistar o  amor  da me. Teria adorado faz-la feliz, em vez de
deix-la furiosa. Mas a aborrecera  tanto e fora to m, que a me
tivera de abandon-la. Ambos tiveram. Gabriella  no podia contar isso a
madre Gregoria. No queria que ela soubesse como era  malvada, como era
terrvel e como merecia tudo aquilo. E sabendo como havia sido  m e o
quanto os pais a tinham odiado, era impossvel acreditar que algum um
dia  viesse a quer-la. As freiras a queriam. Talvez Deus. Mas Ele sabia
como era m,  como estava errada e o quanto odiava os pais s vezes...
Ele tambm sabia, deitada  sozinha no quarto, comeando a soluar, o
quanto ela sentia saudades deles...  nunca mais os veria... Gabriella
sabia disso. Ela os havia afastado... com sua  maldade. No podia
esconder-se da verdade agora, nem do fato de que jamais a haviam amado.
Como   que poderiam?, perguntava-se ela, deitada ali, chorando... como
 que  poderiam?...  como algum poderia? Era seu destino, sua sina, sua
sentena... o castigo por ter  sido m por tanto tempo... sua maldio.
E ela acreditava naquilo do fundo do  corao.
  Nesse momento, deitada na cama, ela soube no s que eles nunca a
haviam  amado, como pessoa alguma poderia am-la, se viesse a conhec-la
de fato. Nem um  milho de ave-marias, confisses e rosrios poderiam
mudar isso.
  Passou o resto do dia assim, pensando no que madre Gregoria dissera...
e na  me na Califrnia. Naquela noite jantou em silncio. Depois, foi
se confessar,  como  de costume, e voltou para o quarto com Julie e
Natalie. Deitou-se antes das duas e  escondeu-se na parte inferior da
cama, como sempre, pensando em tudo aquilo.  Seus pais estavam se
casando com outras pessoas, o pai tinha "novas" filhas para
substitu-la... a me no queria mais nenhum filho, ou talvez quisesse
agora...  filhos bonzinhos... no cruis como ela... Tinham vida nova,
novos companheiros... e  Gabriella tinha de viver sabendo por que a
haviam abandonado... reconhecendo que  tudo teria sido diferente se
tivesse sido boa. Tinha a vida pela frente para reparar  as coisas, para
entregar-se a Deus e aos outros, expiar seus pecados,  arrepender-se de
tudo o que havia feito e perdoar o que fizeram a ela. O padre
dissera-lhe no  confessionrio que agora a responsabilidade era dela e
que tinha de se empenhar, para o resto da vida, em perdoar. Repetiu
aquelas palavras vrias vezes para si  mesma, enquanto mergulhava no
sono... perdo... perdo... tinha de perdo-los... era tudo culpa sua...
tinha de perdo-los... perdoar... e, no meio da noite,  todos ouviram
seus berros... os gritos repercutindo pelos corredores longos e
escuros, ecoando pelas paredes... Foi preciso trs para acord-la e
finalmente tiveram de  chamar madre Gregoria para acalm-la... as
lembranas dos espancamentos haviam sido claras e reais demais; ela pde
sentir outra vez o sangue escorrendo da  cabea, a dor avassaladora no
ouvido, as costelas se partindo, a dor nos membros  tantas vezes
chutados... e soube que jamais esqueceria. Ao aninhar-se, soluando, nos
braos da madre superiora, tudo o que conseguia dizer,  repetidamente,
era "Tenho de perdoar... tenho de perdoar..." Madre Gregoria  ficou
abraada  menina  at ela dormir novamente e ficou observando-a em
silncio at enfim ver paz em seu rostinho. Ela compreendia melhor do
que ningum, ou pensava  compreender, o quanto Gabriella precisava
perdoar os pais. E sabia, assim como  Gabriella, que precisaria de uma
vida inteira para faz-lo.

Captulo 7

  Os quatro anos que se seguiram foram de paz para Gabriella, vivendo na
 segurana tranqila do So Mateus. Continuava estudando com as freiras.
Julie  tornou-se  novia, e sua irm, Natalie, ganhou uma bolsa de
estudos para a universidade. A essa  altura, no s era fascinada por
Elvis, como tambm apaixonada pelos quatro  Beatles.
  Escrevia freqentemente para as freiras, do norte do estado de Nova
York, onde  estava feliz da vida, estudando, namorando e fazendo todas
as coisas, ou quase  todas, com as quais sonhara enquanto estava no So
Mateus.
  Duas outras hspedes tinham vindo para o convento; duas garotinhas do
Laos,  enviadas por uma das irms missionrias. Eram muito mais novas
que Gabriella,  mas dividiam o quarto com ela, como um dia ela dividira
com Natalie e Julie.
  Em quatro anos Gabriella nunca teve notcias da me, mas ainda pensava
nela de  vez em quando, assim como no pai. Tudo o que sabia dele  que
tinha ido para  Boston e pretendia casar-se com uma mulher que tinha
duas flhas. No fazia idia do  que lhe havia acontecido depois e no
tinha como procurar saber. A me ainda  vivia em San Francsco, e todos
os meses chegava um cheque para madre Gregoria,  rigorosamente em dia,
pagando pela hospedagem da menina. Entretanto, jamais  houve uma carta
ou bilhete que o acompanhasse, perguntando se a filha estava bem e
feliz. No chegavam cartes ou presentes no aniversrio ou no Natal. A
vida de Gabriella concentrava-se completamente no convento, e as freiras
a  adoravam.
  Trabalhava mais pesado do que a maioria, esfregando o cho, as mesas,
os  banheiros, fazendo tarefas para as quais mesmo as freiras torciam o
nariz. Alm  disso,  era brilhante na escola. Ainda escrevia histrias e
poesia, e todas as professoras  concordavam que ela possua talento de
verdade.
  Gabriella ainda dormia na parte inferior da cama, tinha pesadelos com
muita  freqncia e jamais os explicava. Madre Gregoria a observava 
distncia, um  pouco  preocupada com o que via. A dor nos olhos de
Gabriella era menos intensa agora. Ficara  ainda mais bonita, embora ela
prpria no percebesse ou tivesse qualquer  interesse em sua aparncia.
Vivia num mundo sem vaidades. No havia espelhos no convento, e  ela
usava as roupas que as meninas que chegavam como postulantes
descartavam, e  Gabriella parecia no pensar no assunto. Como estipulara
como seu objetivo aos dez anos, a  sua era uma vida de sacrifcios e de
ajuda aos outros. Mas ainda insistia,  quando s vezes o assunto era
trazido  baila, que no tinha a vocao. Quando se  comparava a meninas
como Julie ou s que chegavam de toda parte, podia ver a  diferena
entre elas. As outras eram to seguras, certas, firmes em sua devoo ao
chamado. Tudo o que Gabriella podia ver em si mesma eram os defeitos, os
deslizes, os erros que cometia, ou nas ocasies em que insistia ter
machucado algum  irrefletidamente. Na verdade, sua humildade era bem
maior do que a de algumas  que ostentavam a vocao como um trofu. E
madre Gregoria tentava, ano aps ano, fazer com que  Gabriella
enxergasse isso. Esta, porm, estava to absorta em negar suas  virtudes
e enfatizar suas imperfeies que no conseguia imaginar-se como freira
no  Convento de So Mateus, tampouco concebia a idia de um dia sair
dali. Levava  uma vida completamente solitria, entre o amor e a
proteo das freiras, sem os quais tinha certeza de  que morreria.
  - Acho que vou ter de ficar aqui e esfregar o cho para o resto da
vida -  brincou com a irm Lizzie, no seu aniversrio de quinze anos. -
 um trabalho  que mais ningum quer fazer, e eu gosto. Me d tempo para
pensar nas minhas histrias.
  - Voc poderia escrever suas histrias mesmo se ingressasse na Ordem,
Gabbie -  insistia a irm Lizzie, assim como tambm as outras. Todas no
convento sabiam  como era forte sua vocao. Gabriella era a nica que
no percebia. E s vezes apenas  sorriam e ignoravam as bobagens que
dizia sobre o assunto. Sabiam que ela  acabaria por ouvir o chamado. Era
impossvel imaginar o contrrio, mas ela ainda  precisava amadurecer
bastante nesse meio tempo.
  Aos dezesseis anos, tinha concludo os estudos correspondentes 
escola  secundria, e, apesar dos esforos das freiras para mant-la ali
com elas,  tinham de admitir que estava pronta para a universidade.
Gabriella teimava em dizer que no queria  ir. Era feliz ali, com as
irms, fazendo pequenas coisas por elas: alguns  servios simples e
gestos amveis dos quais se recusava a colher os louros. Com o talento
literrio que possua, entretanto, madre Gregoria se recusava a permitir
que  abandonasse os estudos. As histrias pungentes que escrevia
mostravam percepo, talento e  perspiccia extraordinrios. Eram
repletas de sentimento e de uma ternura que  tocavam o corao; mas
tambm havia nelas uma expresso de fora. O estilo de seus  textos era
o de uma pessoa bem mais velha e certamente no o de algum que  passara
toda a adolescncia num convento.
  - Ento o que vamos fazer em relao aos estudos? - perguntou madre
Gregoria  quando Gabriella completou dezesseis anos depois de conversar
com todas as suas professoras, que, unanimemente, haviam  concordado que
a menina estava pronta para a universidade e que seria um crime  ela no
continuar os estudos.
  - Vamos esquec-los - respondeu Gabriella, resoluta. Tinha um medo
terrvel do  mundo l fora e nenhum interesse em se aventurar de volta a
uma vida que tanto a  fizera sofrer. Jamais queria deixar o abrigo
seguro do So Mateus, nem por um nico  momento. Provocavam-na dizendo
que se parecia com aquelas freiras velhas que  reclamavam todas as vezes
que tinham de deixar o convento para ir ao mdico ou ao dentista. As
mais jovens ainda gostavam de sair, de  tempos em tempos, para visitar
os parentes, ir  biblioteca ou ao cinema. Mas  no Gabbie. Preferia
sentar-se no quarto e escrever suas histrias.
  - No estamos aqui para nos esquivarmos ao mundo, Gabriella - replicou
a madre  com firmeza. - Estamos aqui para servir a Deus, oferecendo a
Ele nossos  talentos, levando-os a um mundo que precisa daquilo que
temos para dar, sem priv-lo de  nossa presena porque estamos muito
apavoradas para nos arriscarmos a sair do  convento. Pense nas irms que
trabalham todos os dias no Hospital da Misericrdia. E se  resolvessem
ficar no quarto, sonhando acordadas, porque tm muito medo de tratar
dos pacientes homens? A nossa no  uma vida de covardia, Gabriella, mas
de servio.  - Deparou-se com olhos cheios de apreenso e de resistncia
silenciosa.
  Gabriella no tinha a inteno de deixar o convento para ir 
universidade.  Natalie estava cursando o penltimo ano em Ithaca, mas
mesmo suas cartas  entusisticas, ou a possibilidade de juntar-se a ela,
em nada contribua para convencer  Gabriella.
  - Eu no vou. - Pela primeira vez em todos os anos que se encontrava
ali,  opunha-se  madre superiora, agindo com uma teimosia
surpreendente.
  - Voc no vai ter escolha quando chegar a hora - disse madre
Gregoria, os  lbios apertados numa linha fina. No queria for-la, mas
se essa fosse a nica  maneira de faz-la aceitar, estava disposta a
isso. - Voc faz parte dessa comunidade e  vai fazer o que eu mandar.
No tem idade para tomar essas decises, Gabriella, e est sendo muito
insensata. - Ento, encerrou o assunto, irritada com a  resistncia da
jovem.
  Madre Gregoria sabia que era por medo de ingressar novamente no mundo,
mas no permitiria que desistisse de tudo.
  Gabriella sabia que essa no era uma atitude racional, mas no
recuaria um  centmetro sequer. Sentia-se segura ali e no queria tomar
parte em um mundo que  um  dia lhe causara tanta dor. Em todos os
sentidos, fsica e espiritualmente, aos  dezesseis anos, ela se retirara
desse mundo e pretendia continuar reclusa no So  Mateus.
  Madre Gregoria mandou que as professoras a inscrevessem como candidata
  Universidade de Columbia, e elas insistiram com Gabriella que
preenchesse os  formulrios.
  Foi uma batalha considervel, mas, por fim, Gabriella o fez,
reclamando com  amargura e jurando que no iria. Naturalmente, foi
aceita e recebeu uma bolsa de  estudos integral, o que fez com que todas
vibrassem,  exceo da prpria Gabbie. O  motivo por que escolheram a
Columbia, alm do prestgio bvio da instituio,  era o fato de que
poderia freqentar as aulas e continuar morando no convento.
  - E agora? - perguntou, infeliz, quando madre Gregoria lhe contou da
bolsa.  Era junho, e ela estava com quase dezessete anos. Pela primeira
vez, agia como  uma  criancinha mimada.
  - Voc tem at setembro para se conformar, minha filha. Pode morar
aqui  enquanto estiver estudando. Mas precisa ir  universidade.
  - E se eu no for? - perguntou, com rara agressividade, o que fez com
que a  madre superiora quisesse desistir, frustrada. - Enfileiramos toda
a comunidade  no dia primeiro de setembro e espancamos voc. E acredite,
vai ter merecido. Est sendo  muito, muito ingrata. Essa bolsa de
estudos  maravilhosa, e voc pode realizar  coisas importantes
escrevendo.
  Aquilo soava absurdo a Gabbie.
  - Posso realizar essas mesmas coisas aqui - retrucou, sombriamente, o
medo  aterrador mais evidente do que nunca em seus olhos, embora a madre
superiora no  tivesse certeza do que Gabriella temia de forma to
desesperada.
  - Voc est querendo me dizer que  to inteligente, brilhante e
talentosa que  no tem nada para aprender na universidade? Ora, ora,
temos de trabalhar nosso  senso de humildade, no ? Talvez um pouquinho
de silncio e meditao esteja na ordem  do dia.
  Gabriella teve a gentileza de rir com o comentrio e o assunto voltou
a ser  abordado vrias vezes nos trs meses seguintes, sempre em tom de
discusso. No  final, entretanto, com a persistncia das duzentas
freiras, Gabriella acabou  ingressando na universidade em setembro. E,
contra a prpria vontade, uma semana  depois,  admitiu, relutante, que
estava gostando. Em trs meses, no estava apenas  gostando, mas sim
adorando.
  Durante os quatro anos, no faltou a uma aula sequer. Fez todas as
cadeiras de  criao literria que podia, entregou-se s aulas de
literatura e bebeu cada  palavra dos professores preferidos. Mas
raramente falava quando no perguntada e  mantinha-se distante dos
colegas de classe. Evitava tanto os rapazes quanto as  moas, assistia
s aulas com ateno e, assim que acabavam, corria de volta para o
convento. Do  ponto de vista social, ao menos, a experincia foi um
desperdcio absoluto.  Escrevia dissertaes incessantemente, assumia
projetos extras e, no ltimo ano, comeou  uma novela. Ao trmino,
graduou-se com honra ao mrito. As irms no convento  tiraram a sorte
para ver quem iria  formatura. As vinte que ganharam foram com madre
Gregoria, como mes orgulhosas. Gabriella tinha quase vinte e um anos
quando se  formou e voltou para casa triunfante em uma das duas vans
alugadas. Estavam todas  emcionadas com os louvores recebidos pela
jovem, mas nem de longe to surpresas  quanto ela prpria. Os anos que
passara na Columbia eram uma grande vitria, e as  freiras nunca
duvidaram de que um dia Gabriella escreveria um livro e teria  sucesso,
embora ela mesma ainda no acreditasse nisso. Os prprios professores
disseram-lhe que  era muito insegura. Na opinio deles, ela era dotada
de muito talento.
  Depois da formatura, quando passeava pelo jardim com madre Gregoria,
numa  noite quente de junho, Gabriella falou, hesitante, sobre o seu
futuro como  escritora.
  - Ainda no sei se sou capaz - admitiu, como sempre.
  A culpa e a humildade da infncia haviam se transformado numa imensa
insegurana na idade adulta. A madre superiora tinha plena conscincia
disso e com freqncia discutia o assunto com ela.
  -  claro que . Olhe s para a novela que voc escreveu como trabalho
de  final de curso. Por que acha que se formou com honra ao mrito?
  - Por causa de todas vocs. Eles no queriam constrang-las; alm
disso, o  reitor  catlico. -At mesmo ela achou o argumento ridculo.
  - Na verdade, ele no  catlico.  judeu. E voc sabe perfeitamente
por que  lhe prestaram todas as homenagens. No foi por caridade. Voc
mereceu. A questo    o que fazer agora. Quer tentar escrever um livro?
Fazer algum tipo de trabalho  free lance, arrumar um emprego numa
revista ou num jornal? So tantos os campos  em que voc pode atuar.
Pode at dar aulas no Colgio Santo Estvo e trabalhar no seu  livro
nas horas vagas. - Queria ajud-la a dar os primeiros passos na
carreira.  Sabia melhor do que ningum que Gabriella precisava de um bom
empurro nesse sentido.
  - Eu poderia continuar morando aqui se fizesse uma dessas coisas?...
Qualquer  uma?... todas elas? - perguntou Gabriella, ansiosa.
  Madre Gregoria franziu a testa, consternada. A freira ainda se
assombrava, s  vezes, ao ver como Gabriella estava determinada em
permanecer isolada da vida  mundana. Jamais se permitira o menor
gostinho de liberdade. No tinha feito nenhum amigo,  nem sado com
rapazes. De certa maneira, madre Gregoria sabia que Gabriella  precisava
experimentar um pouco mais do mundo l fora antes de cenunciar a ele por
completo.
  A simples idia de abandonar o convento e de no fazer mais parte dele
a teria  matado, madre Gregoria sabia.
  - Posso pagar minha hospedagem com o dinheiro que ganhar - disse,
parecendo  determinada. - Se ganhar algum, o que pode levar um tempo. -
Estava preocupada  havia meses, temendo essa conversa. Havia morado no
So Mateus por mais de dez anos,  mais da metade de sua vida, e no
podia imaginar deix-lo; no tinha nem mesmo  vontade de pensar em tal
hiptese. Entretanto, j h algum tempo vinha acalentando uma  idia e
esperava pela hora certa de falar com madre Gregoria. O momento era
esse.
  - Respondendo  sua pergunta, Gabriella,  claro que pode continuar
morando  aqui. E pode contribuir com um pouco quando tiver condies.
Mas j contribui  mais  do que o suficiente com o trabalho que faz desde
que chegou. Voc sempre foi como  uma das irms. - Os cheques da me
pararam de chegar quando a menina completou  dezoito anos. No houve um
bilhete, uma carta, uma explicao ou um telefonema.  Simplesmente no
vieram mais. Para Eloise Harrison Waterford, ela havia cumprido suas
obrigaes e no  desejava mais nenhum contato com a filha. Esse no
tinha mesmo existido desde o  dia em que a abandonara no convento.
Gabriella havia anos dera-se conta de que o pai  provavelmente no fazia
idia de onde a me a deixara. Mas, por outro lado, ele no tinha
tentado contact-la enquanto ela ainda estava com a me, quando  poderia
t-la encontrado. A verdade  que nenhum deles queria fazer parte de sua
vida.
  Durante os anos na Columbia, Gabbie contara s pessoas que era rf e
que  morava no Convento de So Mateus, embora fosse raro que
perguntassem;  geralmente, eram s os professores. As outras garotas da
turma ficavam irritadas com seu  retraimento e sua timidez. E, embora os
rapazes que conheceu a achassem  atraente, ao primeiro sinal de
interesse por parte deles, Gabriella os rejeitava. Por escolha prpria,
vivia completamente isolada e, mesmo nos anos de universidade, sua vida
social  restringia-se  que partilhava com as freiras no Convento de So
Mateus. Em muitos aspectos, a  vida de Gabriella no fora muito saudvel
para uma menina da sua idade, mas  havia algum tempo madre Gregoria j
via o que estava por vir, embora no quisesse  interferir. Era preciso
que a prpria Gabriella estivesse atenta ao chamado,  como acontecera
com todas as outras. Assim, o que Gabriella disse em seguida no a
surpreendeu.
  - Venho pensando muito ultimamente - comeou, sentindo-se de repente
tmida e  constrangida com a mulher que havia sido uma me para ela, a
nica que conhecera  e amara, desde o pesadelo da sua infncia.
Gabriella raramente tocava neste  assunto, dizendo apenas que tinha sido
bastante infeliz com os pais e que estes  haviam sido "cruis" para ela.
Nunca falava nas surras ou no horror a que sobrevivera.
  Entretanto, e por causa dos pesadelos, e das cicatrizes que a sbia
freira  havia notado aqui e ali ao longo dos anos, madre Gregoria
deduzira muita coisa  sobre  os primeiros anos de sua vida, juntado
algumas peas. Os exames de raios X que  Gabriella precisara fazer
quando tivera bronquite, dois anos antes, haviam  mostrado onde as
costelas tinham sido quebradas repetidamente, e a existncia de uma
pequena  cicatriz prxima ao ouvido falava por si mesma e justificava a
audio s vezes no muito perfeita. A madre superiora  sabia de muita
coisa, sem de fato saber. Gabriella deu um profundo suspiro,  tentando
explicar o que vinha pensando, mas madre Gregoria tinha um
pressentimento sobre  o que ela iria dizer. Agora era a hora.
  - Acho que tenho ouvido coisas, madre... e ando tendo uns sonhos. A
princpio  pensei que fosse minha imaginao, mas parece que esses
sonhos esto ficando  mais  e mais fortes.
  - Que tipo de sonhos? - perguntou madre Gregoria, com interesse.
  - No tenho certeza.  quase como se eu estivesse sendo levada a fazer
uma  coisa da qual nunca pensei ser capaz... ou boa o bastante... No
sei... Eu no  tenho  certeza... - Seus olhos encheram-se de lgrimas
enquanto fitava a mulher que fora sua me e  mentora. - No sei. O que
eu deveria ouvir?
  Madre Gregoria sabia exatamente o que ela estava perguntando. Para
algumas era  muito claro, enquanto para outras, principalmente as que de
fato eram  destinadas, nunca havia a certeza de serem boas o bastante. E
era to prprio de Gabriella  sentir-se insegura, questionar-se e
duvidar de que estivesse realmente ouvindo o  chamado.
  - Deveria ouvir o seu corao, minha filha. Mas, para ouvilo, precisa
acreditar em si mesma o suficiente. No pode ficar duvidando do que ouve
e do  que sabe que est certo. Acho que j sabe disso h muito tempo.
  - Eu achei que sim. - Gabriella suspirou novamente, aliviada com o que
dizia a  madre superiora. Desejara desesperadamente tomar a deciso
certa, mas, na maior  parte do tempo, no se sentia boa o bastante para
dar de si mesma aos outros. Todas  eram muito melhores do que ela. - Eu
estava to certa no ano passado que quase  falei com a senhora durante o
vero, e depois tambm, no Natal. Mas achei que era s  porque eu queria
ouvir. No sabia o que a senhora ia dizer.
  - E agora? - perguntou madre Gregoria com calma, as mos enfiadas nas
mangas  opostas, enquanto continuavam a andar tranqilamente pelo
jardim, durante o  crepsculo. J estava quase escuro. - O que est
querendo dizer, Gabbie? - Queria ouvi-la  dizer as palavras. No
pretendia priv-la desse momento. Era importante  demais em sua vida
para que algum o tirasse dela.
  A voz da menina era quase inaudvel quando pararam de andar e
entreolharam-se.
  - Estou dizendo que gostaria de ingressar na Ordem. Parecia
preocupada, e os  olhos azuis profundos pediam confirmao  mulher que
considerava como me. - A  senhora deixaria?
  - Era uma hora de humildade, generosidade e entrega absoluta. Queria
se  oferecer a Deus e s pessoas que lhe tinham dado tanto: segurana,
liberdade,  amor e conforto. Devia muito a elas. E pretendia
devotar-lhes a prpria vida. Essas  mulheres tinham feito mais que
compens-la pelo que os pais lhe haviam roubado.
  - No depende de mim - disse a madre superiora, suavemente. - Depende
de voc  e de Deus. S estou aqui para ajudla. Mas estava mesmo
esperando que voc  chegasse a essa deciso. Venho observando seu
conflito h dois anos - acrescentou,  afetuosamente.
  - A senhora saba? - Gabriella parecia surpresa ao sorrir para ela e
lhe dar o  brao, enquanto recomeavam a lenta caminhada pelo jardim.
  - Talvez antes de voc mesma.
  - E o que acha? - Pedia uma resposta  mulher como madre superiora da
Ordem em  que queria ingressar.
  - Tem uma turma de postulantes comeando em agosto. Acho que a sua
deciso  ocorreu na hora certa. - Pararam e se fitaram; em seguida,
Gabriella a abraou.
  - Obrigada... por tudo... pela minha vida... a senhora no imagina do
que me  salvou quando vim para c. - Mesmo agora, no conseguia contar a
ela. Ainda era  muito doloroso.
  - Foi o que suspeitei desde o incio. - E ento, porque tambm era
humana, no  pde resistir a lhe fazer uma pergunta que sempre fazia a
si prpria. - Sente  saudades deles? - Era a indagao da me adotiva em
relao aos pais biolgicos, pelos quais a  criana ainda poderia
ansiar.
  -As vezes. Sinto saudades do que eles deveriam ter sido, do que eu
queria que fossem, mas nunca foram. De vez em quando mepergunto onde
esto... como  a vida que levam... se tm outros filhos. Nada
importante. - Mas era, ambas sabiam. -Ainda mais agora - mentiu Gabbie,
mais para si mesma do que para  a mulher que sempre chamara de me. -
Agora eu tenho uma famlia... ou vou ter em agosto.
  - Voc tem uma famlia desde que chegou aqui, Gabbie.
  - Eu sei - respondeu, baixinho, dando-lhe o brao novanente, enquanto
voltavam   casa onde viviam, e onde Gabriella viveria para sempre. Para
ela, era uma deciso importante. Significava que jamais teria de
deix-las ou perd-las. Significava que nunca ceria abandonada. Era tudo
o que queria. A certeza de que  faria parte daquele grupo para sempre.
  - Voc vai ser uma tima freira - sussurrou a madre, sorrindo para
Gabriella.
  - Espero que sim - disse a menina, sorrindo tambm. Parecia
imensamente feliz.  -  tudo o que quero agora.
  As duas atravessaram o corredor de braos dados, e Gabriella sentia
uma onda  de alivio percorr-la. Esta era mesmo sua casa e cempre seria.
  No dia seguinte, quando madre Gregoria contou s outras reiras sobre a
deciso  de Gabbie, na hora do jantar, houve grios de jbilo. Todas
parabenizaram  Gabriella e abraaram-na, disendo-lhe o quanto estavam
felizes e como sempre souberam de sua vocao. Foi uma celebrao de
grandes propores, e, dirigindo-se ao quarto  familiar naquela noite,
teve certeza absoluta de que somente a morte poderia lev-la  dali. Era
tudo o que sempre quisera.
  Dormiu em paz at que vieram os pesadelos, com os sons e terrores de
que ainda  se lembrava to claramente, as lembranas do rosto da me, os
golpes, o dio... o cheiro do hospital... e a viso do pai parado,
impotente, no vo da porta. Tudo voltou,  como semire, enquanto se
encolhia na parte inferior da cama, tentando dormir. Mesmo que no
conseguisse, que as lembranas a assombrasem por toda a eternidade,
sempre que acordasse e corresse os olhos pelo quarto que era o seu lar e
se sentasse na cama, tentando recuperar o  flego, saberia que estava
segura.
  Uma das irms enfiou a cabea no quarto e viu Gabriella l sentada,
parecendo  abalada, depois da aparente realidade do pesadelo. Como quase
sempre, as outras  ouviram os berros. As freiras no se alarmavam como
antes, mas lamentavam pela jovem.
  - Voc est bem? - sussurrou a irm, e Gabriella fez que sim com a
cabea,  sorrindo para ela entre as lgrimas, tentando retornar ao
presente.
  - Sinto muito por t-la acordado. - Mas a essa altura elas j estavam
acostumadas. Gabbie havia tido os mesmos sonhos desde que chegara. Nunca
falava  sobre eles, nunca os explicava a ningum, e as freiras podiam
apenas imaginar os horrores  que a assombravam e como tinha sido sua
vida antes de ir para l. Ali, porm, na  segurana do convento onde
fora deixada, e no qual passaria o resto da vida, sabia que os  demnios
no podiam mais alcan-la. Deitou-se na cama novamente, pensando nos
pais e na pergunta que madre Gregoria lhe fizera na noite anterior, se
ainda sentia  saudades deles. No sentia, embora ainda pensasse nos dois
e, em noites como  essa, se perguntasse por que nunca a tinham amado.
Era realmente m como diziam? Era  culpa deles, ou dela? Foram eles que
fizeram isso com ela, ou seria o contrrio?  Haviam arruinado sua vida,
ou ela a deles? Mesmo agora, no tinha as respostas para  essas
perguntas.

Captulo 8

  Gabriella comeou o postulado no Convento de So Mateus em agosto. Fez
tudo  que sempre havia visto as outras fazerem: abandonou as roupas que
usava, tosou o  cabelo e passou a vestir o hbito simples que usavam at
se tornarem novias, um ano  mais tarde. Sabia que havia uma longa
estrada para percorrer depois desse  primeiro ano: mais dois como
novia, outros dois de aprendizado monstico, at fazerem os  votos
definitivos. Eram ao todo cinco anos. Para ela, assim como para as
outras que comeavam, seria um perodo mais longo, porm mais excitante,
do que a  universidade. Era o momento com que todas haviam sonhado.
  As postulantes eram encarregadas de tarefas interminveis, mas, para
Gabriella, estas no eram nem desagradveis, nem estranhas. Fizera
tantos  trabalhos servis  ao longo dos anos, no convento, que nada lhe
parecia repugnante. Ao contrrio,  submetia-se a todas as humilhaes
impostas com boa vontade e infalivel bom  humor. A formadora das
postulantes, a formadora das novias e madre Gregoria concordavam  que
Gabriella tomara a deciso correta em relao  sua vocao. Havia
escolhido o nome irm Bernadette e, entre as postulantes, era chamada de
irm Bernie.
  Tinha tima convivncia com quase todas as jovens da turma de oito
postulantes, seis das quais demonstravam uma clara admirao pela irm
Bernie. A  oitava era  uma jovem de Vermont, que discordava duramente de
tudo que Gabriella dizia e tentava  lhe causar problemas com as demais.
Disse  formadora das postulantes que  Gabriella era arrogante e que
faltava com o respeito pelas freiras mais velhas. A  formadora explicou
que Gabbie morara no So Mateus durante quase a vda toda e  que,
portanto, sentia-se  vontade ali. Ento a jovem postulante de Vermont
queixou-se de que  Gabriella era ftil e jurou que a tinha visto olhando
para o prprio reflex numa janela, por falta de espelho.
  - Talvez ela estivesse apenas pensando em alguma coisa.
  - Na prpria aparncia - retrucou a jovem, taciturna.
  Era uma moa sem atrativos, que decidira entrar para a Ordem seis
meses depois  de um noivado desfeito. A formadora das postulantes ainda
tinha dvidas a respeito de sua vocao, embora no  tivesse nenhuma em
relao  de Gabriella. Ningum no convento jamais duvidou, por um
momento que fosse. Era evidente que Gabriella estava mais feliz do que
nunca.  Vicejava a olhos vistos com a nova vida no convento. As freiras
que a conheciam  desde a sua ida para o convento ficavam radiantes todas
as vezes em que a viam.
  Naquele ano, Gabriella escreveu uma histria de Natal, com a qual
confeccionou  um livrinho para cada uma das irms, trabalhando nesse
projeto at tarde da  noite, no escritrio de madre Gregoria. Na manh
de Natal, no refeitrio, cada freira  encontrou seu livrinho sobre a
mesa, ao ocupar seu lugar. Era uma histria na  qual Gabriella
trabalhara durante meses e que a formadora das postulantes insistia em
que deveria ser publicada.
  - Ela est se exibindo de novo! - queixou-se mais uma vez a irm Anne,
a jovem  de Vermont, demonstrando pouca generosidade no corao e ainda
menos esprito  natalino. Deixou a mesa e foi para o quarto, jogando no
lixo o livrinho que Gabriella  fizera  mo para ela.
  Depois, naquela tarde, Gabriella foi v-la e tentou explicar que esse
tinha  sido o seu lar por muitos anos e que era difcil no se sentir
exultante por  fazer  parte da Ordem.
  - Voc deve achar que todas aqui morrem de amores por voc s porque a
 conhecem. Pois bem, no  melhor do que nenhuma de ns e, se no
estivesse  sempre to ocupada em se exibir, poderia ser uma freira
melhor. j pensou nisso? - Cuspiu as  palavras no rosto de Gabriella,
subitamente fazendo com que se lembrasse da me.  Ouvir o quanto era
inconveniente e o quanto estava errada atingiu o corao de  Gabriella
como um punhal. Naquela mesma tarde, conversou em particular com madre
Gregoria sobre o assunto.
  - Talvez ela esteja certa. Talvez eu seja arrogante... e fique me
exibindo sem  me dar conta disso.
  A madre superiora tentou lhe explicar o bvio: a jovem freira de
Vermont tinha  cimes.
  Nos trs meses que se seguiram aquilo se tornou uma espcie de
vingana  sagrada. A irm Anne queixava-se sempre de Gabriella e
apontava suas falhas  sempre que  a oportunidade surgia. Aquela situao
tornou-se uma agonia para Gabriella, que  temia constantemente que a
garota visse nela defeitos que de fato tinha e que a  impediriam de
servir a Cristo com verdadeira humildade e a devoo apropriada.
Gabriella  confessava-se com freqncia e comeou a duvidar de sua
vocao. Na primavera,  j estava achando que cometera um erro e que a
garota via imperfeies que eram evidentes  e das quais deveria se
livrar, antes de tomar a deciso fnal de ingressar na  Ordem. Havia
algo to doloroso e familiar no modo como a jovem a perseguia que
mortificava sua prpria alma. Uma noite, no confessionrio, admitiu ao
padre do  outro lado da grade que duvidava seriamente da vocao da qual
um dia estivera to certa.
  - Por que diz isso? - A voz desconhecida parecia surpresa, e Gabriella
se  assustou ao constatar que no estava se confessando com um dos
padres que  conhecia desde a infncia.
  - A irm Anne est sempre me acusando de ser vaidosa, orgulhosa,
arrogante,  presunosa e de ter sempre justificativas para tudo. E
talvez esteja certa. Como  posso ser til a Deus se no consigo
expressar humildade e simplicidade para Lhe  obedecer? E o pior... - ela
enrubesceu no escuro, ao fazer aquela confisso, mas  isso no tinha
mesmo importncia, j que no o conhecia -  que acho que estou
comeando a odi-la.
  Houve um momento de silncio do outro lado, seguido por uma pergunta
feita com  delicadeza. Sua voz era bondosa e, por uma estranha razo,
Gabriella se viu  imaginando como seria a sua aparncia.
  - Voc j odiou algum antes?
  - Meus pais - respondeu ela, sem hesitao.
  - J confessou isso antes? - O padre parecia intrigado, e ela
respondeu que  sim, muitas vezes, por muitos anos, desde que tinha ido
para o So Mateus. - Por  que odiava seus pais?
  - Porque eles me espancavam - replicou Gabriella, simplesmente,
parecendo mais humilde do que ele esperara, e muito mais franca.
  O padre sabia apenas que ela era uma das postulantes, mas essa era
apenas a  segunda vez que vinha ouvir as confisses ali e nada sabia
sobre ela. Todos os  outros padres conheciam Gabriella, menos ele.
  - Na verdade, a minha me  que batia em mim - comeou a explicar. -
Meu pai  apenas permitia... mas quando vim a refletir sobre o assunto
mais tarde, quando  cresci, passei a odi-lo por isso. - Gabriella nunca
tinha sido to franca assim numa  confisso e no sabia exatamente por
que estava sendo agora, a no ser pela  necessidade de limpar sua alma
de tudo, para se livrar dos sentimentos que nutria pela irm  Anne. Fora
atormentada demais pela jovem, mas tinha vergonha por no gostar  dela.
  - J falou aos seus pais a respeito dos seus sentimentos? perguntou o
padre,  parecendo bastante moderno, querendo cicatrizar as feridas e
alivi-la, e no  apenas ouvir a confisso.
  - Nunca mais os vi. Meu pai deixou minha me quando eu tinha nove anos
e nunca  mais o vi. Ele se mudou para Boston e, alguns meses mais tarde,
minha me me  deixou aqui e no voltou mais. Ela me disse que estava
indo passar seis semanas em  Reno, casou-se novamente e concluiu que no
havia lugar para mim em sua vida  nova. Em muitos sentidos, isso foi uma
bno. Se eu tivesse voltado para junto dela, ela  acabaria me matando.
- Fez-se um silncio perplexo do outro lado da grade.
  - Entendo.
  Ela resolveu contar todo o resto e fazer uma confisso completa.
  - A irm Anne est comeando a me fazer lembrar da minha me e talvez
seja por isso que eu a esteja odiando tanto. Ela grita comigo o  tempo
todo e diz que sou m... minha me costumava fazer isso... e eu
acreditava.
  - Voc acredita na irm Anne?
  Os joelhos de Gabriella comeavam a doer por causa da durao da
confisso, e  alm disso fazia um calor terrvel no confessionrio. Era
como ajoelhar-se no  piso superaquecido de uma cabine telefnica, e a
escurido absoluta fazia o calor  parecer ainda maior.
  - Acredita no que ela diz sobre voc, irm? Sobre voc ser m? -
Parecia  profundamente interessado no seu problema.
  - s vezes. Sempre acreditei no que minha me dizia. E de vez em
quando ainda  acredito. Se no tivesse sido m, por que teriam me
abandonado? Os dois. Devia  haver alguma coisa de muito ruim em mim.
  - Ou neles - disse ele, suavemente, numa voz grave, enquanto ela
tentava  imaginar o rosto que a acompanhava. - O pecado  deles, no
seu. Talvez o mesmo  seja verdade em relao  irm Anne, embora eu no
a conhea. Talvez ela esteja com cimes  porque voc parece to segura e
 vontade aqui. Pode ser que simplesmente se  ressinta do fato de voc
ter morado aqui a maior parte da sua vida.
  - E o que eu fao? - perguntou Gabriella, parecendo desesperada, e
dessa vez  ele riu.
  - Diga a ela que pare j ou v buscar as luvas de boxe. Quando eu
estava no  seminrio, lutei com outro seminarista com quem tinha me
desentendido algumas  vezes. Parecia o nico jeito de resolver a
questo.
  - E o que aconteceu? - perguntou ela num sussurro, sorrindo da
confisso pouco  convencional.
  Havia sido mais como uma sesso de terapia. Independentemente de quem
fosse o padre desconhecido, gostava dele e sentia que ele realmente a
ajudara. Parecia ter compaixo, sabedoria e humor.
  - A luta de boxe ajudou? - perguntou, interessada.
  - Na verdade, ajudou. Fiquei com o olho roxo, e ele quase me matou,
mas, de  qualquer forma, nos tornamos grandes amigos depois. Ele ainda
me liga todo Natal.  um padre missionrio no Qunia, onde  cuida dos
leprosos.
  -Talvez a gente possa antecipar o noviciado, e a irm Anne queira ir
lhe fazer  companhia - sussurrou ela.
  Nem na universidade tinha tido conversas como essa, em que brincasse
com os colegas ou professores. O padre com a voz jovem estava  rindo
discretamente.
  - Por que no sugere isso a ela? Nesse meio tempo, reze trs
ave-marias e um  pai-nosso, e faa isso de corao - disse ele,
incisivo, parecendo srio agora  que  j haviam compartilhado da
brincadeira que ela fizera.
  Gabriella estava surpresa com a pouca penitncia imposta pelo padre
antes de  lhe dar a absolvio.
  - O senhor me perdoou com muita facilidade, padre.
  - Est reclamando? - Parecia brincalho novamente.
  - No, s estou surpresa. No recebo uma clemncia assim to leve
desde que  cheguei aqui.
  - Ento merece um descanso, irm. Seja complacente consigo mesma, e
por que  no tenta tirar isso da cabea por um tempo? Me parece que  um
problema mais  dela  do que seu, ou pelo menos deveria ser. No a
confunda com sua me. Ela no  a  mesma pessoa. Nem voc. Ningum pode
atorment-la, a no ser voc mesma. Ame ao  prximo como a si mesma,
irm. Trabalhe isso at a prxima confisso.
  - Obrigada, padre.
  - V com Deus, irm - sussurrou ele.
  Gabriella deixou o confessionrio e foi sentar-se num dos bancos ao
fundo da  capela para cumprir sua penitncia. Pouco depois, ao levantar
a cabea, viu a  irm  Anne dirigir-se ao confessionrio, onde ficou por
um longo tempo, saindo com o rosto  vermelho, como se tivesse chorado.
Gabriella desejou caridosamente que ele no  tivesse sido muito duro com
ela e sentiu-se culpada por ter contado coisas demais a ele.  Mas,
quando parou para conversar com a formadora das postulantes,  sada da
capela, sentia-se melhor do que vinha se sentindo havia muito tempo. As
duas conversaram  to demoradamente sobre uma das freiras mais velhas
que estava muito doente, que Gabriella viu a luz se acender no
confessionrio e o padre a quem se confessara  surgir. Sobressaltou-se
quando o viu. Era alto e atltico, e tinha os ombros largos, bastos
cabelos  louro-acinzentados, quase da mesma cor que os dela. Ele sorriu
to logo viu as  duas freiras conversando.
  - Boa noite, irms - disse, desembaraado, ao parar por um momento
onde  estavam. - Que linda capela vocs tm aqui!
  Olhava ao redor, admirando a igreja de que todas tinham tanto orgulho,
enquanto a formadora das postulantes sorria para ele e  Gabriella
tentava no encar-lo. Havia alguma coisa muito forte e irresistvel
nele.
  Estranhamente, ele lhe trouxe uma vaga lembrana de seu pai, como ela
o vira  em criana, quando acabara de voltar da Coria, embora o padre
fosse mais  atltico  e bonito.
  -  a primeira vez que vem aqui, padre? - perguntou a formadora das
postulantes.
  - Segunda. Estou substituindo o padre OBrian. Ele se encontra numa
licena de  seis meses em Roma, visitando o Vaticano e participando de
um projeto com o  arcebispo. Eu sou o padre Connors, Joe Connors. -
Sorriu para elas.
  - Que maravilha! -A irm mais velha estava impressionada com a viagem
do padre  OBrian ao Vaticano e, por um longo momento, Gabriella nada
disse.
  - Voc  uma das postulantes? - perguntou ele finalmente, e ela fez
que sim  com a cabea, com medo de que pudesse reconhecer sua voz,
depois da longa e  loquaz  confisso.
  Tentava visualiz-lo com o olho roxo, participando de uma luta de boxe
com o  seminarista que havia odiado.
  - Esta  a irm Bernadette - apresentou a formadora das postulantes,
orgulhosa. Ela adorava Gabriella desde que esta era ainda uma criana, e
agora ela era sua  aluna exemplar. Tinha sido uma alegria pessoal para
ela a deciso de Gabriella de  entrar para a Ordem. - Ela mora aqui
desde pequena - explicou a formadora -, e  agora resolveu ingressar na
Ordem. Todas ns temos muito orgulho dela.
  Havia uma pergunta nos olhos do padre, no momento em que estendeu a
mo para  Gabriella, que sorriu ao cumpriment-lo.
  - Prazer em conhec-la, irm. - Ele dirigiu um sorriso afetuoso a
Gabbie, que, sentindo-se um pouco mais relaxada, lhe  sorriu de volta.
  - Obrigada, padre. Acho que ns o prendemos at tarde esta noite. -
Nos olhos  dele, Gabriella pde ver que reconhecera sua voz
imediatamente, mas no fez  qualquer comentrio... "Ah, ento  voc que
odeia a irm Anne" no seria nem um pouco  apropriado, e ela mal
conseguiu reprimir um sorriso ao imagin-lo fazendo essa  observao.
  - Sou dado a confisses longas - admitiu o padre, com um sorriso que
teria  derretido o corao de milhares de mulheres, se as circunstncias
fossem outras.
  Gabriella calculou que ele devia ter uns trinta anos, embora em geral
no  fosse muito boa nesse tipo de avaliao, tendo vivido isolada do
mundo a maior  parte  de sua vida.
  - Mas a penitncias curtas. - Ele sorriu e piscou o olho, e ela
enrubesceu. O  padre sabia exatamente quem ela era, e Gabriella no pde
deixar de rir para  ele.
  -  um alvio ouvir isso.  to constrangedor quando a gente precisa
ficar  ajoelhada uma hora inteira, cumprindo quatrocentos atos de
contrio. E ento  todos ficam sabendo como nos comportamos mal.
Prefiro as penitncias curtas.
  - Vou me lembrar disso. Estarei de volta no fim de semana. Padre
George vai me  substituir nesse meio tempo. Preciso ir a Boston para
falar com o arcebispo.
  - Tenha uma boa viagem, padre - disse a formadora com um sorriso
amvel. Ele  agradeceu e se foi. - Que rapaz simptico! - comentou ela,
espontnea, quando  saam vagarosamente da capela. - Eu no fazia idia
de que padre OBrian tinha ido para  Roma. No fico sabendo mais de nada;
vocs, meninas, me tomam todo o tempo. -  Desejaram-se uma boa-noite, e
Gabriella seguiu lentamente para o dormitrio, esperando no  encontrar
a irm Anne escondida em algum canto do corredor, esperando para
queixarse dela ou censur-la.
  Mas Gabriella no a viu quando subia as escadas, pensando no padre com
quem se  confessara. Ele era com certeza um jovem bonito e inteligente.
Havia feito com que se sentisse muito melhor em relao  hostilidade
que nutria  pela irm Anne. De repente, isso no parecia mais
importante. Pela primeira vez em semanas, Gabriella estava de bom humor
quando se deitou no quarto que dividia com duas outras postulantes.
Felizmente, para ela, a irm  Anne no era uma delas. E nessa noite ela
no teve pesadelos. Estes haviam se  tornado ainda piores ultimamente,
em especial depois que Gabriella percebeu como a irm  Anne a fazia
lembrar de sua me.
  - Boa noite, irm Bernie - disse uma das outras postulantes na
escurido.
  - Boa noite, irm Tommy... Boa noite, irm Agatha... -Adorava estar
com elas,  ser uma delas, vestir o hbito todos os dias. De repente se
deu conta de como  adorava todas e tudo o que faziam, partilhavam e por
que se interessavam. Era o que  sempre quisera ser, em toda sua vida, e
nunca soube. At ento, resistira   idia de entrar para a Ordem, que
agora era toda a sua razo de viver. E, ao adormecer  naquela noite,
percebeu como padre Connors a ajudara, com sua atitude bem- humorada e
atenciosa em relao  sua confisso. Teria de se confessar novamente
com ele.  Estava contente por ele voltar ainda naquela semana. Era muito
mais compreensivo e prestativo do que padre OBrian. De sbito, tudo
parecia estar dando certo, e  ela sorriu enquanto mergulhava num sono
profundo e tranqilo, do qual s  despertou pela manh.

Captulo 9

  O resto da semana voou. As postulantes tinham muitas tarefas a
executar.  Gabriella se oferecera como voluntria para uns trabalhos
extras na horta e  queria plantar muitos legumes e verduras para as
irms, antes do vero. A tarefa proporcionava- lhe tempo e tranqilidade
para pensar e rezar; alm disso, trabalhos manuais sempre a relaxavam. A
noite, depois de fazer suas oraes, tentava escrever um pouco.  Mas
vinha tendo pouqussimo tempo ultimamente, e a irm Anne a desanimara.
Ela  disse que era ftil de sua parte sentirse to orgulhosa do que
escrevia. A verdade   que Gabriella no tinha orgulho, apenas adorava
escrever. Nunca estava  totalmente segura de que algum fosse apreciar
os seus textos; estes eram apenas uma janela  atravs da qual sua alma
podia espreitar, uma estrada em que viajava com  desembarao, sem nunca
pensar a respeito. As outras freiras  que adoravam ler as suas
histrias. Como de costume, a jovem postulante de Vermont estava com
cimes  dela.
  Naquela semana, Gabriella tentou manter-se longe dela e lembrar-se das
 sugestes que padre Connors lhe dera no confessionrio. Ele voltou ao
convento  no final  da semana, conforme o prometido. Celebrou a missa
para todas e ouviu suas  confisses. Ao reconhecer a voz de Gabriella na
escurido, perguntou-lhe,  vontade, como iam  as coisas. Tinha um jeito
tranqilo, afetuoso e cordial que fazia as confisses  parecerem menos
austeras e muito menos assustadoras, embora esse fosse um ritual que
houvesse sempre trazido conforto para Gabriella. Era o nico momento e
lugar em  que sabia que poderia ser perdoada pelos pecados terrveis e
tcitos que lhe haviam sido  atribudos e de que se sentia culpada desde
a infncia. Era uma das raras vezes  em que, nos recantos mais secretos
de sua alma, no se sentia verdadeiramente m.
  No confessionrio, Gabriella lhe assegurou que as coisas estavam
melhores em  relao  irm Anne e que andava rezando bastante por ela.
O padre despediu-se  dela, dando-lhe a penitncia de cinco ave-marias
por uns poucos pecados veniais que  ela confessara, e mais tarde a viu
novamente, quando parou para conversar com as  freiras no caf da manh.
Ele sentou-se  mesa de madre Gregoria e acenou casualmente  para
Gabriella, que lhe retribuiu com um sorriso. Era estranho como ele se
parecia com seu pai. Era mais corpulento e tinha um sorriso mais terno,
mas havia algo  de muito familiar nele. E quando trabalhavam na horta,
um comentrio maldoso da  irm Anne pegou-a de surpresa.
  - Voc j falou  irm Emanuel sobre o padre Connors?
  Irm Emanuel era a formadora das postulantes e, ao erguer os olhos das
mudas  que plantava, Gabriella no podia imaginar o que a irm Anne
estava querendo dizer.
  - Sobre o padre Connors? - perguntou, confusa. - O que tem ele?
  - Vi voc conversando com ele no outro dia, e essa manh, no
refeitrio, voc  o estava paquerando. -A princpio, Gabriella pensou
que ela estivesse brincando.  S podia estar. Aquela acusao no podia
ser sria. Assim, deu uma risada e voltou  ao trabalho, plantando uma
fileira de manjerico.
  - Muito engraado - observou, esquecendo-se logo do comentrio. Quando
a olhou  novamente, entretanto, percebeu um brilho nos olhos da outra
irm que a  desconcertou.
  - Estou falando srio. Deveria confessar o que est acontecendo  irm
 Emanuel.
  - No seja ridcula, irm Anne. - Um tom de irritao insinuou-se na
voz de  Gabriella. A outra tinha sempre uma idia nova com a qual
tortur-la e fazer com  que se sentisse culpada. Dessa vez, pelo menos,
no conseguiu. - S falei com ele  durante a confisso.
  - Est mentindo e sabe disso - disse a jovem postulante de Vermont,
asperamente.
  Era uma garota para quem as coisas no haviam dado muito certo e uma
amarga  decepo a trouxera para o convento. No tinha atrativos, e o
namorado de infncia  desmanchara o noivado uma semana antes do
casamento. Era fcil, agora at mesmo  para Gabbie, ver que tinha um
imenso ressentimento.
  - Eu vi o padre Connors olhando para voc no refeitrio. E se voc no
contar   irm Emanuel, eu conto.
  Gabriella levantou-se e, de p, olhou para a irm Anne com uma raiva
sbita.
  - Voc est falando de um padre, um homem que se entregou a Deus e vem
aqui  celebrar a missa para a gente e ouvir nossas confisses. S pensar
uma coisa  dessas  j deve ser um pecado. Voc no est me insultando,
mas questionando a vocao  dele.
  - Ele  um homem; igualzinho a todos os outros. Eles s pensam em uma
coisa.  Eu sei mais sobre essas coisas do que voc.
  Ela sabia muito bem que Gabriella levara uma vida resguardada,
escondida no Convento de So Mateus nos ltimos dez anos.  Ela, por sua
vez, tinha sido noiva, quase se casara, e o homem que amava havia fugido
com sua melhor amiga do colgio. Sentia-se muito mais experiente em
relao aos  fatos mundanos e era bem mais cnica do que Gabriella, que
ainda possua uma  inocncia rara.
  - O que voc est dizendo e pensando  nojento, e acredito que a irm
Emanuel  v lhe dizer exatamente a mesma coisa. No sei do que  que
est falando, mas eu  nunca falaria nada parecido de um padre. Talvez
seja hora de voc conversar com a irm  Emanuel sobre as coisas em que
anda pensando. Um pouco mais de f e caridade  devem lhe fazer bem. -
Gabriella ainda estava zangada quando voltou a ateno ao  trabalho, e
as duas jovens freiras no trocaram outra palavra pelo resto do dia,
enquanto prosseguiam o trabalho na horta. Por fim, a irm Anne foi para
dentro pr as nesas compridas do refeitrio, e Gabriella ficou na horta
at terninar. Quando  voltou para o quarto para lavar as mos e fazer as
iraes vespertinas, j  recobrara a serenidade e estava com um nimo
melhor. Mas, se tivesse se permitido refletir  sobre o assunto, teria
ficado furiosa outra vez com a irm Anne e suas acusaes em relao ao
padre Connors. Ele era o prprio esprito da devoo crist,  emanava a
ternura e a bondade nas quais todas elas deveriam se spelhar.  Gabriella
no sentia por ele outra coisa que no admirao, e a idia de que a
estivesse  "paquerando" era absolutamente repulsiva.
  Todas passaram o resto do fim de semana tranqilas, e Gabriella no
voltou a  pensar no padre Connors at v-lo no altar, celebrando a missa
para as freiras novamente.
  Depois, o padre foi almoar com elas no jardim. Era Domingo de Ramos,
e  Gabriella ainda carregava as folhas de palmeiras que apanhara na
igreja, quando, casualmente, os dois se encontraram na horta, depois do
almoo.
  - Boa tarde, irm Bernadette. Ouvi dizer que andou ocupada a semana
inteira  plantando verduras e legumes. J sei tambm que tem um talento
especial com ervas e tomates enormes. No se esquea de mandar alguns
para a gente, no Santo Estvo. - Seus olhos eram azuis como o cu de
abril, e eles riam, quando Gabriella olhou para o  padre e sorriu de
modo to inocente quanto ele.
  - Quem lhe disse isso?
  - A irm Emanuel. Disse que voc cultiva as melhores verduras do
convento.
  - Ento  por isso que me deixaram ficar aqui por tanto tempo. Sabia
que tinha  de haver uma razo - disse ela, bem-humorada, enquanto
comeavam a passear pela horta sem um destino especfico.
  - Deve haver outras razes tambm - disse ele, cordialmente.
  Nas poucas vezes em que viera ao So Mateus, notara como as freiras
mais  velhas gostavam de Gabriella. Sabia que desde criana ela fora a
protegida de madre Gregoria e, enquanto  caminhavam vagarosamente em
direo  parte da horta onde Gabriella tinha plantado suas  verduras,
para que ele pudesse ver o que ela vinha dizendo, era fcil ver por que
a jovem  significava tanto para elas. Havia nela uma graa e serenidade
que iam alm de sua aparncia e de sua  postura. Gabriella possua uma
elegncia natural, e tambm uma delicadeza e uma  amabilidade tranqilas
que tocavam todos  sua volta. Ficara muito bonita nos anos que  passara
ali, mas no tinha a menor conscincia disso. Sua aparncia era algo em
que jamais pensava. Porm, mesmo como padre, era fcil admir-la. Era
como olhar um quadro  valioso ou uma esttua encantadora, quase como uma
obra de arte que se quer  ficar contemplando. Mas o que se via de fato
era uma luz que brilhava nela com  intensidade. A jovem parecia
iluminada com uma energia que o padre achava  irresistvel, e ento ele
disse a si mesmo que era a fora de sua vocao que acentuava sua
beleza.
  Gabriella lhe mostrou o que fizera naquela semana, explicando a grande
 variedade de verduras, legumes e ervas que cultivava para o convento.
  - Posso plantar mais, se o senhor quiser, embora a gente v ter o
bastante  para dividir com vocs no prximo vero, se eu conseguir
impedir que as freiras  fiquem muito entusiasmadas e colham tudo antes
da hora. Temos um canteiro s de  morangos ali. Gabriella indicou o
local, apontando. - No vero passado, estavam  deliciosos.
  Ele sorriu para ela, recordando-se de lembranas da infncia em Ohio.
  - Eu costumava colher amoras quando era menino. Voltava para o So
Marcos todo  arranhado e sujo com o sumo das frutinhas. - Ele riu. - Eu
comia tanto no  caminho de volta que uma vez tive dor de barriga por uma
semana. Os irmos me disseram  que Deus estava me castigando por ser to
guloso. Mas continuei comendo assim  mesmo. Achava que valia a pena.
  - Voc estudou num internato? - Ela ouviu a meno ao So Marcos e aos
irmos,  e era to raro que conversasse com uma pessoa diferente que
ficou naturalmente  curiosa a respeito do padre. Apesar de sua timidez
habitual com as pessoas que no  faziam parte de seu mundo, sentia-se
muito  vontade com ele, o que a  surpreendeu. Esquecera-se
completamente dos feios comentrios feitos pela irm Anne dois dias
antes.
  - Acho que pode chamar de internato. - Ele sorriu. - Meus pais
morreram quando  eu tinha quatorze anos. No tinha parentes, ento fui
morar no orfanato da  cidade onde cresci. Era administrado pelos
franciscanos. E eles foram maravilhosos  comigo. A lembrana ainda o
fazia sorrir calorosamente.
  - Minha me me deixou aqui quando eu tinha dez anos - murmurou
Gabriella,  olhando para a horta. Mas isso ela j lhe falara.
  - Isso no  comum. - Mas ele tambm j sabia, pelo que Gabriella
contara no  confessionrio, que no havia nada de trivial em relao 
sua me. Lembrava-se  claramente da meno aos espancamentos e imaginava
se no teria sido uma bno para  Gabriella ter sido deixada ali. - Foi
por problemas financeiros que ela a  abandonou?
  - No - disse Gabriella, baixinho. - Ela se casou de novo e acho que
no havia  lugar para mim em sua nova vida. Meu pai a deixara um ano
antes, fugindo com  outra mulher. Por alguma razo, minha me sempre
achou que eu era culpada por todos os  problemas dela. - Gabriella
falava com muita suavidade, enquanto ele a observava com silencioso
pesar.
  - E voc? Achava que era sua culpa? - Ele gostava de conversar com
Gabriella e  queria entender melhor por que havia ficado ali. Achava
importante entender as  pessoas que tentava ajudar e com quem
trabalhava.
  - Acho que sim. Ela sempre me culpou por tudo, mesmo quando eu era
pequena...  e eu acreditava nela... imaginava que, se ela estivesse
errada, meu pai teria  intercedido a meu favor, mas como ele jamais
interveio, simplesmente assumi a culpa de tudo  por que me
responsabilizavam. Afinal de contas, eram meus pais.
  - Deve ter sido bastante doloroso - disse o padre com gentileza.
  Gabriella olhou para ele e sorriu. Fora mesmo, mas parecia doer menos
agora,  passados mais de dez anos de paz e segurana.
  - Foi. Mas ser rfo aos quatorze anos tambm no deve ter sido nada
fcil.  Eles morreram num acidente? - perguntou ela.
  Conversavam como dois amigos, de uma maneira to natural e franca,
que nenhum dos dois se dava conta do tempo passando. Era to agradvel
falar com  ele, e Gabriella sentia-se inteiramente  vontade, o que era
raro.
  - No - explicou ele. - Meu pai morreu de repente, de ataque cardaco.
Tinha  apenas quarenta e dois anos. E minha me se suicidou trs dias
depois. Eu no  tinha idade suficiente para entender tudo o que estava
acontecendo, mas acho que a dor  e o choque devem ter sido mais fortes
do que ela. Um pouco de terapia para  ajud-la a lidar com a dor poderia
ter feito maravilhas por ela.  por isso que essas  coisas so to
importantes para mim. Fazem muita diferena...
  Gabriella concordou com a cabea, perguntando-se que tipo de terapia
poderia  ter ajudado sua prpria me.
  - Eu levei anos para perdo-la pelo que fez. Mas agora converso com
tanta  gente na mesma situao; pessoas que se sentem num beco sem
sada, sozinhas,  assustadas ou sufocadas, e no conseguem enxergar uma
maneira de se livrar dos problemas.   impressionante a quantidade de
pessoas que no tm com quem desabafar e so  dominadas pelo pnico
diante de problemas que o resto de ns no acha to ruins assim, ou  to
importantes. - Como a irm Anne. - Ela sorriu novamente para ele, e
dessa vez ambos riram.
  Haviam partilhado algumas coisas importantes sobre si mesmos. Tinham
muito em  comum. Ambos haviam perdido, sbita e definitivamente, o
contato com o mundo l fora e  com suas famlias. E encontraram a
salvao numa vida em que jamais enfrentariam o mesmo tipo de problemas
que quase os havia destrudo em criana.
  - Quando  que voc decidiu se tornar padre? - perguntou, curiosa, ao
comearem a caminhar vagarosamente de volta  parte principal da horta.
  - Sa direto da escola secundria para o seminrio. Tomei a deciso
quando  tinha quinze anos. Simplesmente me pareceu o certo. No posso
imaginar uma vida  melhor do que essa.
  Gabriella sorriu com inocncia. Ele era to bonito que, de certo modo,
parecia  incompatvel com a familiar batina.
  - Aposto que um monte de garotas que voc conhecia ficou desapontada.
  - No. Eu no conhecia nenhuma. S havia meninos no So Marcos. Antes
disso,  eu era muito pequeno e fui uma criana muito tmida. Aquela me
pareceu a escolha  certa. Jamais duvidei por um minuto sequer.
  - Nem eu, desde que tomei a deciso - admitiu, sria. Pensei no
assunto anos a  fio. As freiras que me viram crescer sempre me falaram
do "chamado" e da minha  "vocao", mas eu no me achava boa o
suficiente. Ficava esperando para ouvir as vozes e,  ento, finalmente
soube que no queria sair daqui nunca. Esse  o meu lugar.
  Ele assentiu com a cabea, entendendo-a perfeitamente. Ambos achavam
que essa  era a vida para a qual haviam nascido.
  - Voc ainda tem tempo para tomar uma deciso definitiva - disse ele,
suavemente, voltando a falar como padre e no apenas como amigo, mas
Gabriella  abanou a cabea em negativa, diante da sugesto.
  - No preciso de tempo. Quando fui para a universidade, soube que no
queria  viver outra vez no mundo l fora.  difcil demais para mim. No
saberia viver  ali. Nunca namorei e nem mesmo me interessei por rapazes.
No saberia o que dizer a  eles. - Ela sorriu, esquecendo-se de que ele
prprio era um. - E nunca, nunca  vou querer ter filhos. - Foi a nica
coisa que Gabriella disse que lhe pareceu  estranha, e ela falou com
tanta veemncia que chamou a ateno do padre.
  - Por que no? - perguntou, curioso para saber seus motivos.
  - Tomei essa deciso quando era pequena. Sempre tive medo de que fosse
ficar  como minha me. E se eu herdar isso dela e fizer as coisas que
ela fez?
  - Isso  bobagem, irm Bernadette. Voc no precisa ser
necessariamente amaldioada com os mesmos demnios que atormentaram sua
me. Muitas pessoas  sofrem horrores na infncia e acabam se tornando
pais extraordinrios.
  - E se eu estiver certa, o que acontece? Abandono as crianas no
convento mais  prximo? Eu no quero correr esse risco em relao  vida
de outra pessoa. Sei o  que  passar por isso.
  - Deve ter sido horrvel quando sua me a abandonou - disse ele, com
tristeza,  lembrando-se do dia em que encontrara a prpria me. Mesmo
com uma vida de  oraes e servios a Deus, nunca fora capaz de
esquecer. Ela estava na banheira, com os  pulsos cortados. Foi a
primeira vez em que a viu nua. Ela havia quase decepado  as mos com a
navalha de barbear do pai.
  - Foi - respondeu Gabriella, sombriamente. - E tambm uma espcie de
alivio  quando percebi que estava segura aqui. Madre Gregoria salvou
minha vida. Tem  sido uma me para mim.
  - Ouvi dizer que ela est muito orgulhosa de voc ter decidido entrar
para a  Ordem. Vai ser uma tima freira, irm Bernie. Voc  uma pessoa
boa - falou,  parecendo acreditar no que dizia.
  - Obrigada, padre. O senhor tambm. Foi muito bom conversar com o
senhor -  disse ela, levemente enrubescida, a timidez natural voltando
devagar,  medida  que se aproximavam das outras pessoas. Durante a
ltima hora, enquanto conversavam, era  como se no houvesse mais
ningum ali.
  - Fique com Deus, irm - despediu-se o padre, gentil. Gabriella sorriu
para  ele, afastando-se.
  O padre Connors dirigiu-se ao prdio principal para pegar suas coisas
e voltar  para o Santo Estvo. Havia sido um domingo agradvel. Gostava
de ir ali e  conversar com as freiras. Elas eram uma parte importante da
vida que levava, e ele sempre  admirou o esprito que representavam e o
trabalho incansvel que executavam nos  hospitais, nas escolas e nos
postos missionrios, muitas vezes to perigosos. No podia  deixar de se
perguntar o que a irm Bernadette viria a fazer no futuro. Era  fcil
imagin-la confortando as pessoas, em especial as crianas. Ainda
pensava nela  sada do  convento, depois de despedir-se de algumas das
freiras mais idosas que conhecia  e dirigir-se sem pressa de volta ao
Santo Estvo. Gabriella estava ocupada,  esfregando o cho da cozinha
com duas outras postulantes. No viu, portanto, o  olhar de raiva que a
irm Anne lhe lanou, assim como no tinha visto madre Gregoria
observando-a, enquanto passeava pelo jardim com o jovem padre uma hora
antes. A  madre superiora ficara observando-os da janela do escritrio
com uma expresso  preocupada, ao ver Gabriella sorrir para ele. Os dois
pareciam to jovens, to inocentes e to admirveis juntos. Havia  uma
grande semelhana entre eles.
  Madre Gregoria foi sentar-se  escrivaninha depois de ver Gabriella se
 despedir do padre e ficou por um longo tempo perdida em pensamentos,
mas no  disse nada  quando viu a jovem naquela noite. Era to delicada
e amvel, to vivaz e to feliz com  as outras irms. Parecia bobagem se
preocupar com ela. Ainda assim, havia alguma coisa na cena que tinha
visto naquela tarde que encheu de medo o corao de  madre Gregoria, mas
ela disse a si mesma que estava sendo tola.
  O padre Connors no voltou ao convento na semana seguinte, sendo
substitudo por outro padre. Estava viajando novamente e s retornou ao
convento no Sbado de Aleluia, quando ouviu confisses a tarde inteira.
As freiras do convento estavam felizes em v-lo, ele tinha um senso de
humor maravilhoso e um jeito terno de ouvir as  confisses. A irm
Emanuel estava falando sobre o padre com a formadora das novias quando
ele parou para conversar com elas  sada do  convento.
  - perguntou a formadora com um sorriso acanhado.
  Ela havia sido bonita um dia, mas j era freira havia mais de quarenta
anos.
  - Eu adoraria - respondeu o padre, sorrindo para ambas.
  Gostava muito das irms mais idosas; os olhos inteligentes, os
sorrisos  tmidos, a perspiccia que, com freqncia, pegava-o de
surpresa. Os semblantes to alheios aos estresses do mundo... Haviam
escapado aos horrores que ele sabia muito bem atormentavam a vida de
tanta  gente. A maioria dessas irms aparentava menos idade do que tinha
de fato; a vida  resguardada poupava-as de muitas angstias.
  - Este ano, as postulantes e as novias esto fazendo nosso almoo de
Pscoa.  Esto trabalhando duro desde a noite passada - explicou a irm
Emanuel,  orgulhosa  da turma que estava orientando. Eram todas timas.
Estavam preparando perus e  vrios presuntos. Havia milho colhido no
prprio convento, pur de batatas,  ervilhas frescas, e algumas das
freiras mais velhas j estavam cozinhando desde muito cedo.
  - Mal posso esperar. - Trs outros padres viriam com ele no dia
seguinte, e a  famlia de algumas freiras tambm vinham visitar nos
feriados.
  Esse ano o tempo estava to bom, que madre Gregoria concordara em
colocar as  mesas de piquenique do lado de fora.
  - Devo trazer alguma coisa? Um de nossos paroquianos nos deu vrias
caixas de  um vinho excelente.
  - Seria maravilhoso. - A irm Immaculata ficou radiante, sabendo como
os  visitantes ficariam satisfeitos. Era raro que madre Gregoria
permitisse s  freiras que  tomassem vinho. Bebiam quando iam  casa de
suas famlias ou quando saam para jantar com  elas, mas, no convento,
raramente bebiam lcool, mesmo que fosse vinho. Os  padres visitantes
bebiam  vontade, mas era um privilgio que madre Gregoria preferia  que
ficasse restrito a eles.
  - Obrigada pela lembrana. -As duas irms sorriram para o padre, e no
dia seguinte, quando ele chegou para a missa de Pscoa, trouxe  vrias
caixas de um timo vinho da Califrnia na traseira do carro.
  O padre pegou as caixas com facilidade e levou-as para a cozinha, onde
confiou  a bebida  freira mais idosa. Podia ver as novias ocupadas por
toda parte, e o  cheiro da comida que haviam preparado era de dar gua
na boca. Mal podia esperar pelo  piquenique que tinham prometido para
depois da missa.
  Naquele dia, os quatro padres celebraram a missa juntos, e a capela
estava  repleta com as freiras e seus familiares. Havia crianas por
todos os lados. O  crucifixo atrs do altar e as etapas da via-crcis
tinham sido descobertos depois do longo  perodo da quaresma. Era uma
poca de comemorao, e todos estavam animados depois da missa, quando
se dividiram em pequenos grupinhos de amigos no jardim.
  Madre Gregoria estava ocupada, cumprimentando todos e apertando a mo
de  velhos amigos, enquanto as freiras mais jovens j comeavam a surgir
com as  bandejas de comida. Gabriella era uma delas e, junto com a irm
Agatha, trazia com cuidado  da cozinha uma travessa enorme de presunto,
quando o padre Connors avistou-as e  foi se oferecer para ajudar. Pegou
a travessa da mo delas com facilidade e colocou-a sobre uma mesa
enorme, ao lado de outro presunto e  quatro perus que as freiras tinham
preparado com tanto zelo. Havia biscoitos e  pezinhos, broa de milho,
legumes e verduras, pur de batatas, saladas variadas, alm de  meia
dzia de tortas diferentes e sorvete caseiro.
  - Uau! - exclamou ele, sentindo-se novamente criana, ao ver com olhos
 arregalados e um sorriso largo toda aquela comida disposta sobre a
mesa. - Vocs  sabem mesmo como fazer um piquenique de Pscoa
inesquecvel, no  no? - E quando a irm  Emanuel olhou para ele e viu
a expresso no rosto do jovem padre, sentiu-se  muito orgulhosa das
alunas.
  Os convidados ficaram por l a maior parte da tarde. Gabriella comia
um pedao  da torta de ma quando o padre Connors finalmente se
aproximou. Ele passara a  tarde conversando com madre Gregoria e algumas
das freiras mais velhas, que o  apresentaram a suas famlias, e ele
achou maravilhoso conversar com todos. Em  especial, adorara falar com
madre Gregoria; era muito bem-informada, inteligente e sbia. E ela
gostara de conhec-lo. Ele estava no Santo Estvo havia pouco tempo.
Antes  disso, estivera na Alemanha e passara seis meses trabalhando no
Vaticano, em Roma,  estando a par de tudo o que se passava por l.
  - Voc devia experimentar um pouco de sorvete de baunilha com isso a.
- Ele  apontou para a torta de ma de Gabriella, obviamente se
deliciando com a enorme  bola de sorvete caseiro sobre a sua prpria
fatia. - Hummm... Que almoo maravilhoso!  Vocs deviam abrir um
restaurante. Ganharamos um bocado de dinheiro para a  igreja.
  Gabriella sorriu do olhar de xtase estampado no rosto dele e achou
engraado  o seu comentrio.
  - E poderamos cham-lo de Recanto da Madre Gregoria. Tenho certeza de
que ela  iria adorar.
  - Ou talvez um nome que chamasse a ateno, como As Freiras. Ouvi
dizer que  abriram uma boate numa igreja, no centro da cidade. Esto
usando o altar como  bar.  - S falar naquilo j parecia um sacrilgio,
mas ainda assim eles riram. - Eu  adorava danar quando pequeno-admitiu
ele, comeando a segunda fatia de torta em seu prato. Era de blueberry,
o que fez com que Gabriella se  lembrasse das histrias que ele contara
de quando era garoto e ia colher amoras.  - Voc gostava de danar, irm
Bernadette? perguntou ele, como se fossem velhos amigos, e ela  sorriu e
negou com a cabea.
  - Nunca experimentei. Estou aqui desde os dez anos. - Mas ele j sabia
disso.  - Eu adorava ver as pessoas danando nas festas dos meus pais
quando era  pequena,  mas jamais descia at a sala. Costumava ficar
sentada no topo da escada, olhando  para elas. Todos pareciam to
lindos, como os prncipes e as princesas dos  contos de fadas. Sempre
pensei que seria uma delas quando crescesse. - Gabriella no fazia
idia do que havia acontecido com a casa ou com a moblia. No sabia se
a me  tinha levado tudo ou vendido. Aquilo se passara fazia tanto
tempo, e ela no tinha  como descobrir.
  - Onde voc morava quando criana? - perguntou o padre Connors,
interessado,  olhando para ela e colocando um pouco do delicioso sorvete
sobre o que restava  da  torta de Gabriella.
  - Obrigada... - Fechou os olhos ao experimentar e depois riu para ele.
- Como   bom... hum... A gente morava em Nova York, a umas vinte
quadras daqui. No sei  o que aconteceu com a casa.
  - Nunca voltou l para ver? - Parecia-lhe estranho. Ele teria ido ao
menos por  curiosidade e intrigava-o que ela no tivesse ido.
  - Pensei nisso quando estava estudando na Columbia, mas... - Ela
estremeceu, olhando para ele com aqueles olhos azuis imensos, to
parecidos com os dele - ...so tantas lembranas... No tenho certeza se
quero  voltar a ver a casa. Muito tempo se passou. - E sua vida agora
era muito diferente.
  - Se quiser, eu posso passar l um dia para ver se a casa ainda
existe. E s  me dar o endereo que eu dou uma olhada.
  - Seria timo. - Ele poderia enfrentar os demnios em seu lugar e
depois lhe  contar. Tinha quase certeza de que madre Gregoria no se
importaria. - O senhor  ainda vai ao So Marcos?
  - De vez em quando - respondeu ele, olhando-a com simpatia, enquanto
terminava  a segunda fatia de torta. - A casa dos meus pais se
transformou num  estacionamento. No tenho parentes. Tudo o que resta da
minha infncia  o So Marcos.
  Ambos eram pessoas com histrias problemticas, e pouco lhes restava
do  passado: lembranas dolorosas e sonhos destrudos que no podiam ser
recuperados. Mas os dois eram gratos ao fato de terem sobrevivido.
Haviam encontrado abrigo na  Igreja e sentiam-se confortveis onde
estavam, do mesmo modo como se sentiam   vontade sentados um ao lado do
outro no jardim do Convento de So Mateus. O sol estava  quente, e
Gabriella olhou novamente para ele, impressionada com o fato de ser  to
bonito. Ainda era difcil de acreditar que ele preferisse ser padre a
estar no  mundo l de fora, mas, olhando para a jovem postulante que ele
estava comeando  a conhecer bem, o padre teve os mesmos pensamentos em
relao a ela.
  Ficaram algum tempo sentados, conversando, observando as outras irms
falarem  animadas com os convidados, e ocorreu-lhes, no mesmo instante,
que nenhum dos  dois tinha outra pessoa no mundo, a no ser as freiras e
os padres com quem viviam.
  -  estranho, no ? - perguntou ele, baixinho. - No ter uma famlia.
Durante  os primeiros anos eu costumava sentir muita falta nos feriados,
mas depois me  acostumei. Os irmos no So Marcos eram to bons para
mim... Sempre me sentia como um heri  quando estava no seminrio e ia
visit-los. O irmo Joseph, que  o diretor do  So Marcos, foi como um
pai para mim.
  Possuam uma experincia em comum que ia alm das missas que ele
celebrava  para as freiras ou de sua bondade para com Gabriella no
confessionrio. Era algo  que  ambos entendiam perfeitamente e que
ningum mais parecia compartilhar; uma espcie de  solido que
estabelecia um elo entre eles.
  - Quando cheguei aqui, fiquei contente s de ter me livrado das surras
- disse  ela, tranqila.
  Ele no poderia nem imaginar uma situao daquelas, se j no tivesse
visto o  mesmo acontecer, e coisas ainda piores, quando trabalhava como
capelo no  hospital. Costumava chorar vendo os danos que as pessoas
causavam aos prprios filhos.
  - Machucaram muito voc? - perguntou ele, com delicadeza.
   Gabriella pensou, em silncio, depois fez que sim com a cabea e
olhou para  longe.
  - As vezes - sussurrou ela. - Uma vez fui parar no hospital. Adorei
ficar l;  as pessoas eram to boas para mim. Odiei ter de voltar para
casa, mas tive  medo de dizer isso a elas. Nunca contei a ningum.
Sempre menti para todo mundo. Eu achava que tinha de proteg-los e temia
que, se no o  fizesse, minha me me matasse. Se tivesse ficado com ela
por mais alguns anos,  era o que ela certamente teria feito. Ela me
odiava - disse, fitando o jovem padre que  agora era seu amigo. Haviam
partilhado uma srie de confidncias sobre suas  infncias, e de repente
parecia haver uma espcie de lao que os unia.
  - Provavelmente ela sentia cimes de voc - sugeriu o padre Connors,
sensato.  A essa altura, tinha lhe dito que o chamasse de padre Joe, e
ela lhe contara seu  verdadeiro nome, embora todas as outras postulantes
e algumas das freiras mais velhas a  chamassem de irm Bernie.
  Mas a sugesto do padre no fazia sentido para Gabriella.
  - Por que ela sentiria cimes de uma criana? - Fitou-o com olhos
cheios de  lembranas e perguntas.
  - s vezes, as pessoas simplesmente sentem. Devia haver algo de muito
errado  com ela.
  Gabriella sabia melhor do que ningum que aquela era uma maneira
atenuada e  incompleta de dar conta da verdade.
  - E como era seu pai?
  - No sei ao certo. s vezes penso que nunca o conheci de fato. Ele se
parecia  muito com voc. - Ela sorriu novamente. Pelo menos eu acho que
sim, at onde  posso me lembrar. Ele tinha medo dela. Nunca a enfrentou,
limitava-se a deixar que ela  agisse.
  - Ele deve se sentir terrivelmente culpado. Talvez seja por isso que
acabou  fugindo. No deve ter conseguido enfrentar tudo. As pessoas
fazem coisas  estranhas  quando se sentem desamparadas.
  Os dois se lembraram do suicdio da me dele, mas Gabriella no queria
lhe  fazer perguntas e trazer  tona lembranas dolorosas. Era um
pesadelo que ela  no podia sequer imaginar.
  - Voc devia tentar encontr-lo um dia e conversar com ele.
  As vezes Gabbie fantasiava sobre aquilo e era estranho que o padre Joe
fizesse  aquela sugesto. Entretanto, ela nem sabia por onde comear a
procurar. Tudo que sabia  que doze anos atrs o pai se mudara para
Boston.
  - Acho que ele nunca soube que eu vim para c. Ela no se daria ao
trabalho de  dizer para ele. Uma vez tive vontade de falar com madre
Gregoria sobre isso, mas  ela sempre diz que tenho de deixar o passado
para trs. E acho que est certa. Meu  pai nunca ligou ou escreveu
depois que foi embora - desabafou Gabriella, com um  olhar de tristeza.
Falar deles ainda a machucava muito.
  - Pode ser que sua me no permitisse - sugeriu padre Joe, sem
conseguir trazer grande conforto a Gabriella. Afinal de contas, talvez
madre Gregoria estivesse certa. Gabriella levava uma vida muito
diferente, e os fantasmas do passado deveriam ser libertados,  embora
ainda a assombrassem em momentos mais sombrios. - Onde ela est agora? -
perguntou, referindo-se  me dela.
  - San Francisco. Pelo menos era onde estava quando parou de mandar o
dinheiro  pela minha hospedagem aqui. - Ainda impressionava-o que a
famlia a tivesse abandonado por completo, que jamais tivesse escrito ou
feito uma visita. No podia entender como puderam  fazer aquilo. Essa
compreenso fugia completamente  sua capacidade. - Bom, irm Bernie,
voc tem uma vida tranqila aqui, e o So Mateus precisa de  voc. Todas
as freiras a adoram. Eu acho que madre Gregoria acredita que voc  vai
ocupar o lugar dela um dia. Seria uma grande honra. Conseguimos nos
virar bem  sozinhos, no ? - perguntou, sorrindo para ela.
  Quando seus olhos se encontraram, entretanto, ambos estavam
conscientes da dificuldade com que o haviam  conseguido, o quanto tinham
andado para chegar onde estavam e o quanto deles  prprios se perdera
pelo caminho. Ele bateu de leve na mo de Gabriella, e, por um instante,
ela  pareceu sobressaltada com o toque. A mo dele era to firme e
forte, fazendo-a  lembrar-se mais uma vez de seu pai. Fazia tantos anos
que no ficava assim to perto de um  homem que no podia evitar as
lembranas do nico outro que tinha conhecido ou  estado assim to
prximo. E, como se sentisse o choque das lembranas dela, padre
Connors levantou-se  vagarosamente.
  -  melhor eu ir ver se meus colegas no esto muito bbados, depois
de  passarem a tarde toda bebendo vinho, e levlos de volta para o Santo
Estvo.
  Gabriella no pde deixar de rir daquela imagem: os padres caindo
bbados  entre as freiras no jardim do convento.
  - Eles me parecem muito bem. - Ela se levantou a seu lado, olhando ao
redor, e  tornou a dar uma risada, imaginando a cena.
  Dois dos padres estavam conversando com a madre superiora, e o outro
falava com uma famlia conhecida. A irm Emanuel parecia estar  tentando
reunir as postulantes para limpar a cozinha, e a maioria das crianas e
das visitas mostravam-se felizes, mas cansadas. Havia sido uma Pscoa
maravilhosa para  todos, especialmente para Gabriella, conversando com o
padre Connors.
  - Eu nunca falo sobre essas coisas com ningum - confessou ela,
preparando-se  para ir juntar-se s outras. - Ainda me assustam um
pouco.
  - No deixe isso acontecer-aconselhou ele, sabiamente. Elas no podem
mais  machucar voc, Gabbie. J passou. Est segura aqui; h muito tempo
que est.  Esses fantasmas no viro aqui machuc-la, e voc tambm no
precisa ir at eles. - Era como se  ele a tivesse libertado com sua
bondade, suas palavras e sua presena terna;  como se, apenas estando
prximo a ela, pudesse proteg-la. - Vejo voc no  confessionrio -
disse o padre, sorrindo com um dos cantos da boca. - Procure  no
arrumar problemas com a irmAnne-disse ele, parecendo divertir-se.
   s vezes sentia-se velho conversando com Gabriella. Ela estava com
vinte e um  anos e conhecia to pouco do mundo para alm daquelas
paredes; e ele era dez anos mais velho e, a seus prprios  olhos, muito
mais experiente.
  - Tenho certeza de que ela vai ter muito o que falar por ns dois
termos  passado a tarde conversando - observou Gabriella, parecendo um
pouco cansada e  amargurada.
  Era to irritante ter de estar constantemente enfrentando as acusaes
iradas  da jovem postulante.
  - Uai? - Ele parecia surpreso. - Por que falaria qualquer coisa sobre
isso?
  - Ela est sempre obcecada por alguma coisa. Na semana passada,
reclamou das  histrias que eu escrevo. Alegou que eu estava escrevendo
quando deveria estar  rezando as matinas... ou as vsperas... ou os
laudes, ou sei l. No tem muita coisa que  eu faa de que ela no
reclame.
  - Bem, continue rezando por ela - disse ele, simplesmente. - Ela vai
se cansar disso.
  Gabriella concordou com a cabea, sem realmente se preocupar, deixou o
padre  Joe com a irm Emanuel e foi correndo para a cozinha. Havia uma
montanha de panelas esperando para serem areadas, uma pilha de travessas
e  os tabuleiros em que haviam sido cozidos os presuntos e perus. Alm
disso, o cho estava um desastre completo. Dessa vez, porm, a irm Anne
estava to  ocupada quando Gabriella entrou que nem mesmo a viu. Gabbie
colocou um avental,  arregaou as mangas e partiu para cima das pilhas
de panelas gordurosas, munida com  esponja de ao e detergente. Levaram
horas naquele trabalho. Quando terminaram,  as freiras mais velhas
estavam sentadas no saguo principal, comentando o bom trabalho que as
postulantes e as novias haviam mostrado na preparao do almoo. As
familias tinham ido para casa, e o padre Joe estava de volta ao Santo
Estvo, em seu quarto, olhando pela janela e parecendo estranhamente
srio. Captulo 10

  Nos dois meses seguintes Gabriella esteve ocupada, assim como as
outras  postulantes, cumprindo suas tarefas, assistindo  missa,
estudando tudo que  precisava saber e trabalhando feliz da vida na
horta. Vinha escrevendo outra histria e esta j  estava to longa que,
quando madre Gregoria leu parte dela, disse que estava se  transformando
rapidamente num romance. A madre orgulhava-se de Gabriella, que estava
se saindo  muito bem, e at mesmo irm Anne cessara temporariamente as
queixas contra ela.
  Fazia calor em Nova York, e junho j avanava, quando algumas das
freiras mais  idosas foram fazer um retiro no convento de suas irms,
nas montanhas de  Catskill.
  As freiras mais jovens permaneceram na cidade, trabalhando no Hospital
da  Misericrdia e dando cursos de vero, mas as novias e as
postulantes raramente  saam  do So Mateus, e o vero no era uma
exceo. Madre Gregoria tambm ficou, para  supervisionar todas elas e
dirigir o convento com zelo. Havia anos que no  tirava frias. Achava
aquele um privilgio que devia ser reservado s mais velhas.
  Um grupo de irms missionrias chegou  cidade e hospedouse ali no
convento.  As histrias que contavam sobre a frica e a Amrica do Sul
eram fascinantes e fizeram Gabriella imaginar se um dia no  gostaria de
ser uma delas. Porm, no disse nada  madre Gregoria por medo de
aborrec-la. Assim, ouviu atentamente as histrias que eram contadas e,
depois que partiram,  escreveu contos maravilhosos a respeito delas.
Quando a irm Emanuel os leu,  insistiu que deveriam ser publicados. Mas
Gabriella s os escrevia pelo prazer que a  tarefa lhe dava. O ato de
escrever sempre liberava alguma coisa em seu ntimo.  Era como se no
fosse ela prpria escrevendo, mas um esprito que atuasse atravs dela.
No tinha a menor conscincia de sua prpria importncia ao escrever.
Sentia-se,  pelo contrrio, como se no existisse; como se fosse um
vidro atravs do qual outro  esprito viesse espreitar. Era difcil
explicar, e a nica pessoa a quem contou  essa sensao foi o padre Joe,
quando ele um dia a encontrou escrevendo e comendo uma ma, sentada nos
fundos da horta do  convento. Perguntou se podia dar uma olhada no que
ela estava fazendo e, quando leu, ficou bastante comovido. Era a
histria de uma criana que havia morrido e voltava  Terra para acabar
com as injustias e trazer paz aos outros.
  - Voc tem mesmo de publicar isso - falou o padre Joe, impressionado,
devolvendo-lhe o texto. Ele estava bastante bronzeado : e disse que
tinha jogado  tnis com amigos em Long Island.
  Aquilo fez Gabriella lembrar-se imediatamente dos pais. No tinha
ouvido  ningum falar em jogar tnis desde a infncia, embora tivesse
certeza de que  algumas das pessoas que tinha conhecido na universidade
praticassem esse esporte. Mas jamais  conversara com elas, limitando-se
a ir direto da universidade para o convento e vice versa.
  - Estou falando srio - disse ele, voltando ao assunto dos textos de
Gabriella. - Voc tem muito talento.
  - No tenho, no. Apenas gosto de escrever. - Ento Gabriella falou
sobre a  sensao que tinha em relao ao esprito que parecia falar
atravs dela. -  Quando  tenho conscincia do que estou fazendo, no
consigo escrever nada. Mas se deixo fluir,  esquecendo-me de mim, ento
as coisas acontecem.
  - Parece meio fantasmagrico - caoou o padre com um sorriso, embora
entendesse o que ela dizia e estivesse  impressionado. - Qualquer que
seja a maneira, continue assim. E no mais, como  voc tem passado? - Ele
ficara de frias por uma semana e era como se no a  visse havia  anos.
  - Bem. Estamos atarefadas planejando o piquenique do Quatro de Julho.
Voc  vem?
  As freiras organizavam um churrasco todos os anos. Madre Gregoria era
tima em  realizar grandes celebraes nos feriados. Era a maneira que
tinham de manter  contato com amigos, parentes e pessoas importantes
para a comunidade. Ao olhar para o  padre, Gabriella sentiu-se como se
estivesse falando com um irmo seu. Estavam  se tornando bons amigos;
sem nenhum esforo, haviam desenvolvido uma amizade tranqila.
  -  um convite oficial? - perguntou ele, sentindo-se exatamente como
ela.
  - Voc no precisa de um - respondeu ela, casualmente. Todo mundo do
Santo  Estvo vem; todos os padres, secretrios e sacristos. Vem muita
gente do  hospital  e da escola. E alguns familiares tambm, mas muitos
viajam.
  - Bom, eu no vou viajar. Estou trabalhando seis dias por semana este
ms. A  salvao dos pecadores est me mantendo bastante ocupado.
  - Isso  bom. - Ela sorriu e ofereceu-lhe um raminho de hortel e um
punhado  de morangos. - Se voc no se importa por no terem sido
lavados, esto  deliciosos.
  Ele provou um morango e pareceu ficar em xtase.
  - Que maravilha! - Pela expresso dos seus olhos, ningum que
estivesse  observando saberia ao certo se ele se referia a ela ou 
fruta. Estava feliz em v-la. Algum tempo depois, acompanhou-a de volta
ao prdio principal do convento, onde  Gabriella precisava fazer um
pedido de mais sementes  irm encarregada de  comprar suprimentos para
a horta. Ele lhe disse que celebraria a missa do dia seguinte e que
ficaria  feliz em ir ao piquenique.
  Encontraram-se novamente no confessionrio, um dia depois.
Reconheceram-se  pela voz e conversaram durante toda a confisso.
Gabriella estava habituada ao  estilo descontrado dele e no tinha
muito o que confessar. O padre deu-lhe absolvio  e parou para uma
conversinha rpida depois de ela ter acabado a penitncia.
  - Que tal se eu e mais alguns padres fizermos o churrasco para vocs?
-  perguntou ele.
  Gabriella parecia maravilhada com a idia. Era o nico trabalho que
realmente  detestava. A fumaa entrava nos olhos e com os longos hbitos
era estranho lidar  com o fogo e o carvo. Seria muito mais fcil para
os padres, que sempre iam aos  piqueniques de cala jeans ou de brim e
camisa esporte.
  - Vou perguntar  irm Emanuel, mas tenho certeza de que ela vai
adorar a  idia - disse Gabriella, agradecida. - Churrasco no e o nosso
forte.
  - E o que me diz de beisebol?
  - O qu? - Olhou para ele sem saber se estava brincando, se estava
falando  srio ou se falava por falar.
  - Que tal um jogo de beisebol? O So Mateus contra o Santo Estvo. Ou
podemos fazer times mistos, se acha que vo ficar em muita  desvantagem.
Eu tive essa idia hoje de manh.
  -  tima. Ns fizemos um jogo h dois anos, com dois times de
freiras, e foi  bastante engraado.
  Ele olhou para Gabriella com um falso ar de gravidade e fingiu estar
ultrajado.
  - No estamos falando de nada "engraado", irm Bernie. Isso  srio.
Os padres do Santo Estvo tm o melhor time na arquidiocese dos  cinco
distritos. O que voc acha?
  - Por que no pergunta  madre Gregoria? No posso falar por ela, mas
acho que  vai adorar a idia. Em que posio voc joga? - perguntou ela,
caoando dele. O  piquenique do Quatro de Julho comeava a dar sinais de
que seria emocionante.
  - Arremessador; o que mais poderia ser? Uma vez este brao foi
contratado por  um dos melhores times da segunda diviso de Ohio. - Era
uma pretenso pequena de  fama, mas, pelo modo como olhava para
Gabriella, era bvio que falava com senso de  humor e divertia-se com
aquilo. Porm, gostava realmente de jogar beisebol.
  - E o que aconteceu? Por que no est jogando para os Yankees?
  - Deus me fez uma oferta melhor - replicou, sorrindo para a jovem
amiga, feliz  por estarem falando de uma coisa to mundana como
beisebol. Na maor parte do  tempo mergulhavam em conversas srias;
sobre suas vidas, histrias, vocaes e a  escrita de Gabriella. Sempre
tinham muito sobre o que falar. - E voc? Joga em  que posio?
  - Acho que tenho um talento especial para ficar tomando conta dos
bastes -  disse ela com modstia. Por razes bvias, jamais havia
praticado qualquer  esporte  quando criana. Tinha vivido ali com as
freiras e dos dez anos de idade at o ingresso  na universidade no
havia ido a uma escola de verdade. O nico exerccio que  fazia era
andar pela horta e pelo jardim do So Mateus.
  - Desta vez, vamos colocar voc em campo - afirmou, confiante, o padre
Joe e  prometeu ir falar com madre Gregoria antes de ir embora.
  Em poucos dias a notcia sobre o Grande Jogo, como vinha sendo
chamado,  espalhara-se pelo convento. Quando o padre Connors props 
madre superiora, ela  adorou  a idia. Todas as freiras riam e
cochichavam. Algumas no jogavam desde a  infncia, outras gabavam-se de
terem sido muito boas. As postulantes discutiam  amigavelmente a
respeito da posio em que desejavam jogar. Irm Agatha, que era
gordinha,  insistia em querer jogar entre a segunda e a terceira base.
Tudo flua de acordo  com aquele esprito festivo.
  Quando o grande dia chegou, todos j se encontravam prontos. A comida
do  piquenique era abundante, como de costume, e apropriada para a
ocasio. Os  padres do Santo Estvo fizeram um timo churrasco, e havia
cachorro-quente, hambrguer, frango  na brasa, costeleta, batata frita e
as primeiras espigas de milho verde do  vero. Tambm tinha sorvete
caseiro e mais tortas de ma do que era possvel imaginar.  Como disse
um dos padres, parecia que as freiras tinham ido  loucura na  cozinha.
  Mas era bvio que todos estavam adorando. Depois do Natal, era o
feriado  preferido de todos e o piquenique favorito do convento. Quando
a comida acabou,  pelo menos a maior parte dela, e a ltima bola de
sorvete lambuzou o rosto da ltima  criana, o assunto virou beisebol.
  No era de se surpreender que o padre Joe fosse o capito do time do
Santo  Estvo, organizando-o muito profissionalmente e com bastante
imparcialidade. As freiras e os padres haviam feito uma votao e
decidiram que o jogo seria melhor se os  times fossem mistos. Como
prometido, o padre Joe colocou Gabriella no campo,  jogando para o Santo
Estvo. Mesmo a irm Anne pareceu relaxar naquele dia. Estava  jogando
na primeira base para o So Mateus. Os padres,  claro, tinham uma
vantagem, com seus jeans e camisetas. As freiras vestiam os hbitos, mas
amarraram o vu  para trs, da melhor maneira possvel. E com os longos
hbitos, surpreenderam a  todos por correr quase to bem quanto os
homens, confortveis em suas calas. Algumas  freiras tinham at
encontrado tnis para calar. Todos aplaudiram quando a irm  Timmie
chegou  terceira base sem nem mesmo expor as pernas, embora a freira
encarregada de lavar os hbitos dissesse que o dela jamais seria o
mesmo. E  quando a irm Immaculata completou o circuito das bases, os
dois times aplaudiram tanto que quase  assustaram as crianas.
  Foi um dia maravilhoso e muito divertido. O Santo Estvo ganhou por
um nico  ponto, sete a seis, e madre Gregoria pegou todos de surpresa
com limonada,  caixas  de cerveja e deliciosos biscoitos de limo feitos
pelas novias. Gabriella no  podia se lembrar de um dia ter se
divertido tanto assim, e quando ela e o padre Joe foram comentar o jogo,
ele a elogiou por ter ido muito bem e Gabriella riu, tomando  sua
limonada e mordiscando um biscoito.
  - Voc est brincando. - Ela sorriu, terminando o biscoito. - Eu s
fiquei  parada l, rezando para que a bola no viesse na ninha direo
e, graas a Deus,  no  veio. No saberia o que fazer se tivesse vindo.
  - Provavelmente teria se abaixado - provocou-a ele. Todos haviam
adorado e  lamentaram muito que o dia tivesse terminado. As famlias
foram para casa pouco antes do jantar, e os padres ficaram para comer o
que tinha sobrado do churrasco.  Havia o suficiente para todos. Depois,
sentaram-se no jardim do convento para assistir  aos fogos de artifcio
que iluminavam o cu. Era um feriado de verdade para todos  eles, e mais
parecia-lhes umas frias completas.
  - O que voc fazia no Quatro de Julho quando era criana? - perguntou
ele com  a voz grave que j lhe era to familiar.
  Gabriella s podia rir daquela pergunta. Ambos ainda estavam muito
bem- humorados.
  - Em geral, me escondia no armrio, rezando para que minha me no me
encontrasse para bater em mim.
  - No deixa de ser uma maneira de se passarem os feriados - disse ele,
 acrescentando um pouco de leveza ao que ambos sabiam ser um assunto
doloroso; provavelmente seria sempre assim.
  - Sobreviver consumia todo o meu tempo naquela poca. Os nicos
feriados de  verdade de que me lembro foram aqui. Sempre adorei o
piquenique do Quatro de  Julho.
  - Eu tambm - replicou o padre Joe, olhando-a com uma ternura que a
surpreendeu. - Quando eu era criana, a gente costumava acampar com os
amigos.  Eu e meu irmo tentvamos comprar fogos de artifcio, mas
ningum queria vender para a gente.
  Gabriella parecia surpresa.
  - Voc nunca me disse que tinha um irmo. - Nos quatro meses em que se
 conheciam, ele jamais havia mencionado um irmo.
  Padre Connors hesitou por um longo tempo e depois fitou os olhos dela
com  firmeza.
  - Ele se afogou quando eu tinha sete anos. Era dois anos mais velho do
que  eu... Fomos nadar no rio e ele foi pego por um redemoinho. A gente
no devia  estar l... -As lgrimas foram enchendo os olhos do padre 
medida que falava, e nem  percebeu quando Gabriella, sem pensar, tocou
seus dedos e alguma coisa quase  eltrica atravessou os dois. - Eu
fiquei olhando-o afundar da primeira vez, mas no sabia o que  fazer...
Tentei achar um galho que pudesse estender para ele, mas era vero, e
tudo estava verde; no consegui achar nada comprido o bastante. Fiquei
parado l, enquanto  ele afundava de novo e de novo e, ento, fui buscar
ajuda o mais rpido que  pude... mas quando voltei... - Ele no
conseguia continuar, e Gabriella queria abra- lo, mas sabia que no
podia. - Ele se afogou antes de a gente chegar... No  tinha nada que eu
pudesse fazer... nada que pudesse ter feito... mas sempre senti que meus
pais me culparam. Nunca chegaram a dizer isso, mas eu sempre soube... O
nome dele era Jimmy. -As lgrimas deslizavam pelo rosto, e de novo
Gabriella  tocou sua mo, e ficou segurando-a delicadamente dessa vez.
  - Por que culpariam voc? No foi culpa sua, Joe. - Era a primeira vez
que ela  no o chamava de "padre", mas nenhum deles notoou.
  Ele hesitou antes de responder, soltando a mo para limpar as lagrimas
do  rosto.
  - Eu implorei a ele que me levasse ao rio. Foi minha culpa. no devia
t-lo  chamado.
  - Voc tinha sete anos de idade. Ele podia muito bem ter dito no.
  - Jimmy nunca me dizia no. Era louco por mim... e eu por ele. As
coisas nunca  mais foram as mesmas depois que ele morreu. Minha me
perdeu a alegria de viver.
  Gabriella imaginou se aquilo explicava por que ela havia se matado
depois de  perder subitamente o marido. Talvez tivesse sido demais para
ela, depois da morte do filho, sete anos antes. Porm, teria sido uma
coisa cruel para Joe, e o deixara rfo.  Aquela parecia a Gabriella uma
atitude extremamente egosta, mas ela limitou-se a  ouvir, sem dizer o
que pensava a Joe.
  -  difcil entender por que coisas como essa acontecem. Ns
deveramos saber  melhor do que ningum. - Eram muitas as vezes em que
tinham de defender Deus quando as pessoas faziam perguntas sobre
situaes como aquela.
  - Eu ouo histrias desse tipo o tempo todo - admitiu ele - mas isso
no torna  as coisas mais fceis para as pessoas com qem converso ou
mesmo para mim. Ainda sinto saudades dele, Gabie. -Aquilo tinha
acontecido vinte e quatro anos atrs, mas a dor ainda era intensa sempre
que tocava no assunto. - De certa maneira, isso  afetou toda a minha
infncia. Sempre me senti responsvel pelo que se passou. - Sem falar na
perda dos pais, ofuscando o pouco de luz que lhe restava.
  Ela sabia perfeitamente o que ele queria dizer em relao a sentir-se
responsvel. Aquelas emoes tambm  lhe eram familiares.
  - Eu sempre achei que tudo o que acontecia com a minha famlia era
culpa minha  - admitiu ela. - Pelo menos era o que me diziam. Por que as
crianas esto  sempre dispostas a carregar esses fardos? - Gabriella
jamais duvidara de que o abandono pelos pais e tudo que ocorrera  antes
disso fosse culpa sua. - No foi voc, Joe. No foi culpa sua. Podia
muito bem ter sido voc a se afogar, e no ele. No  sabemos por que
essas coisas acontecem.
  - Eu costumava desejar que tivesse sido eu, em vez dele - confessou
numa voz  triste e baixa. - ramos todos loucos por ele. Jimmy era o
centro das atenes  da familia, o melhor em tudo, o primognito, o
favorito deles -admitiu o padre.
  A vida era to complicada; as coisas que aconteciam to impossveis de
se  explicar, to difceis de se enfrentar. Ambos sabiam disso.
  - Enfim, um dia vou v-lo novamente - afirmou ele, dirigindo um
sorriso triste  a Gabriella. - Eu no queria contar isso a voc. S que
penso muito nele durante os feriados. A gente adorava beisebol. E ele
era  um jogador sensacional. - Gabriella sabia que Jimmy era apenas um
garoto de nove anos de idade ao morrer, somente um menininho; mas, para
o irmo Joe, havia  sido, e ainda era, um heri.
  - Sinto muito, Joe - disse ela do fundo do corao. Sentia muito por
ele e por  tudo que passara.
  - Tudo bem, Gabbie - disse, agradecido.
  Ento, um dos padres do Santo Estvo aproximou-se para falar com eles
sobre o  jogo e congratular o padre Joe por sua vitria.
  - Voc tem um brao poderoso, meu filho.
  De fato, ele era um timo arremessador. A atmosfera tornou-se mais
leve depois  e, quando os irmos foram para casa naquela noite, o padre
Joe foi despedir-se  de  Gabriella.
  Ela se encontrava em compania da irm Timmie e da irm Agatha, e as
trs riam  e caoavam umas das outras. Todos ainda estavam muito
animados.
  - Obrigado por um jogo maravilhoso, irms - agradeceu, jovialmente.
Depois,  com um ltimo olhar para Gabriella que as outras pareceram no
notar: - Obrigado  por tudo - falou o padre, e ambos sabiam o que ele
queria dizer. Referia-se ao fato  de ter conversado com ela sobre Jimmy.
  - Deus o abenoe, padre Joe - disse ela, suavemente, do fundo do
corao.
  Os dois precisavam de bnos em suas vidas, de se perdoarem e
cicatrizarem as  feridas, e era o que Gabriella lhe desejava com fervor.
Em sua opinio, ele merecia isso  mais do que ela prpria.
  - Obrigado, irm. Vejo voc no confessionrio. Boa noite, irms -
despediu-se  ele em voz alta, acenando, enquanto se juntava aos outros e
reuniam o  equipamento  para voltarem ao Santo Estvo.
  Havia sido um dia excelente, um Quatro de Julho maravilhoso. E,
dirigindo-se  lentamente ao convento com as outras postulantes,
Gabriella surpreendeu-se ao  constatar que uma das coisas de que se
lembrava mais claramente em relao quele dia era  o momento em que
tocara os dedos dele.
  - No  mesmo, irm Bernadette? - perguntou uma das outras freiras,
mas ela  no tinha ouvido. Estava pensando em padre Joe e em seu irmo,
jimmy.
  - Desculpe, irm... No ouvi o que disse. - Todas sabiam que em
algumas  ocasies Gabriella no ouvia direito, principalmente agora, com
o hbito lhe  cobrindo as orelhas. Entretanto eram sempre pacientes com
ela e jamais ocorreria a qualquer uma das freiras que  Gabriella
estivesse pensando no jovem padre e em seu irmo.
  - Eu disse que os biscoitos de limo da irm Mary Martha estavam
incrveis.  Quero pegar a receita com ela para o ano que vem.
  - Deliciosos - concordou Gabriella, subindo as escadas, um pouco atrs
delas. Mas seu pensamento estava voando longe, imaginando dois
menininhos; um, apanhado por um redemoinho; o outro, soluando na margem
do rio.  Seu corao condoeu-se por ele, e tudo o que ela queria era
voltar no tempo e envolv-lo em  seus braos. Ainda podia ver os olhos
do padre  meia-luz do entardecer e tambm o sofrimento que neles se
encontrava. Seus prprios olhos encheram-se de  lgrimas pensando nele.
Tudo que podia fazer era rezar por ele naquela noite  para que viesse
finalmente a se perdoar. Gabriella rezou pelo homem que aprendera a amar
como  amigo e pela alma de seu irmo Jimmy.


Captulo 11

  Gabriella s voltou a ver o padre Joe vrios dias depois do piquenique
do  Quatro de Julho. Todos ainda falavam no assunto, e o jogo de
beisebol j fazia  parte  da histria do convento. Mal podiam esperar
para repeti-lo no ano seguinte.  Levando-se isso em considerao, e
tambm a animao que persistia no So  Mateus, Gabriella ficou
particularmente surpresa quando encontrou o padre Joe e ele no se
mostrou  nada cordial com ela. Parecia quase frio, e a palavra que
ocorreu a Gabriella,  enquanto falava com ele, foi rabugento. No tinha
certeza se ele estava irritado com ela  ou simplesmente de mau humor, ou
ainda se estava preocupado com alguma coisa.  Mas no se mostrava nem um
pouco agradvel e parecia distante em relao a ela. Por  uma frao de
segundo, Gabbie se perguntou se ele no estaria constrangido ou
arrependido por ter lhe contado sobre Jimmy.
  Ela queria lhe perguntar se estava tudo bem, mas no ousou fazlo.
Havia  outras pessoas por perto e, afinal de contas, ele era um padre e
tinha dez anos  a mais  do que ela. Ele nunca fizera uso de sua posio
superior, e ela no sabia o que  pensar daquela mudana to radical de
comportamento desde o piquenique do Quatro  de Julho.
  Ele ouviu a sua confisso naquele dia, mas se mostrou to lacnico e
distrado, que ela quase chegou a se perguntar se ele estava atento e se
a  escutara. Ele lhe passou duas ave-marias e doze pai-nossos como
penitncia, o que tambm no era  de seu feitio. Depois, como se
pensasse melhor, acrescentou cinco atos de  contrio.
  Por fm, antes que deixasse o confessionrio, Gabriella no pde mais
suportar  aquilo. Hesitou e, ento, sussurrou na escurido:
  - Voc est bem?
  - Estou.
  Pareceu to rude que ela no ousou insistir. Havia algo de muito
errado com  ele. No tinha nada do seu habitual jeito alegre e
mostrava-se muito distrado.  Era  bvio que alguma coisa lhe
acontecera. Talvez tivesse tido uma discusso com outro  padre ou sido
repreendido por um superior. Havia muitas atitudes polticas nas  ordens
religiosas, e, depois de tantos anos morando ali, ela sabia disso muito
bem.
  Gabriella deixou o confessionrio, cumpriu a penitncia e ento foi
fazer um  trabalho para a irm Emanuel. Prometera que procuraria uma
srie de livros razo  que aparentemente haviam desaparecido. Haviam
sido vistos pela ltima vez num  escritrio que ningum usava mais, no
final do corredor da capela, e Gabriella  estava certa de que j os vira
por l. Ela estava em p, inclinada sobre uma caixa com  livros, quando
ouviu passos passando por ali, parando e, ento, voltando em sua
direo. No se dera ao trabalho de olhar quem era. No estava fazendo
nada imprprio e,  alm disso, encontrava-se absorta, procurando por
todos os lados os livros razo que prometera encontrar.
  Sabia que a pessoa que passara no era uma freira porque os passos das
irms  eram sempre silenciosos e os que tinha ouvido ecoavam alto no
cho de pedras.  No  pensou a respeito, mas, se tivesse, estaria bvio
para ela que se tratava dos passos de  um homem.
  Sentindo que algum estava ali parado, observando-a, Gabriella parou o
que  fazia e virou-se. Surpreendeu-se ao ver o padre Joe no vo da
porta. Ele a  fitava com uma expresso de dor no rosto.
  - Oi - disse ela, baixinho, apenas um pouco surpresa em v-lo.
  O cmodo onde estava ficava no caminho de sada da igreja. Com
freqncia, ele  atravessava o jardim central porque era muito tranqilo
e o percurso era menor,  mas dessa vez tomara o caminho mais longo.
  - Algum problema?
  Ele negou com a cabea, observando-a em silncio, os profundos olhos
azuis  espelhando os dela. Parecia muitssimo preocupado.
  - Voc parece perturbado.
  Ele no lhe respondeu de imediato; entrou lentamente no escritrio, os
olhos  fixos nos dela, e ambos sabiam que no havia ningum por perto.
As salas desse  corredor no eram usadas havia muito tempo.
  - Eu estou preocupado - admitiu, finalmente, sem maiores explicaes.
No  sabia por onde comear ou como lhe dizer o que andava pensando.
  - Aconteceu alguma coisa? - Gabriella falava com ele como se falasse a
uma  criana, embora no tivesse muita experincia com crianas. Mas
alguma coisa  nele nesse momento fazia com que o visse dessa forma.
Parecia muito infantil, muito  preocupado e muito jovem ao mesmo tempo.
Gabriella teve vontade de lhe perguntar  se algum lhe fizera alguma
maldade na escola, mas ele no parecia estar com disposio  para
brincadeiras, o que era raro.
  O padre Joe entrou em silncio no quarto e apanhou um dos livros que
ela  descartara. At ento, os livros razo no tinham aparecido.
  - O que est fazendo aqui, Gabbie? - No a chamou de Gabriella ou
mesmo de  irm Bernie, e quando seus olhos se encontraram novamente,
estava claro para  ambos o  fato de que se consideravam bons amigos. Na
verdade, ela pensava nele quase como um  irmo.
  - A irm Emanuel est procurando uns livros razo antigos que foram
colocados  no lugar errado. Pensei que algum pudesse t-los guardado
aqui. - Havia poeira  em seu hbito, e Gabbie parecia mais adorvel do
que nunca. Fazia calor, e ela estava um pouco  desalinhada. Revirar
aquelas caixas velhas era um trabalho pesado.
  Ele se aproximou dela, tomou os livros que estavam em suas mos e os
colocou  em silncio sobre a mesa.
  - Tenho pensado em voc - falou o padre, quase com tristeza.
  Gabriella no sabia ao certo o que ele queria dizer com aquilo, mas
no havia  nada de ameaador em sua atitude ou em suas palavras.
  - Muito - acrescentou -, depois daquela noite.
  - Voc est arrependido por ter me contado sobre Jimmy? -perguntou
ela, suavemente, a voz to calma no quarto silencioso que era quase uma
carcia.
  Ele fechou os olhos, negou com a cabea e, sem dizer uma palavra,
pegou a mo  de Gabriella. Um longo tempo se passou antes que ele
tornasse a abrir os olhos. Gabriella ainda tentava encontrar as palavras
de conforto  certas para lhe oferecer.
  - Claro que no estou arrependido, Gabbie. Voc  minha amiga. Eu
tenho pensado... a respeito de uma poro de coisas... voc... eu...  as
vidas que nos trouxeram para c, as pessoas que nos fizeram mal...
aquelas  que amamos e perdemos. - Ele havia amado e perdido mais do que
ela.
  Gabriella no estava certa se conhecera o amor antes; no at que
fosse parar  ali.
  - Nossas vidas aqui significam muito para ns dois, no ? -
perguntou, como se procurasse  desesperadamente pela resposta a uma
pergunta que no conseguia lhe fazer.
  -  claro que significam. Voc sabe disso. - Eu nunca faria nada que
pusesse isso em risco, que prejudicasse um de ns...  que comprometesse
qualquer coisa... no  o que eu quero. - Gabriella ainda no  fazia
idia de onde ele queria chegar. Antes desse momento, jamais ficara
sozinha  assim com um homem.
  - Voc no fez nada nesse sentido, Joe. No fizemos nada de errado -
afirmou  ela, com tanta certeza, que a ele pareceu que uma faca
atravessava o seu  corao.  Ento o padre confessou seus pecados a
Gabriella, como ela havia feito tantas vezes  com ele.
  - Fiz, sim.
  - No fez, no. - Pelo menos, no que ela soubesse.
  - Eu ando tendo pensamentos perigosos. - Era o mais perto que podia
chegar de  dizer o que tinha no corao e na cabea.
  - O que quer dizer? - perguntou, os olhos arregalados e a alma
exposta.
  Aproximou-se um pouco mais dele, sem saber, mas o m que unia os dois
era  mais poderoso do que qualquer coisa  qual j tivessem sido
expostos.
  - No sei como dizer... o que falar... - Havia lgrimas em seus olhos
enquanto  a fitava, e Gabriella pousou delicadamente a mo em seu rosto.
Era a primeira  vez que tocava um homem daquela maneira. - Eu amo voc,
Gabbie. - No era mais  possvel esconder a verdade dela ou dele
prprio. - No sei o que dizer a voc  ou o que fazer em relao a
isso... No quero mago-la ou arruinar a sua vida. Quero ter  certeza de
que  isso o que voc quer antes que eu fuja daqui para sempre ou  deixe
o emprego no Santo Estvo e v embora. Vou pedir uma transferncia ao
arcebispo.
  Estivera remoendo a idia por toda a manh.
  - Voc no pode fazer isso! - exclamou ela, parecendo assustada. A
possibilidade de perd-lo atemorizava-a mais do que tudo que ele acabara
de  dizer. - Voc no pode ir embora. - Era seu amigo e no queria
perd-lo.
  - Eu preciso. No posso ficar aqui, perto assim de voc. Isso est me
levando   loucura... Ah, Gabbie... -As palavras perderam-se quando ele
a puxou para junto de si.
  Gabriella enterrou o rosto no peito forte de Joe, enquanto seus braos
a  envolviam com firmeza. Era a fora mais poderosa que ela sentira em
toda a vida,  o lugar mais seguro em que j estivera, mais ainda que o
convento.
  - Eu te amo tanto... quero passar o tempo todo com voc...
conversar...  abra-la... tomar conta de voc... quero ficar com voc
para sempre... mas como podemos fazer isso? Tenho andado  desnorteado
nesses ltimos quatro dias. Eu te amo demais - disse, parecendo  aflito,
enquanto ela o olhava assombrada.
  Tudo o que ele queria era mant-la em seus braos por toda a
eternidade. At  agora, ela no tinha dito uma s palavra, mas havia
lgrimas em seus olhos; lgrimas de pesar, dor e desejo.
  - Eu tambm te amo, Joe... eu no tinha certeza do que estava
sentindo... acho  que sabia que estava errado... pensei que pudssemos
ser apenas bons amigos. - Parecia ao mesmo tempo feliz e arrasada.
  - Talvez possamos ser amigos um dia, mas agora no... ainda no... Ns
dois  pertencemos a este lugar. No posso lhe pedir que deixe o
convento. No sei nem  mesmo o que devo fazer.
  Estava to perturbado, angustiado e tomado pela culpa, que subitamente
tudo  ficou claro para Gabriella. Ento ela o abraou, sua prpria fora
trazendo-o para mais perto dela, e deu a ele o que tinha para lhe dar.
  - Fique quietinho... temos de rezar por tudo isso... shhh... est tudo
bem,  Joe, eu te amo. -Agora era Gabriella a forte, e ele era quem
precisava  desesperadamente dela.
  Sentiu todo o poder e o calor do amor que ela nutria por ele e, sem
dizer  outra palavra, puxou-a para ainda mais perto e a beijou. Aquele
era um momento  que nenhum dos dois jamais esqueceria; quando universos
colidiram e duas vidas  transformaram-se para sempre num nico instante.
  - Ah, meu Deus, Gabbie... Eu te amo demais. - De repente, estava feliz
por ter  lhe contado.
  Depois da agonia da semana anterior, no tinha o menor arrependimento.
Nunca em sua vida se sentira como nesse momento.
  - Tambm te amo, Joe. - Ela parecia de sbito muito madura, corajosa e
segura.
  O que estavam fazendo era arriscado, e ainda mais perigoso era o jogo
no qual  estavam entrando.
  - O que vamos fazer agora? - perguntou Gabbie, baixinho, enquanto ele
se  sentava ao seu lado na beira da velha mesa.
  - No sei - admitiu ele, honestamente. - Ns dois precisamos de tempo
para  resolver isso.
  Entretanto, ambos sabiam que se fossem longe demais, seria impossvel
continuarem suas vidas ali. Ainda no era tarde demais, ainda podiam
voltar  atrs. Eram Ado e Eva no jardim do den, a ma ainda no tinha
sido mordida, e eles a seguravam  nas mos, observando-a. No entanto, a
tentao em muito pouco tempo seria ainda maior e, se andassem rpido
demais, acabariam destruindo a vida um do outro. Enquanto os dois se
fitavam, tinham conscincia de que  aquela era uma responsabilidade
apavorante, e ele a puxou para si e a beijou  novamente.
  - Podemos nos encontrar em algum outro lugar? - perguntou Joe, depois
de  beij-la. - S para tomar um caf ou andar um pouco. L fora, no
mundo real, com  gente  de verdade. Precisamos fcar sozinhos um pouco
para conversar sobre isso.
  - No sei - disse ela, pensativa. - No vejo como poderia fazer isso.
Normalmente, as postulantes nunca saem do convento.
  - Eu sei, mas voc  diferente.  como se fosse uma filha da casa,
viveu aqui  toda a sua vida. No conseguiria que a mandassem fazer um
trabalho ou executar  qualquer tarefa para algum? Posso ir encontr-la
onde voc quiser.
  - Vou pensar sobre isso hoje  noite. - Gabriella tremia, enquanto ele
a  segurava.
  De repente, em meia hora, seu mundo virara de pernas para o ar. Porm
ela no queria resistir. Sabia que ainda podia voltar atrs, mas nada a
teria feito  recuar. Queria ficar perto dele mais do que qualquer outra
coisa que j houvesse desejado na vida. Durante todos esses meses no se
dera conta e, agora, num sbito  lampejo, compreendeu que a irm Anne
estivera certa. E disse isso a ele.
  - Talvez ela seja mais esperta do que ns dois - afirmou ele,
sabiamente. -  Juro que no percebi que isso estava acontecendo. - Ele
nunca tivera  envolvimento com uma mulher, tampouco Gabriella ficara to
prxima a um homem.
  Ela no havia namorado, paquerado, feito amizade com os colegas de
turma da  Columbia, muito menos conversado de fato com um rapaz de l.
No corao, na vida  e  no comportamento, desde que era criana,
Gabriella sempre fora uma freira. E agora,  num piscar de olhos, tudo
aquilo tinha mudado. De repente, transformara-se numa mulher,
perdidamente apaixonada por ele.
  - Acabaram de me pedir que celebrasse a missa e ouvisse as confisses
aqui  todos os dias. - Ele vinha alternando a tarefa com o padre Peter,
mas este, j  com uma certa idade e no muito bem de sade, decidira que
o trabalho no Santo Estvo  j era bastante para ele. E pedira a padre
Joe que o substitusse, j que o jovem padre se dava  to bem com as
freiras. - Pode me dizer o que resolveu amanh cedo.
  - Pode ser que eu leve alguns dias - disse ela, sorrindo de forma
maliciosa.
  Ele teve uma vontade enorme de arrancar o vu que lhe cobria a cabea,
 deixando ver apenas a parte da frente de seus cabelos dourados. Queria
saber o comprimento  destes, o quanto restava deles. Precisava ver mais
do que lhe era permitido, abra-la e beij-la ate que o ar faltasse a
ambos. Entretanto, sabia que no poderia  ficar com ela para sempre no
escritrio abandonado e logo precisaria deix-la  voltar para junto das
outras. Mas detestava ter de deix-la mesmo que por umas poucas horas,
at que pudessem se ver novamente.
  - Talvez eu deva comear a ouvir as confisses aqui duas vezes por
dia-brincou  ele com um sorriso infantil, e, sentindo aquela fora
magntica que puxava os  dois ao mesmo tempo, tornaram a se beijar, com
uma paixo ainda maior.
  - Eu te amo - sussurrou ela, querendo mais dele do que se atrevia a
pedir.
  - Tambm te amo. Mas  melhor que v agora. Vejo voc amanh cedo -
prometeu  ele, beijando-a outra vez. - Detesto ter de me afastar de
voc.
  - Mas  preciso. Podemos nos encontrar aqui de novo. Ningum nunca vem
aqui, e  eu sei onde a irm Emanuel guarda as chaves deste escritrio.
  - Tenha cuidado - avisou-a -, no faa nenhuma loucura. Eu estou
falando  srio. - Sua voz estava firme, e ela riu ao fitar os olhos dele
novamente.
  - Olhe quem est falando! Loucura maior do que esta  impossvel. -
Mas, caso  se encontrassem fora daquelas paredes, ambos sabiam que a
loucura seria ainda  maior.
  - Voc est com raiva de mim por ter lhe contado, Gabbie? - De
repente, ele  pareceu preocupado ao se levantar e olh-la diretamente
nos olhos.
  Havia assumido um risco tremendo ao lhe falar e agora colocara ambos
em perigo. Mas ela no  parecia ter qualquer arrependimento. Nenhum
mesmo.
  - Como poderia eu ficar com raiva de voc, Joe? Eu te amo. - Ento,
com um  sorriso tmido: - Estou feliz que tenha me contado. - De certo
modo, porm, a  situao era mais fcil para ela: era apenas uma
postulante, ainda no fizera os votos  definitivos. No era nem mesmo
uma novia. Joe era padre havia seis anos, e as  conseqncias do que
tinham feito eram bem mais dramticas para ele. Toda a sua vida estava
em  jogo.
  - No sei ao certo o que devemos fazer, Gabbie. No sei nem mesmo como
 sustentaria voc - disse ele, parecendo preocupado.
  - Vamos ver o que acontece. Podemos resolver isso depois. - Havia uma
fora em Gabriella que ela jamais sentira e, em alguns aspectos,
parecia mais forte do que ele. - Ainda  cedo demais para a gente pensar
em tudo  isso. Lembre-se apenas que te amo, Joe. Por hora, isso basta.
  - Era tudo que eu queria ouvir. Pensei que voc nunca mais fosse
querer falar  comigo se eu lhe contasse... Estava com tanto medo... -
Ela tocou-lhe os lbios  com os dedos, e ele beijou-lhe a mo. - No se
esquea do quanto te amo - sussurrou  ele, obrigando-se a ir embora.
Parou no vo da porta uma ltima vez, sorriu para ela e se foi.
  Gabriella pde ouvir seus passos ecoando no corredor por um longo
tempo. Ficou  ali parada, escutando e pensando em tudo que ele acabara
de lhe dizer. Ainda no  podia acreditar, no entendia como isso tinha
acontecido com eles. Em muitos aspectos,  parecia uma enorme bno; em
outros, era um drago esperando para devor-los. Perguntou-se por quanto
tempo conseguiriam manter aquilo em segredo. Talvez por muito tempo.
Sabia que precisariam faz-lo, pelo menos por enquanto, at que
decidissem que  atitude tomar em relao ao futuro. Para ela, era bvio
que, apesar de suas  circunstncias delicadas no So Mateus, era a Joe
que cabia a deciso mais  difcil.
  Gabriella vasculhou o restante das caixas empoeiradas e achou somente
um dos  livros razo. Esse, porm, seria suficiente para satisfazer a
irm Emanuel por  hoje e daria a Gabriella uma desculpa para voltar ali.
Poderiam encontrar-se em  segredo no escritrio abandonado, pelo menos
por um tempo. Deixou o cmodo,  trancando a porta, e, enquanto ia 
procura da irm Emanuel, sentiase como se  estivesse embriagada. Ele a
amava... ele a tinha beijado... queria ficar com  ela...  Era impossvel
absorver tudo que se passara ou mesmo comear a entender. Mas o som  das
palavras dele ainda flutuava em sua cabea quando ela se reuniu s
outras, e em seus lbios havia um sorriso que ningum percebeu, ou
compreendeu,  exceo  da irm Anne, que a observava atentamente.

Captulo 12

  Na manh seguinte, Gabriella se encontrava na fila do confessionrio.
As  outras freiras ainda pareciam sonolentas, mas ela estava bem
desperta desde as  trs da  madrugada. Pareceu-lhe haver transcorrido
horas na fila at v-lo, e ela comeou a se  perguntar se no teria
imaginado tudo, se ele no estaria arrependido e lhe  diria que cara em
si e que nunca mais queria v-la. Isso era inteiramente possvel, e
havia uma expresso de terror no rosto de Gabriella quando ela
fnalmente entrou no confessionrio, depois de uma das freiras mais
idosas do convento, e disse as  palavras familiares que davam incio 
confisso. O confortante ritual era agora  apenas uma fachada.
  Ele reconheceu sua voz imediatamente. Estava esperando por ela e, sem
qualquer  rudo, abriu a grade que os separava, e Gabriella pde ver o
contorno de seu  rosto, como se fosse um sonho.
  - Eu te amo, Gabbie - sussurrou ele to baixinho, que ela mal pde
compreender  as palavras, mas Gabriella suspirou de alivio no instante
em que as ouviu.
  - Tive medo de que voc tivesse mudado de idia. - Parecia ansiosa em
meio   escurido.
  - Eu tambm, de que voc mudasse de idia. - Beijou-a atravs da
janelinha, e  houve um breve silncio, depois do qual Joe perguntou a
ela se poderia encontr-lo fora do convento.
  - Talvez. A correspondncia vai ser enviada amanh, mas geralmente 
uma das  outras irms quem faz isso. Madre Gregoria deixa eu ir de vez
em quando. Mas eu  s  ficaria sabendo na ltima hora.
  - Ligue para mim no Santo Estvo. Diga que  a secretria do meu
dentista e  que houve uma desistncia. Basta me dizer o lugar e a hora.
A que correio voc  costuma ir?
  - Gabriella lhe disse, e ele prometeu estar l assim que ela
telefonasse.
  - E se voc no estiver no Santo Estvo quando eu ligar?
  Gabbie parecia preocupada.
 - Vou estar. Ultimamente, tenho tido muito trabalho burocrtico para
fazer,  alm de reunies com paroquianos no colgio. Estarei l e posso
sair  imediatamente se precisar. Faa o que for possvel.
  - Eu te amo - murmurou ela.
  - Tambm te amo. - Estavam totalmente envolvidos naquele conluio e
determinados a ficar juntos, mesmo que por pouco tempo, por mais alto
que fosse  o preo a ser pago.
  Ambos haviam passado a noite inteira em claro, depois do encontro no
escritrio abandonado, e sabiam que, apesar do perigo que corriam, para
eles, o  que faziam  era o certo. Nenhum dos dois tinha a menor dvida.
  - Diga as ave-marias que quiser. E reze por mim, Gabbie. Estou falando
srio.  Ns dois estamos precisando agora. Vou rezar por voc. Ligue
assim que puder.
  - Se isso no for possvel, vejo voc aqui amanh cedo. Ela deixou o
confessionrio com a cabea baixa, numa atitude muito solene,  torcendo
para que ningum visse a agitao em seus olhos. Estava contente que
madre Gregoria estivesse ocupada na noite anterior e que no tivesse
parado para falar com ela  no jantar. Seria difcil encar-la agora, e
Gabbie temia que a madre superiora,  conhecendo-a to bem, visse a
expresso de seus olhos e descobrisse o seu segredo.
  Gabriella assistiu  missa da manh e pegou-se olhando para Joe de uma
maneira  diferente. Ele no lhe parecia mais to distante e mstico. De
repente, parecia  mais um homem. Ela ficou um pouco assustada e, quando
pensou muito intensamente no  fato, sentiu uma pontada de medo correr ao
longo de sua espinha. Entretanto,  sabia que no podia voltar atrs
agora. No queria. Desejava mais beijos seus e a  sensao daquelas mos
e braos fortes em torno de si.
  Deixou a igreja com as outras freiras e sentiu-se grata pelo seu
trabalho na  horta, que a mantinha ocupada e longe dos olhares curiosos.
Depois do caf da  manh, mencionou a madre Emanuel que ficaria feliz em
levar a correspondncia ao  correio, caso precisassem de sua ajuda. O
trabalho na horta ia bem, e Gabriella  tinha tempo para ajud-las.
  - E muito gentil de sua parte, irm Bernadette. Vou dizer s outras.
Acho que  no temos muita coisa para levar hoje. Mas talvez numa outra
ocasio...
  Aquela acabou sendo uma semana frustrante para eles. No havia motivos
ou  meios para ela sair do convento. Porm, encontraram-se mais duas
vezes no  escritrio  abandonado. Era um risco evidente, e ambos estavam
cientes disso. Ele agora chegava com  passos mais silenciosos, e
Gabriella encontrara o ltimo dos livros razo, mas o  escondeu para
continuar tendo um motivo para voltar ali. Trancavam a porta durante a
sua  permanncia ali, e se beijavam, sussurravam e se abraavam o mais
forte que  ousavam.
  Sentaram-se no cho no calor de uma tarde de vero e conversaram sobre
suas  vidas. Ainda no tinham resolvido nada. Tudo o que Joe pedia agora
era um tempo juntos. Quando pudessem se comportar como pessoas de
verdade, falar abertamente e andar  nas ruas ou num parque de mos
dadas. Entretanto, mesmo que se encontrassem l  fora, sabiam que
precisariam ter cuidado e que ela no poderia ficar ausente por muito
tempo sem que as freiras se alarmassem.
  Por enquanto, dar uma volta e partilhar uns poucos minutos juntos era
tudo com  o que sonhavam; um prazer trivial a que os outros casais no
davam valor e com o  qual teriam de esperar a sorte lhes abenoar.
  Esse momento finalmente chegou uma semana depois da primeira
declarao de  Joe. Surgiu de forma inesperada e repentina, quando a
irm Immaculata deu a  Gabriella as chaves de uma velha caminhonete que
usavam para ir buscar os suprimentos.  Alguns tecidos haviam chegado 
loja, e as freiras encarregadas de fazer os  hbitos estavam ansiosas
para comear logo o trabalho, enquanto tinham tempo. No havia  mais
ningum disponvel, e Gabriella tinha de dirigir at o centro da cidade
para peg-los. A loja ficava na Delancey Street, e ela sabia como chegar
l. Havia  feito isso para elas muitas outras vezes. E, j que ia sair,
duas outras freiras  tambm lhe deram outras tarefas. Tinha muito a
fazer, mas sabia que, se corresse,  poderia arranjar um tempinho com
Joe, perto de um dos lugares aonde iria.
  Pegou a lista que lhe deram com mos trmulas, torcendo para que
ningum  tivesse notado. Tinha as chaves da caminhonete, o dinheiro que
lhe entregaram  num envelope e, to logo pde despedir-se cordialmente,
correu porta afora, saindo do So  Mateus. A caminhonete estava
estacionada ali perto. Acenou para madre Gregoria  ao sair, e a madre
superiora, como sempre, sorriu para ela. Estava feliz em ver Gabbie  to
animada nesses ltimos dias. Havia uma luz adorvel de alegria em seus
olhos. Todas supunham que o postulado lhe caa como uma luva. Ela
trabalhava muito na horta. Madre Gregoria esperava que Gabbie ainda
encontrasse tempo para escrever  e lembrou a si mesma de perguntar-lhe.
  Ao afastar-se do meio-fio, Gabbie pisou fundo no acelerador e dobrou a
esquina  com velocidade. Dirigiu por duas quadras, parou numa cabine
telefnica e, com as  mos trmulas, ligou para ele. No convento, um
jovem irmo atendeu no terceiro toque,  e Gabriella disse, como Joe lhe
mandara, que era do dentista do padre Connors.  Tinham uma desistncia e
queriam saber se ele no teria uma hora livre naquela manh.
  - Ah, sinto muito - respondeu o jovem irmo com polidez. - Acho que
ele no  est. - O corao de Gabriella se descompassou ao ouvir aquelas
palavras. - Vou  verificar para a senhora, mas o vi se aprontando para
sair h apenas alguns minutos e  talvez no volte por um bom tempo.
  Ela aguardou pelo que lhe pareceu uma eternidade, aflita com a m
sorte de no  encontr-lo e desejando ter sado meia hora antes. Por um
instante, perguntou-se  se no deveria sentir-se culpada, se este no
era o modo de Deus lhes mostrar que  aquilo no daria certo. Os dois
haviam falado tanto sobre o que significaria se  ambos deixassem a
Igreja ao mesmo tempo. Ela sabia que deveria se sentir culpada, mas
ainda no se sentia. Era tudo to novo e emocionante, e eles tinham
esperado to ansiosamente por alguns momentos juntos. Talvez, no fim,
aquilo no resultasse  em nada; talvez cassem em si antes que fosse
tarde demais. Mas, se isso  acontecesse, teriam esse amor que haviam
partilhado por uns poucos instantes, uns poucos  dias, e Gabriella no
queria desistir de tudo agora. Tinha o resto da vida para  arrepender-se
e entregar-se a Deus, se era isso mesmo o que Ele queria para ela.
  O irmo voltou ao telefone sem flego, e Gabbie quase gritou de prazer
quando  ele disse que o alcanara e que, se estivesse disposta a
aguardar um pouco mais,  ele a atenderia.
  Minutos depois, ouviu a voz de Joe, que parecia ter vindo correndo. E
tinha.  J estava de sada e subira as escadas correndo para falar com
ela.
  - Onde voc est? - perguntou, com um largo sorriso. Nenhum dos dois
tinha  acreditado que esse dia chegaria. Parecia ter levado uma
eternidade.
  - Estou na esquina do So Mateus. Tenho de ir ao centro da cidade
buscar umas  coisas. E tambm preciso fazer outros servicinhos, mas acho
que ningum est  preocupado com quanto tempo eu vou ficar fora -
explicou a ele.
  - Posso ir junto? Ou  muito perigoso? Posso encontr-la em algum
lugar, se  preferir. Aonde voc precisa ir?
  - Na Delancey Street e em algumas lojas que nos do desconto no Lower
East  Side.
  - Que tal o Washington Square Park? Acredito que ningum l v nos
reconhecer.  Ou o Bryant Park, atrs da biblioteca? - Ele sempre gostara
de l, apesar dos  pombos e dos bbados. O lugar era tranqilo e bonito.
  Marcaram no Washington Square Park dentro de uma hora, o que dava
tempo a  Gabbie de apanhar os tecidos e fazer as outras coisas, se
corresse.
  - Encontro voc s dez horas - prometeu ele. - E Gabbie... obrigado
por fazer  isso, meu amor. Eu te adoro. - Ningum, em toda a sua vida,
jamais a chamara  assim ou falara com ela naquele tom.
  - Eu te amo, Joe - sussurrou ela, ainda com medo de que algum pudesse
ouvi- los. Levou um tempo para assimilar o fato de que no havia ningum
ao redor.
  - V fazer suas coisas. Encontro voc em uma hora.
  Dessa vez, foram rpidos na loja. Ajudaram-na a colocar os imensos
rolos de  tecido no carro. Cada hbito consumia cinco metros e havia
duzentas freiras no So Mateus. O que lhe entregaram hoje, suficiente
apenas para algumas delas, encheu quase toda a traseira da caminhonete.
Gabbie fez o resto das tarefas em tempo recorde, e eram dez e  cinco
quando subiu a Sexta Avenida e virou em direo ao parque at que o arco
familiar estivesse  vista. O parque parecia um pouco  com as
fotografias de Paris que ela havia visto. Joe j se encontrava l,  sua
espera, quando ela chegou. Gabbie encontrou uma vaga e fechou a
caminhonete. Depois,  como se uma idia tardia lhe ocorresse, tirou
cuidadosamente o vu, deixando-o  no banco da frente. Nem se preocupou
em se olhar no espelho, mas correu os dedos pelos  cabelos ao fechar o
carro novamente. Foi ao encontro dele, esperando parecer-se  com uma
pessoa comum, apesar do vestido preto sombrio. Estava feliz por ainda
usar o  hbito mais curto das postulantes. No haveria jeito de
disfarar o vestido se  j tivesse feito os votos definitivos ou se
tornado novia.
  Atravessou a praa correndo assim que o viu, sorrindo radiante para
ele. Sem  dizer uma palavra sequer, Joe a puxou para junto de si e a
beijou. Ele tambm  tirara o colarinho de padre, deixando-o no carro com
o palet. Parecia um homem comum  com camisa preta de mangas curtas e
cala combinando, e no chamou nenhuma  ateno.
  - Estou to feliz em ver voc - disse ele, ofegante, caminhando
devagar ao  lado de Gabriella, emocionado por estar com ela pela
primeira vez no mundo de  verdade.
  Mesmo quela hora, era um mundo cheio de vida, cores e gente. Havia
crianas  com bales de gs, casais de mos dadas conversando nos
bancos, homens mais  velhos jogando xadrez, e a copa das rvores no alto
suavizava o sol de vero. Ele comprou  sorvete para ela numa carrocinha,
e os dois se sentaram juntos em um banco. Ele  sorria para Gabriella,
que nunca o havia visto to feliz, enquanto se beijavam de mos  dadas e
tomavam sorvete. Era como um sonho; um sonho que poderia facilmente
transformar-se em pesadelo. Mas nenhum dos dois queria pensar nisso
agora.
  - Obrigado por me encontrar aqui, Gabbie. - Olhava-a, agradecido,
sabendo  muito bem como era difcil para ela sair do convento. Porm, a
longa espera por  essas  poucas horas fazia com que fossem ainda mais
preciosas.
  No desperdiaram um nico instante, mas, ao contrrio, falaram sobre
tudo,  compartilharam tantas idias quanto possveis naquele breve
espao de tempo,  concentrando-se no presente, e no no futuro. Ele
queria saber quando poderiam se encontrar  novamente, e Gabriella no
fazia idia do que lhe responder. A ambos, esse  momento parecia um
milagre to grande, que era difcil imaginar repeti-lo, mas ela sabia
que  teria de dar um jeito. Os instantes partilhados no So Mateus agora
pareciam  migalhas. Era maravilhoso estarem juntos no mundo e
sentirem-se assim  vontade um com o  outro.
  - Vou fazer o possvel. Acho que a madre Emanuel vai me deixar fazer
outros  servios para ela. No acredito que ningum v se opor, desde
que eu faa tudo e  no desaparea por muito tempo. - As freiras sempre
quebravam as regras por ela,  fora sempre assim, e Gabriella era muito
til para elas. No havia motivos para  que aquilo parasse agora, desde
que ela continuasse fazendo tudo o que devia com as  outras postulantes.
No escrevera uma palavra sequer durante toda aquela semana, mas havia
conseguido trabalhar na horta por horas a fio.
  - Gostaria muito de ir ao Central Park com voc ou andar s margens do
rio. -  Eram tantas as coisas que queria fazer com ela, e os dois tinham
to pouco  tempo.
  Levou-a de volta at a caminhonete s onze e meia. Os momentos que
haviam  compartilhado tinham sido to bem preenchidos que lhes pareciam
horas. O tempo  que passaram juntos foi exatamente o que esperavam, e
fez com que ficassem ainda mais  sedentos por outros encontros. Ambos
sabiam quais eram os perigos, os riscos  potenciais, mas era tarde
demais para que pudessem voltar atrs. Ele a beijou uma ltima  vez, e
Gabriella pde sentir o corpo dele to prximo ao seu que a princpio
aquilo a assustou, mas depois ela relaxou e pareceu derreter-se em seus
braos.
  - Cuide-se, Gabbie. Tenha cuidado. No diga nada a ningum -
avisou-lhe,  desnecessariamente, e ela sorriu.
  - Nem mesmo para a irm Anne? - brincou ela, fazendo-o rir. Queria
lev-la de  volta, ficar com ela, telefonar naquela noite. Desejava
fazer todas as coisas  que os homens apaixonados faziam, e ele nunca
fizera. Aos trinta e um anos, jamais  havia amado uma mulher ou mesmo
concebido pensar no assunto. Jamais se sentira  atrado por algum,
nunca tinha flertado ou permitido a si mesmo o tipo de fantasias que
criava agora. Para ele, era como se houvesse aberto as  comportas de uma
represa. E uma vez abertas, era impossvel reter a avalanche de
sentimentos que o dominavam.
  Ficou parado ao lado do carro, observando-a colocar o vu. Parecia uma
 menininha ao olhar para ele com aqueles imensos olhos azuis. S de
v-la assim,  tinha vontade de fugir com ela imediatamente. E nenhum dos
dois fazia idia de quando poderiam  encontrar-se daquela maneira de
novo.
  - Vejo voc no confessionrio amanh - disse Gabriella com cautela, e
ele fez  que sim com a cabea, querendo muito mais dela. Detestava ter
de deix-la ir.
  - Voc ainda tem as chaves daquela sala fechada no convento? -
perguntou ele,  esperanoso, e ela sorriu.
  - Eu sei onde esto.
  Era perigoso, mas melhor do que os cochichos trocados no
confessionrio.  Queria dela mais do que tinha agora.
  Beijaram-se uma ltima vez e, ao se afastar, Gabbie acenou para ele e
voltou  para o convento, em meio ao trnsito do centro da cidade, o mais
rpido que  pde.  Chegou ao So Mateus sem dificuldades, e uma das
postulantes  veio ajud-la a tirar o material da caminhonete. Os rolos
de tecido eram  pesados, mas Gabriella sentia-se como se tivesse
redobrado sua fora depois do tempo que passara com Joe e da ternura que
tinham  compartilhado.
  Almoou com as outras freiras, trabalhou na horta durante a tarde,
chegou ao  jantar na hora, depois de fazer as oraes com as demais, e,
 noite, foi para o  quarto no tempo livre e comeou a escrever. Madre
Gregoria foi visit-la e perguntou se  havia escrito novas histrias.
Tinha a sensao de que no se falavam havia  muito tempo. Mas estava
contente em ver Gabbie parecendo to bem; alm disso, todos os
relatrios que lhe tinham chegado ultimamente diziam que a irm
Bernadette  estava indo muito bem. Mal podia esperar para que ela
fizesse os votos defimitivos.  Isso ainda demoraria, mas Gabriella
estava j bem adiantada. Quando madre  Gregoria saiu do quarto, Gabbie
sentiu a primeira pontada sria de culpa desde que toda aquela  odissia
com Joe comeara, depois do Quatro de Julho. Apenas duas semanas haviam
se passado, mas era difcil de acreditar: para ela, parecia uma vida
inteira.
  No podia deixar de pensar em como madre Gregoria ficaria decepcionada
com  ela, no quanto se sentiria arrasada. Ainda assim, Gabbie sabia no
poder parar.  Tudo  o que queria na vida era estar com Joe Connors.
  Ela o viu no confessionrio no dia seguinte e os dois se encontraram
no  escritrio abandonado ao entardecer, mas se sentiram aprisionados
ali, depois de  terem  estado juntos no Washington Square Park. E ela
no tinha esperanas de sair para fazer  outros servios por enquanto.
No fim, duas semanas inteiras se passaram at ela  poder sair novamente,
e a espera para que esse dia chegasse quase os levou  loucura.
  Como ele desejara, encontraram-se no Central Park. Passearam em torno
do  pequeno lago e observaram as crianas e os adultos divertindo-se em
seus  barquinhos; depois caminharam lentamente em direo  cidade alta.
O parque estava verde e  exuberante, havia uma banda tocando em algum
lugar  distncia, e, como  acontecia sempre que Gabriella estava com
ele, tudo lhe parecia um sonho, um feriado inteiro  comprimido numa
nica hora. Tinham to pouco tempo para ficar juntos e tudo o que
queriam era mais. Um do outro e de  suas vidas. Cada instante
compartilhado era precioso. Alguns dias mais tarde,  puderam voltar ao
Central Park. Dessa vez, deitaram-se na grama,  sombra de uma rvore,
e Joe recostou a cabea no colo dela. Gabriella ouvia-o atentamente,
enquanto  afagava seus cabelos. Havia tanta coisa a ser dita e to pouco
tempo. Ele tornou a  comprar um sorvete para ela ao voltarem para o
carro. Viam-se todos os dias,  escondidos no confessionrio e no
escritrio poeirento que agora lhes parecia seu, mas  haviam estado
juntos fora dali apenas trs vezes.
  Havia tanto para conversarem e muita coisa que deviam resolver. Nenhum
dos  dois sabia por onde comear. Era uma jornada difcil de ser
percorrida, embora estivessem seguros. Isso tinha acontecido  antes, em
circunstncias semelhantes s deles. Era comum um padre deixar a batina
por causa de uma freira, ele no seria o primeiro nem o ltimo.
Entretanto, ambos sabiam a repercusso que aquilo causaria, quantas
pessoas iriam se sentir tradas. E havia momentos  em que Joe tinha
medo. Ele, em especial, estava preocupado em abandonar a igreja  e
disse isso a Gabbie, apesar de estar seguro de seu amor por ela.
  - Precisamos de mais tempo - disse Gabriella, sensatamente. - Voc no
pode  tomar uma atitude dessas, Joe, sem antes pensar muito.
  E ele pensava o tempo todo, especialmente  noite, quando estava
sozinho,  esperando a hora de v-la outra vez, desesperado pelos beijos
roubados no  confessionrio. Estava fazendo uma coisa que jamais teria
concebido antes de conhec-la.
  Ela comeara a escrever um dirio para ele, sobre o amor que os unia e
os  sonhos que criava para ambos. Esperava um dia darlhe de presente.
Era uma carta  de amor interminvel, e ela a mantinha escondida junto
com as roupas de baixo, na nica  gaveta que possua, onde estava certa
de que ningum o encontraria. Era uma  maneira de estar com Joe, mesmo
quando no estava, e de falar com ele quando no podia.
  - Quando voc acha que poder sair de novo? - perguntou ele, parecendo
triste  numa tarde, enquanto a levava at o carro.
  - Assim que for possvel. Talvez na semana que vem.
  As freiras mais velhas iam todas para o lago Geroge. Algum emprestara
uma  casa para elas, e madre Gregoria ia acompanhlas por uns poucos
dias, a fim de  ajud-las a se acomodarem. Isso poderia significar mais
liberdade para Gabriella, ou no.  Era sempre difcil saber essas coisas
no convento.
  No dia em que partiram, porm, Gabriella viu-se com uma tarde inteira
 sua  disposio. As outras postulantes tinham ido ao dentista e
deveriam ficar fora  por  vrias horas. Gabbie fora ao consultrio
apenas dois meses antes e portanto deixaram-na  sozinha em casa, sem
obrigaes ou planos. Ela disse  freira encarregada que  estava tendo
problemas com alguns dos legumes e precisava de mais pesticidas. A velha
freira estava com uma dor de cabea horrvel havia dias e no fez
perguntas,  entregando-lhe as chaves do carro sem qualquer comentrio.
Gabriella disse vagamente que  voltaria mais tarde. Depois, como sempre
o fazia, ao dobrar a esquina, parou e  ligou para Joe, que, por sorte,
no sara. Ele no estava esperando que ela telefonasse,  mas agora
detestava sair do Santo Estvo, sempre temendo que fosse perder um
daqueles raros telefonemas e uma oportunidade de v-la.
  - Quanto tempo voc tem? - Sempre lhe perguntava isso, mas dessa vez
ficou  surpreso quando ela afirmou dispor de algumas horas. Joe vinha
esperando por  esse dia, mas estava aturdido por saber que finalmente
chegara. Vinham se encontrando  assim havia mais de um ms. -
Encontre-me na extremidade leste da Rua 53. - Deu  a Gabriella um
endereo, e ela no fazia a menor idia de que lugar era aquele.
Entretanto,  ficava a poucas quadras de onde ela estava. Gabbie chegou
antes dele dessa vez e esperou no carro, sem o vu, aguardando
ansiosamente a sua chegada.
  Joe estacionou do outro lado da rua e a abraou, enquanto andavam
vagarosamente pelo quarteiro. Estava quieto e pensativo.
  - Voc no quer ir ao parque? - Ela parecia surpresa.
  - Achei que estava um pouco quente demais.
  Virou-se ento, fitando-a. Aparentava estar preocupado quando pegou a
mo  dela. Sabia que nenhum conhecido os veria ali, razo pela qual
sugerira o lugar.  E ento explicou a ela o que tinha feito. Contou que
um velho amigo do So Marcos acabara de se mudar para Nova  York.
Tratava-se de um profissional bem-sucedido no ramo da publicidade, e os
dois haviam tido uma longa conversa recentemente, quando Joe lhe
explicara que estava tendo  srias dvidas em relao  sua vida, embora
no tivesse dado detalhes. E o  velho amigo lhe confiara as chaves do
apartamento, dizendo que o usasse sempre que  quisesse, para fugir de
tudo, para poder pensar e relaxar longe do Santo  Estvo. Joe sabia que
o amigo estava fora da cidade naquela semana, passando as frias de
vero em Cape Cod com amigos.
  - Voc quer ir ao apartamento s para a gente poder ficar junto um
pouquinho?  Eu no sabia se voc ia ficar com medo ou se  gostaria de
fugir um pouco das ruas nesse tempo que temos para ficar juntos. - No
queria pression-la, tampouco tinha um plano. Havia trazido  as chaves,
mas estava pronto a deix-la escolher o que a fizesse sentir-se mais  
vontade. - Voc  quem sabe disse Joe, suavemente, e ela sorriu.
  - Acho que seria muito bom - respondeu ela, baixinho, seguindo-o.
  Joe nunca estivera ali, e os dois ficaram impressionados com o que
viram.  Havia uma sala de estar ampla e confortvel com cadeiras enormes
de couro e um  sof marrom tambm de couro. Era muito moderno, muito
masculino. Tinha uma cozinha espaosa  e bastante arejada, e um grande e
vistoso bar. E ao fundo, dando para um pequeno jardim, ficavam os dois
quartos: um obviamente era o dele e o outro, para  visitas.
  Joe ligou o ar-condicionado e assobiou, admirando o aparelho de som.
Ps para  tocar uma seleo de msicas de que gostava, depois de
consult-la, e serviu-se  de uma taa de vinho no bar. Aquilo era algo
que eles jamais haviam feito, e Gabbie  estava um tanto aflita ao
sentarem-se lado a lado no sof. Nunca se sentira to nervosa assim
diante dele, mas isso se devia principalmente quilo tudo ser to  novo
para ela. Porm, ouvindo a msica e depois de tomar um gole do vinho
dele,  comeou a relaxar. Aquele era o mesmo Joe, o homem que ela amava,
ainda que, dessa vez,  as circunstncias fossem diferentes. Ento ele a
convidou para danar.
  Gabbie sorriu com a idia. Nunca danara com ningum, mas juntos
moviam-se com  facilidade, enquanto ele a abraava forte. Joe nunca se
sentira to feliz na  vida, e Gabriella parecia dissolver-se em seus
braos,  medida que iam se beijando e  deslizando lentamente ao
compasso da msica. Ele colocara uma fita de Billy  Joel.
  Aquilo era diferente de tudo o que tinham feito, mas era o que vinham
desejando havia muito tempo: uma chance para ficarem sozinhos, para
serem eles  mesmos e fazerem tudo o que quisessem. Enquanto danavam,
ele olhava para ela, e a paixo dos  dois ia crescendo. Joe podia sentir
o corao de Gabriella batendo rpido junto  ao seu corpo e no
conseguia mais deixar de beij-la. Ambos estavam excitados e  ofegantes
quando pararam de danar.
  - Eu sei o que gostaria de fazer - disse ele, baixinho, desejando-a
com ardor,  sem saber se ela estaria disposta a dar um passo daquele
tamanho com ele. Cinco  semanas haviam se passado desde que ele
declarara o seu amor, mas estavam sedentos um  pelo outro de uma maneira
que nenhum dos dois era capaz de entender completamente.
  Ele jamais estivera com uma mulher antes, nem ela com um homem. Era
tudo to  novo para ambos. Ainda assim, parecia-lhes to certo. Ela
compreendeu o que ele  queria dizer e o fitou com olhos apaixonados.
  - Eu tambm gostaria - sussurrou Gabriella, enquanto ele, abraado a
ela,  sentia-lhe o corao bater forte.
  - No tenha medo, Gabbie... Eu te amo... - Pegou-a no colo com
facilidade e  dirigiu-se lentamente para o quarto de visitas. O lugar
era convidativo, e Joe  deitou-a com delicadeza na cama. Gabriella ainda
estava com o vestido de postulante, e  ele se atrapalhou, tentando
tir-lo. Ela o ajudou com os botes, dobras e  alfinetes, enquanto se
beijavam, e de repente ele parou para olh-la: a pele leitosa, os
primeiros seios que ele via, os membros mais alongados e graciosos do
que  imaginara.
  Gabbie no teve medo quando Joe comeou a se despir e em seguida
deitou-se na  cama, tirando o restante, assim como ela fizera. As roupas
formaram uma pilha no  cho, e ele comeou a explorar o corpo de
Gabriella, ardendo de desejo por ela. Era a  primeira vez que os dois
experimentavam essa sensao. Era um momento de descoberta e confiana.
No sabiam o que esperar, mas tinham certeza  de que queriam estar ali e
precisavam estar prximos um do outro. Era uma  estrada que tinham de
atravessar, lado a lado, para seguir sua nova vida juntos.
  Joe beijou todo o seu corpo, enquanto Gabriella tremia sob o seu toque
e  comeava lentamente a procur-lo. Encontrou o que buscava, e seus
olhos  arregalaram-se  de surpresa. Ningum a preparara para aquilo. No
tinha idia do que fazer, mas a  natureza gradualmente tomou conta de
tudo, e ele soube, por instinto, como  deveria agir.
  Gabriella estremeceu quando Joe a penetrou, e ele foi cuidadoso,
apesar do  desejo crescente que, a cada segundo, era mais difcil de ser
controlado. Joe  sabia que seria doloroso para ela e de fato foi no
comeo, mas ele se conteve o quanto  pde e ento no conseguiu mais se
segurar. Gozou, tremendo violentamente e  dizendo o nome dela, e
Gabriella gemeu numa mistura estranha de prazer e dor que parecia
arrebat-la. Depois, ele ficou  acariciando-a e, quando olhou para ela,
havia lgrimas nos olhos dela, mas estas  eram pela nova vida que
partilhavam, pelas mgoas deixadas
  para trs e pelo lao que os uniria para o resto de suas vidas. Ela
sabia que agora jamais poderia deix-lo, ou ele a ela. Tinham ido longe
em busca  de tudo isso, e ele lhe beijou os lbios, os cabelos e os
olhos; ficaram  deitados abraados. Quando finalmente conseguiu suportar
a idia de afastar-se dela,  olhou-a, admirando toda a beleza que tinha
estado to cuidadosamente escondida  no feio hbito.
  - Voc  to linda... - Ele jamais sonhara que seria assim e j a
queria  novamente, embora estivesse com medo de machucla. Porm, ao
beij-la  apaixonadamente uma vez mais, Gabriella tambm o quis e foi
diferente para ela dessa vez.  Ficaram entrelaados, em xtase,
maravilhados um com o outro pelo que pareceu  uma eternidade, e, depois,
Joe a levou para o banheiro e os dois tomaram um banho. Ela estava
surpresa ao ver como ficavam  vontade um com o outro, apesar da
inexperincia e  da timidez natural de ambos. Ficou debaixo do chuveiro
com ele, a gua escorrendo  por seus corpos, lavando-os, enquanto se
beijavam novamente, e ela sorria. Era  bvio aos dois o que teriam de
fazer depois daquilo. A sorte havia sido lanada. E no tinham mais
dvidas em relao  ao futuro.
  Puseram os lenis e as toalhas na mquina de lavar e ento voltaram 
sala  para esperar que secassem. Sentaram-se no sof, discutindo o que
fariam de suas  vidas.
  - No podemos ficar assim para sempre, meu amor - disse ele de modo
prtico.  Ambos sabiam que aquela tarde mudara suas vidas
definitivamente.
  Gabbie no podia imaginar o que afinal teria de dizer a madre
Gregoria. No  conseguia sequer pensar nisso. Tudo o que lhe vinha 
cabea agora era ele, e o  que  tinham feito. Sabia que pertencia a Joe
para o resto de sua vida, independente do que o  futuro lhes reservasse.
Seria difcil se satisfazerem com uma caminhada pelo parque ou um beijo
rpido  no confessionrio depois do que tinham compartilhado ali.
  - Podemos fazer tudo que for preciso, por enquanto - afirmou
Gabriella,  preocupada com Joe. Havia coisas demais na cabea dele.
  - Voc conseguiria viver na misria? - perguntou ele, parecendo
aflito. Sabia  que Gabbie jamais havia sido pobre, e aquilo o deixava
inquieto. Tinha vivido sem luxos no convento, mas havia tido tudo o que
precisava, inclusive segurana absoluta.  Se Joe se casasse com ela,
sabia que teriam de passar fome por algum tempo; pelo menos chegariam
bem perto disso.
  - Voc sabe que eu tambm posso trabalhar. - Ela tinha um diploma
universitrio e podia dar aulas ou trabalhar para uma revista. Era
possvel  tambm que tentasse escrever e vender suas histrias. No
fazia idia de quanto dinheiro poderia  ganhar, mas madre Gregoria e as
outras freiras sempre haviam insistido para que  ela tentasse vend-las.
  - Posso dar aulas em alguma escola - conjecturou ele, nervoso. O Santo
Estvo  lhe pagava um salrio, mas, se deixasse a igreja, as
habilidades que l eram  necessrias no lhe seriam teis em lugar
nenhum. Nunca tivera de se preocupar em ganhar a  vida.
  - Voc pode fazer uma poro de coisas - garantiu ela -, se  isso o
que  deseja. - No queria que ele se sentisse forado a deixar o
sacerdcio. Tinha de  sair porque queria; de outra maneira, poderia vir
a odi-la para o resto da vida,  especialmente se surgissem pedras no
caminho. E ela sabia que estas surgiriam  durante algum tempo. Era uma
mudana muito grande.
  - Voc sabe que no h nada no mundo que eu deseje mais do que ficar
com voc  - disse ele, beijando-a novamente, outra vez transportado
pelas emoes das duas  ltimas horas.
  Joe estava feliz que no tivesse havido nenhuma outra mulher. No se
dera  conta do quanto significaria para ele ter se guardado para ela. E
o que lhes  faltava em experincia os dois compensavam com a paixo.
  - E melhor eu voltar - disse ela, por fim, com pesar. Era difcil
acreditar  que ainda tivesse de retornar ao convento, mas Joe tinha
muito no que pensar.
  Eles concordaram em esperar um pouco, para dar tempo a ele de
organizar tudo,  mas a deciso estava tomada. Era somente uma questo de
tempo. Ambos sabiam que  no poderiam continuar com aquela farsa
indefinidamente, e, ao menos para Gabriella,  aquilo parecia errado.
Deviam admitir, confessar seus pecados e, depois, tocarem suas vidas. Se
iriam ficar juntos, ela no queria ficar mentindo para madre  Gregoria
por muito tempo.
  Colocou o vestido com cuidado, e ele a tomou nos braos uma ltima vez
antes  de sarem do apartamento juntos.
  - Vou morrer de saudades - disse ele com a voz ainda rouca de paixo.
- Vou me lembrar desse dia para o resto da minha vida.
  - Eu tambm - murmurou Gabriella, sentindo o amor que tinha por Joe
misturado  culpa pelas mulheres que havia trado ao entregar-se a  ele.
Em seu corao, porm, j se sentia casada. Deixaram o apartamento, e
Joe a levou de volta ao carro, observando-a vestir o vu. Ela voltou a
ser uma  postulante, uma freira aos olhos do mundo. Entretanto, ao olhar
para ela, ele sabia a verdade. Lembrou-se de cada  centmetro do corpo
dela, de toda sua beleza pura e natural, e da paixo que nutriam um
pelo outro, quando se inclinou para beij-la.
  - Cuide-se bem - disse ele, com carinho. - Vejo voc amanh de manh.
- Ouvia as confisses e celebrava as missas diariamente agora. No era
muito  para partilharem, mas era tudo o que tinham alm do seu mundo no
apartamento emprestado.
  - Eu te amo - disse ela, e os dois beijaram-se novamente. Depois, com
o  corao na mo, ela deu partida no carro. Detestava deix-lo. E foi
ainda mais  deprimente quando chegou ao convento.
  Queria desesperadamente estar com ele, e ver as freiras por toda parte
 sua  volta fazia com que se lembrasse do que tinha feito e do quanto
as havia deixado para trs. Mesmo assim, ainda precisava ficar ali. At
decidirem o que fazer, no tinha aonde ir, e tampouco Joe. Havia muitas
questes  prticas a serem resolvidas antes de fazerem qualquer tipo de
declarao. E ela queria  que Joe estivesse seguro em relao  deciso
de abandonar o clero. Mas sabia  tambm que, se ele a deixasse agora,
sem a menor dvida, aquilo a mataria.
  Ficou deitada sem dormir durante horas naquela noite, e vrias das
postulantes  haviam notado que ela mal falou ao jantar. Parecia perdida
nos prprios  pensamentos, e a irm encarregada das postulantes naquela
semana estava preocupada, temendo  que Gabbie estivesse ficando doente.
De fato, na manh seguinte, insistiu em que ela fosse ao mdico.
Gabriella parecia cansada e plida, mas teimou que estava bem  e, como
de costume, foi  missa e  confisso.
  Joe estava esperando por ela no confessionrio e abriu a grade
imediatamente  para beij-la.
  - Voc est bem? - perguntou, preocupado.
  Tinha passado a noite inteira aflito por causa de Gabbie, alm de
sedento por  ela, que tinha despertado nele um apetite insacivel.
Depois de se despedir dela, ao voltar ao apartamento para limpar  tudo,
este tinha lhe parecido muito vazio sem ela.
  - Sem arrependimento?
  Prendeu a respirao at ouvir a resposta.
  -  claro que no. Foi to triste voltar para c ontem. Fiquei to
sozinha sem  voc.
  - Eu tambm. - Ele queria ir novamente ao apartamento com Gabbie, mas
ela no  fazia idia de quando poderia sair. Em vez disso, ao meio-dia
encontraram-se no escritrio vazio e, dessa vez, ambos  estavam bastante
nervosos. Haviam tido sorte at ento, mas Gabriella comeava a ficar
preocupada com a possibilidade de algum v-los qualquer dia desses.
  Ela trabalhou na horta pelo resto da tarde, pensando nele e ansiando
por sua  companhia. Chegou mesmo a aventurar-se a lhe telefonar do
escritrio de madre  Gregoria.
  Conversaram rapidamente, tomando o cuidado de no revelar seus nomes e
seu  segredo. Os dois sabiam que os riscos eram grandes e crescentes.
Teriam de confessar em breve, mas joe ainda no decidira quando.
  Gabriella conseguiu encontrar-se com ele mais uma vez antes que madre
Gregoria  voltasse, mas dessa vez no pde se demorar muito e ambos
ainda estavam vidos  um pelo outro quando ela foi embora. O tempo que
passaram abraados na cama parecia  muito curto; as horas que ficavam
juntos, infinitamente preciosas.
  Quando madre Gregoria retornou do lago George, ficou preocupada com o
que viu.  Gabriella estava quieta demais, e havia algo nos olhos da
jovem postulante que a  inquietou. Conhecia-a havia muito tempo e soube
instintivamente que Gabbie estava muito  perturbada por alguma coisa.
Tentou conversar com ela na noite em que chegou,  mas Gabriella insistiu
em dizer que no era nada. Ela se sentiu um pouco mais animada na tarde
seguinte, depois de escrever a Joe no dirio, mas agora ansiava por ele
todo o  tempo e sentia-se como se j no pertencesse ao convento.
  Gabriella foi ao correio no dia seguinte e encontrou-se com ele para
dar uma  volta no parque. Sabia que no teria tempo para ir ao
apartamento e receava que  madre Gregoria percebesse alguma coisa.
  - Eu acho que ela est pressentindo, Joe - disse Gabbie, com a testa
franzida  de preocupao, enquanto ouviam um grupo de msicos de rua e
dividiam um  sorvete.  - Ela sabe coisas sobre as pessoas, mesmo quando
no as conhece muito bem. - E  ento o fitou, aflita e com um leve olhar
de terror. - Acha que algum nos viu? -  Tinham passeado bastante e se
encontrado mais do que ela deveria ter ousado, alm de  terem ido ao
apartamento. Algum poderia t-los visto na Rua 53.
  - Duvido - replicou Joe, com calma. Estava muito menos preocupado do
que ela.  Tinha mais liberdade. Os padres nunca eram vigiados
atentamente como as freiras  e  podiam ir a lugares que ela nem poderia
imaginar. Ningum questionava as idas e vindas  dele. Era ntegro,
responsvel e de confiana. - Eu acho que ela s est de olho em suas
meninas.
  - Espero que sim. - Era agosto, e o vero parecia voar. Em breve as
irms que  davam aulas estariam voltando  escola, e as freiras mais
idosas retornariam dos  retiros no lago George e nas montanhas de
Catskill. A equipe da cozinha j planejava o  piquenique do Dia do
Trabalho, mas tudo isso j no parecia muito importante a  Gabriella,
que agora contemplava o futuro dos dois.
  Joe foi ao piquenique do Dia do Trabalho, como sempre, com os outros
padres,  mas, dessa vez, parecia evitar Gabbie. Eles haviam discutido o
assunto na manh  anterior e chegado  concluso de que seria mais
inteligente manterem-se afastados, para  que ningum notasse o
desembarao com que conversavam. Havia um ar de intimidade em suas
conversas. E, na metade do dia, Gabbie saiu e foi para o quarto. Sentia-
se muito indisposta para comer ou mesmo ficar com as outras. Madre
Gregoria  percebeu, assim como a irm Emanuel, e as duas discutiram o
assunto baixinho.
  - O que a senhora acha que h de errado com ela? - perguntou a
formadora das  postulantes, de fato preocupada. Jamais tinha visto
Gabbie daquela maneira.
  - No sei - respondeu madre Gregoria, com o semblante triste. Tinha
resolvido  que falaria com ela sobre aquilo e, naquela tarde, foi at o
quarto de Gabriella  e a encontrou escrevendo vigorosamente no dirio. -
Alguma histria nova? -  perguntou, alegre, sentando-se na nica
cadeira, que ficava no canto do quarto  simples para ocasies como
aquela. - Alguma coisa para eu ler?
  - Ainda no - replicou Gabriella, livida, enquanto empurrava o pequeno
volume  para debaixo do travesseiro. - No tenho tido muito tempo
ultimamente. - Ento,  dirigiu-lhe um olhar de desculpas, por mais
razes do que a madre superiora imaginaria. -  Sinto muito por no ter
ficado no piquenique. - Fazia um calor tremendo l fora,  e Gabriella j
estava verde quando entrou.
  - Estou preocupada com voc - disse madre Gregoria, honestamente, e
Gabbie  pareceu nervosa ao responder.
  - No  nada.  s uma gripe. Todas tiveram essa gripe enquanto a
senhora  esteve fora. - Mas madre Gregoria sabia que aquilo no era
verdade. Apenas uma  freira  muito velhinha ficara doente, mas fora um
problema na vescula biliar. Ningum mais  adoecera no So Mateus
recentemente.
  - Voc est tendo dvidas, minha filha? Isso acontece com todas ns,
mais cedo ou mais tarde. A nossa vida  rdua, no  uma escolha  fcil
de se tomar, nem mesmo para algum como voc, que parece que sempre
morou aqui. Num certo momento, todas temos de lutar com a  dvida e
chegar a uma deciso final. Depois, voc vai se sentir em paz por muito
tempo, talvez para sempre.
  E, ao dizer essas palavras, desejou que Gabriella tivesse tirado mais
vantagem  dos anos na universidade. Talvez estivesse se arrependendo de
desistir de um mundo que no havia conhecido; um mundo que, ao menos na
infncia, nunca fora bom para ela.
  - No tenha medo de me dizer.
  - No, madre, eu estou bem. - Era a primeira vez que mentia  para ela
e odiou a si mesma por isso.
  A situao estava se tornando rapidamente insustentvel. Queria
dizer-lhe que  estava apaixonada por Joe  e que teria de ir embora. Por
mais horrvel que fosse, teria quase preferido  diz-lo a mentir daquela
forma.
  - Talvez voc devesse dar mais uma ltima olhada no mundo, enquanto
ainda tem  liberdade para isso. Podia arrumar um emprego em algum lugar
e continuar morando  aqui, Gabriella. Voc sabe que ns permitiramos. -
Era exatamente o tipo de abertura  de que precisava, mas Gabbie sabia
que mesmo aquela permisso seria violada,  caso estivesse se encontrando
com Joe em apartamentos emprestados. Se sasse, teria  de faz-lo de uma
maneira limpa e honesta.
  - No quero fazer isso - afirmou, resoluta. - Eu adoro ficar aqui com
minhas  irms. - Era verdade, mas agora adorava Joe ainda mais, e este
era o problema.  Ele  ainda tinha de tomar a deciso final em relao ao
sacerdcio. Ambos tinham de estar  seguros. Ela estava, e ele disse que
tambm queria sair, mas, at agora, no havia oferecido nenhum plano
claro de como o faria. Ainda era cedo  demais para ele, por mais que
dissesse que a amava e ela soubesse disso. Apenas  dois meses haviam se
passado desde que tudo comeara entre eles.
  As semanas seguintes transformaram-se rapidamente num pesadelo para
ela. Fazia  as tarefas na rua sempre que podia, mas madre Gregoria
estava to preocupada com  ela que, na maior parte do tempo, no a
deixava ir. Ela e Joe ainda se encontravam  no escritrio desocupado e
no confessionrio, mas quase todo o tempo que tinham  juntos passavam
discutindo seus planos e a culpa evidente que ele sentia por deixar o
clero. Ela continuava lhe dizendo que no se apressasse em sua deciso.
No  queria que ele se arrependesse depois de t-la tomado. Os dois
tinham conseguido se  encontrar somente mais duas vezes no apartamento
emprestado. O amigo dele j  estava de volta  cidade, mas Joe podia
us-lo enquanto o dono do apartamento se  encontrava no trabalho.
  Para piorar as coisas, l pela metade de setembro, Gabbie sentia-se
terrivelmente indisposta na maior parte do tempo. Tentava esconder seu
estado  das outras, mas todas notavam como estava plida e o pouco que
comia, e houve um verdadeiro  pnico quando Gabbie desmaiou na igreja um
dia. Joe estava l, celebrando a  missa, e levantou bruscamente os olhos
quando viu o alvoroo na fileira das postulantes;  depois, quase entrou
em pnico ao v-la sendo carregada para fora. Teve de  esperar um dia
inteiro para encontr-la no confessionrio e perguntar-lhe o que havia
acontecido.
  - Eu no sei,  s que estava muito quente na igreja ontem. - Vinham
sofrendo  uma onda de calor interminvel, mas, como Joe disse a ela com
um olhar aflito,  nenhuma outra freira desmaiara, nem mesmo as mais
velhas. Estava extremamente preocupado  com ela.
  Gabriella esperou duas outras semanas para ter certeza. Era fim de
setembro,  ento, e no havia dvidas em sua cabea, embora ela no
tivesse nenhum mtodo  cientfico para confirmar. De qualquer forma,
tinha certeza. Apresentava todos os sinais e,  mesmo sendo inexperiente,
foi capaz de deduzir que estava grvida. Finalmente, conseguiu escapar
do convento e ligou para marcar com Joe no apartamento.  Encontraram-se
l e, to logo Joe bateu os olhos nela, soube que havia alguma  coisa
errada.
  Quando Gabbie lhe contou, ele pareceu apavorado e a abraou e chorou.
Sentia- se pssimo. A seus olhos, aquela no era a maneira de se comear
um casamento. E  certamente iria for-los a abrir o jogo o mais rpido
possvel. At onde ela podia  determinar, devia ter engravidado da
primeira vez e tinha quase dois meses de  gestao.
  No podia esperar muito mais para tomar sua prpria deciso.
Independente do  que ele fosse fazer agora, ela teria de deixar o
convento. No faria nada para  prejudicar o beb, e tampouco ele
esperaria isso. Na verdade, Joe faria qualquer coisa para  impedi-la. Os
dois tinham sentimentos religiosos profundos em relao ao  assunto.
  - Est tudo bem, Joe - sussurrou ela, sentindo a aflio dele e a
enorme  presso que o fato adicionava a uma situao j insustentvel. -
Vai ver era  para ser  assim mesmo. Talvez seja o que eu precisava para
tomar a minha deciso.
  - Ai, Gabbie, eu sinto tanto...  tudo culpa minha... nunca pensei...
mas  devia ter pensado. - Mas como  que um padre poderia pensar em
comprar  preservativos?  E certamente no havia nada  disposio dela
naquelas circunstncias. No tiveram  escolha, nenhuma opo. Haviam
sido forados a correr os riscos. Ingnuos como  eram, em momento algum
lhes passara pela cabea que alguma coisa desse tipo pudesse  acontecer
to depressa.
  Agora ele tinha duas pessoas com as quais se preocupar - uma mulher e
um filho  - e nenhum meio de sustent-las. De repente, as perspectivas
eram devastadoras;  e a presso sobre ele, quase insuportvel.
  - Vou deixar o So Mateus daqui a um ms - disse Gabbie. Tomara sua
deciso  assim que se deu conta do que lhe havia acontecido. - Vou
contar  madre  Gregoria em outubro. Aquilo dava a Joe um ms para
resolver o que faria. Nessas  circunstncias, era tudo o que ela podia
lhe dar. At poderia darlhe mais tempo,  mas ela prpria tinha de tomar
uma atitude antes que todos descobrissem e aquilo se  transformasse no
escndalo do convento.
  Ele ficou abraado a ela durante algum tempo naquela tarde, com medo
de toc- la e fazer mal a ela ou ao beb, e recomeou a chorar.
  - Tenho tanto medo de decepcionar voc aqui fora no mundo, Gabbie... E
se eu  no conseguir? - Aquele era o seu maior receio.
  - Voc consegue, Joe, se quiser. Ns dois podemos conseguir. Voc sabe
disso.  - Parecia tomada por uma certeza extraordinria, dada a
inexperincia de ambos.
  - Tudo o que sei  o quanto te amo - disse ele, sabendo que agora
tinha no  apenas ela com quem se preocupar, mas tambm o filho. Queria
abandonar a igreja  pelos dois. Desejava estar com Gabriella e tomar
conta dela, mas ainda no tinha  certeza de que poderia faz-lo. - Voc
 to forte, Gabbie, voc no entende. Eu  nunca conheci nada alm do
sacerdcio. - E ela no tinha conhecido nada alm do So  Mateus e de
uma vida de espancamentos antes deste. E por que todos pensavam que  ela
era forte? O pai dissera a mesma coisa na noite em que partiu. Aquilo
tocou um  ponto de sua memria, um lugar de terror profundo e
silencioso. E se Joe a  deixasse tambm? O que aconteceria se
abandonasse a ela e ao beb? S de pensar naquilo  Gabbie enchia-se de
pnico, mas no comentou nada com Joe, ali abraado a ela.  Simplesmente
agarrou-se a ele em silncio, tentando no assust-lo ainda mais.
  Joe beijou-a antes que ela sasse, e Gabriella voltou ao convento,
perdida nos  prprios pensamentos. Quando entrou, nem mesmo viu a madre
Gregoria observando-a  ou a irm Anne deixando um envelope do lado de
fora de seu escritrio. E no tinha  como saber que, mais tarde, madre
Gregoria ligou para o Santo Estvo. Foi  encontrar-se com o monsenhor
naquela noite e voltou ao So Mateus com o corao angustiado.  Ningum
tinha certeza de nada, mas havia rumores e uma srie de telefonemas de
uma mulher jovem que deixava nomes diferentes a cada vez que ligava. O
padre Connors  vinha saindo muito ultimamente e, madre Gregoria percebia
agora, com muita  freqncia estava no So Mateus. E ela e o monsenhor
chegaram a um acordo naquela noite. O  padre Connors no voltaria a
ouvir as confisses e celebrar as missas no  convento por algum tempo.
  Gabriella no tinha como saber daquilo e, quando entrou no
confessionrio na  manh seguinte e disse "Oi, eu te amo", a voz que lhe
respondeu era  desconhecida.  Houve um longo silncio, e ento o padre
deu continuidade  confisso, como se tudo  estivesse normal. O corao
dela estava disparado ao sair do confessionrio, e  ela sequer se
lembrava de ter ouvido sua penitncia. Perguntava-se se alguma coisa
teria acontecido com Joe, se ele estava doente ou se havia contado a
eles que  iria embora ou, ainda pior, se teriam sido descobertos. Sabia
que Joe no diria nada  a eles sem antes consult-la; talvez,
entretanto, depois de sua declarao no  dia anterior, ele tivesse
decidido dizer-lhes logo que estava indo embora.
  Gabriella ainda estava desnorteada quando madre Gregoria mandou
cham-la ao escritrio um pouco mais tarde naquela mesma manh. A madre
no disse nada por um momento e depois olhou triste para Gabriella de
trs da escrivaninha.
  - Eu acho que voc tem algumas coisas para me contar, no tem,
Gabriella?
  - Sobre o qu? - O rosto de Gabbie estava branco como uma folha de
papel, enquanto olhava para a mulher que havia doze anos era como uma
me para ela e a quem amava como se fosse mesmo sua filha.
  - Voc sabe do que estou falando. Sobre o padre Connors. Voc anda
telefonando  para ele, Gabriella? Quero que seja sincera comigo. Um dos
padres do Santo  Estvo achou que viu vocs dois no Central Park em
agosto. Nem eu nem ele temos certeza de que era voc, mas  todos no
Santo Estvo parecem suspeitar disso. Ainda no  tarde demais para
evitarmos um escndalo, se me disser a verdade agora.
  - Eu... - No queria mentir para ela desta vez, mas no tinha como lhe
contar  a verdade. Pelo menos, no por enquanto. No at que conversasse
com Joe e  descobrisse o que dissera a eles. Tinha certeza de que j o
haviam interrogado. - No sei o  que dizer  senhora, madre.
  - A verdade seria o melhor caminho - replicou madre Gregoria, em tom
severo,  sentindo uma dor no corao ao olhar para a jovem que ela amava
como a uma  filha.
  - Eu... eu liguei para ele, sim... e nos encontramos no parque uma
vez. - Era  tudo o que estava disposta a revelar. O resto pertencia
somente a eles e era  muito ntimo.
  - Eu posso perguntar por qu, Gabriella? Ou  uma pergunta tola para
uma  resposta evidente demais? Ele  um rapaz bonito; e voc, uma moa
bonita. Mas,  apesar  de ainda no ter feito os votos definitivos, voc
me disse que estava certa em  relao  sua vocao, e eu acreditei em
voc. Mas j no tenho tanta certeza  assim. Quanto a ele,  padre h
alguns anos. Nenhum de vocs dois  livre para se  comportar dessa
maneira ou violar seus compromissos.
  - Eu sei disso. - Havia lgrimas em seus olhos, mas Gabriella se
recusava a  chorar ou a pedir misericrdia.
  - H mais coisas nesta histria vergonhosa, Gabriella? Se h, eu quero
saber.  - No era uma histria vergonhosa, e ouvi-la descrita daquela
maneira quase  partiu o corao de Gabriella. Tudo o que conseguia fazer
era sacudir a cabea.  Recusava-se a contar mais mentiras. -Tenho
certeza de que voc no se  surpreender ao ouvir que vai haver uma
investigao no Santo Estvo. Vo telefonar para o arcebispo  hoje. E
no vamos ver o padre Connors aqui por um bom tempo. -A madre superiora
parou para respirar, olhando no fundo dos olhos de Gabbie, procurando
respostas que  esta no a deixaria ver. - Sugiro a voc que passe algum
tempo examinando  seriamente sua conscincia e sua vocao em nosso
convento em Oklahoma. -Aquilo soou como  uma sentena de morte a Gabbie,
que quase deixou escapar um grito ao ouvi-la.
  - Oklahoma? - O nome saiu como um rudo gutural nico que no lhe era
familiar. Mas foi tudo o que conseguiu dizer. - No vou sair daqui. -
Era a  primeira vez  que Gabriella afrontava madre Gregoria desde a
discusso sobre a sua ida para a  universidade. No entanto, madre
Gregoria estava mais do que firme agora. Por  trs de sua aparncia
tranquila, estava furiosa. Com Gabriella e com o padre que lhe
oferecera a tentao e quase corrompera o seu esprito. Para a madre
superiora,  esse era um pecado imperdovel, e ela sabia que precisaria
rezar muito para poder  perdoar. Ele no tinha o direito de fazer isso a
ela. Fora recebido ali com toda  a confiana. Gabbie era muito jovem e
inocente, e ele devia ter evitado tudo aquilo.
  - Voc no tem escolha, Gabriella. Vai partir amanh. E ser
cuidadosamente  vigiada at l; portanto, no tente falar com ele. Se
escolher ficar conosco, e  esta opo ainda cabe a voc, deve pensar com
muito cuidado sobre o que fez e decidir  se quer de fato ficar aqui. Eu
lhe ofereci todas as oportunidades para que  voltasse ao mundo por um
tempo, que participasse dele, se era o que queria fazer, e voc
recusou. Mas em momento algum isso incluiu encontros clandestinos com um
padre.
  - Mas eu no fiz isso - disse Gabbie, agoniada, odiando a si mesma
pelas  mentiras que dizia. Entretanto, sentia que era o que deveria
fazer, ao menos por  ele.
  - Gostaria de poder acreditar em voc. -A madre superiora '
levantou-se ento,  deixando claro que o encontro chegara ao fim.  -
Pode voltar para o seu quarto  agora. Voc no vai conversar com as
outras postulantes hoje ou at partir. Uma das irms da cozinha vai
levar sua  comida ao quarto, mas voc no deve falar com ela tambm. -
Da noite para o dia, tornara-se uma leprosa. Sem dizer uma palavra,
deixou o escritrio e voltou para cima, desesperada para  telefonar para
ele, embora no houvesse jeito. Tudo o que sabia  que no iria para
Oklahoma. No deixaria Joe.
  Passou o dia inteiro deitada na cama, pensando nele e, ao cair da
noite, estava extremamente agitada. Passara o dia escrevendo para ele no
dirio e, quando no estava escrevendo ou simplesmente deitada, andara
de um  lado para o outro do quarto, desejando ao menos poder ir  horta,
mas sabendo que isso no  era possvel. No podia opor-se ainda mais s
ordens de madre Gregoria. E o dia inteiro perguntou- se o que estariam
fazendo com Joe e o que ele teria dito ao arcebispo. Mas  nenhum dos
dois jamais pensou por um minuto sequer que seria fcil. Sabiam disso
desde  o incio. Agora tudo o que tinham de fazer era sobreviver  dor e
 humilhao  at que pudessem estar juntos.
  No tocou a comida que lhe trouxeram e j passara da hora do jantar
quando  sentiu uma dor estranha no ventre, que a princpio lhe fez
perder o flego,  passando  em seguida; logo depois, sentiu outra
pontada. Gabriella no fazia idia do que  aquilo significava, mas
estava de tal maneira tensa por causa de Joe, que mal  notou. Quando as
outras duas postulantes voltaram para o quarto, ela estava deitada com
uma dor violenta, mas no disse nada a elas. Sabia que, independente do
que  fosse, era por puro terror.
  As outras no lhe dirigiram a palavra. Haviam sido avisadas de que
Gabriella  estava profundamente perturbada e que no deveriam falar com
ela. No tinham  idia  do que ela fizera ou de que castigo lhe estava
sendo imposto, mas, sempre que a  irm Emanuel deixava a sala, comeavam
a cochichar, tentando adivinhar o que  havia acontecido. Apenas a irm
Anne permanecia estranhamente calada.
  Gabriella no dormiu naquela noite, pensando em Joe, preocupada com o
que ele  teria falado ou com o que estariam dizendo a ele. Imaginou algo
muito semelhante   Inquisio espanhola acontecendo no Santo Estvo e,
s duas horas da madrugada,  estava com tanta dor que quase chamou as
outras, mas no podia fazer isso. O que lhes diria? No podia contar que
estava com medo de vir a perder o beb. Em vez  disso, foi ao banheiro
com o corpo dobrado, quase engatinhando, e l viu os  primeiros sinais
do que suspeitava ser um problema grave. Mas no havia a quem recorrer
para pedir ajuda, nem mesmo madre Gregoria, e muito menos as outras. E
no tinha  como telefonar para Joe. Deveria esperar que ele a
procurasse. Estava certa de que  ele viria busc-la, e toda a situao
estouraria pela manh. Se Joe dissera a  eles que estava deixando o
sacerdcio por causa dela quando o confrontaram, era s  uma questo de
tempo para que ele viesse encontr-la no So Mateus. E ento,  Gabriella
prometeu a si mesma, contaria tudo o que acontecera  madre Gregoria, ou
ao  menos tudo que ela precisava saber. Mas no sairia dali deixando um
rastro de  mentiras, como latas chacoalhando atrs dela.
  Pela manh, Gabriella estava quase cega de dor e pavor. No tinha
idia de  quando viriam busc-la a fim de ir para Oklahoma. Pelo menos
isso sabia que no  faria. Ela se recusaria a sair, e no poderiam
arrast-la dali de camisola.
  Ouviu as outras levantarem-se em silncio e esperou at que se fossem.
Quando  por fim se levantou, viu que havia sangue nos lenis e no
sabia o que fazer.  Voltou para a cama, chorando baixinho, e ficou l
deitada.  primeira luz do dia,  depois de escutar as freiras cantarem
na capela, ouviu a porta se abrir novamente e viu a irm  Emanuel
olhando para ela com enorme pesar. Achou at que a velha freira estivera
chorando.
  - A madre Gregoria quer ver voc agora, Gabbie - anunciou ela, com
tristeza.  Esse era um dia infeliz para todas; mais infeliz ainda para
Gabriella, que as  trara de modo to terrvel.
  - Eu no vou para Oklahoma - disse Gabriella com a voz rouca, sem
estar mesmo  certa de que conseguiria se levantar. As dores pioravam. ,
- Voc ter de descer e conversar com ela sobre isso. - Gabriella teve
medo de dizer que no podia e esperou que a irm sasse do quarto para,
ento, vestir as roupas com enorme dificuldade. Lembrou-se de  quando
era espancada e, morta de dor, tinha de vestir-se para a me. Para
surpresa sua, viu que isso era ainda pior.
  E, enquanto se vestia, as dores tornaram-se mais intensas do que
nunca. Mal conseguiu descer as escadas e quase teve de entrar no
escritrio da madre superiora engatinhando. No entanto, forou-se a
ficar  ereta e estava to cega de dor que quase desmaiou. Quando entrou,
Gabbie  sobressaltou-se visivelmente ao ver que havia dois padres
parados ao lado de madre Gregoria. Estavam ali havia quase uma hora,
discutindo o que diriam a Gabriella.
  Madre Gregoria nunca tinha visto a jovem com uma aparncia to ruim.
Ela  estava claramente atormentada, e a madre reuniu todas as foras
para controlar a  vontade de levantar-se e correr para ela.
  - O padre OBrian e o padre Dimeola vieram falar com voc, irm
Bernadette -  anunciou madre Gregoria, usando o nome de postulante de
Gabriella para que a  situao parecesse menos pessoal a ambas e para
que o que tinham a dizer no machucasse  tanto a jovem. Mas, contra a
sua vontade, sua alma e seu corao compadeciam-se  em silncio pela
criana que amara e conhecera como Gabbie.
  - Madre Gregoria vai decidir seu destino ainda hoje - declarou o padre
OBrian  com um olhar de dor que nada compreendia da situao de Gabbie,
que parecia  respirar com dificuldade, enquanto as paredes iam se
fechando em torno dela. A cada  segundo, a jovem ficava mais plida.
Para eles, porm, quaisquer que fossem
  as agonias de que padecia agora, ela as merecia.
  - Mas ns viemos aqui para lhe falar sobre o padre Connors.
  Joe havia contado, ento, pensou Gabbie, aliviada, ao fit-los com
olhos  toldados. Sentia tanta dor que mal conseguia ouvi-los.
  - Ele lhe deixou uma carta - disse o padre Dimeola, triste -,
explicando como se sentia em relao  situao para a qual voc o
seduziu.
  - Ele disse isso? - Gabbie parecia chocada ao encar-lo. Joe jamais
falaria  uma coisa daquelas sobre ela. Obviamente aquela era a
interpretao deles para a  situao, e haviam decidido pr a culpa
nela.
  Gabriella podia ouvir um relgio tiquetaqueando em algum lugar e
desejou que  aquilo acabasse logo para ela poder sair dali.
  - O padre Connors no falou exatamente isso, mas  o bvio a partir do
que  disse.
  - Posso ver a carta, por favor? - Gabbie estendeu a mo trmula com
uma  dignidade surpreendente e, se pudessem admitir para ela ou para si
prprios,  eles a admiraram por isso.
  - Em um instante - respondeu o padre OBrian. - Temos uma coisa para
lhe dizer  antes. Uma coisa com a qual voc ter de conviver e entender
claramente sua  participao nela. Voc condenou um homem ao inferno,
irm Bernadette. Para toda a  eternidade. No haver redeno para a
alma dele. No pode haver, depois do que  ele fez... depois do que voc
o levou a fazer. O seu inferno estar em saber que fez isso a  ele.
  Ela odiou o som abominvel daquelas palavras e a cruel incapacidade
que os  padres demonstravam em perdoar os dois. Independentemente do que
haviam feito,  no mereciam aquilo, e tudo em que conseguia pensar agora
era em como Joe devia ter sofrido  nas mos deles. E odiou-os por isso.
A nica coisa que queria era ver Joe para  lhe dizer o quanto o amava e
lhe levar um pouco de consolo. Eles no tinham o  direito de tortur-lo
nem de conden-lo.
  - Eu quero v-lo - exigiu com uma voz to enrgica que surpreendeu at
a si  prpria. No deixaria que fizessem isso a ele. E no poderiam
afast-la dele.  No tinham mais esse direito.
  - Voc nunca mais ir v-lo - disse o padre OBrian num tom de voz to
apavorante, que Gabriella estremeceu.
  - O senhor no tem o direito de decidir isso.  uma deciso que cabe
ao padre  Connors. E, se essa for a vontade dele, eu a respeitarei. -
Ela parecia bela,  forte e digna ao falar, e, embora contra a sua
vontade, madre Gregoria a admirou por  isso. E, plida como estava
enquanto falava com eles, Gabriella parecia quase  angelical.
  - Voc no ir mais v-lo - proferiu o padre OBrian novamente, e
Gabriella  parecia impassvel ao fit-lo. E, ento, ele desferiu o golpe
fatal, o nico por  que ela jamais esperara, e fizeram-no de forma to
cruel que quase destruram a sua  f para sempre. - Ele tirou a prpria
vida hoje de manh. E deixou esta carta para voc. - O padre DimQola
sacudiu o papel ameaadoramente  sua frente, e a sala  comeou a girar
 sua volta.
  - Ele... eu... - Ela ouvira as palavras, mas no as compreendia
totalmente. Ainda no. Isso se daria mais tarde. Olhou para eles, os
olhos implorando para que dissessem que estavam mentindo. Mas no
estavam.
  - Ele no pde conviver com o que tinha feito... no suportou  deixar
a igreja... ou assumir o que voc esperava dele. Preferiu , se matar a
fazer o que voc queria. Ele se enforcou no quarto que ocupava no Santo
Estvo ontem  noite, um pecado pelo qual vai arder no inferno por toda
a eternidade. Preferiu morrer a abandonar o Deus que  amava mais do que
a voc, irm Bernadette... e voc ter de viver com isso na  conscincia
para sempre.
  Ela olhou para o padre abertamente e levantou-se com uma fora que no
sabia  possuir. Ficou imvel por um momento, olhando para cada um deles
com olhos que  se  recusavam a acreditar no que acabara de ser dito, e
ento, com um rudo baixinho e  sobressaltado, a vida esvaiu-se de
Gabbie completamente e ela desmaiou. Ao cair,  sabia apenas que Joe a
abandonara, que ele havia ido embora, deixando-a sozinha, como todos  os
outros.
  Entretanto, antes que pudesse dizer uma nica palavra, desapareceu nos
braos  misericordiosos da escurido. Quando Gabriella caiu, olharam
para ela e viram,  pela primeira vez, a poa de sangue que se espalhava
rapidamente  sua volta.

Captulo 13

  Gabriella estava consciente de um grito agudo vindo de algum lugar 
distncia. Era um som sem fim, como uivos, e pareciamlhe os gritos de
morte de  seu esprito. Tentou falar e descobriu que no podia. Abriu os
olhos, mas no conseguiu  enxergar. Tudo era cinza e sombrio,
alternando-se com a escurido silenciosa.  No fazia idia de onde se
encontrava e no entendia que o som que escutava era a sirene  da
ambulncia na qual era transportada.
  Pareceu-lhe que tinham se passado anos at que finalmente ouviu uma
pessoa  falando com ela, embora no conseguisse entender o que essa
pessoa dizia. Algum  insistia em chamar o seu nome, puxando-a de volta,
trazendo-a  fora para uma vida que  ela j no queria. Desejava apenas
deixar-se levar para a escurido e o  silncio, mas as vozes obscuras
que escutava esporadicamente no a deixavam.
  - Gabriella!... Gabriella!... Vamos l! Abra os olhos agora...
Gabriella! -  gritavam com ela e agarravam-na, e algum com uma faca
estava arrancando seu  corao.
  Gabriella comeava a sentir a dor agora. Era como se um drago lutasse
dentro  dela, rasgandoa dos ps  cabea. No queria acordar para isso,
no podia  suportar o que sentia e, alm da dor, sabia que algo de
terrvel tinha  acontecido. Por fim, Gabriella abriu os olhos, mas havia
luzes por toda parte,  cegando-a,  queimando-a impiedosamente, da mesma
forma que a dor. As pessoas estavam fazendo alguma  coisa com ela, mas
Gabriella no tinha idia do que fosse; sabia apenas que a  dor que a
devorava era insuportvel. Agora parecia que no podia nem mesmo
respirar. E  ento, de repente, como se uma dor to cruciante que no
pudesse ser suportada a  dilacerasse, lembrou-se do porqu de estar
ali... a me a havia espancado... e quebrado sua  boneca... matara
Meredith e quase matara a ela tambm... e Gabriella sabia que o  pai
devia estar por perto, em algum lugar, observando.
  - Gabriella!... - gritaram seu nome outra vez.
  As pessoas ao seu redor pareciam zangadas. Tudo que ela conseguia ver
eram  luzes e sombras e, por mais que tentasse, enquanto os demnios da
dor a devoravam, no conseguia ver seus rostos. E, ao  tentar v-los
novamente e ouvir o que diziam, uma dor horripilante pareceu rasgar-lhe
o corpo,  ao mesmo tempo em que ela procurava desesperadamente livrar-se
dela. Mas esta no a soltava de suas garras. De repente, com clareza
absoluta,  viu no o pai, mas Joe sorrindo para ela. Acenava com a mo,
dizendo alguma coisa  que ela no conseguia ouvir... as outras vozes
pareciam abafar o que ele estava  falando. Mas quando Gabriella olhou
para ele outra vez, tentando perguntar onde  ela se encontrava, Joe
estava rindo.
  - No estou conseguindo ouvir voc, Joe... - repetia ela. E ento ele
comeou  a se afastar, e Gabriella gritou para que esperasse por ela,
mas descobriu que  seus ps no se moviam, enquanto tentava ir at ele.
Tudo nela estava pesado demais.  Joe ficou parado l, esperando; depois
balanou a cabea e desapareceu, e, de  repente, ela estava livre e
corria para ele. Mas ele ia muito rpido; Gabriella no  conseguia
acompanh-lo, e as pessoas que a seguiam estavam zangadas de verdade.
Ainda chamavam o seu nome, e dessa vez, quando olhou para elas, viu por
que no  conseguia acompanhar Joe. Haviam-na amarrado com as pernas para
o alto, o corpo  e os braos presos  cama, e tudo  sua volta agora
estava muito luminoso.
  - No... eu tenho de ir... - gritou para elas com a voz fraca. - Ele
est  esperando por mim... precisa de mim... - Joe virou-se e acenou, e
parecia to feliz que a assustou. No entanto, no quarto  onde estava
deitada, as pessoas ao seu redor estavam muito zangadas, e Gabbie  sabia
que faziam algo monstruoso com ela. Estavam arrancando suas entranhas,
extraindo  sua alma e mantendo-a longe dele. - No! - gritava para elas.
- No! Mas as  pessoas no a escutavam.
  - Est tudo bem, Gabriella... est tudo bem... - Havia homens e
mulheres  sua  volta, e todos pareciam esfaque-la. Quando Gabbie olhou
para eles, viu que no  tinham rosto.
  - A presso arterial est baixando de novo - disse uma voz, e ela no
sabia a  quem se referiam; para ela, isso j no importava. - Pelo amor
de Deus - disse  uma outra voz masculina -, no d para mant-la
estvel? - Como os outros, parecia zangado com Gabriella.  Ela fizera
alguma coisa terrvel, obviamente, e todos sabiam o que era, menos  ela.
  Tornou a fechar os olhos, gemendo de dor e,  distncia, podia ouvir o
mesmo  som de antes, mas dessa vez soube que deviam ser sirenes. Havia
acontecido um  acidente, algum estava ferido e, na escurido em que
mergulhou mais uma vez, podia ouvir  uma mulher gritando. Em seguida
vieram mais pessoas. Pareciam estar por todos os lados, rodeando-a, mas
ela no podia ajud-los. Todo o seu corpo estava pesado  demais, com
exceo da rea onde os demnios da dor reinavam. Tentou mover os
braos para afugent-los, mas estavam amarrados, e ela j no duvidava
por um instante  sequer de que iriam mat-la.
  - Merda... - disse uma voz no escuro. - Tragam mais duas unidades. -
Estavam  bombeando sangue em seu corpo sem nenhum resultado, e era
evidente a todos que  no  iriam vencer essa luta. No tinham como
salv-la. A presso arterial estava quase a  zero e, quando o corao
comeou a fibrilar, souberam que a tinham perdido.
  Por um longo tempo as vozes cessaram, e Gabriella ficou deitada em
silncio, finalmente em paz. Haviam parado de  importunla por fim, e o
demnio que ocupava o seu corpo estava quieto.
  Nesse momento Joe voltou, surgindo lentamente das sombras, mas dessa
vez no  estava feliz. Disse algo a Gabriella, e agora ela pde ouvi-lo
com clareza. Seus  braos estavam livres novamente, e ela estendeu a mo
para Joe, mas ele no a pegou.
  - No quero que voc venha comigo - disse ele com nitidez e j no
estava  zangado ou triste. Parecia muito tranqilo.
  - Tenho de ir, Joe. Eu preciso de voc. - Ela comeou a andar ao seu
lado, mas  ele se deteve e no queria prosseguir.
  - Voc  forte, Gabriella - afirmou ele, e ela tentou lhe dizer que
no era.
  - No sou... No posso... Eu no vou voltar sem voc. - Mas ele se
limitou a  sacudir a cabea, desaparecendo, e ela sentiu um peso
esmagador cair novamente  sobre si e a dor cortante e derradeira que a
arrancou dele como uma contracorrente. De  repente, ela soube que estava
se afogando, da mesma forma que Jimmy. Queria  buscar o ar, mas era
puxada pelo redemoinho com o menino e, quando tentou encontr-lo,
descobriu que no podia. Ele a abandonara, assim como Joe, e ela estava
sozinha  nas guas revoltas, quando, de repente, uma fora maior do que
qualquer outra que j  tivesse conhecido empurrou-a para a superfcie.
Ela subiu  tona, ofegando,  cuspindo e chorando e gritando.
  - Certo, ns a pegamos... - Ela podia ouvir as vozes outra vez e
parecia que  era puxada por mos vindas de todos os lados. Sentia cada
uma das costelas  quebradas quando respirava, tinha os olhos cheios de
dor, seus braos haviam sido amarrados novamente, e o local  onde os
demnios estiveram ardia, incandescente.
  - No! No! Parem! - Ela tentava gritar para eles, mas no conseguia,
e tudo o  que sabia era que estavam arrancando alguma coisa de dentro
dela. Era o lugar  onde antes estivera o seu corao. Sabia que tentavam
separ-la de Joe, mas no  conseguiriam. Jamais tinha conhecido tamanha
agonia e s conseguia pensar em sua  me, perguntando se ela no seria a
responsvel por isso.
  - Gabriella!... Gabriella! - Estavam falando com ela, com mais
delicadeza  agora, mas tudo que ela conseguia fazer era chorar. No
tinha como fugir da dor  que eles lhe haviam causado. Ficavam chamando
seu nome, e ela sentiu que algum alisava o  seu cabelo. A mo era
suave, mas ela no conseguia ver o rosto da pessoa. Seus  olhos ainda
estavam embaados e as luzes brilhantes cegavam-na, mas algum havia
comeado a arrancar o demnio de seu corpo.
  - Meu Deus, essa foi por pouco - falou suavemente uma voz masculina em
algum  ponto da sala. - Pensei que a tivssemos perdido. - E tinham
mesmo, por algum  tempo, mais de uma vez. Mas ela ainda estava viva,
apesar de todos os seus esforos  para partir. Tinha ficado por causa de
Joe. Fora ele que se recusara a lev-la  com ele.
  Gabriella sabia, ao abrir novamente os olhos, que ele no voltaria.
Eles nunca  voltavam. Todos iam embora e a abandonavam.
  - Gabriella, como est se sentindo? - Pde ver os olhos de uma mulher,
 enquanto a voz lhe falava, mas as pessoas ali ainda no tinham rosto.
Todos  usavam mscaras, mas as vozes agora eram mais gentis. E, quando
tentou responder, Gabriella  descobriu que ainda no conseguia. Nenhum
som veio substituir seus gritos. Todas as partes de  seu corpo e de sua
alma pareciam vazias.
  - Ela no est me ouvindo - queixou-se a voz, como se, mais uma vez,
os  tivesse decepcionado.
  Gabriella perguntou-se se iriam surr-la agora. Mas isso no lhe
importava.  Podiam fazer o que bem entendessem, contanto que os demnios
no voltassem com suas caudas afiadas, cortando sua alma como  espadins.
  Deixaram-na sozinha por um tempo ento, e ela foi caindo no sono, indo
para um  lugar diferente daquele onde havia estado. Quando acordou,
tinha sobre o rosto uma mscara, que exalava um cheiro terrvel, e
sentia-se tonta. Ento, sem lhe  dizerem nada, comearam a empurrar a
maca. Gabriella viu pessoas, corredores e portas passando  por ela, e
algum lhe disse que a estavam levando para o quarto. Perguntou-se se
estaria na cadeia, se finalmente iriam puni-la pelas coisas horrveis
que  fizera a todos. Eles sabiam, todos eles, que era culpada. No
entanto, ningum  lhe disse nada enquanto a empurravam para o quarto,
onde a deixaram, dormindo sobre a  maca.
  Por fm, duas mulheres de branco entraram no quarto, com toucas
engomadas e  rostos sombrios, e, sem dizer palavra, levantaram-na com
cuidado da maca,  passando-a para a cama, e ajustaram a agulha atravs
da qual ainda recebia uma transfuso.  Falaram muito pouco com ela e
deixaram-na dormir pelo resto do dia.
  Gabriella ainda no sabia por que estava ali, embora se lembrasse do
grito da  mulher. Havia sido um gemido de agonia, um lamento de dor e
pesar. Mais tarde,  quando o mdico foi falar com ela, tornou a gritar,
mas dessa vez compreendeu o que  tinha acontecido. Perdera o beb de
Joe.
  - Eu sinto muito - disse o mdico, em tom grave. No sabia que ela era
uma  postulante, mas deduziu, porque morasse num convento, que era me
solteira e  fora deixada l pelos pais. - Voc vai ter outros filhos um
dia - afirmou, otimista.
  Gabriella, porm, sabia melhor do que ele que no teria. Nunca
desejara ter  filhos porque receava transformar-se num monstro, igual 
me. Jamais quereria  correr esse risco. Mas, com Joe a seu lado, pensou
que talvez fosse diferente. Tinha  sido uma chance para uma nova vida,
com o homem que amava e o fruto do amor que  nutriam um pelo outro. Fora
um sonho que alimentara muito brevemente, mas que no  merecia, e agora
se transformara num pesadelo sem ele.
  - Vai precisar ter muito cuidado por um tempo - advertiu o mdico. -
Voc  perdeu muito sangue e... ns quase a perdemos -acrescentou, de
maneira funesta. - Se tivesse chegado aqui vinte minutos mais  tarde...
- Seu corao parara de bater duas vezes na sala de parto, e aquele foi
o pior aborto que ele tinha visto. Ela havia perdido sangue em
quantidade mais do  que suficiente para mat-la.
  - Vamos ficar com voc aqui por mais alguns dias, para mant-la em
observao  e continuarmos com as transfuses. Depois disso, poder ir
para casa, se me  prometer que vai descansar e ir devagar por um tempo.
Nada de sair por a, receber  visitas, ir a festas e danar. - Ele
sorriu para Gabbie, imaginando uma vida  diferente da que ela conhecia.
Era uma jovem bonita, e ele sups que devesse estar ansiosa  para sair,
rever os amigos e, provavelmente, o homem que a engravidara. Ento,
perguntou se ela queria que telefonasse para algum, e Gabriella fitou-o
num  misto de pesar e horror.
  - Meu marido morreu ontem - disse num sussurro rouco, atribuindo a Joe
 postumamente o papel que desejara para ele. O mdico olhou-a com
compreenso e  compaixo.
  - Eu sinto muito. - Fora um golpe duplo para a jovem, ele sabia, e que
agora  lhe explicava uma coisa. Durante a maior parte da cirurgia, o
mdico tivera a  estranha sensao de que ela estava lutando contra eles
e que no queria se salvar, e  agora tinha certeza. Ela quisera morrer e
ficar com o homem a quem chamava de  marido, embora ele ainda duvidasse
de que fossem casados. Se fossem, ela jamais teria  vindo do So Mateus.
- Tente descansar agora. - Era tudo o que tinha para lhe  oferecer, e,
depois de observ-la por alguns minutos, saiu do quarto. Era uma jovem
bonita  e com a vida pela frente. Havia sobrevivido a isso e
sobreviveria a outras  coisas. Ele sabia que um dia tudo no passaria de
uma vaga lembrana, mas agora, para  ela, era como se seu mundo tivesse
acabado.
  Aos olhos de Gabriella, era o que tinha acontecido. Estava totalmente
convencida de que no tinha mais motivos para viver. No queria, sem
Joe. E, deitada ali, ficou pensando nele e no dirio que escrevera para
ele, o tempo compartilhado, as  conversas, as confidncias, as risadas
abafadas, os passeios no Central Park, os  momentos roubados e as breves
horas de paixo no apartamento emprestado. Agora no  conseguia nem
mesmo lembrar-se de onde este ficava e, pensando nele, esforou-se  para
lembrar cada palavra, cada inflexo, cada instante. Todas as vezes
chegava ao final de  tudo: os dois padres sentados com madre Gregoria
naquela manh, dizendo-lhe que  Joe havia se matado e que ela teria de
viver com isso na conscincia para sempre.  Agora acreditava que a culpa
era sua.
  Lembrou-se de t-lo visto naquela manh, em seus sonhos, enquanto a
operavam,  e se deu conta de que quase fora juntar-se a ele, e odiou o
fato de isso no ter  acontecido. Teria feito qualquer coisa para ficar
com ele. Tentou traz-lo de volta, durante  um sono intermitente, mas
ele no vinha. No conseguia traz-lo outra vez   mente ou faz-lo
parecer real. Ele a abandonara, como os outros. Tudo em que ela
conseguia pensar agora era no que ele devia ter sentido antes de morrer,
na  agonia que o levara a uma deciso como aquela, na dor e na tristeza
que devia ter  experimentado. Lembrou-se da me dele. Ela tomara a mesma
deciso dezessete anos antes,  deixando o filho rfo. Mas, dessa vez,
Joe no deixou ningum, apenas ela, completamente s. No lhe restou nem
mesmo o filho deles. No tinha  nada. A no ser a dor.
  Madre Gregoria foi v-la naquela noite. Conversara com o mdico duas
vezes  durante a tarde e estava bastante ciente de que Gabriella
estivera  beira da  morte.  O mdico mencionou o que a prpria
Gabriella tinha dito, sobre o pai da criana  ter morrido no dia
anterior, e disse sentir muito por ela. E, apesar de no t- lo dito
quando a viu, madre Gregoria tambm sentia. Gabriella estava mortalmente
plida,  o rosto branco como os lenis em que estava deitada, os lbos
azulados, quase transparentes. Era fcil acreditar que por pouco no
teriam conseguido salv-la.  Ela recebera ainda mais uma transfuso,
mas, at ento, esta no parecia ter  feito qualquer diferena. Havia
tido uma hemorragia to violenta, que o mdico disse   madre Gregoria
que poderia levar meses para que se recuperasse. E, para a madre
superiora, isso representava um problema srio.
  Ela se sentou ao lado da cama de Gabbie por um tempo, dirigindo-lhe
poucas  palavras. Gabriella estava muito fraca para falar e tudo que
tentava dizer fazia-a chorar, custando-lhe um esforo enorme.
  - No fale, minha filha - disse madre Gregoria, por fim.
  Ficou ali sentada, segurando a mo de Gabriella, e sentiu-se
agradecida quando  esta voltou a mergulhar no sono. Madre Gregoria
estremeceu ao ver que, deitada daquela maneira,  Gabriella parecia
morta.
  A notcia sobre a morte do padre Connors chegara ao convento naquela
manh.  Durante todo o dia houve cochichos nervosos e,  noite, madre
Gregoria fez um  anncio solene no refeitrio. Disse apenas que o jovem
padre tinha morrido  inesperadamente, que no haveria ofcios e seus
restos seriam cremados e  enviados a Ohio para ser enterrado com a
famlia. Aquela fora a deciso do arcebispo.
  A prpria me de Joe, tendo se suicidado, no foi enterrada num
cemitrio  catlico, e a deciso do arcebispo Flaherty parecia a mais
humana. Afinal de  contas,  algum destino tinha de ser dado ao seu
corpo. E nenhuma outra explicao foi dada,  embora as freiras soubessem
que o fato de estar sendo cremado fosse suspeito.  Essa era uma prtica
proibida pela Igreja catlica, e somente uma concesso especial  teria
possibilitado a cremao. Quando madre Gregoria pediu um momento de
silncio  para rezarem pela paz da alma do jovem padre, os olhos das
mulheres estavam cheios de perguntas. Depois, ao olhar pela sala, pde
ver que a irm Anne estivera chorando.
  Vrias horas depois, a irm Anne apareceu  porta do escritrio da
madre  superiora, parecendo aflita. Fazendo sinal para que entrasse, a
madre perguntou:
  - Alguma coisa errada?
  A princpio a jovem freira no disse nada; depois, aceitando o convite
de  madre Gregoria, entrou e sentou-se, desfazendo-se imediatamente em
lgrimas.
  -  tudo culpa minha - lastimou a postulante.
   Sabia que algo terrvel deveria ter acontecido e estava cheia de
remorso.
  - Estou igualmente certa de que voc no teve nada a ver com isso -
disse  madre Gregoria, com calma. - A morte do padre Connors foi um
choque para todas  ns, mas no tem absolutamente nada a ver com voc,
irm Anne. As circunstncias so  bastante complicadas e, ao que parece,
ele tinha um problema de sade de que  ningum sabia.
  - Um dos coroinhas disse ao homem do mercado que ele se enforcou. -
Ela  soluava abertamente, tendo ouvido a histria de terror de
terceiros, atravs do carteiro que parara no mercado para comprar um
refrigerante antes de entregar a correspondncia no So Mateus. Madre
Gregoria  no estava nada satisfeita em ouvir aquilo.
  - Eu posso lhe garantir, irm, que isto  um absurdo.
  - E onde est Gabriella? A irm Eugenia disse que ela saiu daqui
levada por  uma ambulncia e ningum sabe por qu. Onde ela est?
  - Ela est muito bem. Teve uma crise de apendicite na noite passada e
veio me  dizer hoje cedo.
  Mas a irm Anne tinha visto os rostos sombrios dos padres do Santo
Estvo  saindo do escritrio de madre Gregoria. O convento era uma
comunidade pequena,  um mundo fechado, e, como em outros do tipo, mesmo
ali, nos braos de Deus, havia muitos  boatos e rumores. E certamente,
naquela manh, muitos tinham corrido. Madre  Gregoria, porm, no estava
nada satisfeita com aquilo. Tudo que queria agora  era tranqilizar a
jovem postulante, que se sentia to culpada.
  - Escrevi uma carta annima para a senhora - confessou a irm Anne,
hesitante,  as palavras entrecortadas pelos soluos -, falando sobre
eles, porque pensei que  Gabriella estivesse flertando com ele... Ah,
madre... Eu estava com cimes... No queria  que ela tivesse o que eu
perdi antes de vir para c...
  - Foi errado da sua parte, minha filha - disse madre Gregoria,
calmamente,  lembrando-se muito bem da carta e do quanto a perturbara. -
Mas a carta foi  inofensiva. No lhe dei nenhuma ateno, e seus temores
eram infundados. Os dois eram apenas  bons amigos e tinham admirao um
pelo outro na vida em Cristo que  compartilhavam. Nenhuma de ns aqui
precisa  envolver-se com as inquietaes do mundo. Estamos livres delas.
E agora a voc  deve esquecer isso tudo e voltar para junto de suas
irms. - Consolou a jovem  por  algum tempo e ento mandou-a de volta 
irm Emanuel com um bilhetinho, pedindo-lhe que fosse ao escritrio
assim que as  postulantes se deitassem. Enviou o mesmo recado para a
irm Immaculata e falou pessoalmente com as outras para irem   reunio
naquela noite, depois de terminarem suas obrigaes.
  As dez horas, doze rostos miravam-na em expectativa, e ela instou com
todas as  mulheres para que abafassem os rumores que corriam soltos. Era
um momento de  grande dor para todos, especialmente para os padres do
Santo Estvo, mas ela achava  que era responsabilidade delas tambm
proteger os outros da comunidade. No  havia por que procurar mais
informaes sobre os detalhes ou atiar as chamas de um  escndalo em
potencial. Ao contrrio, tinham todos os motivos para querer  silenciar
os sussurros do demnio. Ela foi firme, dura e muito enrgica no que
disse, e  quando perguntaram sobre o paradeiro de Gabriella, respondeu a
mesma coisa que  dissera a irm Anne. Que Gabriella tinha sofrido uma
crise de apendicite e estaria de  volta em alguns dias, quando estivesse
melhor.
  - Mas ento os rumores tm fundamento, madre?  verdade o que andam
falando? -  A irm Mary Margaret era a mais idosa do convento e no
hesitou em questionar a  superiora, bem mais jovem do que ela. - Dizem
que ela e o padre Connors estavam  apaixonados. - Mas no que ela estava
grvida, e madre Gregoria agradeceu em  silncio a Deus pelas pequenas
indulgncias. - Isso  possvel? Ele se matou? As novias estavam  todas
cochichando hoje de manh.
  - Mas ns no vamos fazer o mesmo, irm Mary Margaret - replicou madre
 Gregoria, rispidamente. - H pormenores referentes  morte do padre
Connors dos  quais no tenho conhecimento, no quero ter e tampouco
quero a senhora se preocupando mais  com isso. Ele est nas mos de
Deus, onde todos estaremos um dia. Devemos rezar por sua alma, e no
tentar descobrir os detalhes de como  chegou l. Tenho certeza de que
qualquer coisa que tenha ocorrido entre ele e a irm Bernadette no teve
absolutamente qualquer merecimento. Ambos eram jovens,  inteligentes e
inocentes. Se, de alguma maneira, se sentiram atrados um pelo  outro,
estou certa de que nenhum deles tinha conscincia disso. E no quero
mais ouvir  falar deste assunto. Est claro, irms? A todas vocs? Os
rumores acabaram. E  para me certificar de que a minha vontade, e tambm
a dos padres do Santo Estvo, em  relao a essa questo seja atendida,
o convento vai manter-se em silncio pelos prximos sete dias. No deve
haver nenhuma conversa, nem uma palavra deve ser  pronunciada entre
vocs, a partir do instante em que levantarmos amanh de  manh. E
quando novamente viermos a conversar, que seja sobre assuntos
abenoados.
  - Sim, madre - responderam todas em unssono, apaziguadas pela fora
com que a  madre falou. Isso, porm, era mais do que uma diretriz da
madre superiora, que  no suportava ouvir o que andavam dizendo de
Gabriella. Ainda a amava muito para  escutar seu nome ligado ao
escndalo que levara um jovem padre ao suicdio. E  estava feliz por
ningum ter descoberto que a jovem estava grvida. Felizmente, os
padres que a tinham visto desfalecer estavam to vidos quanto a prpria
madre  em manter o assunto sob sigilo. Entretanto, antes de deixar o
escritrio de madre Gregoria naquela manh, tambm haviam concordado
quanto  inevitvel resoluo. A rpida  sada de Gabriella na
ambulncia havia causado um impacto enorme em todos, e no era nada
menos que um milagre que quase ningum tivesse visto o que havia
realmente acontecido. Por ora, a histria da apendicectomia parecia
contornar a  situao.
  Madre Gregoria dispensou as freiras sumariamente e permaneceu no
escritrio  por alguns instantes depois que elas saram. Em seguida, foi
at a igreja e caiu  de  joelhos, rezando  Virgem Santssima para que a
ajudasse, enquanto cedia aos soluos  avassaladores que vinham
insistindo em querer jorrar desde a manh. No tolerava  o que havia
acontecido aos dois, no suportava perder  Gabriella e no agentava
pensar no que lhe aconteceria num mundo que a tinha  maltratado tanto
antes e para o qual no estava nem um pouco preparada. Se ao menos
tivessem ouvido  sabedoria de seus  coraes, se tivessem dado um basta
naquilo antes que fosse tarde demais... Mas ambos eram to jovens e
inocentes... to alheios aos  riscos que estavam correndo. A madre ficou
rezando, pensando na criana que  Gabriella era quando chegou ali. Rezou
pela alma de Joe Connors tambm, sabendo muito bem como devia ter se
sentido  atormentado na noite em que morreu, e como Gabriella devia
estar se sentindo  arrasada agora. E enquanto rezava pelos dois, tinha
certeza de que no haveria inferno  maior do que este para eles.
  Madre Gregoria no foi ver Gabriella no hospital novamente, mas
telefonou  diversas vezes para saber como ela estava, ficando animada
com os relatos das  enfermeiras.
  Por fim, Gabriella deixara de receber transfuses de sangue. Os
mdicos  fizeram todas as que podiam, sem arriscar uma reao adversa, e
agora o  organismo da jovem deveria se recuperar, com o tempo. Madre
Gregoria, porm, tinha certeza de que o  corpo se curaria bem mais
rpido do que o corao.
  A madre estava grata tambm pelo fato de a ambulncia t-la levado
para um  hospital da cidade, e no ao da Misericrdia. Se tivesse sido
internada ali,  teria sido realmente impossvel abafar os rumores. Na
noite anterior, a histria da  apendicectomia de emergncia espalhara-se
com rapidez, e agora, com o silncio  imposto a todas, no poderiam mais
comentar o fato. Entretanto, madre Gregoria sabia que  ainda precisava
cuidar do destino de Gabriella. Tivera um novo encontro com os  padres
do Santo Estvo, e o arcebispo foi v-la na manh seguinte. Tinham
chegado a  uma deciso difcil, mas madre Gregoria sabia no existir
outro meio para lidar  com o que havia ocorrido. Lev-la de volta para
junto delas seria como plantar uma semente com uma anomalia fatal num
jardim sagrado. Pelo menos foi isso o que lhe disseram.
  A princpio ela argumentou, implorando por clemncia para Gabbie,
embora  soubesse que, se fosse qualquer outra que no aquela que ela
amava, teria  chegado  mesma concluso. Era bvio que Gabriella no
estava em condies adequadas para  reingressar na Ordem e era possvel
que jamais fosse estar. Talvez um dia, num  outro lugar, em outro
momento, disseram... mas por enquanto... o arcebispo Flaherty estava
irredutvel em relao  concluso a que chegara. E agora cabia  madre
Gregoria  contar a ela.
  Mandou uma das irms ir busc-la no hospital na manh em que teve
alta,  lembrando-a uma vez mais de seu voto de silncio e de que no
deveriam  conversar. E, to logo chegassem, Gabriella deveria ir ao
escritrio da madre superiora. Por sua  cabea no passavam dvidas de
que a irm enviada obedeceria s ordens.
  No entanto, de maneira nenhuma estava preparada para o estado  em que
Gabriella voltou. A jovem estava mortalmente plida e mostrava-se to
assustada que parecia quase uma assombrao. Sentou-se
desconfortavelmente na mesma cadeira dura em que se sentara na manh em
que lhe disseram que Joe  Connors se  enforcara no quarto do Santo
Estvo. Na manh em que ela quase morrera, na qual  ainda gostaria de
ter morrido. Seus olhos encontraram os da madre superiora e
mostravam-se vazios e devastados.
  - Como voc est, minha filha? - Mas no precisava perguntar. Era
fcil ver.  Estava morta por dentro, to morta como Joe Connors e o
filho dos dois.
  - Estou bem, madre. Sinto muito por todos os problemas que lhe causei.
- A voz  estava fraca, ela parecia frgil, e o vu preto que usava com o
vestido do  postulantado fazia com que parecesse ainda mais lgubre. No
entanto, problemas parecia uma  palavra muito modesta para as duas vidas
que haviam se perdido e para a que  restava, destruda.
  - Eu sei que sente. - E ela falava do fundo do corao.
  Sabia que Gabriella devia estar se torturando, mas ningum poderia
ajud-la.  Teria de encontrar sua prpria paz e, algum dia, o perdo.
Madre Gregoria sabia que no seria fcil para ela, se  que um dia ela
conseguiria.
  - Sou totalmente responsvel pela morte do padre Connors, madre.
  - Eu compreendo isso - afirmou ela, com os lbios e o queixo tremendo.
Mal  pde terminar a frase.
  - Vou cumprir penitncia por isso pelo resto da minha vida.
  Por um momento, a madre superiora ps-se de lado, e Gabriella
vislumbrou a  mulher.
  - Voc deve se lembrar de uma coisa, minha filha. A me dele fez a
mesma coisa  quando ainda era jovem.  uma atitude muito errada, no
apenas aos olhos de  Deus, mas para as pessoas que se deixam para trs.
Qualquer que tenha sido sua  participao nisso, havia alguma coisa
nele, mais forte do que ele prprio, que  lhe  permitiu tomar essa
atitude. - Era sua maneira de dar absolvio  Gabriella,  lembrando-a
de que talvez uma falha fatal nele o tivesse levado quilo. Aos  olhos
de  madre Gregoria, aquele era um terrvel sinal de fraqueza. - Voc 
muito forte -  afirmou ela, tentando tranqilizar a si prpria -, e
independente do que a vida  lhe impuser, quero que se lembre de que voc
 capaz de enfrent-lo. Deus no vai lhe dar mais do que voc pode
suportar. E, quando achar que no agenta mais, deve lembrar-se de que
vai sobreviver. Voc precisa estar  ciente disso. - Era uma mensagem
proferida do corao, mas que Gabriella j no  podia mais tolerar.
Todos lhe diziam que era forte. E esse era sempre o indcio de que
estavam prestes a mago-la.
  - Eu no sou forte - disse Gabriella, num sussurro entrecortado. - No
sou.  Por que as pessoas me dizem isto?... Ento no sabem que no sou?
- As lgrimas  encheram-lhe os olhos enquanto falava.
  - Voc tem mais fora do que sabe, e muito mais coragem. Um dia vai
descobrir  isso. As pessoas que machucaram voc, Gabriella,  que so
fracas. So elas que  no conseguem resistir. - Como Joe, o pai e a me.
- Mas voc consegue.
  Gabriella no queria ouvir aquilo nem o que madre Gregoria estava
prestes a  lhe falar, quase tanto quanto a prpria madre superiora no
queria diz-lo.
  - Receio ter uma notcia difcil para voc. - Seria rpido, duro e
cruel, mas  madre Gregoria no tinha escolha e no poderia questionar a
sabedoria dos  padres,  independente do quanto questionasse a
misericrdia deles. Entretanto, a sua era uma vida de  obedincia e no
poderia quebrar seus votos agora, mesmo por Gabriella. - O  arcebispo
decidiu que voc deve nos deixar. O que ocorreu entre voc e... o padre
Connors... - A madre sentia-se como se o ar lhe faltasse, mas sabia que
no  poderia voltar atrs agora, apesar do sbito olhar de terror de
Gabriella. - No importa o que  tenha acontecido, ou no, h uma fenda
agora nas paredes que construmos ao seu  redor. Nunca mais vai ser a
mesma coisa, jamais vai ser consertada. Essa fenda s vai  aumentar. E
talvez o que voc tenha feito ou compartilhado com ele seja um sinal  de
que aqui no  o seu lugar. Talvez a tenhamos forado ou que tenha
ficado no  convento por medo, minha filha...
  - No, madre, no! - Gabriella a interrompeu imediatamente. - Eu adoro
viver  aqui, sempre adorei. Eu quero ficar! - Sua voz elevara-se de modo
alarmante. Ela  agora estava lutando por sua vida.
 Entretanto, madre Gregoria forou-se a manter a calma e prosseguir.
Tinham de  alcanar o fim da estrada, e ela queria fazer isso logo.
  - No pode ficar, minha filha. As portas do So Mateus esto fechadas
para  sempre para voc. No nossos coraes ou nossas almas. Vou rezar
por voc at o  dia  da minha morte. Mas precisa ir agora. Quando sair
daqui, voc ir ao vestirio para  mudar de roupas. Vai receber dois
vestidos, alm dos sapatos que est calando. O arcebispo permitiu que
lhe dssemos cem dlares. A voz tremia assustadoramente  enquanto ela
falava, mas a madre tomou coragem para prosseguir, lembrando-se do dia
em que Gabriella chegara, os olhos cheios de pavor. Madre Gregoria via
aquele mesmo olhar agora, mas j no podia ajud-la, apenas am-la. - E
vou lhe  dar quatrocentos dlares meus. Voc deve arranjar um lugar para
morar e um emprego. H muitas  coisas que pode fazer. Deus lhe deu
inteligncia, um bom corao, e Ele vai  proteg-la. Alm de tudo, voc
tem o dom maravilhoso de escrever. Deve us-lo bem e talvez  um dia
venha a trazer muito  prazer para os outros. Mas agora deve cuidar de si
mesma. Seja sbia nas suas  decises, mantenha-se longe do caminho do
mal e saiba que, aonde quer que voc  v,  minha filha, nossas oraes
iro acompanh-la. O que voc fez foi errado, Gabriella,  muito errado,
mas o preo que pagou foi muito alto. Agora voc deve se perdoar -
disse a madre, quase num sussurro, estendendo a mo para tocar pela
ltima vez a  menina que ela tanto amava. - Voc precisa se perdoar,
minha filha... como eu a  perdo...
  Gabriella pousou a cabea na escrivaninha e soluou, apertando a mo
da velha  freira, incapaz de acreditar que tinha de deixla. Esse era o
nico lar  verdadeiro que tinha conhecido, o nico lugar onde encontrara
segurana, e essa era a nica  me que tinha. Entretanto, trara a
todas, quebrando a confiana que depositavam nela, e agora, a ma tendo
sido mordida at o caroo, a cobra tinha sado  vitoriosa, e ela
precisava deixar o Jardim do den.
  - No posso deixar a senhora - soluou Gabriella, implorando por
clemncia.
  - Mas precisa. No temos escolha. E o mais justo com as outras. No
pode viver  entre elas como antes, depois do que aconteceu.
  - Eu juro que no conto nada a elas. - Mas elas sabem. Em seus
coraes, todas sabem que alguma coisa terrvel  aconteceu, por mais que
tentemos proteg-las. Se ficasse, nunca mais seria a  mesma coisa para
voc. Sempre se sentiria como se as tivesse trado e acabaria por odiar
a  elas e a si mesma.
  - Eu j me odeio - replicou Gabriella, sufocando os soluos. Havia
matado o  nico homem que amara e perdido seu beb. Agora iria perder
todo o resto. Madre  Gregoria a estava obrigando a sair, e a
conscientizao de tudo o que perdera e ainda  estava prestes a perder
encheu-a de um terror to incontrolvel que desejou que  aquilo a
matasse. Mas o medo maior era o de que isso no acontecesse.
  - Gabriella - disse madre Gregoria, baixinho, levantandose como fizera
na  primeira vez em que haviam se encontrado. Esse era um dia terrvel
para ambas, e  ela  agora olhava para Gabriella, parada ali,
visivelmente tremendo. - Voc precisa ir  agora.
  Gabbie estava aturdida, permanecendo em silncio, enquanto madre
Gregoria lhe  entregava um envelope com o dinheiro prometido, a maior
parte da pequena conta  bancria que mantinha com presentinhos enviados
por seus irmos e irms. Junto com ele,  entregou a Gabriella o pequeno
dirio que esta escrevera para Joe. Haviam-no  encontrado debaixo do seu
travesseiro, mas a jovem freira que o achou desconfiou do que era  e no
leu. Gabriella reconheceu-o imediatamente, e sua mo tremeu ao peg-lo.
  As duas mulheres ficaram se olhando por um longo momento, e os soluos
de  Gabriella encheram o ar quando estendeu os braos para madre
Gregoria e a velha  freira a abraou, exatamente como fizera quando a
me a abandonara ali.
  - Eu vou sempre amar voc - disse a madre  criana que Gabriella
tinha sido e   mulher que seria quando alcanasse o outro lado das
montanhas que a vida  colocara em seu caminho. Madre Gregoria no tinha
dvidas de que ela chegaria a salvo do  outro lado, mas sabia que era
longa a estrada  sua frente e que a viagem no seria nada fcil.
  - Eu amo tanto a senhora... No posso ir embora... - Gabriella parecia
 novamente uma menininha, agarrada a ela, sentindo  o tecido spero do
hbito no rosto, sabendo que o seu estava prestes a ser  tirado dela.
  - Eu sempre vou estar com voc. Rezando por voc. - E, sem outra
palavra,  levou Gabriella at a porta, que ento abriu, e mandou a
freira que esperava do  lado  de fora conduzi-la ao vestirio, onde
Gabriella deveria tirar o hbito e receber  dois vestidos feios e
mal-ajustados deixados ali por outra pessoa, assim como  tambm uma mala
surrada. O resto do que precisasse teria de comprar com o dinheiro que
estavam lhe dando.
  Gabriella saiu do escritrio com as pernas bambas e virou-se a fim de
olhar  para madre Gregoria uma ltima vez, enquanto as lgrimas corriam
como um rio por  seu rosto.
  - Eu amo a senhora - disse ela, suavemente.
  - V com Deus - desejou madre Gregoria. Ento, virou-se lentamente e
tornou a  entrar no escritrio sem olhar para trs, fechando a porta com
delicadeza.  Gabriella ficou ali parada, observando, incrdula. Era como
ver as portas do corao de algum se fechando; s que, do  outro lado,
a velha freira enterrou o rosto nas mos e comeou a soluar  baixinho.
  Mas Gabriella nunca saberia disso.
  Ela acompanhou a freira at o vestirio, calada, ambas ainda
confinadas ao  silncio imposto por madre Gregoria. A jovem irm apontou
para os dois vestidos  que  haviam sido deixados para Gabriella: um de
polister com estampa floral em tons de  azul-marinho, muito feio e dois
nmeros maior que o dela, especialmente depois  da ltima semana; e um
outro, preto brilhante, ainda mais feio, com manchas na parte da  frente
que no haviam sado por mais que as irms o lavassem. Mas este se
assentava melhor em Gabriella, e a cor sombria estava de acordo com as
circunstncias. Ela  estava de luto pesado por Joe. Trocou um vestido
preto pelo outro e retirou  lentamente o vu, lembrando-se das muitas
vezes em que fizera o mesmo para ele, deixando-o  no carro quando iam
passear no parque ou ao apartamento emprestado. Esse era o  preo que
ela tinha de pagar agora. Havia perdido o vu, assim como tudo que ele
significava, para sempre, e tambm as pessoas a ele relacionadas.
  Gabriella parou diante da freira que fora designada para ajudla em
sua  partida, e os olhos de ambas se encontraram. Sem emitir nenhum som,
as duas se  abraaram, enquanto as lgrimas escorriam em silncio por
seus rostos. Era um dia triste  para ambas, e a que ficava sabia que
jamais poderia falar a ningum da tristeza  que tinha visto, de maneira
muito clara, nos olhos de Gabriella ao deixlas. Era uma  lio para
todas. Gabbie estava sendo jogada no mundo, sozinha, sem nada nem
ningum para ajud-la.
  Gabriella colocou o dinheiro, o dirio e o vestido azul florido
cuidadosamente  na mala pobre e deixou o quarto, seguindo a mulher que
por doze anos fora sua  irm e que em breve seria arrastada pelas mars
que haviam alcanado Gabriella.
  Chegaram  porta da frente, no corredor principal, depressa demais.
Gabriella  ficou parada ali por um momento, e a freira j idosa
encarregada de deixar as  pessoas entrarem e sarem adiantou-se e abriu
a porta bem devagar. Por um longo e  silencioso instante,  as trs
ficaram ali paradas. E ento, a velha freira fez um gesto com a cabea,
indicando a Gabriella a sada, e, com um nico e trmulo passo,
Gabriella atravessou o umbral. Agora era muito diferente dos dias em que
saa correndo  para encontrar-se com Joe, fmgindo ir fazer trabalhos
para as freiras. Esse era  um passo para a escurido. E, parada do lado
de fora, sob a luz brilhante do sol,  Gabriella virou-se e olhou para
elas; e, no momento em que seus olhos se  encontraram, a velha freira
fechou a porta, e Gabriella perdeu-se delas para sempre. Captulo 15

  Gabriella ficou parada diante da porta do convento, olhando-a
fixamente, pelo  que pareceu uma eternidade, sem ter idia do que fazer
ou para onde ir. S  conseguia pensar em tudo o que perdera nos ltimos
quatro dias: um homem, uma vida e um  filho. A atrocidade daquilo era
to esmagadora, que Gabriella teve a sensao de  que o mundo girava 
sua volta.
  Ento, pegou a mala e foi se afastando devagar. Sabia que precisava ir
a algum  lugar, encontrar um quarto e um emprego, mas no tinha idia de
aonde ir ou como  faz-lo.
  Ao olhar para os nibus que passavam, de repente lembrou-se de algumas
moas  com as quais estudara na Columbia. Algumas moravam em penses e
pequenos hotis.  Tentou lembrar-se de onde estes se localizavam. A
maior parte ficava no Upper West  Side, mas Gabriella nunca havia
prestado ateno de fato.
  Ainda se sentia entorpecida quando tomou um nibus que se dirigia 
parte alta  de Manhattan, sem saber ao certo para onde estava indo. Num
instante de loucura,  pensou em procurar o pai em Boston. Quando desceu
do nibus na esquina da Rua 86 com a  Terceira Avenida, dirigiu-se a uma
cabine telefnica e ligou para o servio de informaes de Boston. Na
lista telefnica no constava nenhum John  Harrison, e Gabriella no
sabia onde ele trabalhava ou mesmo se estava vivo,  muito menos se
gostaria de falar com ela. Treze anos haviam se passado desde a ltima
vez em que o tinha visto. Ela estava com 22 anos, comeando a vida do
nada, como se fosse um beb. Ao sair da cabine telefnica, que ficava em
frente a um caf,  Gabriella de sbito sentiu-se tonta e percebeu que
no tinha comido nada desde o caf da manh. Mas no estava com fome.
  As pessoas passavam apressadas, e as mes empurravam os carrinhos de
bebs.  Todos pareciam estar indo a algum lugar, e Gabriella era a nica
que no tinha  nem  rumo nem objetivo. Sentiu-se como uma pedra
assentada num rio, enquanto a correnteza  e tudo o que esta carregava
passavam por ela. Entrou no caf para tomar um ch  e, sentada ali,
olhando fixamente a xcara, s conseguia pensar no que madre  Gregoria
lhe dissera ao abandon-la. Perguntou-se por que todos lhe falavam do
quanto era forte. Agora sabia que aquele era um toque fnebre, um sinal
de que as pessoas  que amava estavam prestes a abandon-la.
Preparavam-na para ser forte porque  teria mesmo de ser, sem eles.
  Quando terminou o ch, apanhou um jornal que fora deixado ali.
Precisava  encontrar um lugar para ficar. Deu uma olhada na lista de
pequenos hotis e  penses e  viu que havia uma penso no muito longe
dali, na Rua 88 Leste, perto do East River.  No conhecia os arredores,
mas era um comeo. Sem emprego, entretanto, no  estava nem mesmo certa
de ter condies de pagar um quarto.
  Pagou o ch e voltou lentamente  luz do sol. Ainda se sentia morta
por  dentro, e o ch apenas a aquecera um pouco. Havia dias que se
sentia congelada,  depois  de todo o sangue que tinha perdido, e nem a
bebida quente a ajudava muito. Ainda  estava mortalmente plida, e todo
o seu corpo doa enquanto andava no sentido  leste, percorrendo os
longos quarteires em direo ao East River, imaginando quanto  custaria
um quarto. Sabia que no sobreviveria por muito tempo com quinhentos
dlares ou, pelo menos, assim pensava. Nunca tinha precisado prover suas
prprias  necessidades. No sabia o preo de nada: comida, restaurantes,
moradia ou roupas. No tinha idia do que poderia fazer nem de como
controlar o  dinheiro, mas era grata a madre Gregoria pelo que lhe dera.
Sem aquilo, sabia  que a situao seria ainda mais desesperadora.
  Passou pela penso a primeira vez, sem ver a pequena tabuleta.
Tratava-se de  uma casa velha e malconservada feita de arenito pardo,
cuja fachada estava se  deteriorando, e tudo que o letreiro, posto numa
pnela empoeirada, dizia era ALUGAM-SE QUARTOS.
  Nada ali parecia convidativo. E quando ela entrou, vendo-se no
vestbulo, este  era limpo, mas pobre, e cheirava a comida. Nada poderia
estar mais distante da  ordem e preciso imaculadas e absolutas do
Convento de So Mateus.
  - Pois no? - Uma mulher com um forte sotaque meteu a cabea no
corredor  escuro quando ouviu os passos de Gabriella. De sua janela,
vira quando ela  entrou e perguntava-se o que desejaria. - O que voc
quer?
  - Eu... ah... tem quartos para alugar? Eu vi o letreiro... e o anncio
no  jornal.
  - Talvez tenha. - Gabriella identificou o sotaque como tchecoslovaco
ou  polons. Ainda se lembrava do sotaque das pessoas que freqentavam
as festas de  seus pais, embora essa mulher fosse bastante diferente. E
ela estava examinando Gabriella.  No queria viciados ou prostitutas, e
Gabriella parecia mais jovem do que era de fato. A mulher tambm no
queria fugitivos ou gente com problemas com a policia.  Dirigia uma casa
de respeito e preferia os idosos, que recebiam suas  aposentadorias,
pagavam o aluguel e no faziam muito barulho nem lhe davam trabalho, a
no ser  que ficassem doentes ou morressem. Tampouco queria os hspedes
cozinhando nos quartos, e os jovens estavam constantemente fazendo
coisas que no deviam. Fumavam,  bebiam, comiam e cozinhavam no quarto,
traziam pessoas a qualquer hora e faziam  barulho demais. Jamais seguiam
as regras ou tinham empregos dignos. E a senhoria no  queria dores de
cabea.
  - Voc tem emprego? - perguntou a dona da penso, parecendo
preocupada. Sem  trabalho, Gabriella no poderia lhe pagar, e isso seria
um problema.
  - No... ainda no... - respondeu Gabriella, desculpando-se. - Estou
procurando. - No queria mentir, fingindo que trabalhava.
  - Ah, bem, ento volte quando tiver encontrado. - Essa no era uma
garota rica  vivendo de renda ou com pais na Park Avenue que pagassem o
seu aluguel. Por  outro lado, se fosse, no estaria ali. - De onde voc
? - Gabriella podia ver que a  senhoria estava desconfiando dela e no
a culpava por isso.
  Por um instante, Gabriella hesitou, imaginando como poderia explicar o
fato de  no ter um emprego nem lugar para morar. Parecia, mesmo a ela,
que acabara de  sair da cadeia e dava para ver que no tinha causado uma
boa impresso. E o vestido  preto, feio e manchado, no ajudava
absolutamente a melhorar sua imagem.
  - De Boston - decidiu-se ela, pensando no pai que no conseguira
encontrar  naquele dia. -Acabei de me mudar para c. - A mulher assentiu
com um gesto da  cabea.
  Era uma histria plausvel.
  - Que tipo de trabalho voc faz?
  - O que eu puder arrumar - respondeu ela, com honestidade. - Vou
comear a  procurar amanh.
  - Na Sexta Avenida tem muitos restaurantes, alm de todos os alemes
da Rua  86. Talvez encontre alguma coisa por l.
  Sentia pena dela. Gabriella estava cansada e plida, e a senhoria
achou que no aparentava ser muito saudvel. Mas no  parecia uma
drogada. Parecia bastante limpa e correta. A sra. Boslicki finalmente
compadeceu-se.
  - Tenho um quarto pequeno no ltimo andar, se quiser dar uma olhada.
No tem  nenhum luxo. Voc divide o banheiro com mais trs.
  - Quanto custa? - Gabriella parecia preocupada ao pensar no seu
oramento  apertado.
  - Trezentos por ms, sem comida. E no pode cozinhar. Nada de pratos
quentes,  fogareiros e fritadeiras. Ou vai jantar fora ou traz para casa
um sanduche ou  uma pizza.
  Isso no parecia um problema. Gabriella tinha a aparncia de quem
nunca comia.  Era magra igual a uma vara, e os olhos mostravam-se to
imensos no rosto fino que a senhoria pensou que ela estivesse  passando
fome.
          - Voc quer ver?
          - Obrigada, eu gostaria, sim. - Era extremamente bem- educada
e falava muito bem, o que agradava a sra. Boslicki. No queria uma
adolescente metida a sabichona na sua casa. Alugava quartos havia vinte
anos,  desde a morte do marido, e tambm nunca tinha hospedado hippies.
  Gabriella a seguia pela escada, quando a sra. Boslicki perguntou se
gostava de  gatos. Tinha nove deles, o que explicava o cheiro no
corredor de baixo, mas Gabriella  assegurou-lhe que os adorava. Havia um
que de vez em quando ficava por perto,  enquanto ela trabalhava na horta
do So Mateus. Quando alcanaram o ltimo andar, a sra.  Boslicki, que
era um pouco gordinha, estava ofegante, mas era Gabriella quem  parecia
que no conseguiria chegar. A vaga ficava no quarto andar, e Gabriella
ainda no  estava forte o bastante para aquele exerccio. O mdico
avisara-lhe que evitasse escadas, especialmente, e exerccios e peso em
excesso; caso contrrio, poderia  comear a sangrar. E ela no podia
perder nem mais uma gota de sangue depois de tudo por que passara.
          - Voc est bem? - Viu que Gabriella se mostrava ainda mais
plida do  que l embaixo, sua pele tinha uma tonalidade quase ver- de
fosforescente, e ela caminhava muito devagar.
          - Eu no tenho andado muito bem - explicou Gabriella, livida,
enquanto  a velha mulher, usando um simplrio vestido  florido, assentia
com a cabea. Calava pantufas, e o cabelo estava penteado com  capricho
num pequeno coque. Havia algo de confortador e aconchegante nela, como
numa av.
          - Precisa tomar cuidado com essas gripes que andam por a nos
dias de  hoje. Quando vai ver, j viraram pneumonia. Voc est com
tosse? - Tampouco  queria pensionistas tuberculosos por ali.
          - No, j estou bem agora - assegurou Gabriella, enquanto a
sra.  Boslicki abria a porta do quarto que queria mostrar.
  Parecia pequeno, triste e mal comportava a estreita cama de solteiro,
a  cadeira de espaldar reto e a cmoda nica coberta com um paninho de
croch feito   mo.
  Havia alugado o quarto durante anos para uma senhora da Varsvia que
morrera no vero anterior e no conseguira alug-lo  desde ento. At
ela reconhecia que trezentos dlares por ms era um preo  elevado.
  As persianas estavam gastas; as cortinas velhas e esfarrapadas; e o
tapete,  quase no fio. A sra. Boslicki olhou para o rosto de Gabriella,
que estava  acostumada s celas espartanas do So Mateus, mas que no
eram assim to deprimentes. Pela  primeira vez, a sra. Boslicki pareceu
um pouco preocupada.
  - Posso fazer por duzentos e cinqenta - ofereceu, orgulhosa pela
prpria  generosidade. Mas queria alugar o quarto; precisava do
dinheiro.
  - Vou ficar com ele - disse Gabriella sem hesitao.
  Era horrvel, mas no tinha outro lugar para ir, e receava perder
aquele. Alm  do mais, estava to cansada s de ter subido as escadas
que o queria ao menos para poder deitar-se um pouco.  Precisava de um
lugar para dormir, mas pensar naquilo como seu novo lar quase a  levou
s lgrimas, enquanto entregava  mulher metade do dinheiro de madre
Gregoria.
  - Vou lhe dar os lenis e um jogo de toalhas. Voc mesma lava a sua
roupa.  Tem uma lavanderia aqui na rua e um monte de restaurantes. A
maioria do pessoal  come no caf da esquina.
  Gabriella lembrou-se de ter passado em frente e esperava que no fosse
muito  caro. S lhe restavam duzentos e cinqenta dlares, mas ao menos
tinha um teto  pelo prximo ms.
  Depois atravessaram o corredor, e a sra. Boslicki mostrou-lhe o
pequeno  banheiro. Tinha uma banheira com um chuveiro e uma cortina de
plstico rosa.  Havia tambm uma pequena pia, o vaso sanitrio e um
espelhinho preso num prego. No era  bonito, mas era tudo de que
precisava.
  - Deixe limpo para os outros. Eu fao a faxina uma vez por semana. No
resto do  tempo, vocs mesmos cuidam disso. Tem uma sala de estar l
embaixo. Pode ir  sentar-se sempre que quiser. Tem televiso - e ento
sorriu um pouco pretensiosamente,  completando: - e um piano. Voc toca?
  - No, sinto muito - desculpou-se Gabriella.
  Lembrou-se de que a me tocava, mas jamais tinham desperdiado aulas
com ela e, no convento, eram outras as suas ocupaes, como trabalhar na
horta.  Nunca tivera talento para a msica, e algumas das freiras
caoavam dela pelo  modo como cantava. Adorava faz-lo, mas cantava alto
demais e um pouco desafinada.
  - Agora arranje um trabalho para poder ficar aqui. Voc  uma boa
menina, e eu  gostei de voc - disse a sra. Boslicki, afetuosamente.
  Acabou por concluir que Gabriella era uma boa pessoa. Tinha timas
maneiras, era bem-educada e no parecia que  viria trazer-lhe problemas.
- Mas tem de se cuidar. Est com cara de quem anda  doente. Tem que
comer bem para ficar saudvel. - Ento foi descendo, apressada,
prometendo que voltaria com algumas toalhas, mas Gabriella disse que ela
mesma  desceria para apanh-las, poupando  mulher as escadas e o
contratempo. A sra. Boslicki acenou  ao desaparecer, ainda apertando o
dinheiro na mo.
  Gabriella voltou ao pequeno quarto e correu os olhos ao redor.
Sentou-se na  cadeira desconfortvel e imaginou se no havia nada que
pudesse fazer para  alegrar  um pouco o lugar. Poderia comprar algumas
coisas quando ganhasse dinheiro, mas no  agora. Uma colcha nova para a
cama, gravuras na parede e algumas flores fariam  maravilhas.
  Com um leve suspiro, Gabriella colocou a mala no armrio e pendurou o
outro  vestido. Havia mais uma coisa na valise: o dirio dedicado a Joe,
que ela deixou  na  mala sem nem mesmo olhar. O fato de ele no o ter
visto fez com que Gabriella se  sentisse ainda mais triste. Por fim,
pegou-o, incapaz de resistir; sentou-se na  cama e abriu-o. Estava
repleto de notas sobre os seus encontros e o amor que nutria  por ele.
Transbordava toda a emoo do primeiro amor e o pavor intenso dos
primeiros encontros clandestinos... depois, a paixo que encontrara em
seus braos no  apartamento. Estava tudo ali: mais para o final, falava
da vida que  compartilhariam e, bem no finzinho, de tudo que ela
desejava para o Filho deles. Ao ler as ltimas  anotaes, caiu em cima
da cama uma carta que ela nunca tinha visto. O envelope  dizia "irm
Bernadette" numa letra desconhecida. Ento, percebeu com um sobressalto
que aquela era a caligrafia de Joe e sua mo tremeu ao abri-lo. Levou um
minuto  para entender do que se tratava. Era sua carta de despedida, a
ltima coisa que escrevera a ela antes de tirar a prpria vida. O padre
OBrian a  confiara a madre Gregoria, que a enfiou discretamente no
dirio antes de  entreg-lo a Gabbie. Mas madre Gregoria no havia
avisado Gabriella de que a carta estaria  ali. E agora ela a lia,
segurando-a com lgrimas nos olhos. Era to estranho que havia apenas
poucos dias ele tivesse tocado aquele papel, tivesse estado com ele  nas
mos e que fosse essa a nica coisa que lhe restasse dele. Somente essas
palavras, escritas cuidadosamente em duas folhas de papel branco.
  "Gabbie", comeava ele. A "irm Bernadette" no envelope fora apenas
para que a  carta chegasse a ela, expondo finalmente os segredos de
ambos. Sem aquela carta, talvez nunca tivessem sabido, e ela ainda
estivesse no So Mateus. Mas agora  estava feito, e no havia nada que
ela pudesse fazer, a no ser enfrentar a  realidade.
  No podia voltar atrs.
  "Eu no sei o que dizer nem por onde comear. Voc  to melhor e
maravilhosa,  e tambm mais forte do que eu. Durante toda a minha vida,
eu soube do quanto sou  fraco, dos meus defeitos e de quantas pessoas
decepcionei... meus pais, quando Jimmy  morreu, porque no o salvei."
  Embora seu irmo fosse dois anos mais velho e muito mais forte, era o
caula que se culpava pelo milagre herico que no havia sido capaz  de
realizar. Talvez silenciosamente tivessem mesmo posto a culpa nele e, se
era esse o caso, ela os odiava por isso.
  "Desapontei a todos. Pessoas que me conheceram, amaram e contaram
comigo. Em  ltima anlise, essa  a razo por que escolhi o sacerdcio.
Se ao menos eu no tivesse sido essa decepo para eles..."
  Falava novamente nos pais e, conhecendo-o como conhecia, Gabriella
entendeu.  Ler a carta era como ouvi-lo, e isso partia seu corao
agora. Queria lhe dizer o quanto  estava errado, convenc-lo a ficar...
Se ao menos tivesse estado l naquela  noite... Se ele tivesse lhe
falado sobre o que passava em sua cabea na ltima vez em que  se
viram...
  "Talvez, se eu no tivesse sido essa decepo para eles", prosseguia
Joe, "ou  se tivesse sido importante em suas vidas, minha me no teria
feito o que fez  quando meu pai morreu. Teria percebido que eu estaria
l para ajud-la. Mas no.  Preferiu morrer a viver sem ele.
  "Mas, quando fui para o So Marcos, deram-me tudo que eu nunca tivera.
Todo o  amor, as oportunidades e a compreenso de que precisava.
Confiavam tanto em mim  que me perdoaram completamente. E sei o quanto
me amavam, da mesma forma como sei o  quanto amo voc, e voc a mim.
Estas tm sido as nicas certezas da minha vida,  as bnos a que me
agarro, mesmo agora, neste momento difcil.
  "Ingressei no sacerdcio por eles, pelos irmos do So Marcos, porque
sabia  que era a maior alegria que poderia lhes dar. Era a nica coisa
que queriam de  mim,  e entreguei a eles todo o meu corao e a minha
vida. Pensei que talvez assim, se  fizesse a coisa certa para variar, eu
me redimiria perante minha me e Jimmy, e  Deus me perdoaria.
  "Por muito tempo, aquela para mim foi a deciso certa. Fui feliz aqui,
Gabbie.  Sentia-me bem por fazer a coisa certa. Gostava da idia de ter
trocado minha  vida pela deles... at conhecer voc e perceber o quanto
desejava minha vida de  volta. Nunca tinha conhecido o amor e a
felicidade verdadeira at encontrar  voc. Nunca soube o que a vida
poderia ser. Desde o instante em que a conheci s conseguia  pensar em
ser seu marido e seu amante. S queria estar com voc e dar-lhe tudo o
que eu tinha, toda a minha vida e minha alma. Mas essas duas ltimas
coisas j no  me pertenciam.
  "Tentei de todas as maneiras possveis imaginar-me ficando com voc,
vivendo  juntos, casados, sendo tudo o que voc merece na vida. Mas sei
que, se fizesse  isso, s viria a decepcion-la. No sei como lhe dar
tudo o que voc merece e no  posso voltar atrs numa promessa. No
posso tomar de volta a vida que devotei a  Deus porque encontrei algum
a quem amo mais do que a Ele ou com a qual quero ficar mais do que
servi-Lo. No posso fazer isso com os irmos do So Marcos nem  com os
padres meus companheiros aqui do Santo Estvo. Troquei minha vida pela
de Jimmy  e de mame, por t-los desapontado. Tom-la de volta s vai
servir para  decepcionar voc, a mim mesmo e queles a quem j tinha
oferecido minha alma. Voc sempre  ter meu corao. Vou am-la e estar
com voc para sempre. No suportaria viver  sem voc nem  decepcionar a
todos novamente. No posso deix-los e mostrar que no valho nada.
Jamais teramos uma vida decente se eu fizesse isso. Agora sei que,
custe o que  custar, devo ficar aqui. O trato foi feito h muito tempo,
e as coisas que lhe prometi  no eram minhas. Entretanto, tambm sei,
com todo o meu corao e a minha alma, que no posso viver sem voc. No
conseguiria passar outro dia aqui sem voc,  sabendo que est por perto
e no posso ficar ao seu lado. Gabbie, eu no posso  viver sem voc.
  "Estou indo ao encontro de Jimmy e de mame.  a minha hora. Fiz o que
pude  aqui. Fiz o bem a algumas pessoas nos meus anos de sacerdcio. Mas
como poderia  encar-las agora, sabendo do quo pouco me importo com
elas e do quanto amo voc! Se no  puder estar com voc, ento no
poderei estar em lugar algum. No posso cumprir  as promessas que fiz,
nem a voc nem a eles. No conseguiria abandonar isto aqui  nem voc.
Estou dividido e, indigno como tenho sido, como poderia ser um pai
decente para o nosso filho?
  "Gabbie, voc  muito forte" - novamente aquelas palavras odiosas;
Gabriella estremeceu em meio s lgrimas  ao l-las -, " to mais forte
do que eu. Vai ser uma excelente me para o nosso beb. E eu vou estar
muito mais feliz observando  vocs dois do cu, se chegar l. Um dia
diga a nosso filho o quanto te amei e a  ele, e tambm que eu era um
homem decente, que tentei... e ah, Gabbie, diga a ele o  quanto te amei.
Por favor, esteja sempre certa disso e me perdoe pelo que fiz e  pelo
que estou prestes a fazer. Que Deus proteja a ambos... reze por mim,
Gabbie...  eu te amo... que Deus me perdoe..."
  O texto parecia ir desaparecendo na pgina, ento, e ele assinava
simplesmente "Joe".
  Ela ficou sentada, olhando muito tempo o papel nas mos, soluando
baixinho.  Agora as coisas tinham fcado claras. Estava tudo ali. Ele
pensou que havia desapontado as pessoas e que ela era muito forte, mas
somente por causa do medo enorme que sentia de fazer o que desejava.
Ficara  muito mais assustado do que ela. E o filho de que falava j no
estava mais ali. Se  Joe ao menos tivesse tido a coragem de deixar o
Santo Estvo e tentado viver ao  lado dela, Gabriella lhe mostraria o
quanto estava errado e que no tinha desapontado  ningum at ento...
  quando decepcionou todos e a abandonou, dizendo-lhe que fosse forte
porque ele  mesmo no era. Lembrava-a, em muitos aspectos, de seu pai.
Ele a deixara  completamente s, com apenas uma carta na qual se
agarrar. Lendo-a, Gabriella teve vontade de  gritar, mas tudo o que fez
foi chorar. Ficou sentada na cama por muito tempo,  relendo-a vrias
vezes. Estava tudo ali: a angstia, os temores e a culpa que sentia por
coisas pelas quais no havia sido responsvel, como a morte do irmo e o
suicdio da me.
  E quem era responsvel agora? De quem era a culpa? Ela sabia que era
dela,  pois o levara para um lugar onde ele no podia viver,
conduzindo-o para os  braos de  mais um fracasso. Tinha feito isto a
ele pelo simples fato de am-lo. Ela o levara  para a beira de um
penhasco de onde ele, no sabendo escapar, pulara no abismo,  levando-a
consigo. S que ela sobrevivera e ele estava morto. Joe a havia
condenado a  isso, a um quarto de penso em nada aconchegante ou
familiar, deixando-a  completamente s, sem nada alm de lembranas e
uma carta que lhe dizia o quanto era forte e  que precisava mesmo ser
agora, pois ele optara pela fraqueza. E, lendo pela  dcima vez a carta,
Gabriella de repente sentiu raiva dele, pelo que ele no tinha  ousado,
tentado ou dado importncia suficiente para desejar viver por aquilo.
Havia fugido para ficar com Jimmy e a me, repetindo o gesto desta.
Preferira morrer a lutar  e apostar que venceriam dessa vez, que tudo
ficaria bem e que poderiam at ser felizes.
  No deixara nem escolhas nem opes a Gabriella. Tomou a nica sada
que viu e  a deixou para virar-se por conta prpria. Queria gritar com
ele, berrar, sacudi- lo...
  Se ao menos tivesse sabido no que ele andava pensando, poderia ter
conversado  ou discutido com ele, at mesmo se afastado dele, se isto
significasse que ele  continuaria vivo. Mas Joe no partilhara nada com
ela. Havia simplesmente partido, na  extremidade de uma corda, num
closet escuro.
  Aquela era a sada de um covarde e parte dela odiou-o por isto, embora
 soubesse que outra parte sempre o amaria. Ao escurecer, enquanto olhava
pela  janela, j  muito depois da hora do jantar, Gabriella lembrou-se
das palavras de madre Gregoria  sobre ele, recordando a ela que a me de
Joe fizera a mesma coisa, que havia nele uma deficincia fatal com a
qual Gabriella nada tinha a ver. Entretanto,  mesmo sabendo disso,
sentia-se intoleravelmente culpada. No fundo do corao,  sabia que era
responsvel, assim como ele sabia ser responsvel pela morte de Jimmy.
Deitada na cama, pensando em Joe, envolvida pela escurido, sabia que,
independente do quanto o amara, e ele a ela, fora culpada pela sua
morte. Pagara um preo  alto por isso, mas agora tinha certeza absoluta
de que, independente do que  acontecesse, Deus jamais a perdoaria.


Captulo 16

  Durante uma semana inteira, depois de ter alugado o quarto na penso
da sra.  Boslicki, Gabriella gastou a sola dos sapatos. Procurou
empregos em todos os  lugares que podia imaginar. Tentou lojas de
departamento, bazares, cafs e restaurantes,  at mesmo o pequeno e sujo
restaurante que ficava do outro lado da rua onde morava. Ningum, porm,
queria contrat-la, apesar do diploma da Columbia, da  experincia em
cuidar da horta, dos bons modos ou do talento literrio. Tudo que  os
restaurantes diziam, descartando-a, era que no tinha prtica em servir
as mesas. E as lojas  de departamento e os bazares alegavam que no
tinha experincia com vendas.  Andou tanto e to longe,  procura de
trabalho, que esperava no comear a sangrar  novamente, pois no
ousaria gastar dinheiro com mdico. Estava a ponto de perder  as
esperanas, seu dinheiro minguando assustadoramente, quando, num final
de tarde,  parou num pequeno caf alemo na Rua 86 para comer um doce e
tomar uma xcara de caf. No comera nada desde a manh e no pde
resistir  guloseima, apesar do  medo de gastar demais.
  Comeu uma bomba e tomou uma xcara de caf com schlag, o delicioso
creme  chantilly que serviam ali. E viu o velho alemo proprietrio do
estabelecimento  colocar uma tabuleta de PRECISA-SE DE FUNCIONRIO na
vitrine. Sabia que era intil, mas  decidiu perguntar assim mesmo quando
foi pagar o doce e a xcara de caf.  Admitiu que no tinha experincia,
mas precisava de um emprego e estava certa de que  poderia ser
garonete. Depois, em desespero, confessou que vivera num convento e
que l havia servido as mesas no refeitrio. Ele era o primeiro a quem
ela contava  aquilo. Gabriella no queria responder muitas perguntas,
mas precisava do  emprego e estava disposta a dizer quase tudo que
precisasse para consegui-lo. O alemo  mostrou-se obviamente intrigado
pelo que Gabriella dissera.
  - Voc era freira? - perguntou, olhando-a com interesse.
  Tinha um bigode branco cerrado e uma careca brilhante, e tudo o que
podia  pensar ao fit-lo era que se parecia com Gepetto, o pai do
Pinquio.
  - No, eu era postulante - respondeu ela, os olhos to cheios de
tristeza, que  ele sentiu vontade de estender os braos para ela e
consol-la.
  A garota parecia estar precisando de um bom prato de comida e de uma
mo amiga em sua vida. Estava  magra como um canio e assustadoramente
plida, e o homem sentiu-se penalizado.
  - Quando voc pode comear? - perguntou ele, ainda a observando.
  Portava-se bem, com elegncia, e era uma garota bonita. Pressentiu que
havia  nela mais do que os olhos podiam ver e ficou perplexo com o
vestido feio dela. Gabriella ainda usava  o preto brilhante com manchas
indelveis que haviam lhe dado no convento, sem  ousar gastar o dinheiro
na compra de outro. O estranho nela, pensou o dono do caf,   que tinha
uma aparncia bastante aristocrtica e parecia vir de uma famlia  rica,
mas era bvio, a julgar pelo que vestia, que estava passando por um
perodo  difcil.
  - Posso comear a qualquer hora - respondeu ela. - Eu moro aqui perto.
E estou  livre agora.
  - Aposto que sim. - Ele sorriu. O estado do guarda-roupa de Gabriella
lhe  dizia que precisava do dinheiro. - Tudo bem. Ento voc comea
amanh. Seis dias  por  semana. Do meio-dia  meia-noite. Fechamos s
segundas-feiras. - Era um expediente de doze horas, e  ela sabia que no
se encontrava em condies de enfrentar trabalho to rduo,  mas estava
to agradecida pelo emprego que teria feito qualquer coisa que ele
quisesse, at  esfregar o cho naquela mesma hora, se ele tivesse lhe
pedido. No entanto, isso viria mais tarde.
  Foi informada de que o nome dele era sr. Baum e que ele vinha de
Munique.  Quatro outras mulheres trabalhavam no caf, todas de
meia-idade; e trs delas,  alems.
  Era um negcio familiar, um lugar limpo e agradvel onde serviam
refeies  alems substanciais, e durante toda a tarde e no fim da
noite, serviam doces  finos.  Era a sra. Baum quem cozinhava.
  Gabriella sorria de orelha a orelha quando entrou na casa da Rua 88, e
a sra.  Boslicki a viu.
  - Ora, voc encontrou o Prncipe Encantado ou finalmente arranjou um
emprego?  - Andava preocupada com Gabriella, que passava o dia todo
fora,  procura de  trabalho, e  noite ficava sozinha no quarto, com as
luzes apagadas. Para uma garota da  sua idade, aquela no era uma vida
feliz ou mesmo normal.
  - Arranjei um emprego - respondeu Gabriella, radiante. Iria receber
dois  dlares por hora e sabia que poderia pagar o aluguel. A cada dia,
o dinheiro de  madre  Gregoria reduzia-se mais. - Vou trabalhar num caf
alemo na Rua 86. - Ficava a quatro  quarteires dali e, apesar da longa
jornada, parecia absolutamente perfeito. Ela  rezava s para no sofrer
uma hemorragia, passando tantas horas em p. Menos de duas  semanas se
passaram desde o aborto... desde que Joe se fora... apenas uma semana
desde que fora forada a abandonar o convento... tantas coisas horrveis
tinham lhe  ocorrido, mas finalmente algo de bom acontecia.
  - Parabns! - felicitou-a a sra. Boslicki, sorrindo. - Pode ser que
agora voc  saia do quarto de vez em quando e veja um pouco de televiso
ou oua um pouco de  msica. Todo mundo pensa que eu aluguei o quarto
para um caixeiro-viajante.
  - Vou passar a maior parte do tempo fora, sra. Boslicki explicou
Gabriella. -  Vou trabalhar do meio-dia  meia-noite. Mas hoje eu desso.
Prometo.
  - Depois de ir jantar. Olhe s para voc. Parece um cabo de vassoura.
Nunca  vai arrumar marido se no comer de vez em quando. Os rapazes no
gostam de cabos  de  vassoura - advertiu, agitando o dedo em sua
direo.
  Gabriella riu. A mulher fazia com que lembrasse de algumas das freiras
mais  velhas do convento, embora nenhuma delas a tivesse impelido a
encontrar um  marido.  Longe disso.
  De fato, Gabriella seguiu o conselho da sra. Boslicki. Foi ao pequeno
restaurante modesto do outro lado da rua naquela noite e pediu bolo de
carne. O  prato era  simples, mas nutritivo, e lembroulhe um pouco a
comida do So Mateus, o que, afinal,  acabou por deix-la com saudades.
Teria feito qualquer coisa para rever madre  Gregoria, mesmo que somente
de relance, avanando pelo corredor com os braos cruzados, as  mos
enfiadas nas mangas e as pesadas contas de madeira do rosrio
agitando-se  no ar. Qualquer outra das freiras tambm teria sido uma
viso maravilhosa. A irm  Agatha, a irm Timothy ou a irm Emanuel...
ou ainda a irm Immaculata. Pensava  em todas, enquanto retornava 
penso, e lembrou-se da promessa que fizera  sra.  Boslicki de dar uma
passada pela sala de estar. No estava muito disposta, mas  achou que
seria indelicado se no fosse. Ento forou-se a ir por apenas alguns
minutos. Quando chegou, ficou surpresa pela quantidade de gente sentada
ali.  Havia seis ou sete pessoas conversando e jogando baralho. A
televiso estava ligada, e um  homem de cabelos brancos, que se parecia
com Einstein, tentava consertar o piano  sem muito sucesso. Ele dizia
que precisavam chamar um afinador novamente, e a sra.  Boslicki
discutia, rebatendo que o som nunca lhe parecera to bom.
  Todos olharam Gabriella surpresos, quando ela entrou na sala, e, de
sbito,  sentiu-se constrangida. No esperava ver tanta gente. Havia
homens e mulheres, a  maioria na casa dos sessenta,  exceo do homem
ao piano, que parecia ainda mais velho.  As mulheres tinham o cabelo
branco, algumas com uma colorao azulada, e  sorriram ao ver Gabriella.
Era um sopro de juventude no ambiente, alm de  surpreendentemente
bonita. Estava usando o vestido azul florido e os sapatos  velhos e
gastos, mas o cabelo liso e louro brilhante  emoldurava o rosto,
parecendo uma aurola. Os olhos azuis imensos pareciam  cheios de
inocncia e nenhum dos presentes foi perspicaz o bastante para ver a
tristeza por trs deles. Parecia  jovem demais para ter visto muitas
coisas da vida ou mesmo ter sofrido. E s o  fato de v-la ali, entre
eles, fez com que se sentissem felizes.
  A sra. Boslicki apresentou Gabriella a todos. Muitos eram europeus, e
uma das  mulheres, a sra. Rosenstein, contou, orgulhosa, ser uma
sobrevivente do campo de  concentrao de Auschwitz. Morava ali na
penso da sra. Boslicki fazia vinte anos.  Apresentou-a tambm ao homem
do piano, o professor Thomas. Gabriella no tinha  certeza se esse era
seu nome ou sobrenome, mas, curvando-se numa pequena reverncia para a
jovem, ele esclareceu que seu nome era Theodore Thomas e explicou que j
no era  professor, estava aposentado. Ela ficou fascinada ao descobrir
que havia sido professor de  literatura na Universidade de Harvard. E
ainda por cima especializado nos  romances ingleses do sculo XVIII.
  - Onde voc estudou? - perguntou o professor aposentado, com um
sorriso  travesso, desistindo das tentativas de dar vida nova ao piano.
Jamais lhe  ocorreu que ela pudesse no ter ido a universidade alguma.
  - Columbia - disse Gabriella, baixinho.
  -  uma boa universidade. - Sorriu para ela. Os pensionistas tinham
ouvido a  sra. Boslicki falar a respeito da menina, embora no a
tivessem visto nem uma  nica vez durante toda a semana. - E o que voc
faz agora, minha jovem? - perguntou  ele, parecendo  um pouco rebelde e
desgrenhado, com os cabelos encrespados e as calas frouxas.
Decididamente, parecia mesmo um professor velho e excntrico. Dava para
ver que  era  mais velho que os outros hspedes, e Gabriella calculou,
acertadamente, que j estivesse chegando aos oitenta anos, mas sua mente
era  lcida; os olhos, astutos; e ele parecia ter um timo senso de
humor.
  - Acabei de arrumar um emprego num restaurante da Rua 86 - disse ela,
orgulhosa. Tinha sido uma verdadeira vitria para ela, da qual precisava
com  urgncia. -  Comeo amanh.
  - Um daqueles lugares agradveis que vendem doces finos, espero. A
sra.  Rosenstein e eu teremos de v-la quando formos caminhar naquela
direo. - Ele  era fascinado pelas histrias que a velha senhora
contava sobre o passado e vivia ali h quase  tanto tempo quanto ela
prpria. Sua esposa morrera fazia dezoito anos, e ele se mudara para a
penso, desistindo do apartamento. Ganhava uma ninharia agora, no
tinha parentes e gostava da companhia da sra. Boslicki e de seus
pensionistas.  Mas considerava essa ltima aquisio do grupo tanto
fascinante quanto adorvel. E,  mais tarde, ele comentou com todos na
sala que Gabriella tinha o rostinho de um  anjo, e um estilo e uma
elegncia notadamente naturais.
  Mas agora lhe perguntava o que estudara na Columbia, mergulhando numa
conversa  longa e interessante sobre os romances lidos por ela enquanto
estudava l. Ficou  curioso ao descobrir que ela prpria escrevia um
pouco. Mas Gabriella era modesta demais  e disse que no era nada que
algum pudesse querer ler. Tinha certeza, embora  no dissesse ao
professor, de que somente as freiras, que a conheciam, gostariam das
suas histrias.  claro que Joe havia lido algumas. Numa tarde em que se
encontraram no parque, Gabriella lhe dera algumas, e depois ele disse
que eram fantsticas.  No entanto, assim como as freiras, ele a conhecia
e amava.
  - Eu gostaria de ver alguns trabalhos seus um dia - disse o professor,
dando  quilo uma importncia que ela sabia no merecer, e Gabriella
ento sorriu  timidamente.
  - Eu no tenho nada aqui comigo.
  - De onde voc ? - perguntou ele, encantado. Fazia muito tempo que
no  conversava com uma garota daquela idade e estava achando muitssimo
agradvel.  Lembrou-se imediatamente de seus anos na Harvard. Alguma
coisa na juventude e na agitao  das mentes jovens ainda o revigorava.
Teria adorado ficar conversando com ela  durante horas.
  - Ela  de Boston - respondeu a sra. Boslicki por Gabriella, que de
repente  parecia nervosa. Se o professor tinha dado aulas na Harvard,
conhecia bem a  cidade, e ela, obviamente no.
  - Minha me mora na Califrnia - disse, tentando distralos. - E meu
pai, em  Boston. - E ela no morava em lugar algum. S agora morava ali.
  - Em que lugar da Califrnia? - perguntou uma das mulheres. Tinha uma
filha na  cidade de Fresno.
  - San Francisco - respondeu Gabriella, como se houvesse visto a me,
ou pelo  menos falado com ela, no dia anterior, e no tivessem se
passado doze anos desde  a  ltima vez em que a vira.
  - Certamente so duas cidades adorveis - observou o professor Thomas,
afvel,  fitando os olhos da menina. Havia alguma coisa nela que o
tocava, algo de  profundo, triste e dolorosamente solitrio. A sra.
Boslicki teria atribudo aquela  tristeza  saudade de casa, mas se
tratava de algo muito mais profundo e brutal,  e o professor entrevia
uma aura de tragdia em torno dela.
  A delicadeza de Gabriella comoveu a todos. Ela conversou com cada um
deles e  depois finalmente subiu, com um jogo de toalhas limpas que a
sra. Boslicki lhe  entregou e pelo qual ela agradeceu educadamente.
  - Que menina adorvel! - comentou a sra. Rosenstein. Outra mulher
disse que a  fazia lembrar-se de sua neta na Califrnia. - Muito
bem-educada. Deve ter pais  maravilhosos.
  - No, necessariamente-interveio o professor Thomas com sabedoria. -
Alguns  dos melhores alunos que tive, e os mais decentes, descendiam de
pessoas que eram  um  pouco menos bem educadas do que tila, o rei dos
hunos, e alguns dos mais inteligentes  tinham pais inacreditavelmente
idiotas.  impossvel dizer que mistrios ocorrem nas interaes
genticas.
  Gabriella teria ficado aliviada ao ouvir aquelas palavras. Passara
toda a sua  vida em ansiosa expectativa, temendo ver os defeitos da
personalidade da me  manifestando-se nela. Entretanto, para alivio seu,
at agora aquilo no tinha ocorrido. Era esse  o motivo por que, at
encontrar Joe, jamais havia desejado ter filhos.
  - Mas ela  uma tima pessoa. Espero que fique aqui por algum tempo -
disse o  professor, calorosamente.
  - No acho que ela v a lugar algum agora que arrumou um emprego -
tranqilizou a sra. Boslicki a todos. Era bom ter uma pessoa jovem entre
eles, embora Gabriella fosse decididamente muito quieta. -  Ela parece
no ter amigos por aqui. E os pais no telefonaram durante toda a
semana. Pensei que fossem ligar, mas a menina nunca pergunta se tem
recados para ela.  Parece que no espera mesmo que algum v telefonar.
  Os hspedes da penso da sra. Boslicki notavam tudo em relao a
todos, pois  no tinham mais nada a fazer com o tempo, sendo vivos ou
aposentados. De vez em  quando um jovem se hospedava l, mas apenas
temporariamente, at juntar dinheiro e ir  embora. At a chegada de
Gabriella, o residente mais novo da penso era um  vendedor de quarenta
e poucos anos, recm-divorciado. O homem fcara deslumbrado com
Gabriella. Sua beleza extraordinria no lhe passara despercebida quando
foram  apresentados.
  Voltando do cinema, ele parara para desejar boa-noite a todos, mas ela
nem  pareceu t-lo visto. Estava muito mais interessada em conversar com
o professor  Thomas.
  - Eu gostaria de conversar com ela um pouco - disse o professor. - E a
sra.  Rosenstein sorriu para ele.
  - Se voc tivesse cinqenta anos a menos, isso me preocuparia, mas
agora acho  que no. - Tinha um interesse por ele havia anos, mas o
relacionamento dos dois  era estritamente platnico.
  - No sei ao certo se devo me sentir lisonjeado. - Olhou para ela por
cima dos  culos. - Eu me pergunto por que uma garota com um diploma da
Columbia e uma  cabea como a dela est trabalhando como garonete.
  - No est nada fcil arrumar emprego nos dias de hoje disse a sra.
Boslicki,  pragmtica.
  Mas ele desconfiava de que havia alguma coisa a mais e tinha a
estranha  impresso de que existia um mistrio na vida de Gabriella.
  Ele a viu saindo da penso no dia seguinte e parou para falar com ela.
 Gabriella estava a caminho do trabalho, usando o mesmo vestido azul da
noite  anterior. Era to feio que parecia ridculo nela e s fazia
aumentar o contraste com sua  beleza. Bonita como era, poderia vestir-se
com pano de cho e ainda assim seria  adorvel, pensou ele.
  - Para onde a senhorita est indo? - perguntou o professor, com o
interesse de  um av pela neta.
  Gabriella ainda parecia plida e cansada, e ele no pde deixar de
imaginar se teria dormido mal.
  - Para o Restaurante do Baum - respondeu ela, sorrindo.
  O cabelo dele parecia mais desgrenhado e rebelde do que nunca,  como
se tivesse metido um dedo molhado na tomada.
  - timo. Vou dar uma passada l mais tarde. E vou me sentar a uma das
suas  mesas.
  - Obrigada. - Estava tocada pelo bvio interesse que o professor
demonstrava  por ela, e, ao deixar a penso, a sra. Boslicki acenou da
janela da sala de  estar.
  Estava regando as plantas e um dos seus muitos gatos a rodeava. Era um
lugar esquisito, cheio de velhinhos  engraados, mas Gabriella
surpreendeu-se por descobrir que gostava deles. A  penso era
confortvel, depois da terna comunidade de que tinha feito parte no
convento. E  mesmo que pudesse pagar, o que achava que jamais
conseguiria, teria se sentido  sozinha num apartamento.
  Chegou ao caf dez minutos adiantada e colocou um avental limpo sobre
o  vestido, enquanto a sra. Baum lhe explicava os procedimentos e o sr.
Baum  verificava a  caixa registradora, como constantemente fazia. Ele
ficou satisfeito em ver que  Gabriella estava com tima aparncia. O
vestido no lhe favorecia, mas estava  limpo, os sapatos tinham sido
lustrados e o cabelo mostravase imaculado. Gabriella o  penteara para
trs e comprara num bazar uma faixa para prend-lo. Precisava  deix-lo
crescer. Ainda estava razoavelmente curto por causa do convento, mas era
limpo e  arrumado.
  Para os Baum, Gabriella estava perfeita. E naquela tarde ficaram ainda
mais  satisfeitos. Ela era gentil com todos os clientes, anotava os
pedidos  cuidadosamente e no cometera nenhum engano em relao aos
pedidos. Alm do mais, era rpida e  mostrava-se desenvolta atendendo a
vrias mesas. De certo modo, para Gabriella,  era como servir as
refeies s irms no convento. Era preciso ser rpida,  organizada e
metdica para servir tantas pessoas, e ela era tudo isso. Quando o
professor Thomas chegou com a sra. Rosenstein, Gabriella j se sentia em
casa.
  Pediram strudel, torta de ameixa e caf com bastante chantilly.
Depois,  deixaram uma boa gorjeta para Gabriella, o que a deixou
constrangida,  agradecendo-lhes  muitssimo.
   sada, viu-os parar para conversar com o sr. Baum e ouviu-os dizer
que o  strudel estava delicioso. O dono do restaurante prometeu
transmitir o elogio   mulher.
  Ainda conversavam quando Gabriella foi  cozinha para pegar vrios
outros  pedidos. Quando voltou, estavam de partida. Disseram que a
veriam na penso. Ela  acenou e foi atender s outras mesas.
  Depois dessa primeira vez, passaram a ir todos os dias, sempre  mesma
hora.  Isso se tornou uma espcie de ritual, mas, depois do primeiro
dia, Gabriella  sempre recusava a gorjeta deles. Dizia que a sua
preferncia e o prazer de v-los ali  j era pagamento suficiente. No
precisavam dar-lhe dinheiro algum. Tudo o que tinham de fazer era pagar
ao sr. Baum pelo strudel de ma.
  Na segunda-feira, seu dia de folga, Gabriella estava vindo da
lavanderia  quando encontrou a sra. Rosenstein voltando do dentista.
Esta a convidou a  juntar-se a  eles naquela noite e depois comentou com
a sra. Boslicki que a garota parecia melhor.  Aparentava estar mais
forte, mais saudvel e j no se mostrava to plida. O  professor
Thomas achou sua expresso um pouco menos sofrida quando a viu na sala
de estar  mais tarde. Os dois estavam sentados lado a lado, conversando
afavelmente,  enquanto os outros jogavam cartas, quando o professor
virou-se para ela e falou numa voz  suave que ningum mais pde ouvir, e
Gabriella ficou olhando para ele, pasma.
  - O sr. Baum me disse que voc era freira - sussurrou ele. Ela nunca
imaginara  que o sr. Baum fosse mencionar aquilo. S contara a ele para
conseguir o emprego  de garonete, pois sabia que era a nica
experincia que tinha para convenc-lo.
  Mas o professor se perguntava agora se seria aquela a razo para sua
tristeza  ou se existia outra histria por trs dessa. Ele desconfiava
de que a ltima  alternativa fosse a correta.
  - No  bem assim - explicou ela, desviando os olhos, pensativa, e em
seguida  voltando a fit-lo. - Eu era postulante. No  a mesma coisa.
  - , sim. - Ele sorriu. - S que  o girino em vez do sapo. O
professor abriu  um sorriso largo, e ela riu alto daquela descrio.
  - No acho que as irms ficariam felizes em ouvir isso.
  - Sempre havia um ou dois padres em minhas turmas na Harvard. Em sua
maioria,  jesutas. Gostava muito deles. Eram bemeducados, inteligentes
e  surpreendentemente liberais. - Ento, sem parar para respirar, tornou
a concentrar-se em Gabriella.  - Quanto tempo voc passou no convento?
  Ela hesitou antes de responder. Havia muita coisa a ser explicada, e
no  queria fazer isso. S pensar em tudo o que tinha perdido
recentemente j era  doloroso  demais, e ele pde ver outra vez a dor em
seus olhos quando Gabriella respondeu. Mas ela  gostava dele o bastante
para ser sincera.
  - Doze anos - disse ela, baixinho. - Eu cresci l.
  - Voc  rf? - indagou ele, terno, e Gabriella sentiu que perguntava
porque  se importava e no porque quisesse contar aos outros. Era um
homem sensvel e  bondoso, e ela estava surpresa por ver como gostava
dele.
  - Meus pais me deixaram l. Na verdade, foi o nico lar que conheci. -
Ainda  assim, havia sado de l, mas ele teve compaixo e no perguntou
pelos motivos.
  Podia facilmente perceber que ela no queria contar.
  - Deve ser uma vida difcil, a das freiras. Nem posso imaginar. O
celibato  nunca me atraiu - disse ele, com uma piscadela -, at
recentemente. - Ele olhou  para  a sra. Rosenstein, concentrada, jogando
bridge no outro lado da sala, e ambos  riram.
  Ele se dedicara  sua mulher durante quarenta anos e, embora tivesse
boas  amigas ali, jamais quis namorar ou casar novamente.
  - Tive algumas conversas muito interessantes com meus alunos jesutas
sobre o  assunto, mas nunca me convenceram da validade da teoria. - O
que ele disse lembrou-a instantaneamente de Joe. O professor  quase pde
v-la recuando, angustiada, e arrependeu-se de imediato. Eu disse
alguma coisa que a aborreceu? -perguntou, preocupado.
  - No... claro que no...  s que... sinto muitas saudades - disse
ela,  voltando os olhos tristes para o professor, deixando ver suas
lgrimas. - Foi difcil sair de l.
  Alguma coisa no modo como ela falou o fez saber que tinha sido
obrigada a  sair, e ento o professor decidiu que era hora de mudar o
assunto.
  - Conte-me sobre o que escreve-pediu ele, carinhosamente.
  - No h nada a contar. - Ela sorriu, agradecida. - S escrevo umas
histrias  bobas de vez em quando. Nada que valha a pena ser mencionado
e certamente nada da qualidade literria a que o  senhor est acostumado
na Harvard.
  - o que os melhores escritores dizem. Os que so de fato ruins
vangloriam-se  do seu trabalho. Tenha cuidado com o escritor que lhe
disser como voc vai  adorar o romance dele. Posso lhe garantir que voc
vai estar dormindo antes do fim do  primeiro captulo, e roncando! -
disse, sacudindo o dedo para dar nfase,  enquanto ela ria da descrio.
- Assim, tendo dito tudo isto, quando posso ver seu  trabalho, srta.
Harrison? - Ele era gentil, mas persistente, dando quilo uma
importncia que ela sabia no merecer.
  - No tenho nada comigo.
  - Ento, escreva - replicou ele, agitando a mo hipnoticamente. - S
precisa  de papel, caneta e um pouco de inspirao. - E tempo,
perseverana e alma para  investir, ainda sentindo como se a sua tivesse
sido aniquilada quando Joe morreu. - Sugiro  que compre um caderno
amanh. - E ento ele tocou em outra ferida, sem querer, e percebeu que
conversar com ela era como andar na ponta dos ps por um campo  minado.
- Voc j teve um dirio? - perguntou, inocentemente, e ficou arrasado
ao ver sua expresso de sofrimento.
  - Eu... sim... eu tenho... mas no escrevo mais. - Ele no perguntou
por que  ela havia parado. Podia ver que era um assunto doloroso. Para
algum to jovem,  tinha muitas cicatrizes, e muitas delas pareciam
recentes.
  - Do que gosta mais? Poesia ou contos? - Ele adorava fazla falar,
conversar  com ela. Tambm gostava de sentar-se perto dela. Era to
jovem, to bonita...  Fazia-o recordar-se de um tempo, mil anos atrs,
com Charlotte, quando ambos estavam na  Universidade de Washington e
eram pouco mais do que crianas. Casou-se com ela uma semana depois da
formatura e sua nica decepo com ela foi que nunca  haviam conseguido
ter flhos. Entretanto, durante quarenta anos, os alunos  tinham sido
bons substitutos. Ela fora professora de msica, teoria e composio.
Costumava  compor canes com letras maravilhosas para ele, de vez em
quando, e o professor contou toda a sua histria a Gabriella, que ouvia
sorrindo.
  - Ela deve ter sido uma pessoa encantadora.
  - Ela era - disse, saudoso. - Vou lhe mostrar uma fotografia dela um
dia. Era  muito bonita quando jovem. Todos os rapazes que a conheciam
sentiam inveja de  mim. Ficamos noivos quando tnhamos vinte anos. -
Perguntou a Gabriella com quantos  anos estava, e ela respondeu que
tinha vinte e dois. A lembrana fez com que  sorrisse e ele afagou-lhe a
mo acetinada com a sua, enrugada.
  - Voc no sabe a sorte que tem, minha filha. No a desperdice com
lamentaes  dos lugares e das pessoas que perdeu. Voc tem uma vida a
ser vivida, tantos  bons momentos, anos felizes e gente maravilhosa 
sua frente. Deve correr ao encontro  disso tudo. Mas no estava correndo
nos ltimos tempos. Mal engatinhava. Porm, o que ele lhe disse a tocou
profundamente.
  - s vezes  difcil no olhar para trs - refletiu Gabriella.
  No caso dela, tinha muito para recordar e nem tudo eram flores.
  - Todos fazemos isso de vez em quando. O segredo  no relembrar com
muita freqncia. Leve com voc apenas os bons momentos e deixe os  maus
para trs.
  Mas estes eram tantos... e os bons haviam sido to doces, breves e
tambm to  poucos: apenas os anos tranqilos no convento. Entretanto,
agora at aquela  lembrana era dolorosa, porque o havia deixado. Ainda
assim, tinha de admirar aquele  homem. Quase toda a sua vida estava para
trs, e ele continuava olhando para a  frente com entusiasmo, emoo e
interesse. Gostava de conversar com ela e de estar em  contato com os
jovens, e no perdera a energia e o senso de humor. Gabriella  achou
aquilo impressionante; ele era um exemplo para todos ali. As outras
pessoas  presentes na sala ficavam reclamando da sade, de doenas, do
valor da  aposentadoria, dos amigos que tinham morrido recentemente, do
estado das caladas de Nova York e da quantidade de fezes de cachorro
que as sujava. Ele  no ligava para nada daquilo. Estava muito mais
interessado em Gabriella e na  vida que esta tinha  sua frente. Estava
oferecendo a ela o mapa da estrada que  levava  felicidade e 
liberdade.
  Naquela noite, Gabriella ficou sentada com ele durante muito tempo. O
professor nunca jogava bridge com a sra. Rosenstein e suas amigas,
dizendo  detestar o jogo, mas acabou jogando domin com Gabriella, e ela
adorou. Ele ganhou todas as  vezes, mas ela aprendeu bastante e, quando
finalmente subiu para o quarto,  tivera uma noite encantadora. Eram
pequenos prazeres que partilhavam, mas de repente  sentiu-se como se sua
vida fosse repleta de novas aventuras. Tinha passado a  noite
conversando com um homem de oitenta anos, mas o achava muito mais
interessante do que  qualquer um com a metade de sua idade, ou com a
metade da metade. J estava  ansiosa para conversar com ele novamente e
at prometera que no dia seguinte compraria um  caderno a caminho do
trabalho.
  Quando o professor foi ao caf no dia seguinte, dessa vez sem a sra.
Rosenstein, que tinha ido ao urologista, perguntou a Gabriella se havia
cumprido  a promessa.
  - E ento, voc foi? - perguntou, pressagioso, e ela no sabia a que
ele  estava se referindo, enquanto anotava o pedido habitual de caf e
strudel de  ma.
  - Fui aonde? - Estivera ocupada durante toda a tarde e mostrava-se um
pouco  distrada.
  - Foi comprar o caderno?
  - Ah. - Ela sorriu, vitoriosa, divertida com a insistncia dele. -
Fui, sim.
  - Estou orgulhoso de voc. Agora, quando chegar  penso hoje  noite,
deve  comear a preench-lo.
  - Chego sempre cansada demais em casa - queixou-se ela. Ainda estava
esgotada  por causa do sangue perdido no aborto, embora no quisesse que
ningum soubesse  disso.
  O mdico avisara-lhe que levaria meses para se restabelecer, e ela
estava  comeando a acreditar nele. Entretanto, o professor Thomas no
estava disposto a  aceitar desculpas.
  - Ento escreva de manh, antes do trabalho. Quero que comece a
escrever todos  os dias.  bom para o corao, a alma, a mente, a sade
e o corpo. Se voc   escritora, Gabriella, escrever representa um
sistema de apoio  vida sem o qual voc no  pode passar, e nem deve.
Escreva diariamente - enfatizou ele, e ento fingiu  olh-la zangado. -
Agora traga meu strudel.
  - Sim, senhor. - Ele era como um av benevolente, um av que ela
jamais tivera  e com o qual no poderia sequer sonhar.
  Tivera sempre a ateno voltada para os pais e para o que
representavam para ela. Mas a presena do professor Thomas em sua  vida
era um verdadeiro presente, e Gabriella o apreciava muitssimo. Ele
continuou a ir v-la todos os dias e, nas segundas-feiras, quando
Gabriella  estava de folga, comeou a lev-la para jantar fora.
Contou-lhe sobre o tempo em que dava aulas, sobre a mulher, a vida em
Washington quando menino e como havia  sido crescer na dcada de 1890.
Era uma poca que ela mal podia imaginar que  estivesse to longe assim.
Entretanto, ele parecia saber de tudo o que se passava na  atualidade e
era completamente moderno. Gabriella adorava falar com o professor,  mas
gostava ainda mais de ouvi-lo. Mais do que qualquer outra coisa,
conversavam sobre  literatura. Gabriella havia finalmente escrito um
conto, e ele ficou muitssimo  impressionado, fez algumas correes e
explicou como ela poderia ter desenvolvido a trama de  maneira mais
efetiva. Disse-lhe que tinha um talento verdadeiro. Ela tentou  recusar
os elogios, falando que o professor s estava sendo gentil, e ele voltou
a  sacudir o famoso dedo. Aquilo sempre havia sido um sinal de perigo
para seus  alunos, mas Gabriella no se mostrava nem um pouco assustada
com o professor Thomas.  Comeava a am-lo.
  - Quando eu disser que tem talento, senhorita, estou falando srio.
No me  contrataram na Harvard para cultivar bananas. Voc ainda tem
trabalho a fazer,  precisa se aprimorar, mas tem uma sensibilidade
instintiva pelo tom adequado, pelo ritmo  certo... Tudo  uma questo de
escolha do momento, de sentir quando dizer o qu e como, e voc tem esse
talento. No compreende isso? Ou  s uma covarde?   isso? Est com
medo de escrever, Gabriella? Medo de ser boa? Bem, voc . Ento  encare
o fato e viva de acordo com ele.  um dom, e poucas pessoas o tm. No o
desperdice! -Ambos sabiam que  Gabriella no era nenhuma covarde, e ela
dirigiu um sorriso triste para o  professor, lembrando-se das palavras
que sempre havia detestado.
  - Geralmente me dizem que sou forte - contou ela, partilhando um de
seus  segredos com ele. Era o primeiro de muitos. E depois me abandonam.
  Ele assentiu com a cabea, compreensivo, e esperou que dissesse mais,
mas ela  no falou.
  - Talvez, ento, sejam eles os covardes.  comum que as pessoas fracas
 congratulem os outros por sua fora para que elas prprias no precisem
ser  fortes, ou que usem isso como uma desculpa para machucar o outro...
 como dizer: "Voc pode  agentar, voc  forte." Neste mundo,
espera-se muito das pessoas fortes,  Gabbie.  um fardo pesado. - E ele
podia ver que havia sido. Mas voc  mesmo forte. E um  dia vai
encontrar algum to forte quanto voc. Merece isso.
  - Acho que j encontrei. - Sorriu para ele e afagou a mo enrugada, a
mesma do  dedo agitado, que agora estava em repouso.
  - Voc tem sorte de eu no ser cinqenta ou sessenta anos mais moo.
Eu lhe  ensinaria o que  a vida. Agora  voc quem vai ter de me
ensinar, ou ao menos  me lembrar. - Os dois riram.
  Todas as semanas ele a levava a restaurantes pequenos e pitorescos no
West  Side, nos arredores da penso ou no Village, e s vezes pegavam o
metr para  chegar  l. Ele sempre pagava o jantar, apesar de
aparentemente viver com um oramento  apertadssimo. E, por causa disso,
ela sempre tinha cuidado em relao aos  pratos que pedia. O professor
reclamava que Gabriella no comia o suficiente, lembrando-se  da sra.
Rosenstein dizendo que a garota era magra demais, e s vezes forava-a a
pedir mais, apesar dos protestos de Gabbie. E, de vez em quando, a
repreendia  por no se esforar em conhecer pessoas jovens, mas adorava
t-la por perto e  estava feliz que ela no o fizesse.
  - Voc deveria estar brincando com crianas da sua idade resmungou, e
ela  sorriu para ele.
  - As brincadeiras delas so muito brutas. Alm do mais, no conheo
nenhuma. E  adoro conversar com o senhor.
  - Ento prove para mim escrevendo um pouco. - Estava sempre
encorajando e  incitando Gabbie.
  No Dia de Ao de Graas, dois meses depois de terem se conhecido,
Gabriella j havia enchido trs cadernos com histrias. Algumas eram
excelentes, e o  professor com freqncia dizia que, graas  sua
perseverana, achava que seu  estilo estava melhorando. Ele a havia
incentivado mais de uma vez a enviar seu trabalho para  revistas,
exatamente como madre Gregoria, mas ela no parecia inclinada a faz-
lo. Acreditava muito menos que ele em seu talento literrio.
  - Eu no estou pronta.
  - Voc parece Picasso. O que  "estar pronto"? Steinbeck estava
pronto?  Hemingway? Shakespeare? Dickens? Jane Austen? Eles simplesmente
escreviam, no  ? No estamos tentando alcanar a perfeio a todo
custo aqui. Estamos nos comunicando um com  o outro. Por falar nisso,
minha querida, voc vai para casa no Dia de Ao de  Graas? -
Encontravam-se num minsculo restaurante italiano no East Village, e ela
se  sobressaltou com a pergunta.
  - Eu... no... - No queria dizer que no havia casa nenhuma aonde ir.
O  professor sabia que Gabriella crescera no convento, mas ela nunca lhe
dissera  claramente que no tinha qualquer contato com a famlia e que
j no era bem-vinda no So  Mateus. Agora a sua nica famlia era ele.
- Acho que no.
  - Fico feliz em saber - afirmou ele, parecendo satisfeito. Todos os
anos, a  sra. Boslicki preparava um peru para eles, e o professor
esperava que Gabriella  fosse estar presente. Eram poucos os
pensionistas que ainda tinham parentes, e o jovem  vendedor divorciado
mudara-se para outra cidade. - Eu estava querendo passar o  feriado com
voc.
  - Eu tambm. - Ela sorriu e continuou a lhe falar sobre sua ltima
histria.  Havia um problema na trama, e ela no sabia exatamente como
resolv-lo, se com  violncia ou um romance inesperado.
  - Certamente h um contraste enorme entre suas opes, minha querida -
 refletiu ele -, embora s vezes as duas estejam ligadas. Violncia e
romance. - Aquelas palavras fizeram-na lembrar-se mais uma  vez de Joe,
e seus olhos entristeceram-se, mas ele fingiu no perceber.
Perguntou-se se um dia Gabriella lhe contaria as tragdias por que tinha
passado. No momento,  apenas imaginava, mas era sbio o bastante para
nunca perguntar diretamente. -  Na verdade, o amor  bastante violento
-prosseguiu ele. -s vezes  to doloroso,  to devastador. No h nada
pior. Ou melhor. Descobri que os altos e baixos so igualmente
insuportveis. Por outro lado, a ausncia deles  ainda mais.
  Era uma coisa doce e romntica para um homem daquela idade dizer, e
ela quase  pde imagin-lo um rapazinho, apaixonado pela noiva, um jovem
heri. Mas  certamente  o que tinha sido.
  - E voc, Gabriella, desconfio que tambm tenha achado o amor
doloroso. Vejo  em seus olhos todas as vezes que tocamos no assunto -
falou com a ternura de um  jovem enamorado, tocando-lhe a mo suavemente
ao diz-lo. - Quando conseguir escrever  a respeito, vai achar tudo
menos aflitivo.  uma espcie de catarse, mas o  processo pode ser
brutal. No o faa at que esteja pronta.
  - Eu... - comeou a contar-lhe algo e ento pensou melhor. Ela queria
contar,  mas tinha medo e ainda doa demais falar. Eu fui completamente
apaixonada por  algum uma vez - admitiu, como um segredo terrvel e, no
seu caso, tinha sido mesmo.
  O professor, porm, desconfiou de imediato de que havia muito mais
naquela  histria do que Gabriella estava dizendo.
  - Na sua idade, Gabriella, uma vez  bastante satisfatrio. Voc ainda
vai ter  mais alguns. - Ele nunca amara ningum alm de Charlotte, mas
aquilo era raro;  eles tinham tido sorte. Isso no ocorria com a maioria
das pessoas. - Imagino que as  coisas no tenham ido bem. - Parecia-lhe
que o romance havia terminado, e ela  assentiu com a cabea, inspirando
bem fundo antes de continuar.
  - Ele morreu em setembro. - Era pouco mais do que um sussurro.
Gabriella no queria dizer mais, e ele no perguntou. Limitou-se a fazer
um  gesto afirmativo com a cabea. - Pensei que aquilo fosse me matar, e
de fato quase me matou. - Lembrou- se vividamente do aborto, ou do que
sabia sobre ele. Ainda no se recuperara completamente, embora estivesse
se sentindo muito melhor.
  - Eu sinto muito. - Ele j sabia que em algum ponto de sua vida havia
uma tragdia, talvez at vrias. Podia senti-lo. - O amor nem sempre
termina assim, e jamais deveria. Deixa tudo to incompleto. Mesmo depois
de  quarenta anos, eu ainda tinha muita coisa para dizer a Charlotte.
  Gabriella balanou a cabea, compreendendo o que o professor dizia,
mas no  conseguia continuar falando e, durante algum tempo, ele fez as
vezes dela,  discorrendo sobre a mulher e os textos de Gabbie.
Perguntava-se como o homem havia morrido.  Supunha um acidente, mas
jamais teria perguntado. Ele se fora, e ela estava com  o corao
partido; era tudo que importava. Mas o professor Thomas sequer poderia
comear a imaginar a tragdia que fora aquilo tudo, ou o quanto custara
a todos.  Gabriella sabia que nem ele poderia ter escrito aquela
histria. Era feia demais para sua  imaginao bondosa.
  Naquela noite tomaram um txi para voltar  penso. Estava frio, ele
se sentia  rico, tendo acabado de receber a aposentadoria, e sabia o
quanto fora difcil  para ela contar-lhe sobre o homem que morrera dois
meses atrs. Desejava fazer alguma  coisa especial pela menina, e ela
estava agradecida quando desceram em frente  casa velha e cansada da
sra. Boslicki com sua fachada de pedra. Ambos olharam  para o cu ao
mesmo tempo. Nevava. A primeira neve do inverno e, de repente,
Gabriella se lembrou de como a primeira neve tinha sdo sempre to
bonita no jardim do  convento. Quando ainda era criana, adorava brincar
l, e as freiras sempre permitiam. Gabriella fez um comentrio a esse
respeito e sorriu com as lembranas. O  professor sentiu-se feliz por
ela, que precisava de alguma alegria a que se  agarrar. Todos
precisavam.
  - Tive uma noite maravilhosa - disse Gabriella, baixinho, parando
diante da  porta do quarto dele. - Obrigada, professor Thomas.
  - Por nada. O prazer  sempre meu, minha querida - retrucou ele,
fazendo uma  pequena reverncia, enquanto ela sorria. Gabriella nem
podia imaginar com que  ansiedade ele esperava por essas noites, agora
mais do que nunca. Ela estava quase se tornando uma  filha para ele...
ou uma neta adorada, especialmente depois de ter dividdo seu  segredo
com ele. Era um sinal de confiana que o professor apreciou bastante.
  - No vejo a hora de chegar o Dia de Ao de Graas - disse ele,
gentilmente.
  - Nem eu - replicou Gabriella, do fundo do corao, ainda sorrindo
para ele.
  Antes, vinha temendo aquela data, mas agora j no lhe parecia assim
to ruim.  Havia perdido muito, mas encontrara algo, como um diamante
brilhando no meio da neve.  Ao subir lentamente as escadas, pensou em
como teria sido triste se no o tivesse visto.

Captulo 17

  O Dia de Ao de Graas foi maravilhoso para todos. Um espesso tapete
de neve  cobria tudo l fora, e toda a cidade parou. As pessoas
esquiavam no Central  Park,  e as crianas brincavam nas ruas, fazendo
bonecos e jogando neve umas nas outras.  A sra. Boslicki preparou um
peru para que ningum jamais esquecesse. Era to  grande, que ela mal
conseguiu coloc-lo no forno. E, como todos os anos, foi o professor
Thomas quem o trinchou. Todos pareciam ter histrias engraadas para
contar  sobre dias de Ao de Graas que no deram certo, parentes
excntricos ou coisas bobas  de suas infncias.
  Depois foram dar uma volta, e todos disseram que se sentiam como se
estivessem  prestes a explodir. O Restaurante do Baum estava fechado
naquele dia, e  Gabriella sentia-se feliz por ficar em casa com eles.
Era como a filha, sobrinha ou neta  preferida de todo mundo. Nos dois
breves meses em que estava vivendo com aquelas  pessoas, havia
conquistado a todas.
  Pelo resto da semana conversaram sobre as compras de Natal e, de
repente, a  cidade estava toda decorada. A sra. Boslicki e a sra.
Rosenstein foram ao centro  fazer compras na Macy's e falaram admiradas
do nmero de pessoas que tinham visto. Durante todo o fim de semana em
que esteve de folga, Gabriella ficou no quarto trabalhando numa histria
e, no  domingo  noite, largou o caderno no colo do professor, com um ar
pretensioso.
  - A est! Agora pare de reclamar!
  - Tudo bem... tudo bem... vamos ver o que temos aqui. Dessa vez,
porm, mesmo  ele ficou pasmo. Era uma histria brilhante; uma espcie
de histria de Natal,  cheia de situaes patticas e momentos que
trouxeram lgrimas at mesmo aos olhos do  professor, mas muito
bem-escrita, com elegncia, e a surpreendente virada fnal  era
simplesmente extraordinria. Ele deixou escapar um grito de admirao e
alegria  quando terminou.
  Gabriella ficara observando-o ler, de braos cruzados, sentada numa
poltrona  velha e confortvel no canto da sala.
  - O senhor gostou? - perguntou, nervosa, mas dava para ver que ele
tinha  apreciado.
  Na verdade, ele estava em xtase e insistia em que a histria tinha de
ser  publicada. Dessa vez no a deixaria recusar.
  - Se gostei? Eu adorei!
  - Ainda preciso fazer uns ajustes nela - argumentou Gabriella,
ansiosa, quando  ele falou em public-la.
  - Por que no me deixa fazer uma reviso antes? - sugeriu ele,
astutamente  guardando o caderno no bolso antes que ela pudesse
contestar. Depois props uma  partida de domin para dstra-la.
  Mas Gabriella estava to contente pelo professor ter gostado que teria
feito  qualquer coisa por ele, particularmente naquela noite. Havia se
esforado e  sentia-se feliz com o resultado. Mesmo ela era obrigada a
admitir, embora com relutncia,  que aquela era sua melhor histria.
Nessa noite at o venceu no domin e, quando foi para a cama,
experimentava uma sensao de vitria, aliviada por ter  terminado o
conto. Ficara acordada trabalhando at depois das trs da madrugada. Era
a  primeira vez em que sentia um domnio total de seu ofcio, e a
sensao era tanto  intoxicante quanto viciadora.
  No dia seguinte, ainda estava animada quando voltou ao trabalho.
Depois do  restaurante ter fcado fechado durante o fim de semana
prolongado, o sr. Baum decidira-se por abri-lo na segunda-feira. O
professor Thomas ainda ia v-la todos os dias, s vezes com um dos
outros  hspedes, s vezes sozinho, e, quando saiu naquela tarde,
Gabriella avisou-o para que tomasse  cuidado ao voltar para casa. A neve
lamacenta tornara-se escorregadia. Mas ele  era extremamente
independente.
  Naquele dia todos os fregueses estavam de bom humor e conversavam
sobre os  preparativos do Natal. At os Baum mostravam-se mais
expansivos que de costume, depois de terem passado o feriado com as trs
filhas, e cumprimentavam os fregueses com  um pouco mais de alegria do
que o normal. Perguntaram a Gabriella como havia  passado aqueles dias,
o que no era comum, pois a viam como uma simples funcionria e  nunca
pareciam interessados em conhec-la melhor.
  Quando Gabriella voltou para a penso naquela noite, a sra. Boslicki
meteu a  cabea no corredor assim que a ouviu, acenando para que se
aproximasse.  Gabriella  ficou imediatamente preocupada com o professor,
mas a mulher se mostrava bem-humorada  demais para estar trazendo ms
notcias.
  - Temos um novo pensionista - disse a dona da penso, radiante. H
semanas  vinha tentando conseguir algum para ocupar o quarto do
vendedor.
  - Que timo! - felicitou-a Gabriella, aliviada que a novidade nada
tivesse a  ver com o professor. Ele se tornara muito importante para
ela. Num curto espao  de  tempo, transformara-se na sua nica familia,
e, s vezes, Gabriella preocupava-se tanto  com ele que chegava a ter
pesadelos. Ainda dormia na parte inferior da cama,  como sempre fizera,
ainda mais ultimamente, desde que deixara o convento.
  - Ele  muito bonito - acrescentou a sra. Boslicki, referindo-se ao
novo  hspede.
  - Que bom - disse Gabriella sem expresso, incerta sobre o que aquilo
tinha a  ver com ela. Mas a sra. Boslicki parecia contente, e Gabriella
sorriu,  imaginando  se a senhoria estava se sentindo atrada pelo novo
pensionista.
  - Ele tem vinte e sete anos e  muito inteligente. Fez faculdade. -
Gabriella  sorriu, apenas achando um pouco de graa. No estava
interessada em homem algum, de idade nenhuma, independente do quanto era
inteligente ou atraente. O nico homem de que precisava na vida era o
professor.
  - Boa noite, sra. Boslicki - disse Gabriella, com firmeza.
  Tinha sido uma longa noite, mas as gorjetas haviam sido boas.
Conseguira  comprar umas roupas recentemente e suspeitava de que os Baum
estavam aliviados. Tinham feito vrios comentrios  sobre os dois
vestidos usados que lhe foram dados no convento. Agora, na maior  parte
do tempo, Gabriella vestia saias e suteres. Havia at comprado um
cordo de  prolas falsas e uma vez, ao olhar-se no espelho, receou que
estivesse comeando  a se parecer com a me. Mas o professor adorava sua
aparncia, e nunca hesitava em  diz-lo. Sempre falava que se parecia
exatamente com Grace Kelly.
  Gabriella subiu as escadas, aliviada por saber que o quarto
recm-ocupado  ficava no segundo andar, e ela no teria que dividir o
banheiro com o homem. O  que usava era compartilhado apenas por
mulheres. Esperava no ter de v-lo to cedo.
  Entretanto, encontrou-o no dia seguinte, quando saa para o trabalho,
agasalhada contra o frio, vestindo o casaco cinza grosso, uma de suas
novas  aquisies, e  orelheiras brancas. Ele estava parado  porta,
ajudando a sra. Boslicki com uma sacola de  compras e sorriu afavelmente
para Gabriella.
  - Oi, eu me chamo Steve Porter - apresentou-se. - Sou o novo garoto do
pedao.
  - Prazer em conhec-lo-disse Gabriella com frieza, inconscientemente
aliviada  por no t-lo achado atraente. Tinha cabelos cheios e escuros,
olhos tambm  castanho-escuros, e era esguio, embora os ombros fossem
largos. Tinha boa aparncia, mas havia  qualquer coisa nele que no lhe
agradava e, enquanto se dirigia ao restaurante,  Gabriella chegou 
concluso de que era sua arrogncia. Parecia muito seguro de si e
extremamente atrevido. De maneira alguma se parecia com Joe, que se
tornara para  ela, sendo o nico homem que tinha conhecido intimamente
ou no, o modelo da  perfeio. Mas havia percebido de imediato que no
gostava desse outro. E foi o  que disse sem rodeios ao professor quando
se encontraram novamente para jogar domin.
  - Ah, no seja to rabugenta! - replicou ele, censurando-a. - Ele  um
bom  garoto, Gabbie.  um rapaz charmoso, e provavelmente sabe disso.
Qual  o  problema?  Isso no faz dele um canalha.
  - Eu no gosto dele - retrucou Gabriella, com firmeza. - S est com
medo de se machucar outra vez. Sabe, nem todos morrem ou vo  embora,
nem todos vo magoar voc - disse ele, suavemente.
  Mas Gabriella sacudiu a cabea e se recusou a prosseguir a conversa.
Fingiu  concentrar-se em ganhar o jogo, embora ambos soubessem que isso
no acontecia.  Algo  nela dizia ao professor que estava assustada.
  Na verdade, a presena de Steve Porter na penso parecia-lhe
ameaadora. E no  era de se admirar, depois de ter passado a
adolescncia e a vida adulta no  convento.
  - No se preocupe com ele - disse o professor, reconfortando-a. -
Provavelmente tambm no est interessado em voc. - O professor pde
ver que  aquilo a tranqilizou, embora esperasse estar errado e torcesse
para que ela despertasse a curiosidade  de Steve. Parecia um timo
rapaz, e o professor achou que seria bom para  Gabriella sair com
algum. Ela no mostrava a menor vontade de ver qualquer pessoa que no
fosse ele prprio, o que era lisonjeador para o professor, mas nada
saudvel  para a menina. Entretanto, achou que, se no desse muita
ateno ao assunto, os dois  jovens acabariam por se descobrir.
  Nas semanas seguintes, porm, Gabriella fez tudo o que pde para
evitar Steve  Porter. Chegou mesmo a ser indelicada com ele, o que era
incomum nela. Mostrava- se sempre extremamente educada com todos. Mas
no com Steve. Para o rapaz,  reservava a conduta mais ranzinza, embora
ele no parecesse notar. Estava sempre  de bom humor, e era
particularmente atencioso com as pessoas mais velhas. Comprou uma linda
rvore de Natal para eles e armou-a na sala de estar. Ele prprio
comprou os  enfeites porque a sra. Boslicki nunca se preocupara em
faz-lo, tambm por recear ofender  os pensionistas judeus. Mas ningum
se importou, e todos achavam-no um rapaz admirvel.
  Tinha acabado de chegar de Des Moines e estava procurando um emprego
na rea  de informtica. Saa para entrevistas todas as manhs e tardes,
e estava sempre bem-vestido, fosse usando  um casaco esportivo, fosse
usando um terno. Todos na penso,  exceo de  Gabbie, gostavam dele.
Achavam que seria maravilhoso se os dois jovens se entendessem. E  Steve
era cordial com ela, mas Gabriella deixava claro que no tinha
absolutamente qualquer interesse nesse sentido.
  Na verdade, um dia, a caminho do trabalho, sentia-se muito irritada
com ele.  Steve comprara pequenas guirlandas de Natal para todos e
pendurara uma em sua  porta, sem consult-la. Gabriella no queria lhe
dever coisa alguma e fcou enfurecida.  Mas achou que seria ainda mais
grosseiro se a tirasse dali, ento se viu  obrigada a mant-la. E foi
resmungando durante todo o caminho at o trabalho na Rua 86.
  - Voc parece contente hoje - observou o sr. Baum, zombeteiro,  sua
chegada.  Era raro ver Gabbie de mau humor, mas hoje definitivamente ela
estava, e ele no  ousou lhe perguntar o que tinha acontecido.
  S faltava uma semana para o Natal, e embora algumas pessoas
estivessem  estressadas, a maioria parecia bastante animada. Era como se
o feriado fizesse  vir  tona o pior e o melhor de cada um. Ele prprio
adorava o Natal, e havia semanas a  sra. Baum vinha fazendo lindas
casinhas de po de mel que as pessoas compravam  para os filhos. Ela as
fazia todos os anos, e eram as mais bonitas de toda a Rua 86.  S de
v-las na vitrine as pessoas eram impelidas a entrar, e esse dia no era
uma exceo. Havia uma meia dzia de fregueses junto ao balco e  caixa
registradora, com os filhos apontando para a casinha que queriam. Estas
eram  decoradas com balas, chocolate e algododoce. Havia at mesmo
pequenas renas de chocolate. Gabriella  adorava admir-las, desejando
ter tido algo mgico assim na infncia. Mas a vida de Gabriella quando
criana no tivera nenhuma mgica, nenhuma casa de po de  mel, nenhuma
visita do Papai Noel. O Natal fora sempre uma poca em que a me se
mostrava particularmente m e nervosa, jamais eximindo-se de espanc-la.
  Ela procurava no pensar no assunto, enquanto atendia a uma mesa.
Ento viu  uma mulher entrar com a filha, que apontava excitada para uma
das casinhas  feitas pela sra. Baum.
  - Aquela! Aquela! - A garotinha tinha mais ou menos cinco anos e
estava to  agitada que mal podia se conter. A me seguravalhe a mo e
lhe dizia que se  acalmasse, que iriam comprar uma.
  Entraram na fila atrs de vrias outras pessoas e, quando finalmente
sua vez  chegou, a criana comeou a pular, batendo palmas com suas
luvinhas vermelhas.  Usava um chapu engraado com um sino em cima.
Quando a menina pulava, fazia um tinido  que, para Gabriella, parecia
cheio da magia natalina. Mas, de repente, ao  saltar, tropeou e caiu.
Sem hesitar, a me a puxou pelo brao para que ficasse de p, e  a
criana comeou a chorar, segurando o bracinho, enquanto a mulher
gritava com ela.
  - Eu disse que parasse, agora est a o que mereceu. E se fizer isto
novamente, Allison, eu juro que vou dar um tapa em voc. - Gabriella
parou o que  estava fazendo e passou a olh-las, esquecendo-se dos
fregueses cujos pedidos acabara de  anotar. Estava hipnotizada pelo que
presenciara e por aquelas palavras  familiares, e observava a expresso
no rosto da mulher. Havia nela qualquer coisa de maligno, e a  criana
ao seu lado ainda chorava. O puxo brusco parecia ter deslocado o brao
da menina, que berrava ainda mais alto ao segur-lo. Aquilo havia
acontecido tambm com  Gabriella. Uma vez a me puxara seu brao com
fora, desarticulando o cotovelo,  e ela ainda se lembrava vividamente
da dor que sentira. O pai acabara conseguindo  coloc-lo de volta com
uma toro brusca. Mais tarde, os pais haviam brigado por  causa
daquilo, e ento a me tinha ido procur-la para tratar do assunto. Mas
essa  mulher estava furiosa nesse exato momento, enquanto a filha
continuava gemendo.  Gabriella caminhou devagar at ela e sugeriu que
talvez o brao, ou o cotovelo mais  precisamente, tivesse se deslocado.
  - No seja ridcula! - retrucou a mulher, rispidamente, enquanto os
Baum a  tudo assistiam. - Ela s est resmungando. Ela est bem. - Mas
Allison no  parecia nada bem, continuando a apertar o ombro. - Agora,
voc quer ou no quer a casinha de  po de mel? - gritou para a criana
e tornou a puxar-lhe o brao, fazendo com  que todos que observavam
estremecessem. Era bvio que dessa vez a me machucara de  verdade a
menina. - Allison, se no parar de chorar, eu vou abaixar suas calas
aqui mesmo e espancar voc na  frente de todas essas pessoas.
  - No vai, no - disse Gabriella, baixinho, com uma fora que nunca
sentira na  vida, a adrenalina de repente dsparando em suas veias. Mas
ela no deixaria que  aquilo se repetisse, no ficaria ali parada,
olhando a mulher fazer o que bem  entendesse com a menina. - No vai
fazer nada disso.
  - Que direito tem voc de interferir na disciplina da minha filha? - A
mulher  parecia ultrajada. Vestia um casaco de visom e tinha vindo da
Madison, voltando  para o luxuoso apartamento na Park Avenue. Mas a cena
era familiar demais para  Gabriella. E a palavra disciplina fez soar uma
campainha em seu corao que mais  lhe parecia um toque fnebre.
  - A senhora no est disciplinando a menina - respondeu Gabriella numa
voz que  ela prpria no reconhecia -, mas sim a humilhando e torturando
na frente de  todas essas pessoas. Por que no pede desculpas a ela? Por
que no cuida do brao  dela? Se tirar o casaco, ver que est
deslocado.
  Com isso a mulher virou-se para o sr. Baum com um olhar aristocrtico
de  ultraje.
  - Quem  esta garota? Como ela ousa falar comigo desta maneira? - E,
como a  criana continuasse chorando, a me deulhe outro puxo no brao.
  A garotinha soltou um berro que quase rompeu o que restava do tmpano
de  Gabriella. E, sem pensar duas vezes, ela delicadamente afastou a
menina da me e  comeou a tirar o casaquinho vermelho. No teve
dificuldades e pde ver imediatamente  que aquilo de que suspeitara
tinha de fato ocorrido. O brao pendia, lasso, e a  criana gritou no
instante em que Gabriella o tocou.
  - Tire suas mos de minha filha! - berrou a mulher. - Algum chame a
polcia.
  Ento Gabriella virou.se e falou com ela numa voz que quase parecia a
do  demnio.
  - , vamos chamar a policia e explicar a eles o que a senhora vem
fazendo com  ela. E, se der outro pio, sou eu que vou esbofetear a
senhora bem na frente de  todas essas pessoas. - Enquanto a mulher a
fitava boquiaberta, Gabriella virou-se para a menininha e rapidamente
fez o que se lembrava de o pai ter feito, rezando para que desse tudo
certo.  Houve um estalo terrvel e um rudo assustador quando estendeu o
brao da criana e  ento o virou bruscamente, mas no instante seguinte
o choro cessou, e a  garotinha estava sorrindo. O cotovelo deslocado
tinha sido posto no lugar.
  Nesse momento, porm, a mulher se recobrou. Tomou de volta o casaco da
filha,  enfiou-o novamente na menina, tremendo, e puxou-a porta afora,
enquanto gritava  com Gabriella.
  - Se algum dia encostar em minha filha de novo, eu chamo a polcia e
voc vai  ser presa.
  - E se eu a vir fazendo isto com ela novamente, vou ao tribunal
testemunhar  contra a senhora. E ento veremos quem vai presa. - No
houve agradecimentos  pelo que tinha feito, mas ela conhecia o
suficiente sobre situaes como essa para no  esperar por eles.
Gabriella sentia-se grata por ter podido ajudar a menininha,  pondo um
fim  sua dor. Mas Allison j estava quase do lado de fora, j vestida
com o  casaco e chorando pela casinha de po de mel prometida, que a me
no comprara.
  - Mas, mame, a senhora disse que ia me dar uma!
  - Agora no, Allison. No depois do que fez. Vamos direto para casa,
vou  contar a seu pai que hoje voc foi uma menina muito m e ele vai
espancar voc!  Voc fez mame passar a maior vergonha na frente de todo
mundo. - Tinha a ateno voltada  para a filha e no viu a expresso de
horror no rosto de todas as pessoas. Era  um verdadeiro monstro, mas
nada do que via era novo para Gabriella.
  - Mas a senhora machucou meu brao! - disse a criana em tom de
splica,  olhando para trs e desejando ficar, querendo a proteo da
nica mulher bondosa  que j havia encontrado.
  Isso fez Gabbie lembrar-se imediatamente de Marianne Marks, a mulher
que a  tinha deixado experimentar a tiara, e de como desejara ser sua
filha. Havia  sempre pessoas assim cruzando o caminho de crianas
maltratadas, mas elas jamais viam ou  compreendiam os desejos que
despertavam nesses pequenos seres aterrorizados. Gabriella viu Allison
ser rudemente arrastada porta afora. A menina no ganhou  nenhuma casa
de po de mel naquela tarde.
  No ganhou nada. E quando saam, a me lhe dizia como era m, que a
culpa era  sempre dela e que nunca seria preciso espanc-la se no fosse
to malcriada.  Vendo isso, Gabriella sentiu-se mal e olhou para os Baum
com uma expresso vidrada.  Mas o que viu ento a chocou ainda mais do
que o que observara acontecer com a  criana chamada Allison nas mos da
prpria me. Os Baum estavam furiosos. Eles nunca  haviam tomado parte
numa cena daquelas e sentiam-se ultrajados porque Gabriella  os deixara
numa situao embaraosa, desafiara uma freguesa, independente do quanto
esta estivesse errada, e custara-lhes uma de suas casas de po de mel.
Na  verdade, a sra. Baum chegara  concluso, observando-a, de que
Gabriella devia ser louca.  E tinha sido mesmo por um momento. Com um
pouco mais de provocao, teria de bom grado dado uns tapas na mulher de
casaco de visom para que soubesse como doa.  As lembranas de Gabriella
eram muitssimo claras. Ainda podia se lembrar do  rudo agudo quando a
me a golpeou com tanta fora que rompeu seu tmpano.
  - Tire o avental - ordenou o sr. Baum, em voz baixa, enquanto os
fregueses e  os outros empregados olhavam para eles. Est despedida! -
disse, estendendo a  mo  para que ela lhe desse o avental branco,
enquanto a mulher assentia com a cabea,  aprovando a atitude do marido.
  - Eu sinto muito, sr. Baum - sussurrou Gabriella, sem argumentar pelo
emprego,  mas sim pela salvao de uma criana que no tinha mais
ningum no mundo para  proteg-la. - Tive de fazer aquilo.
  - Voc no tinha o direito de interferir. A filha  dela e ela tem o
direito  de fazer o que bem entender. - Era o eco da voz do mundo
inteiro, que achava que  os pais tinham o direito de fazer tudo o que
quisessem aos filhos, por mais cruel,  perigoso, inumano ou violento que
fosse. Mas e se ningum os fizesse parar? O  que aconteceria ento? Quem
defenderia aquelas crianas? Somente os fortes e bravos.  No os
covardes como os Baum, ou seu pai, que deixara aquilo tudo acontecer com
ela. Ningum jamais tinha interferido a favor de Gabriella.
  - E se ela a matar? E a? E se a matasse aqui no seu restaurante? Sr.
Baum, e  se ela for para casa e fizer isso agora? E ento? O que o
senhor vai dizer  amanh  quando ler a notcia no jornal? Que sente
muito, que gostaria de ter podido ajudar...  que no podia imaginar? O
senhor sabia. Todos ns sabemos. Vemos acontecer e  quase sempre
fingimos no perceber porque no queremos saber, porque essa violncia
nos assusta demais e  muito constrangedora e dolorosa. E quanto 
criana, sr.  Baum?  doloroso para ela tambm. Era o brao dela que
estava fora do lugar, no o da me.
  - Saia do meu restaurante, Gabriella - disse ele, de maneira clara. -
E nunca  mais volte aqui. Voc  maluca e perigosa. - Com isso, virou-se
para atender aos  fregueses que, apesar do que tinham visto e ouvido,
queriam apenas esquecer o incidente.
  - Eu espero ser mesmo perigosa para pessoas como aquela mulher -
replicou  Gabriella, com calma, deixando o avental sobre o balco. -
Espero ser sempre.  Pessoas  como vocs, que viram as costas para o
problema,  que so o verdadeiro perigo -  disse, fitando a pequena
multido e os patres, que se sentiam por demais  constrangidos para
olhar para ela. Em seguida, pegou o casaco no cabide da porta e viu pela
primeira vez que o professor Thomas estava l. Acabara de chegar quando
a  criana comeou a chorar e assistira a tudo. Presenciara a cena toda
completamente estupefato.  Ele ento ajudou Gabbie a vestir o agasalho
sem dizer uma palavra e conduziu-a  para fora do restaurante com um
brao em seu ombro, percebendo que ela tremia  violentamente, embora se
mantivesse altiva e orgulhosa. E quando finalmente o  encarou, Gabriella
estava chorando.
  - O senhor viu o que aconteceu? - perguntou ela, num sussurro. Agora
que  estava tudo acabado, mal podia falar e, apesar do casaco quente,
no conseguia  parar de tremer.
  O professor levou-a para longe do restaurante, enquanto pensava que
jamais em  toda a sua vida havia admirado tanto uma pessoa. Queria dizer
isso a ela, mas,  por um instante, viu-se emocionado demais.
  - Voc  uma mulher admirvel, Gabriella. E estou orgulhoso por
conhec-la. O  que fez foi maravilhoso. A maioria das pessoas
simplesmente no compreende isso.
  - Elas tm medo - retrucou Gabbie, com tristeza, enquanto caminhavam,
o brao  dele ainda em seus ombros.
  Mais do que qualquer outra coisa, o professor queria protegla tanto
do  passado quanto do futuro.
  -  to mais fcil fingir que no estamos vendo.  o que meu pai
sempre fez.  Deixava minha me fazer o que queria. - Era a primeira vez
que falava sobre a  sua  infncia com o professor, e ele sabia que havia
mais coisas a serem ditas, muito mais, e  tinha a sensao de que ela
contaria quando se sentisse pronta.
  - O que aconteceu com voc foi parecido com aquilo? perguntou ele, com
 tristeza. Nunca havia tido filhos, mas no conseguia imaginar uma
pessoa  tratando-os daquela maneira. Estava alm do alcance de sua
compreenso.
  - Muito pior - respondeu Gabriella, com franqueza. - Minha me me
espancava  brutalmente, e meu pai permitia. No fim, a nica coisa que me
salvou foi ela ter  me  abandonado. Sou quase surda de um ouvido, minhas
costelas foram quase todas quebradas e  tenho diversas cicatrizes. Levei
pontos, tive hematomas e sofri traumatismos.  Ela me deixava sangrando
no cho e depois me espancava com mais fora porque eu tinha  manchado o
tapete. Ela s parou quando me abandonou.
  - Meu Deus do cu! - Lgrimas brotaram dos olhos do professor e ele de
repente  se sentiu muito velho. No podia imaginar o pesadelo que havia
sido a infncia  de Gabriella, mas acreditava no que ela dizia. Aquilo
explicava muitas coisas para  ele: por que tinha tanta preveno em
relao s pessoas, por que era to tmida e por que havia resolvido
permanecer no refgio do convento. Mas o que via nela  agora era o
motivo de as pessoas lhe dizerem que era forte. Ela era mais do que
isso. Gabriella possua a fora de uma alma que havia desafiado o
demnio. Tinha  sobrevivido a pesadelos piores do que se poderia
imaginar. E, com todas as  cicatrizes e as coisas que agora descrevia,
tinha sobrevivido ilesa. Era uma pessoa ntegra  e muito forte. Apesar
de todos os esforos para destru-la, a me no havia conseguido matar
seu esprito. E o  professor disse isso a Gabriella no caminho de volta
 casa da sra. Boslicki.
  -  por isso que ela me odiava tanto - disse Gabriella, caminhando com
altivez  ao lado dele. Orgulhava-se do que tinha feito pela criana no
Restaurante do Baum. Havia lhe custado o emprego, mas, para Gabriella,
tinha valido a pena. - Eu  sempre soube que ela queria me matar.
  - Isto  uma coisa horrvel para se dizer da prpria me, mas acredito
em  voc. - Em seguida, franzindo a testa, preocupado: - Onde ela est
agora?
  -No fao idia. Imagino que em San Francisco. Ela nunca mais
telefonou depois  de ter me deixado.
  - Melhor assim. Voc no deve ir procur-la. Sua me j lhe causou dor
o  bastante nesta vida. - E ele entendia menos ainda o pai, que jamais
dera um  basta naquilo. Para o professor Thomas, pareciam animais ou
coisa ainda pior.
  A sra. Rosenstein avistou-os to logo entraram na penso, juntos e de
mos  dadas. Sabia que era cedo demais para Gabriella estar ali e ficou
imediatamente  preocupada. Pensou que talvez algo tivesse acontecido com
o professor, e por isso Gabriella  o trouxera para casa, mas era a
garota que tivera problemas.
  - Est tudo bem? - perguntou a ambos com olhos ansiosos, e ento os
dois  fizeram que sim com a cabea.
  - Acabei de ser demitida - respondeu Gabriella com calma. J no
estava  tremendo. Mostrava-se estranhamente tranqila, e o professor
Thomas foi ao  quarto buscar um conhaque para eles.
  - Mas como isso foi acontecer? - perguntou a sra. Rosenstein, quando
ele  voltou com um copo para ela tambm. A mulher recusou, e ele se
disps a beber  tambm o  dela. - Pensei que tudo estivesse indo s mil
maravilhas para voc no restaurante.
  - E estava. - Gabriella sorriu, sentindo-se de sbito livre e
poderosa,  enquanto tomava um gole da bebida, que lhe queimou a lingua,
os olhos e o nariz;  mas, depois de queimar tambm a garganta, Gabbie
concluiu que gostava da sensao.  - Tudo ia bem , at eu abrir a boca e
ameaar dar um tapa num cliente. - De  repente, Gabriella sorriu. Quase
lhe parecia engraado, embora ela e o professor  soubessem  que no era.
  - Algum se engraou com voc? - A sra. Rosenstein imaginou que se
tratava de  um homem e estava indignada por algum fazer aquilo com
Gabriella.
  - Eu explico mais tarde - disse o professor, ao beber a segunda dose,
no  momento exato em que a sra. Boslicki apareceu, tendo ouvido o
burburinho no vestibulo.
  - O que est acontecendo? Esto dando uma festa e se esqueceram de me
convidar?
  - Estamos comemorando - respondeu Gabriella, rindo. Comeava a ficar
um pouco  tonta, mas no se importava. Havia sido uma noite difcil,
cheia de lembranas  horrveis, mas, ao fim de tudo, sentia-se mais
forte.
  - Comemorando o qu? - perguntou a sra. Boslicki, animadamente,
ansiosa por  saber.
  - Acabo de perder meu emprego - disse Gabriella, dando umas
risadinhas.
  - Ela est bbada? - perguntou a senhoria com um olhar de acusao
para o  professor.
  - Ela mereceu, pode acreditar - retrucou ele, lembrando-se ento de
que tinham  motivos para comemorar de verdade. Era a razo por que havia
ido ao restaurante.  Olhando para Gabriella, tirou um envelope do bolso
e o entregou a ela. Tinha levado  apenas duas semanas. Ele pensava que
fosse demorar muito mais. Se voc no  estiver muito bbada - disse-lhe,
carinhosamente -, leia isto.
  Ela abriu o envelope e leu devagar o seu contedo, com os gestos
exagerados de  quem tinha bebido um pouco. Aquela era a primeira vez que
bebia conhaque e de  fato sentia-se mais calma e aquecida. Ao ler a
carta, porm, seus olhos arregalaram- se, e ela ficou instantaneamente
sbria.
  - Ah, meu Deus... ah meu Deus! Eu no acredito. Como foi que o senhor
conseguiu? - Voltou-se para ele com uma expresso de assombro e comeou
a pular  como uma  criana, segurando a carta.
  - O que foi? - perguntou a sra. Boslicki. Pareciam todos loucos
naquela noite.  Talvez j estivessem bebendo havia muito tempo no
vestibulo. - Ela ganhou na loteria?
  - Melhor do que isso - disse Gabriella, abraando-a. Depois, abraou a
sra.  Rosenstein e finalmente o professor.
  Ele mandara sua ltima histria para a The New Yorker sem nada lhe
dizer, e a  revista havia concordado em public-la na edio de maro.
Estavam informando a  ela que lhe enviariam o cheque e queriam saber se
dispunha de um agente literrio.  Pagariam mil dlares pela histria. Da
noite para o dia, graas ao professor,  teria um texto seu publicado.
Ele tomara a liberdade de enviar o trabalho de  Gabriella, mas tanto ele
quanto ela sabiam que, sozinha, jamais teria feito  isso.
  - O que posso fazer para lhe agradecer? -perguntou ela. Era a prova de
tudo o  que ele lhe dissera e, antes dele, madre Gregoria. Eles estavam
certos. Ela era  boa. E era capaz. Gabriella mal podia acreditar.
  - A nica coisa que quero  que escreva mais. Vou ser seu agente. A
no ser  que voc queira um de verdade,  claro. - Mas ainda no
precisava de um, embora  ele  tivesse certeza de que um dia isso viria a
acontecer. Possua os atributos de um grande  escritor, e o professor
dera-se conta disso na primeira vez em que lera uma de  suas histrias.
  - O senhor pode ser tudo o que quiser. Este  o melhor presente de
Natal que  j tive. - De repente, no se importava nem um pouco por ter
perdido o emprego.  Agora  era uma escritora e poderia muito bem
arranjar trabalho como garonete em outro lugar.
  Depois que as duas senhoras foram dormir, os dois ainda ficaram
sentados na  sala de estar durante muitas horas. Noite adentro,
conversaram sobre o ocorrido no restaurante, o que  aquilo significava
para ela, sua infncia, seu ofcio de escritora e o que  esperava fazer
com ele um dia. O professor Thomas lhe disse que poderia ir longe como
escritora, se fosse este o seu desejo e se estivesse disposta a batalhar
por  isso. Quando Gabriella respondeu que estava, ele acreditou. E mais,
com a carta da The New  Yorker firmemente segura nas mos, ela agora
acreditava.
  Gabriella tornou a agradecer-lhe profusamente antes de ir para a cama
e, ao  refletir sobre o assunto no quarto, pensou em Joe e em como teria
se sentido  orgulhoso dela. Se as coisas tivessem sido um pouco
diferentes, quela altura estariam  casados e vivendo com dificuldades
em algum minsculo apartamento, mas felizes  como duas crianas.
Estariam festejando o primeiro Natal juntos, e ela se encontraria  no
quinto ms de gestao. Mas as coisas no tinham se passado dessa
maneira.  Ele no tivera disposio para lutar por aquilo. Tivera medo
demais de atravessar a  ponte para outra vida com ela. De repente,
Gabriella soube o que Joe quis dizer  quando falou que ela era forte.
Ali se encontrava a diferena entre os dois. Ela estava  disposta a
cruzar a ponte, a lutar por qualquer pessoa e qualquer coisa. Ela se
dispusera a ficar ao seu lado, mas, por mais que o amasse, ou ele a ela,
Joe no  conseguira. Gabriella se perguntou se ele teria intervindo na
cena do  restaurante e no pde imagin-lo tomando uma atitude. Tinha
sido um homem bondoso, e ela  sabia que jamais amaria outra pessoa
daquele jeito. Porm, independente do que  ele fosse e do quanto a
amasse, isso no fora o bastante para lutar. No ltimo instante, ele lhe
virara as costas, desistindo, e haviam perdido tudo.  Agora Gabriella
precisava recomear aos poucos. No o odiava por isso, mas ainda se
sentia muito  triste e achava que, sempre que pensasse nele,
provavelmente teria a mesma  sensao.
  Naquela noite, olhando pela janela, Gabriella viu o rosto de Joe to
claramente que quase podia toc-lo. O sorriso largo, os olhos azuis, a
maneira  como a tomava nos braos... como a beijava. Pensar nele trazia
dor ao seu corao. Mas, por  mais que o amasse, agora sabia de outra
coisa. Era uma sobrevivente. Ele a  abandonara, e ela no morreu. Pela
primeira vez em sua vida, estava entusiasmada com o que a  vida lhe
reservava. E no sentia medo.

Captulo 18

  Dois dias antes do Natal, menos de uma semana depois de ter sido
demitida,  Gabriella entrou numa livraria para comprar um presente para
o professor Thomas.  Queria comprar alguma coisa especial para ele, algo
de que fosse gostar realmente e que  j no tivesse nas estantes lotadas
de seu quarto. Decidira esperar o Natal passar para procurar outro
emprego. Tinha dinheiro  suficiente para pagar o aluguel de janeiro. E o
cheque que receberia da The New  Yorker cara do cu. Com ele, queria
comprar um timo presente para o professor. Havia  comprado uma
lembrancinha para todas as pessoas da penso, coisinhas que  denotavam
seu apreo por cada uma delas, menos para Steve Porter. Chegara 
concluso de  que no o conhecia bem o bastante para lhe comprar um
presente.
  Tambm havia pensado em comprar algo para madre Gregoria, mas sabia
que, dadas  as circunstncias, a madre superiora no poderia aceit-lo.
Em vez disso,  decidira que lhe enviaria um exemplar da revista The New
Yorker quando a sua histria  fosse publicada. A madre ficaria feliz e
orgulhosa dela. S saber o quanto a ajudara j seria um timo presente
para a madre Gregoria e, mesmo  que esta jamais lhe respondesse, em seu
corao Gabriella sabia o quanto a madre  ainda a amava. No entanto, era
muito difcil no poder v-la. Esse era o  primeiro Natal que passaria
sem ela desde sua ida para o convento, ainda criana. Mas  agora nada
podia ser feito.
  Gabriella entrou numa luxuosa livraria da Terceira Avenida e deu uma
olhada ao  redor. Havia livros novos, uma seo de livros antigos
encadernados em couro e  at algumas edies prncipes raras. Ao
folhe-las, Gabriella ficou atnita ao ver  como eram caras. Havia mesmo
uma ou duas destas que custavam alguns milhares de  dlares. Mas por fim
se decidiu por algo que achou que ele gostaria de verdade. Tratava- se
de uma coleo de livros de um autor que vrias vezes ele lhe citara
como  exemplo. Tinham encadernao em couro e obviamente haviam sido
muito lidos e manuseados  por algum com mos delicadas. Eram trs
volumes e, ao pagar por eles, Gabriella  contou o dinheiro devagar e com
cuidado. Jamais em sua vida comprara alguma coisa to  cara, mas ele
merecia.
  - tima escolha a sua - disse um jovem ingls, contando o dinheiro. -
Comprei  estes livros em Londres no ano passado e fiquei surpreso por
ningum os  arrematar  de imediato. So edies rarssimas. -
Conversaram sobre os livros por alguns  minutos e ento ele olhou para
Gabriella e perguntou se ela era escritora.
  - Sou, sim - respondeu ela, com reserva. - Na verdade, estou
comeando. Acabei  de vender uma histria para The New Yorker, graas ao
homem a quem vou dar estes  livros.
  - E o seu agente? - perguntou interessado.
  - No, um amigo.
  - Entendo. - O rapaz falou que tambm escrevia e que, nesse ano que
terminava,  estivera s voltas com seu primeiro romance. - Eu ainda
estou nos contos. - Ela  sorriu.
  - No sei se um dia terei coragem para escrever um romance.
  - Ter, sim - disse ele, confiante -, apesar de no saber se desejo
isso a  voc. Eu comecei escrevendo contos e poesia. Mas  muito difcil
ganhar a vida  assim. - Ele tinha certeza de que aquilo no era novidade
para ela.
  - Eu sei. - Gabriella sorriu novamente. - Estava trabalhando como
garonete.
  - Tambm j fiz isso. - O rapaz riu. - Fui barman no East Village,
depois  garom no Elaine's e agora trabalho aqui. Na verdade, sou o
gerente, e eles me  deixam  tomar parte na compra dos ttulos. Os donos
da livraria moram nas Bermudas. So  aposentados e compraram a loja
porque adoram livros. Ambos so escritores. - Ele  disse dois nomes que
imediatamente a deixaram impressionada e ento olhou para  Gabriella com
curiosidade. - No creio que voc queira deixar o emprego de  garonete,
no ? - Sabia que as gorjetas podiam ser boas, mas a jornada de
trabalho era longa;  e as condies em geral, extenuantes.
  - Na verdade, foi o emprego que me deixou. - Ela riu. Fui demitida
esta  semana. Um presente de Natal.
  - A mulher que trabalha aqui comigo est para ganhar nenm e vai sair
definitivamente na prxima sexta-feira. No sei se voc estaria
interessada... O  salro   bom e pode ler tudo que quiser quando
tivermos pouco movimento. - Em seguida,  dirigiu-lhe um sorriso tmido.
- E dizem que no  muito ruim trabalhar comigo.  Por falar nisso, meu
nome  Ian Jones. - Estendeu a mo, e ela se apresentou,  entusiasmada
com a oferta que ele acabara de lhe fazer.
  Ele lhe disse qual era o salrio, e era mais do que Gabriella ganhava
no restaurante, trabalhando doze horas  dirias, as gorjetas includas.
E esse era exatamente o tipo de trabalho que ela  desejava.
  Gabriella quis dar suas referncias, mas o rapaz disse no ser
preciso.  Gostava de seu aspecto e da maneira como se portava. Falava
bem e era  inteligente, alm  de ser escritora. Para Ian, era perfeita.
E Gabriella concordou em comear no dia  seguinte ao AnoNovo. Ele
embrulhou o presente, Gabriella colocou-o debaixo do brao, tomou o
nibus  de volta com um sorriso estampado no rosto e entrou correndo
quando chegou na  penso.
  - Vendeu outra histria? - perguntou a sra. Boslicki, animada,
correndo para o  vestbulo ao seu encontro.
  - No, melhor do que isso, quase. Arranjei um emprego excelente numa
livraria.  Comeo um dia depois do Ano-Novo.
  Mais tarde, contou ao professor Thomas, e ele ficou satisfeito por ela
e  maravilhado em v-la to contente. No se sentira bem o dia inteiro.
Estava  ficando gripado e comeava a ter uma crise de bronquite. Mas
estava feliz por ela e conversaram,  sentados em seu quarto, onde ele
podia ficar aquecido e confortvel com seu  velho roupo. Gabriella mal
podia esperar para lhe dar o presente, mas estava  determinada a
aguardar at a manh de Natal.
  Gabriella subia as escadas, a caminho do seu quarto, quando encontrou
Steve  Porter. Parecia um pouco deprimido e no pde deixar de comentar
sobre a  felicidade  que Gabriella estava irradiando. Ela contou que
conseguira um emprego naquela tarde,  e o rapaz parabenizou-a, dizendo
que adoraria ter aquela sorte tambm. J estava em Nova York havia um
ms, fazendo entrevistas em toda parte, e at ento no  conseguira
nada. E o dinheiro estava acabando.
  - Ouvi dizer que voc tambm vendeu um conto para a The New Yorker -
disse  ele, admirado. - Parece que est numa fase de sorte. Fico feliz
por voc. - No  sabia que Gabriella j havia tido sua cota de azar
suficiente para uma vida inteira.  Mas ela lamentava que o rapaz
estivesse to deprimido. Parecia injusto sentir-se  to feliz quando ele
atravessava tempos to difceis. De repente Gabriella sentiu-se  culpada
por todas as coisas desagradveis que dissera a respeito dele.
  - Por falar nisso, obrigada pela guirlanda. - Era a primeira vez em
que de  fato lhe agradecia. Ele parecia estar sempre fazendo cortesias a
todos, e ela  havia  sido crtica demais com ele. Agora se arrependia. -
Vou ficar torcendo com os dedos  cruzados por voc, Steve.
  - Obrigado, estou mesmo precisando. - E ento, quando se afastava,
virou-se e  lhe dirigiu um olhar hesitante, e ela percebeu. - Eu estava
querendo lhe fazer  um  convite, mas no sei se vai lhe parecer muito
estranho. Estava pensando se voc no  gostaria de ir  missa do galo
comigo. - Gabriella ficou emocionada com aquele  convite. Tinha certeza
de que seria um Natal difcil sem Joe e sem ar irms do So  Mateus.
Mas, por outro lado, no ia  missa desde sua sada do convento.
  - Eu no sei se quero ir - respondeu ela, com franqueza -, mas se for,
vou com  voc. Obrigada pelo convite.
  - Por nada. Estou s ordens. - Sorriu e desceu para apanhar seus
recados. Era  compreensvel que fizesse uma poro de ligaes, j que
estava procurando  emprego.
  De sbito, Gabriella percebeu o quanto estivera errada em relao a
ele. O  professor Thomas tinha razo. Steve era um bom rapaz. Assim como
Ian Jones, seu  novo  chefe. Achou que seria divertido trabalhar com
ele. Ian contara que vivia com algum e  deixara bvio que seu interesse
por Gabriella era apenas profissional e  intelectual, e no romntico, o
que para ela era perfeito. No tinha inteno de se envolver  ou sair
com ningum. Ainda sentia saudades de Joe e se perguntava se um dia
estaria pronta para ter outra pessoa em sua vida. No podia nem imaginar
encontrar  algum mesmo que remotamente parecido com ele. De qualquer
maneira, era gentil  da parte de Steve convid-la para a missa. Seria
bom que pudessem ser amigos. Vinha se  sentindo to de bem com a vida
nesses ltimos dias que estava muito mais aberta  para fazer amizade com
ele. E foi o que disse naquela noite ao professor, depois de  lhe levar
o jantar, comprado no restaurante do outro lado da rua, e de comerem  no
quarto dele.
  - Acho que o senhor deve estar certo sobre ele - admitiu Gabriella,
falando de  Steve. - Afinal de contas, parece um bom rapaz. Disse que
est com dificuldade  de arrumar trabalho.
  -  difcil acreditar, tratando-se de um jovem brilhante como Steve.
Conversei  com ele algumas vezes. Tem muitas qualificaes. Freqentou a
Yale e graduou-se  com honra ao mrito. E fez mestrado em administrao
de empresas na Stanford.  Bastante impressionante. - Era um dos motivos
por que o professor teria adorado  que ele sasse com Gabbie. Era
inteligente, bem-educado e, uma vez tendo arrumado  emprego, estava
certo de que iria muito bem. S precisava ser paciente.
  Ouvindo aquilo, Gabbie se deu conta novamente de como tivera sorte em
encontrar um trabalho to bom poucos dias depois de ter perdido o outro.
Ainda pensava na cena com a garotinha no restaurante e sabia que sempre
se sentiria bem por ter  interferido em favor da criana. Talvez um dia
aquilo fizesse Allison saber que, em algum lugar no  mundo, havia
pessoas capazes de gostar dela.
  Naquela noite, Gabriella e o professor conversaram por algum tempo,
mas a  tosse dele parecia piorar, e ento ela o deixou descansando e foi
para o quarto  escrever um pouco. Ficou surpresa ao encontrar ali um
bilhete de Steve. Era corts e bem  escrito.
  "Querida Gabbie, obrigado pelo incentivo. Neste momento estou
precisando. Ando  tendo muitos problemas familiares. Minha me est
doente desde o ano passado, e  perdemos meu pai no ltimo inverno. Um
pouco de incentivo nos faria bem a todos. No  posso voltar para Des
Moines agora. Assim, seria importante para mim que voc  fosse  missa
comigo na noite de Natal. Seno, deixaremos para outra ocasio. Quem
sabe  at um jantar? (Sou um timo cozinheiro. Se a sra. Boslicki um dia
me deixar usar a cozinha... Bife, espaguete, pizza... Voc escolhe!)
Cuide-se bem. Espero que  esta poca natalina termine to bem como
comeou para voc. Com certeza, voc  merece. Tudo de bom, Steve."
  Gabriella leu com ateno e ficou emocionada com o que ele contava
sobre a  famlia. Estava claro que atravessava tempos difceis, e
Gabriella prometeu a si  mesma que seria simptica com ele dali em
diante. No sabia por que a princpio  desconfiara do rapaz. Ele lhe
parecera muito dissimulado, esforado demais e era  exageradamente
simptico. Entretanto, no se podia repelir algum por querer ser
agradvel.  Agora se sentia envergonhada por suas suspeitas e achou que
talvez fosse  missa  na noite de Natal, ao menos por ele. Talvez
devesse isso a Joe e  madre Gregoria,  para rezar por ambos. Este ano
seria difcil, mas ela sobreviveria.
  Gabriella deixou o bilhete de Steve sobre a cmoda, pegou o caderno e
esqueceu-se dele. No tornou a v-lo at a vspera do Natal, quando, 
tarde,  lhe disse que adoraria acompanh-lo  missa do galo. O rapaz
pareceu extasiado e agradeceu-lhe  profusamente a sua bondade, o que fez
com que Gabriella se sentisse ainda pior  em relao s coisas que
dissera sobre Steve, e contou tudo ao professor Thomas  quando foi lhe
levar o jantar outra vez.
  - Voc deve mesmo se sentir culpada - brigou o professor com ela. -
Steve  um  bom rapaz e est passando por um perodo difcil. - Recebia
um milho de recados por dia, mas nunca conseguia emprego. O  professor
perguntava-se se o rapaz no estaria sonhando alto demais e aspirando
ao cargo de diretor da General Motors. Mas, apesar do que Gabbie falara
inicialmente sobre ele, no parecia arrogante, apenas desenvolto e
relaxado.
  Encontraram-se no vestibulo s onze e meia, e Steve abriu a porta para
ela ao  sarem para a noite gelada. O cho estava coberto de gelo, e
todas as vezes em  que falavam seu hlito condensava o ar. No
conversaram muito no caminho, pois o ar  estava to frio que parecia
queimar seus pulmes cada vez que respiravam. O rosto de Gabriella ardia
quando chegaram  igreja Santo Andr. Era uma igreja pequena,  mas
parecia que toda a parquia tinha comparecido e levado amigos. Estava
repleta.
  Gabriella foi tomada por sensaes familiares ao sentar-se num dos
bancos ao  lado de Steve. O incenso era forte, havia velas acesas por
toda parte, e o  cheiro  dos galhos de pinheiros, vindo do altar, enchia
o ar. Para Gabriella, era como  voltar para casa, e ela se sentiu
dominada por uma onda de dor e nostalgia.  Ficou ajoelhada a maior parte
do tempo, e, uma vez, quando Steve olhou para ela, viu que estava
chorando. No queria importun-la, mas pousou a mo suavemente em seu
ombro,  apenas para que soubesse que ele estava ao seu lado, e ento a
retirou em seguida, no  querendo que ela o achasse intrometido.
  Naquela noite os cnticos foram especialmente bonitos, e Gabriella
conhecia  todos. A congregao inteira cantou Noite feliz, e ambos
choraram quando o coro  cantou Ave-maria. Os dois tinham lembranas
dolorosas. Steve perdera o pai, a me  estava doente, e ele no podia
juntar-se a ela.
  Depois Gabriella foi a um dos altares laterais e acendeu trs velas
para a  Virgem Santssima: uma por madre Gregoria, uma por Joe, e outra
pelo filho  deles. Rezou pela alma de cada um dos trs e estava calada
quando deixaram a igreja. Steve  esperou um pouco antes de falar
qualquer coisa e ento comentou como era difcil  estar longe de casa e
perder as pessoas amadas. Ela respirou fundo e continuou em  silncio,
assentindo com a cabea.
  - Imagino que este tambm no tenha sido um ano fcil para voc -
observou  ele. Era impossvel ignorar o fato de que ela estivera
chorando, embora ele no fizesse comentrios a respeito.
  - No foi mesmo - admitiu ela, enquanto caminhavam para casa lado a
lado.
  Steve tinha o cuidado de no aproximar-se demais dela, embora
Gabriella  tivesse sentido o toque suave de sua mo na igreja quando
estava chorando.
  - Perdi duas pessoas que amava muito este ano... e h uma terceira que
no  posso mais ver. A poca em que me mudei para a penso da sra.
Boslicki foi muito  difcil para mim. - Estava tentando lhe dizer que
entendia os tempos difceis que ele  atravessava.
  - Ela tem sido maravilhosa para mim - afirmou Steve, com gratido. - A
 pobrezinha passa a metade do dia atendendo meus telefonemas.
  - Tenho certeza de que ela no se importa - disse Gabriella. Estavam a
um  quarteiro de casa e, como se a idia acabasse de lhe ocorrer, Steve
perguntou- lhe se  gostaria de tomar uma xcara de caf. J era uma hora
da manh, mas o caf da esquina  ainda estava aberto.
  - Claro. Por que no? - concordou Gabriella, de imediato. Sabia que,
se fosse  para casa agora, ficaria pensando em Joe e acabaria chorando.
Era noite de  Natal,  impossvel no se sentir s. Talvez os dois
precisassem de companhia. Ele tambm tinha suas  dores e preocupaes.
  Steve falou de sua infncia em Des Moines e dos tempos em que
freqentara a  Yale e a Stanford, e tambm do quanto adorara a
Califrnia. Entretanto, pensara  que  Nova York seria um lugar melhor
para ele. Acreditara que encontraria melhores  oportunidades de trabalho
ali e estava preocupado, achando que tomara a deciso  errada.
  - D tempo ao tempo - sugeriu Gabriella, suavemente. Ento Steve
comentou que  ouvira dizer que ela estivera num convento e Gabriella
assentiu com a cabea.
  - Passei doze anos no convento de So Mateus. Era postulante. Mas sa
por uma  srie de razes complicadas.
  - Quase tudo na vida  complicado, no ?  uma pena que tenha de ser
assim.  s vezes parece que nada pode ser fcil.
  - s vezes  mais fcil do que pensamos. Acho que somos ns que
complicamos as  coisas para ns mesmos. Pelo menos  o que estou
comeando a achar. As coisas  podem ser mais fceis, se deixarmos.
  - Eu gostaria de acreditar nisso - replicou Steve, enquanto a
garonete lhes  servia a terceira xcara de caf. J haviam passado para
o descafeinado. Steve  disse que fora noivo de uma garota que conhecera
na Yale e os dois tinham planejado o  casamento para o dia 4 de julho do
ano anterior. Duas semanas antes do  casamento, ela havia morrido num
acidente, quando estava indo ao seu encontro. Ele disse  que aquilo
mudou sua vida para sempre. Ento decidiu confiar em Gabriella e, com
lgrimas nos olhos, contou que tudo fora ainda pior porque a noiva
estava grvida. O  motivo do casamento no era esse; iriam se casar de
qualquer forma. S  anteciparam a cerimnia em alguns meses, e ele
estava muito feliz com o beb. Ao ouvir aquela  histria, Gabbie olhou
para ele, pasma. Era quase o oposto de Joe. Ela havia  perdido Joe e o
nenm. Queria contar a Steve, mas no teve coragem. A histria de amor
entre um padre e uma postulante ainda era mais do que a maioria das
pessoas  podia conceber. No confiara aquele segredo nem mesmo ao
professor Thomas.
  - Eu me senti da mesma maneira quando Joe morreu - admitiu ela. -
Estvamos  pensando em nos casar, mas tnhamos muitas coisas para
resolver. - Ento, com os  imensos olhos tristes, olhou para ele e
decidiu aliviar-se ao menos de um de seus  fardos. - Ele se suicidou em
setembro.
  - Ah, meu Deus... ah, Gabbie... que horror. - Sem pensar, Steve
estendeu a mo  e tocou a dela, e Gabriella no o receou. - Revendo tudo
agora - e s haviam se passado trs meses -, no sei como consegui
sobreviver. Todos acharam que era minha culpa, e eu  tambm. Jamais
serei capaz de me convencer do contrrio - falou, tristemente.  Era mais
uma culpa que viera se somar a todas as outras, mas esta era, de longe,
a pior  delas.
  - Voc no pode se culpar. Quando uma pessoa faz uma coisa dessas, h
vrias  razes. Geralmente ela est sob muita presso. E no consegue
mais ver as coisas  com clareza.
  - Foi mais ou menos o que aconteceu. A me de Joe se suicidou quando
ele  estava com quatorze anos e acho que ele se culpou por isso. O irmo
mais velho  morreu  aos nove anos, quando Joe tinha sete, e ele tambm
se sentiu responsvel. Mas no  posso me absolver por completo. No
fundo, ele se matou por minha causa. No  acreditou que pudesse
corresponder s minhas expectativas.
  -  uma coisa dura demais para se impor a algum. - No lhe parecia
justo  culp-la por aquilo, mas no queria falar nada a respeito. Ela
passara por maus  pedaos; ambos passaram.
  Ao voltarem para a penso, Steve colocou o brao carinhosamente em seu
ombro,  e Gabriella no se ops. Era noite de Natal, e eles haviam
trocado muitas  confidncias. Era incrvel o quanto tinham em comum.
  Ele se despediu dela na escada. No queria que Gabriella se sentisse
pressionada e acenou para ela ao entrar no prprio quarto. Naquela
noite, ela  pensou em Steve durante um tempo. Era um bom rapaz e passara
por muitos dos tormentos por que  ela mesma passara. Entretanto, como
ainda fazia com freqncia, sentou-se na  cama e chorou ao reler a carta
de Joe. Se ao menos pudesse ter falado com ele, tudo  teria sido
diferente. Talvez no precisasse estar sozinha nessa noite, dividindo
suas mgoas com um estranho e dizendo a ele o quanto ela e Joe tinham se
amado. Ainda  parecia to injusto, to errado que ele tivesse feito
aquilo. Porm, Gabriella  no se sentia mais zangada. Tinha superado a
raiva e agora s sentia tristeza. E  quando dormiu naquela noite, sonhou
com ele, ainda esperando por ela no jardim  do convento.

Captulo 19

  No dia de Natal, a sra. Boslicki preparou um peru para todos, e, dessa
vez,  Steve tambm estava presente. Ele contou histrias engraadas e
fez com que as  pessoas rissem. Depois, todos trocaram pequenos
presentes. No dia anterior, Gabriella  sara e comprara uma loo
ps-barba para Steve, constrangida por no ter um  presente para ele, e
o rapaz disse ter adorado. Falou que a sua acabara havia pouco e que
no estava em condies de comprar outra.
  O professor Thomas adorou os livros que ela lhe deu. Nem pde
acreditar que  ela os tivesse encontrado, e Gabriella contou que fora
assim que arranjara o  novo emprego, procurando um presente para ele.
Tudo parecia bastante providencial, assim como  seu encontro com Steve.
Os dois passaram muito tempo conversando naquela noite.  O professor
percebeu e ficou satisfeito, embora Gabriella tivesse conversado por
muito tempo com ele tambm. Como sempre, ele a venceu no domin e,
depois da  primeira partida, o professor convidou Steve para entrar no
jogo.
  Gabriella estava preocupada com o fato de o professor no parecer bem.
Ainda  estava gripado e permanecia com a mesma tosse havia semanas. A
sra. Boslicki fez  com que tomasse ch com mel e limo, e ele
acrescentou uma dose de conhaque, oferecendo um copo deste ltimo a
Steve, que aceitou, agradecido. O rapaz disse que, no fosse por eles
todos,  este teria sido o pior Natal de sua vida, mas, graas a eles,
no tinha sido assim. E  olhou especialmente para Gabriella enquanto
falava. Naquela noite, acompanhou-a at o quarto e, por algum tempo,
hesitou  porta.  Havia presenteado Gabriella com um bonito caderno de
capa de couro, que devia  ter sido muito caro, sabia ela. Mas Steve dera
presentes encantadores a todos e, para o  professor, um cachecol bem
quentinho.
  - Estou comeando a v-los como minha famlia - disse ele, e Gabriella
 entendeu perfeitamente. Sentia-se da mesma maneira em relao a todos
na penso.  Conversaram sobre o emprego novo dela e seus textos,
mantendo-se longe dos assuntos do  passado. Tinham muita coisa para
enfrentar no presente, sem precisar daquilo  tambm. No entanto, naquela
noite, no jantar, Gabriella tinha sentido saudades de todas as  freiras
do convento. E apanhou-se pensando que adoraria ter uma fotografia de
Joe para que pudesse contemplar. No haviam tirado nenhuma foto juntos,
e agora tudo  o que lhe restava eram meras lembranas. Estava sempre
apavorada com a  possibilidade de esquecer como era o seu rosto
exatamente, os olhos e o modo singular como  sorria. Pegou-se recordando
o jogo de beisebol que ele organizara no feriado de  Quatro de Julho e
riu, lembrando-se de algo que ele dissera. Ainda era obcecada por  ele,
e Steve percebeu isso. No queria for-la, mas adorava estar com ela e
tocou-lhe suavemente o rosto antes de ir embora. Depois, ela ficou
preocupada com aquele  gesto. Ainda era cedo demais para envolver-se com
algum. No sabia se um dia  isso viria a acontecer, e Steve era muito
diferente de Joe. Estava to integrado ao  mundo; era um homem de
negcios, sem a mesma ingenuidade e inocncia de Joe, e  tampouco a
mesma magia. Mas era um bom rapaz, estava vivo, ao seu lado, o que no
ocorria  com Joe. Joe a abandonara. Tinha escapado pelo caminho mais
fcil porque no era corajoso o suficiente para lutar por ela. Tambm
no havia como negar essa  verdade agora.
  No dia seguinte ao Natal, Steve subiu as escadas e bateu  sua porta.
Tinha  sado para dar uma volta e trouxera uma xcara de chocolate
quente para ela. Agora Gabriella estava sempre impressionada com o  fato
de ele ser to atencioso, e Steve admirou-se quando viu que ela estava
escrevendo.
  - Posso ler alguma coisa que voc escreveu? - perguntou ele, um pouco
reverente.
  Gabriella entregou-lhe algumas de suas histrias. Ele pareceu
imensamente  surpreso, o que a deixou feliz.
  Sentaram-se e conversaram por muito tempo, e depois saram para dar
uma volta.  Continuava a fazer muito frio, e parecia que ia nevar
naquela noite. Pela manh,  quando todos acordaram, a cidade estava
coberta de neve, e ela e Steve saram e jogaram  bolas de neve um no
outro, como crianas. Ele disse que aquilo o fazia lembrar  de sua
infncia, e Gabriella nada falou sobre a sua infncia. No se sentia
pronta  para dividir aquilo. Mas eles se divertiram e, mais tarde,
quando entraram na  casa, ele admitiu o quanto estava preocupado com sua
situao financeira. Estava  mandando dinheiro para casa, a fim de
ajudar a me, e, se no encontrasse logo  um emprego, provavelmente
teria de voltar para Des Moines ou ao menos sair da penso e  procurar
um quarto mais barato, talvez numa das reas mais perigosas do West
Side. Aquilo pareceu horrvel a Gabriella. No queria deix-lo
constrangido e no fazia idia  de como abordar o assunto, mas, com o
cheque da The New Yorker, teria um extra  nas suas economias. Poderia
tranqilamente lhe emprestar o dinheiro at que as  coisas melhorassem
para ele. E, depois de vrias tentativas constrangidas, ela  finalmente
fez a oferta, e ele tinha os olhos cheios de lgrimas ao agradecer.
Gabriella se  ofereceu para pagar o aluguel de janeiro para ele. O valor
do aluguel do quarto dele era quase igual ao do dela, e ele poderia
considerar como um emprstimo.  Steve lhe pagaria quando pudesse. Ela
tinha um emprego, estava bem e sabia  economizar seu dinheiro.
  No dia seguinte, Gabbie entregou o dinheiro do aluguel de Steve  sra.
 Boslicki e, ao receb-lo, a mulher levantou uma sobrancelha.
  - E ento? Voc  quem o est sustentando agora? Como  que o
pobrezinho foi dar tanta sorte? - No queria ningum tirando vantagem de
Gabriella, nem mesmo um garoto simptico como Steve Porter. Afinal de
contas,  comentou mais tarde com a sra. Rosenstein, o que sabiam sobre
ele? S que recebia um  monte de telefonemas. Mas Gabbie lhe disse que
era apenas um emprstimo e somente por  aquela vez.
  - Assim espero - retrucou a sra. Boslicki, indo guardar o dinheiro.
Gostava de  receber o aluguel, mas queria receb-lo de quem lhe devia.
  No dia seguinte, Gabbie falou com o professor Thomas sobre Steve e
contou o  que havia feito. O professor no pareceu desaprovar. Achava
que Gabbie podia  confiar nele e parecia feliz em ver que os dois
estavam fcando amigos.
  Na vspera do Ano-Novo, Steve a convidou para ir ao cinema. Era a
primeira  vez, desde a sua infncia, que Gabriella passava aquela data
fora do convento e  estava um pouco hesitante, mas ele s parecia querer
sua companhia. Foram assistir ao  novo flme de James Bond e ambos
acharam-no divertido. Depois, comeram  cachorroquente e chegaram a casa
a tempo de ver pela televiso da sala de estar a bola  iluminada descer
sobre a Times Square. Gabriella ficou aliviada quando,  meia- noite,
ele no fez nenhum movimento no sentido de beij-la. Em vez disso, falou
sobre a  noiva, enquanto ela pensava em Joe, e a acompanhou sem pressa
at o quarto,  feliz por estar em sua companhia. Ento, quando estavam
parados no vo da porta, olhou  para ela e, sem dizer uma palavra,
puxou-a para si. Gabriella podia t-lo  interrompido, e era o que queria
fazer, mas havia qualquer coisa de to irresistvel no modo  como a
fitava, que ela sabia no querer de fato faz-lo parar, enquanto a
beijava. Ela tentou tirar Joe da cabea e fcou constrangida ao se dar
conta do fervor  com que retribura a paixo de Steve. Ele estava
ficando excitado s em abra- la.
  Beijaram-se novamente, e Gabbie sentiu-se arrebatada, quando ele
entrou com  ela no quarto e trancou a porta. Havia algo de quase
hipntico nele. Gabriella  sentiu a mo de Steve abrir sua blusa e
toc-la e, com grande difculdade, conseguiu  faz-lo parar.
  - Acho que no devamos fazer isso - sussurrou ela, com a voz rouca.
  - Nem eu - sussurrou ele em resposta -, mas no consigo parar. -
Parecia muito  pueril, atraente e era muito mais ardente do que ela
imaginara. Ento ele a  beijou de novo, e de repente Gabriella percebeu
que o desejava. Desabotoou a camisa dele, enquanto Steve  abria o seu
suti, acariciava seus seios e inclinava-se para beijar-lhe os  mamilos.
Ela queria mand-lo parar, mas descobriu que no podia. E quando
finalmente  conseguiu afastar-se dele, os dois estavam quase nus,
ofegantes de desejo, e  Gabriella parecia preocupada e assustada.
  - Steve, no quero fazer nada de que possamos nos arrepender - disse,
por fim, sabendo que, se no o interrompesse agora, jamais o faria.
  Ambos eram adultos, no tinham a quem dar satisfaes, haviam perdido
pessoas  que amavam muito, ainda estavam sensveis emocionalmente e com
os nervos  flor da pele.
  - No acho que possa me arrepender de nada que fizer com voc -
murmurou ele.  - Gabbie, eu te amo.
  Mas ela no podia responder o mesmo porque no o amava. Ainda estava
apaixonada por Joe, mas as mos de Steve pareciam capazes de operar mil
maravilhas. Queria  que ele fosse embora e ao mesmo tempo no queria.
Queria ficar com ele, deitar-se  com ele e no se sentir s, ao menos
nessa vez. Era vspera de Ano-Novo e, pelo  menos hoje, no queria
pensar em nada alm do presente.
  - Gabbie, deixe eu ficar com voc. No quero ir para o meu quarto. 
to  solitrio l... Prometo que no fao nada que voc no queira. S
quero ficar  aqui.
  Ela hesitou, enquanto o fitava, mas sentia o mesmo que ele. No
desejava estar  sozinha com suas lembranas e poderiam ficar juntos sem
fazer nada de que  pudessem se arrepender mais tarde. Os dois eram
fortes o bastante para fazer isso.
  Finalmente ela balanou a cabea, concordando, e deitou-se na cama com
ele,  ainda de blusa e meia. Steve estava de camisa e cueca, e os dois
ficaram  abraados,  lado a lado, debaixo das cobertas. Ele lhe parecia
muito diferente. No era to  atltico quanto Joe, e ela no o amava,
mas era um homem bom, e ela se perguntou  se acabaria se apaixonando por
ele. Era uma possibilidade, com certeza. E enquanto Steve
acariciava-lhe os cabelos e sussurrava em seu ouvido, Gabbie sentiu-se
segura, o  que significava muito para ela. Ambos eram muito solitrios.
  Cochicharam no escuro durante muito tempo e, por fim, ela comeou a
pegar no  sono em seus braos. Era to aconchegante ficar ali com ele.
  - Feliz Ano-Novo, Steve - sussurrou, sonolenta, e um instante depois
j estava  quase dormindo, quando de repente o sentiu. Estava deitado ao
seu lado, como  antes, mas havia perdido a cueca em algum lugar, tirado
a camisa e delicadamente  abaixava a calcinha dela. Gabriella j estava
sem as meias e no sabia se queria  resistir.
  Steve a tocou com delicadeza, e, sem querer, ela gemeu na escurido.
Ele era  sensual, experiente e despertou nela um ardor que nem mesmo
Joe, com toda a sua  inocncia, conseguira provocar. A paixo deles
havia sido a de dois coraes, duas almas completamente entregues uma 
outra, sem reservas. E o que agora comeava  a experimentar com Steve
era bem diferente. Era uma paixo de uma natureza sexual da mais
elevada ordem, e o que ele provocava nela a teria assustado se ele no
fosse to  bom no que fazia. Steve beijava, tocava e acariciava,
levando-a lentamente a um  frenesi. Agora no o teria interrompido por
nada neste mundo. Na verdade, teria  implorado para que no parasse. As
roupas formaram uma pilha no cho, e ele tocava o corpo  de Gabriella
como uma harpa,  medida que ela arqueava as costas, gemendo,  ansiando
por t-lo dentro de si. Finalmente, com uma lentido agonizante, ele lhe
deu  tudo o que desejava. Gabriella foi arrebatada e levada  loucura
por ele, que a  fez gozar repetidamente, at que ela por fim implorou
para que parasse. No  agentava mais. Depois, foram, sorrateiros, para
debaixo do chuveiro, onde se  amaram outra vez. Em seguida, Steve a
deitou no cho do banheiro, ainda completamente  molhados, e a possuiu
com uma energia e uma sensualidade renovada que a  surpreenderam,
deixando-a ofegante e exaurida. Gabriella nunca experimentara nada
parecido com Joe e  suspeitava que aquilo no voltaria a acontecer, mas
essa era uma noite da qual  no se esqueceria. E quando voltaram para a
cama, e ele finalmente a puxou para si,  abraando-a colada a ele, seus
corpos saciados e exaustos, ela dormiu como uma  criana.

Captulo 20

  O romance iniciado na vspera do Ano-Novo por Steve e Gabriella foi
novamente  consumado na manh seguinte, antes de se levantarem, e vrias
vezes naquela  tarde.
  Alguns dias depois de comeado o envolvimento, parecia que agora isso
era tudo  o que faziam. Os dois eram educados e discretos quando estavam
no primeiro  andar, com os outros hspedes da sra. Boslicki, e, no
instante em que podiam escapar,  subiam apressados, separadamente,
encontravam-se no quarto dela e faziam amor. Amavam-se todos os dias e
em todos os lugares em que podiam, e ele ensinou coisas a  Gabriella que
ela jamais experimentara ou imaginara. Era tudo to diferente do  amor
puro e doce que tinha vivido com Joe Connors. O que compartilhava com
Steve era muito  poderoso e extremamente compulsivo. Precisava
obrigar-se a sair da cama e deix- lo a fim de ir trabalhar todas as
manhs.
  Gabriella tinha comeado no novo emprego no dia seguinte ao Ano-Novo,
como  previsto, e estava adorando trabalhar l. A livraria era tudo com
o que sonhara.  E as noites ela passava com Steve, deleitando-se com o
feitio que ele lanara sobre  ela. Quando no estavam na cama,
conversavam, riam, caoavam um do outro e, na maioria das vezes, nem se
davam ao trabalho de jantar. Em vez disso,  devoravam um ao outro e
viviam de batatas frtas e biscoitos.
  - Eu no tenho mesmo como pagar o seu jantar - provocava ele, mas
sempre que  se foravam a sair da cama, ela pagava a conta. Sabia que um
dia as coisas  mudariam, e Steve devolveria o dinheiro que ela pagara 
sra. Boslicki pelo aluguel de  janeiro. No momento, ele simplesmente no
o tinha. No dia 1 de fevereiro ele  falou sobre mudar-se dali, e ela
detestou a idia de v-lo indo embora. Assim, pagou o  aluguel de
fevereiro tambm, s que dessa vez entregou o dinheiro a ele para que
ningum soubesse que era ela quem pagava. O professor Thomas estava
contente em  ver que ela gostava de Steve. Ainda tinha o rapaz em alta
conta e sempre falava  de como era instrudo, mas Gabriella sabia que
alguns dos outros hspedes tinham  comeado a desconfiar do romance e j
no se mostravam to entusisticos assim.  Steve estava sem trabalhar
havia quatro meses, e as pessoas j comeavam a fazer comentrios.
  Ele ainda recebia muitos telefonemas todos os dias, mas nenhuma de
suas  cartadas parecia dar resultados, apesar de sua boa aparncia,
inteligncia e do  elegante guarda-roupa. Simplesmente no havia
empregos para homens com suas  qualificaes, ao menos  o que dizia a
Gabriella e esta acreditava. Falava que  as pessoas ficavam nervosas com
ele porque pensavam que era mais qualificado do que o necessrio e  que
algumas simplesmente tinham inveja, e ela podia entender. Ele tinha
muito a oferecer.
  Gabrella vinha escrevendo menos, e o professor repreendeu-a. Ouando a
The New  Yorker publicou seu conto em maro, ele lembrou a ela que j
estava na hora de  escrever outro. Disse que deveria malhar o ferro
enquanto este estava quente. Mas o nico  calor que ela desejava agora
era o do corpo de Steve. Estava descobrindo com ele um mundo mais
excitante do que qualquer coisa com que j tivesse sonhado, e  muito
inebriante. O nico fato trste em sua vida era que o professor no
vinha  se sentindo bem desde o Natal. A sra. Rosenstein insistia com ele
para que fizesse alguns  exames, mas o professor sempre respondia que
detestava mdicos, dizendo que  estes inventavam problemas onde no
havia nenhum. Gabriella sentia-se inclinada a concordar com  ele.
Entretanto, no havia como negar que sua aparncia no estava nada boa,
e ele ainda tossia  constantemente. Era uma tosse forte e debilitante,
e, mesmo que no estivesse  envolvida com Steve, o professor no estaria
em condies de lev-la para jantar. Sentia-se  feliz por Gabbie estar
ocupada com Steve. Havia meses ela no parecia to bem.  Estava
desabrochando com a ateno dispensada pelo rapaz.
  Steve ia visit-la s vezes no trabalho e suas conversas com Ian eram
sempre  interessantes. Os dois pareciam gostar um do outro, o que tambm
deixava Gabbie satisfeita, e, em mais de uma ocasio, foram jantar com
Ian e a namorada. Como sempre,  Gabriella tinha de emprestar dinheiro a
Steve. Ele no tinha absolutamente  nenhum. Sua conta bancria estava
zerada havia trs meses, e o nico dinheiro que possua  era o que
Gabbie lhe emprestava. Na verdade, ela o estava sustentando com o
salrio que recebia na livraria, o que implicava privaes para ela, mas
parecia um  sacrifcio pequeno se era para ajud-lo. Ele mostrava-se
sempre to grato e  retribua tomando conta de Gabriella, sendo gentil
com ela, levando sua roupa para a  lavanderia quando ela estava no
trabalho e muito freqentemente fazendo amor com  ela durante vrias
horas no momento em que ela botava os ps no quarto. s vezes ela j o
encontrava esperando na cama, nu. E no queria lhe dizer que estava
cansada, que  o dia fora exaustivo ou que simplesmente no estava com
vontade. Steve adorava satisfaz-la, era a nica coisa que podia lhe
oferecer, e era mais que generoso em relao ao prprio corpo.
  Foi s em maio que ela se deu conta de que ele no mais lhe falava das
 entrevistas ou empresas para as quais telefonara. Parecia ter desistido
de  procurar emprego e j no se sentia mais to constrangido em
pedir-lhe dinheiro. E tambm no  dizia mais tratar-se de um emprstimo.
A nica coisa que a incomodava  que  ocorrera  uma mudana sutil no
relacionamento dos dois, e ele parecia j esperar por aquilo. Mais de
uma vez Gabriella o  encontrou mexendo em sua bolsa e pegando o que
encontrasse ali. Depois disso,  ela se viu comeando a esconder dinheiro
dele. Nunca dizia quando recebia. No dia 1 de  junho, percebeu que
fazia seis meses que vinha pagando  o aluguel de Steve na penso da sra.
Boslicki, e ento perguntou a ele o que achava de abrir mo do seu
quarto. Dos dois, Gabbie  preferia o seu, embora o dele fosse mais
barato. Steve, porm, no se  entusiasmou com a sugesto.
  - Acho que seria constrangedor - disse ele, orgulhoso. Todos iriam
saber que  voc est me sustentando. Alm do mais, no seria bom para a
sua reputao.
  Mas pagar o aluguel dos dois quartos todos os meses estava arruinando
seu  oramento. O salrio, que, embora no fosse muito, seria adequado
para ela, via- se radicalmente reduzido com o pagamento do aluguel de
Steve, com os txis que este tomava para  ir s entrevistas e com suas
contas dirias de restaurante. Gabriella estava  pronta a sugerir que
ele procurasse um emprego de garom, como ela fizera. Mas, quando
tentou levantar o assunto, depois de pagar mais uma vez seu aluguel e
no ter  dinheiro para ir pegar as prprias roupas na lavanderia, Steve
ficou furioso com ela.
  - Voc est me chamando de gigol? - acusou-a, numa discusso
acalorada que  tiveram no quarto de Gabriella. Esta sentiu-se
mortificada por ele pensar  aquilo.
  - Eu no falei nada disso. S estou dizendo que no tenho condies de
 sustentar voc. - Gabriella nunca lidara com esse assunto antes; para
ela, era  territrio desconhecido, do qual no estava gostando. Fazia
com que se sentisse um monstro.  Steve parecia achar que ela lhe devia
algo e ofendia-se facilmente.
  -  isso o que voc acha que est fazendo? - gritou com ela, bastante
magoado.  - Que est me sustentando? Como  que voc ousa? - Mas era o
que ela estava  fazendo, independente de como ele quisesse se referir 
situao. - Voc s est me  adiantando algum dinheiro, Gabriella.
  - Eu sei, Steve... Me desculpe.  s que... No est dando. O que eu
ganho no   o suficiente. Acho que voc precisa arrumar algum tipo de
emprego agora.
  - Eu no freqentei a Yale e a Stanford para aprender a servir mesas.
  - Nem eu, e eu cstudei na Columbia, que tambm  uma boa universidade.
Mas eu  precisava comer quando sa do convento.
  E ele tambm, s que tinha Gabriella para pagar suas contas. E Steve a
fazia  sentir-se culpada todas as vezes em que o assunto surgia. Assim,
ela acabou  parando de discutir a questo com ele e decidiu tentar
escrever algumas histrias. Dessa  vez, porm, todas foram rejeitadas.
No dia em que a ltima recusa chegou, ela  encontrou Steve saqueando sua
bolsa mais uma vez. Quando Gabriella voltou do banheiro, ele  estava com
a maior parte do seu salrio nas mos.
  - O que voc vai fazer com isso? - perguntou ela, em pnico. - Ainda
no  paguei nosso aluguel.
  - Ela pode esperar. Ela confia em ns. Estou devendo dinheiro a uma
pessoa.
  - Por qu? A quem? - questionou Gabriella,  beira das lgrimas. Ele
estava  criando uma situao que ela no podia controlar, e Gabriella
no tinha mais  outros  recursos a que recorrer. Aquela situao estava
se transformando rapidamente num  pesadelo, e agora, quando tentava
argumentar com Steve, ele se tornava hostil,  provavelmente porque se
sentia constrangido, explicava ela a si mesma. Entretanto, suas
respostas haviam se tornado vagas e dessa vez ele disse apenas: "Umas
pessoas."
  - Que pessoas? - perguntou Gabriella. Ele no conhecia ningum em Nova
York.  Por outro lado, para uma pessoa que no conhecia ningum, ele
certamente recebia  muitos telefonemas. Havia meses a sra. Boslicki
vinha reclamando que parecia estar  operando uma mesa telefnica.
Gabriella se deu conta de que havia muitas coisas  a respeito dele que
ela no sabia, e ele no se mostrava muito inclinado a dividir seus
segredos.
  - Estou farto de suas perguntas - gritava Steve, colrico, quando ela
o  pressionava.
  Agora tinha dado para sair impetuosamente do quarto, batendo a porta e
 desaparecendo. s vezes sumia durante horas, e ela no tinha idia de
onde havia  ido, mas sempre conseguia fazer com que ela se culpasse
pelos seus desaparecimentos.  Steve era bom nisso, e esse era um papel
que Gabriella havia desempenhado  durante toda a sua vida. Estava sempre
disposta a culpar a si mesma e aceitar a inocncia dos  outros. E sabia
que ele se encontrava sob uma enorme presso. Fazia oito meses que
estava em Nova York e sentia-se  humilhado por no trabalhar; pelo menos
era o que dizia a ela. E, quando conversava com o professor Thomas sobre
o assunto, Gabriella sentia-se  desleal a Steve e o professor sempre
dizia para ser paciente. Steve no poderia ficar sem trabalho por muito
mais tempo.
  - Eu o contrataria imediatamente se viesse me pedir emprego. Acredite,
algum  vai fazer isso.
  Gabbie detestava aborrec-lo com seus problemas. Desde o inverno
anterior a  sade do professor vinha piorando. Comeava a aparentar a
idade que tinha e  estava  muito fraco. E, naquela primavera,
descobriram que a sra. Rosenstein estava com  cncer. Todos tinham seus
problemas. E os de Gabriella, em comparao, pareciam  pequenos. Sabia
que seus conflitos com Steve acabariam no instante em que ele
encontrasse  trabalho.
  Mas, em julho, ela descobriu que ele estava roubando seus cheques e
falsificando sua assinatura. A essa altura, havia descontado vrios e o
gerente  do seu banco estava indo  loucura. Steve passara cheques sem
fundos por toda a cidade, e  ambos ficaram sem dinheiro pelo resto do
ms. Uma semana depois, a sra. Boslicki  recebeu trs ligaes da
Diviso de Condicional de Kentucky. Sem saber o que fazer, foi  falar
com o professor. Mas ele tinha certeza de que havia uma explicao
razovel para aquilo e disse a ela que no entrasse em pnico.
  Entretanto, por uma srie de estranhas coincidncias, o professor
abriu por  engano algumas cartas de Steve em seguida e descobriu que o
rapaz vinha usando  vrios outros nomes, descontando cheques por toda
parte e que se encontrava sob  livramento condicional, tanto em Kentucky
quanto na Califrnia, por  falsificao. Ento o professor Thomas fez
uma srie de ligaes telefnicas e o que descobriu no  foi uma
histria bonita. Steve Porter no era nada do que dizia ser. No havia
estudado nem na Yale nem na Escola de Administrao da Stanford, e nem
mesmo seu nome era  Steve Porter. Era Steve Johnson e John Stevens,
assim como Michael Houston.  Possua uma profuso de nomes e
identidades, e uma ficha  policial to longa quanto as histrias que
inventava. Tinha vindo para Nova York  sob condicional, no de Des
Moines, mas do Texas. E o professor sentiu-se arrasado por ter se
enganado tanto em relao a ele e incentivado  Gabriella a sair com
aquele monstro.
  O professor Thomas no fazia idia do que dizer a ela, mas depois de
muita  reflexo e ansiedade decidiu-se por confrontar Steve e propor que
deixasse a  cidade imediatamente; caso contrrio, ento o desmascararia.
Parecia um plano simples e, em troca de  sua partida rpida, o professor
concordaria em nada revelar a Gabriella. No  queria que ela soubesse
que fora usada descaradamente e que o homem que imaginava estar  to
apaixonado por ela era um vigarista e mentiroso. Depois de todo o
sofrimento por que ela tinha passado na vida, o professor achava que
Steve poderia ao menos  lhe dar isso.
  Esperou por ele na sala de estar, e quando o ouviu chegar, levantou-se
e foi  ao seu encontro. O professor vestia uma camisa limpa e seu melhor
terno, e  tossia  sem parar, mas queria que esse fosse um encontro entre
dois homens sensatos, uma  espcie de acordo entre cavalheiros para
proteger Gabriella. No tinha a menor  dvida de que Steve concordaria.
  Porm, no instante em que Steve entrou, ele soube que haveria
problemas. O  rapaz parecia estar de mau humor, e o professor
acertadamente suspeitou de que  tivesse bebido. Havia feito uma
transao no Lower East Side que envolvia a compra de um  pouco de
maconha que desejava revender, mas o negcio dera errado. Fora roubado
pelo traFicante, desperdiando assim o resto do dinheiro de Gabriella.
  - Steve, eu gostaria de falar com voc por um instante - disse o
professor  educadamente, e Steve quase rosnou ao passar por ele. Seus
modos j no eram to  magnnimos.
  - Agora no, professor, preciso tratar de umas coisas. Queria
vasculhar o  quarto de Gabriella. s vezes, ela escondia o dinheiro, mas
ele j conhecia  todos os  seus esconderijos. Queria chegar l antes
dela.
  -  importante, Steve - disse o professor, com ar severo. Era uma
expresso  que costumava deixar os alunos apavorados, mas Steve os
excedia, e mesmo ao  prprio  professor.
  - O que ? - Steve virou-se e olhou para o velho professor, que lhe
entregou  uma pilha de cartas. Eram os documentos acusatrios que o
professor utilizara  para  dar incio a suas investigaes. E tinha ido
fundo. Telefonara para a Stanford e a  Yale, alm do Departamento de
Correo de quatro estados. Estava de posse das  provas incriminatrias
de Steve Porter e, olhando para as cartas que o professor lhe
entregava, Steve entendeu tudo. E no gostou. - Onde conseguiu isto? -
Avanou  vagarosamente em direo ao professor, mas este no parecia nem
um pouco assustado.
  - Vieram para mim por engano e eu as abri na maior inocncia. Mas acho
que ns  dois preferimos que Gabriella no as veja.
  - No sei se estou entendendo - disse Steve, de maneira clara. - Est
pretendendo me chantagear, professor?
  - No, estou pedindo que v embora para que eu no precise contar a
ela.
  Todos os outros hspedes estavam fora. At a sra. Boslicki tinha ido
ao  mdico. Os dois estavam sozinhos, e Steve sabia disso.
  - E se eu no for? - Fitava o professor atravs dos olhos estreitados.
Mas o professor sabia que tinha as cartas da vitria.
  - Desmascaro voc.  simples assim.
  - ? - perguntou Steve, dando um leve empurro no professor, que
recuou,  cambaleando, mas rapidamente recuperou o equilibrio.
  - Voc me desmascara? Acho que no. Eu acho  que voc no vai dizer
nada a Gabriella, meu amigo, ou poder  sofrer um grave acidente na
prxima vez em que for atravessar a rua. E imagino  que nem voc nem
Gabriella gostariam disso. Sabe, uma destas coisinhas desagradveis que
acabam num quadril quebrado, num crebro esmagado ou num atropelamento
seguido  de fuga. Tenho amigos bastante eficientes aqui.
  - Voc  um canalha sem-vergonha! - exclamou o professor, enfurecido.
  Steve era um sujeito inquo e havia tirado vantagem da bondade e da
ingenuidade de Gabriella. S de pensar nisso o professor sentia-se mal.
  - Ela foi boa para voc. No merece isso. Voc j tirou tudo o que
podia dela.  Por que no a deixa em paz agora?
  - E por que deveria? - perguntou Steve, malicioso. - Ela me ama.
  - Ela nem mesmo o conhece, sr. Johnson, sr. Stevens... sr. Houston.
Quem  diabos  voc alm de um aproveitador de quinta categoria, um
vigarista que  explora mulheres? Voc no  nada.
  - Funciona para mim, vov. Voc no v eu me acabando de nove s
cinco, v?   um timo emprego, quando se consegue.
  - Seu merda nojento! - disse o professor, avanando para cima dele,
mas era o mesmo que encarar uma naja.
  Steve era perigoso demais para que o professor pudesse intimid-lo,
mas ele  ainda no sabia disso. Acreditava que pudesse intimid-lo e
obrig-lo a ir  embora,  o que era um erro fatal. Sem dizer uma palavra,
Steve saltou para a frente e deu  um empurro violento no professor,
arremessando-o para trs at que ele tropeou  e bateu com o lado da
cabea na mesa. Ao cair, havia sangue em sua tmpora. Quando  Steve se
curvou e o puxou pelo colarinho, o professor sentia-se totalmente
atordoado.
  - Se um dia me ameaar de novo, seu velho pattico, eu mato voc,
ouviu?
  Mas, ante a sua prpria raiva, o professor teve um acesso violento de
tosse e,  de repente, estava lutando desesperadamente para respirar,
enquanto Steve  continuava segurando-o, sufocando-o ao puxar o
colarinho. O professor tentava, aflito,  recuperar o flego, mas no
conseguia; e ento ali, suspenso no ar, seu rosto  sofreu um espasmo.
Era exatamente o que Steve queria, enquanto continuava a segur-lo.  Um
ataque cardaco teria servido perfeitamente a seus objetivos. Em vez
disso,  porm, algo ainda pior parecia estar acontecendo  medida que o
professor sufocava e  tartamudeava. E ento perdeu a conscincia nas
mos de Steve, que o deixou  tombar no cho, ficando ali cado,
aparentemente sem vida. Em seguida, Steve endireitou a  mesa, percorreu
a sala devagar, certificando-se de que tudo estava em ordem, e  muito
lentamente ligou para a telefonista. Quando a mulher atendeu, ele
explicou  freneticamente que um hspede idoso da penso onde morava
estava inconsciente no  cho, e ela prometeu que uma ambulncia estaria
l em cinco minutos.
  Steve recolheu as cartas comprometedoras do cho e as enfiou no bolso.
Quando  a ambulncia chegou, disse aos paramdicos que encontrara o
professor no cho e  que este parecia ter batido a cabea na mesa. Mas
eles puderam ver quase de imediato  que o caso era mais grave. O
problema que notaram era muito provavelmente a  razo da queda, no o
contrrio. Acenderam uma pequena lanterna diante de seus olhos,
verificaram os sinais vitais e colocaramno numa maca, sem perder tempo
discutindo detalhes com Steve.
  - Ele vai ficar bem? - gritou Steve quando j saam. - O que ele tem?
  - Parece ter sofrido um derrame - gritaram de volta, e dois minutos
depois  tinham partido, com a sirene berrando, estridente. Steve tornou
a entrar na casa  com  um sorriso no rosto e fechou a porta.

Captulo 21

  Gabriella estava guardando uma pilha de livros novos quando o telefone
tocou  na livraria. Ian tinha sado para comprar o almoo, e ela desceu
a escada correndo para atender. Ainda pensava nos livros que estivera
olhando quando ouviu a voz  de Steve e percebeu imediatamente que alguma
coisa havia acontecido. Estava  agitado e quase chorando.
  - Algum problema? - Sua voz nunca tinha lhe parecido to perturbada.
  As coisas entre eles andavam um pouco tensas ultimamente. Ambos
estavam  chateados por ele ainda no ter arrumado emprego. Gabriella no
queria que Steve pensasse que o estava  pressionando, mas ter de cobrir
a despesa dos dois com o que ganhava a deixava  sempre preocupada.
  - O que foi?
  - Ah... ah, meu Deus, Gabbie, no sei como lhe dizer... - Ele sabia o
quanto  ela adorava o professor, e uma pontada de terror atravessou o
corao de  Gabriella ao ouvir aquelas palavras. No podia nem imaginar
o que estava tentando lhe contar.  - Foi o professor.
  - Ah, meu Deus, Steve... diga logo...
  - Cheguei em casa e o encontrei cado na sala de estar... parecia ter
batido a  cabea... tinha sangue do lado, e ele estava cado perto de
uma mesa. No sei se ficou tonto e caiu, ou se tropeou.
  - Ele estava consciente? - perguntou Gabriella, ofegante... ou ainda
pior, estava morto? No conseguia nem mesmo pensar nisso.
  - No exatamente. Disse algumas coisas incoerentes quando o encontrei
e depois  desmaiou. Liguei para a telefonista imediatamente para que
mandasse uma  ambulncia. Os paramdicos acham que ele deve ter sofrido
um ataque cardaco ou um derrame.  No sabiam ao certo. Acabaram de sair
daqui. Liguei para voc no minuto em que a ambulncia se foi. Ele foi
levado para o Hospital Municipal, no centro.
  Era um grande hospital pblico, e Gabbie no tinha certeza se ele
seria bem  atendido l. Havia meses ela, a sra. Boslicki e a sra.
Rosenstein vinham  implorando  para que ele fosse fazer uns exames. Sua
sade vinha piorando desde o inverno  anterior. Eles nunca mais haviam
sado juntos, e o professor mal tinha condies  de sair de casa, mesmo
para caminhadas curtas. E a tosse debilitante persistia.
  - Disseram que ligariam para ns assim que soubessem de alguma coisa.
Vou  ficar esperando aqui ao lado do telefone - disse Steve, prestativo,
e Gabbie  sentiu-se imediatamente grata por ele terlhe telefonado.
  - Graas a Deus que voc estava com ele ou que pelo menos o encontrou.
Vou  para l assim que Ian chegar. Ele s saiu para buscar nosso almoo.
- Tudo o que queria era pegar a bolsa e sair dali, mas no fecharia a
loja enquanto Ian estivesse na  delicatessen, sem avis-lo do que havia
acontecido.
  - Talvez seja melhor voc esperar que eles liguem - sugeriu Steve, mas
ela no  lhe deu ouvidos. No poderia ficar longe dele. O professor era
a nica famlia  que tinha e queria estar ao seu lado.
  - Eu no conseguiria ficar esperando o telefone tocar - disse
Gabriella,  ansiosa. - Vou para l no minuto em que Ian chegar. - Ao
dizer estas palavras,  viu o gerente entrar e acenou para que ele se
apressasse. - Ligo para voc do hospital - disse  ela, correndo, sabendo
que Steve estaria to aflito por notcias quanto ela prpria, assim como
os outros ficariam quando soubessem do acontecido.
  Ela contou tudo s pressas a Ian e desculpou-se por deix-lo sozinho,
mas ele  entendeu perfeitamente e desejou-lhe boa sorte quando Gabriella
saiu pela porta  da livraria carregando a bolsa. Ainda diante da loja,
fez sinal para um txi e, ao  entrar, disse ao motorista o nome do
hospital. Quando abriu a carteira para  pagar, surpreendeu-se ao ver que
havia ali muito pouco dinheiro. Tinha certeza de que  no dia anterior
havia mais do que aquilo e, nervosa e agitada, perguntou-se se  Steve
no teria mexido novamente em sua carteira sem permisso. Na maior parte
do  tempo, ficava to constrangido em lhe pedir que agora simplesmente
"pegava  emprestado", sem nada dizer. Entretanto, s vezes isso a
deixava sem dinheiro quando menos  esperava. Gabriella mal tinha o
suficiente para pagar ao taxista.
  Ao correr para a sala de emergncia, esqueceu-se do assunto e precisou
pedir  informao a vrias pessoas. Disse o nome do professor, e foi
bastante confuso  tentar entender o que estava acontecendo. Quase uma
hora depois, ela conseguiu obter  poucas informaes sobre o professor,
mas ao menos no falaram que ele havia  morrido no caminho para o
hospital. Quando o viu, porm, ficou chocada com o seu estado.  O rosto
dele estava cinza, e os olhos, fechados. Havia monitores ligados a todo
o seu corpo, e uma equipe inteira estava  sua volta, num esforo para
mant-lo  vivo. A fim de conseguir v-lo, Gabriella teve de dizer que
era sua filha.
  Ningum pareceu se dar conta de sua entrada na sala, enquanto a equipe
mdica  trocava frases desconexas entre si. O professor estava recebendo
oxignio e soro  na veia, ao mesmo tempo em que era submetido a um
eletrocardiograma. O tempo todo  Gabriella permanecia quieta num canto.
Muito tempo se passou at que algum a  notasse e perguntasse o que
fazia na sala. No tinham idia de quanto tempo ela estava  ali, parada,
as lgrimas escorrendo-lhe pelo rosto, apavorada com a  possibilidade de
no conseguirem salv-lo.
  - Como ele est? - indagou  enfermeira que se aproximou.
  -  seu av? - perguntou a mulher, lacnica mas solidria.
  - Meu pai. - Decidiu que era melhor continuar com a mesma histria e
sabia que  o professor ficaria lisonjeado.
  Ele sempre lhe dizia que ele e Charlotte teriam adorado ter uma filha
como  ela.
  - Ele sofreu um derrame - explicou a enfermeira da unidade de
traumatologia. - Est com o lado direito  paralisado. Ele no pode falar
e no tem coordenao motora no lado direito,  mas, quando  est
consciente, acho que nos escuta. Gabriella ficou chocada com o que a
mulher lhe disse. Como uma coisa to  terrvel assim podia ter
acontecido ao professor Thomas? E to depressa?
  - Ele vai ficar bom? - Ela mal teve coragem para sussurrar as
palavras, mas  queria algum tipo de certeza.
  -Ainda  um pouco cedo para dizer, mas o eletrocardiograma no est
parecendo  bom e a pancada na cabea, ao cair, foi muito forte, o que
agrava a situao.
  - Posso falar com ele? - perguntou Gabbie, lutando contra o pnico.
  - Dentro de alguns minutos - replicou a enfermeira, indo ento
juntar-se aos  outros.
  Mas os minutos transformaram-se em horas  medida que faziam mais
testes e  ligavam mais mquinas a ele. Quando o levaram para a UTI,
Gabbie j estava em  pnico. Tinha visto tudo que eles fizeram e, sem
dvida, estavam tendo dificuldades em  mant-lo respirando. Finalmente,
porm, deixaram-na v-lo na UTI.
  - No fale muito e no espere que ele responda. Seja breve recomendou
a  enfermeira encarregada, enquanto Gabriella se aproximava da cama. O
cabelo dele  parecia  ainda mais revolto do que o habitual, e os olhos
estavam fechados, mas se abriram  lentamente no instante em que a ouviu.
  - Oi - disse ela, baixinho -, sou eu... Gabbie...
  O professor parecia querer sorrir para ela e seus olhos
reconheceram-na  imediatamente, mas no podia se movimentar nem dizer
nada. Gabriella segurou-lhe  a mo  esquerda com delicadeza e a levou
at os lbios, enquanto uma lgrima solitria corria  pelo rosto do
professor e caa no travesseiro. - Tudo vai ficar bem - tentou
encoraj-lo, induzi-lo a lutar pela vida. - Foi o  que os mdicos
disseram - mentiu ela, mas o professor no pareceu acreditar.
  Ento, ele franziu a testa como se estivesse com dor e fez uma careta.
 Gabriella teve a sensao de que ele queria lhe dizer algo, mas no
tinha como.  Estava preso atrs de uma parede de pedra e tudo o que
conseguia fazer era segurar a mo  dela. Ento ele soltou uns grunhidos,
parecendo agitado, e a enfermeira  responsvel percebeu e disse que
Gabriella teria de ir embora.
  - Eu no posso ficar? - implorou ela com olhos suplicantes, e o
professor  apertou sua mo sem muita firmeza.
  - Voc pode voltar daqui a algumas horas. Ele precisa dormir -
advertiu a  enfermeira, desejando que as pessoas entendessem o que era
uma UTI. A presena  de visitas ali era sempre inconveniente e perigoso.
  - Eu volto mais tarde - sussurrou Gabriella, acariciando suavemente o
rosto do  professor.
  Ele fechou os olhos por um momento; depois, tornou a abrilos, emitindo
um  rudo gutural. Era bvio que estava tentando dizer-lhe algo.
  - No tente falar. Apenas descanse. - Beijou seu rosto e falou o que
ele j  sabia. - Eu amo o senhor - disse ela, do fundo do corao. Tudo
o que desejava  agora era que ficasse bom.
  Chorou no metr durante todo o percurso para casa. No tinha dinheiro
suficiente para pegar um txi e lembrou a si mesma de perguntar a Steve
sobre o  dinheiro em sua carteira quando chegasse em casa. Mas, ao
entrar na penso, todos estavam  to transtornados, que ela acabou
esquecendo. Steve, a sra. Boslicki, a sra.  Rosenstein e vrios outros
hspedes esperavam por ela. Estavam sentados na sala de estar  havia
horas, aguardando notcias, enquanto Steve explicava repetidamente o
estado do professor, onde o encontrara cado e o que achava que tinha
acontecido.
  - Como ele est? - perguntaram quase em unssono, no instante em que a
viram.
  - Eu no sei - respondeu Gabriella, com sinceridade. - Ele sofreu um
derrame e  bateu a cabea quando caiu. No pode falar, e o lado direito
est paralisado, mas me reconheceu. Ele fica tentando falar,  mas no
consegue, e parece muito perturbado. - No queria dizer a eles como seu
aspecto parecia horrvel, mas, de qualquer maneira, isso estava escrito
em seu rosto.
  A sra. Rosenstein comeou a chorar novamente to logo ouviu a
descrio de  Gabbie, que ento foi at ela, abraou-a e tentou
tranqiliz-la, dizendo que o professor ficaria bem, mas nenhum deles
podia ter certeza agora.
  - Como uma coisa destas foi acontecer to de repente? - Steve
rritou-se com o  destino.
  Todos comentavam a sorte que havia sido ele ter chegado e encontrado o
 professor antes que fosse tarde demais. Se isso no tivesse acontecido,
o  professor estaria morto agora. Disso ningum tinha dvida.
  - Acho que h algumas vantagens em se ficar desempregado - disse ele,
cincamente.
  Gabbie solidarizou-se com ele. Sabia como essa situao era
constrangedora  para Steve, mas ele vinha tendo muito azar, e ela
entendia. Arrependeu-se de  todas as queixas que andava fazendo
ultimamente e da presso que vnha exercendo sobre  ele. Sentiu-se
culpada agora, vendo o estado em que se encontrava o professor.  Isso a
fez pensar na velocidade com que a vida mudava e no quo facilmente
poda-se  perder as pessoas amadas. Tudo isso ela j tinha aprendido,
porm. E, assm, os  problemas entre ela e Steve lhe pareceram
insigniFicantes. Ele foi at ela e a abraou.
  - Eu sinto muito, Gabbie. - Sabia o quanto o professor significava
para ela,  ou pensava saber.
  Na verdade, no sabia. O professor Thomas havia se transformado no
smbolo  ltimo da famlia que ela nunca teve, a nica pessoa a quem
podia recorrer e com  a qual podia contar sempre, alm de Steve. Era o
pai que jamais tivera, o confdente e  o mentor adorado. Ele lhe dera a
fora, a esperana e o amor incondicional pelos quais ela sempre
ansiara. Ele significava para Gabriella tanto quanto madre  Gregoria,
embora o conhecesse havia menos tempo. E tendo j perdido tanto e
tantos, Gabbie sabia que perd-lo agora iria destru-la. Ele no podia
morrer. Ela no  permitiria.
  Gabriella ligou para o hospital vrias vezes, e a sra. Boslicki e a
sra. Rosenstein foraram-na a jantar. Ela mal conseguiu fazer com que a
comida descesse quando Steve subiu as escadas para fazer alguma coisa l
em cima. Mas Gabbie comeu umas colheradas do ensopado e dois dos famosos
bolinhos de massa da sra. Boslicki, apenas para agradar as duas
senhoras. Assim que terminou, levantou-se da mesa.
  - Vou voltar ao hospital agora - anunciou, procurando a sua bolsa.
Ento lembrou-se de que no tinha dinheiro. Foi correndo at o  quarto.
Tinha guardado um envelope com dinheiro numa gaveta, debaixo das meias,
e tirou-o depressa do esconderijo, mas se  surpreendeu ao ver que estava
vazio. Na manh do dia anterior havia duzentos dlares ali, e para ela o
paradeiro daquele dinheiro no era nenhum mistrio. No desejava
confrontar Steve numa hora dessas, mas tambm no queria pegar o metr 
noite. Desceu as escadas at o quarto de Steve e o encontrou l, lendo
algumas cartas que tinha escrito.
  - Eu preciso de dinheiro para o txi - disse ela, sem cerimnia.  -
No tenho nada, benzinho.
  - Sinto muito. Tive de comprar umas coisas na papelaria hoje e as
fotocpias do meu currculo custaram uma fortuna. - Parecia estar se
desculpando com sinceridade, mas ela no estava disposta a aceitar suas
desculpas agora.
  - Ora, vamos, Steve, voc pegou duzentos dlares do meu envelope e
quase tudo que eu tinha na carteira. - Ambos sabiam que mais ningum
poderia ter feito isso.
  - Honestamente, amor, no peguei. S apanhei quarenta dlares ontem 
noite para as fotocpias. Desculpe por ter me esquecido de lhe  dizer.
Ia contar hoje  noite, mas com tudo que aconteceu, acabei me
esquecendo. S tenho dois dlares. -Abriu a carteira para mostrar-lhe, e
ela ficou ainda mais aborrecida por ele estar mentindo. Sabia que se
sentia constrangido por estar pegando dinheiro dela e que s vezes
mentia  sobre o assunto. Mas as histrias dele no pagariam a corrida do
txi.
  - Steve, por favor, preciso do dinheiro. No tenho um centavo para
chegar ao  hospital e agora s recebo na sexta-feira. Voc tem de parar
com isto. - Ultimamente, todas as vezes em que abria a carteira  para
pagar alguma coisa, descobria que estava vazia. Mas esta no era hora
para  as tolices dele.
  - Eu no fiz nada - afirmou Steve, imediatamente parecendo ofendido e
irritado. - Voc est sempre me acusando de alguma coisa. Ento no v
como isso   difcil para mim? Acha que eu gosto de fazer isso?
  - No posso discutir esse assunto agora - disse ela, sentindo o pnico
domin- la outra vez. S queria voltar para junto do professor.
  - Pare de me acusar por tudo. No  justo.
  - Desculpe. - Sempre tentava ser justa com ele, mas as circunstncias
desiguais entre eles fazia com que ambos ficassem irritadios. - Com
certeza no   a sra.  Rosenstein que est fazendo isso - disse,
procurando manter-se calma. - E algum est  levando todo o meu
dinheiro. Eu no queria ter sido rude com voc.
  - Est desculpada - disse ele, indo beij-la. - Quer que eu v com
voc? - Parecia mais terno depois dos pedido de desculpa,  embora ainda
estivesse visivelmente magoado.
  Gabriella sempre se sentia pssima depois de acus-lo de alguma coisa.
Talvez  no fosse mesmo Steve. Ela muitas vezes deixava a porta do
quarto destrancada.  Poderia ser um dos outros hspedes e, fitando o
rosto de Steve, comeou a acreditar  naquilo.
  - No, est tudo bem. Se alguma coisa acontecer, eu telefono. - Desceu
 correndo as escadas, depois de beij-lo novamente, e, constrangida,
pediu  sra.  Boslicki o dinheiro do txi emprestado.
  Sem hesitao, a senhoria tirou uma nota de dez dlares da bolsa. Era
a  primeira vez que Gabriella lhe pedia algo, e ela no ficou surpresa.
Todo mundo  sabia que a menina estava sustentando aquele malandro. A
essa altura todos j estavam  fartos dele, de suas historinhas sobre a
Stanford e a Yale e das desculpas por  no arrumar trabalho. No
conseguiam entender, j que todo mundo arranjava. Talvez achasse  que
era bom demais para os empregos que lhe ofereciam. Recebia inmeros
telefonemas, e estes tinham de ser por alguma coisa. A sra. Boslicki
agora se arrependia de  ter  empurrado Steve para Gabbie no Natal.
Achava que a menina poderia arrumar algo  muito melhor.
  - Ligue para nos dizer como ele est - pediu a sra. Boslicki, e
Gabriella saiu  correndo pela rua para chamar um txi.
  To logo ela viu o professor, sentiu que as coisas no iam bem.
Parecia  inquieto e com dor, e todas as vezes em que olhava para Gabbie,
ficava agitado e  encarava-a to fixamente, que ela se assustava. Por
fim as enfermeiras pediram que sasse  novamente, mas ela resolveu ficar
no hospital mesmo e dormir no sof do corredor  da UTI, para o caso de
alguma coisa acontecer.
  Ao amanhecer, voltou a sentar-se ao lado dele. A enfermeira de planto
lhe  disse que o professor estava acordado, e ele parecia um pouco mais
tranqilo.
  - Oi - sussurrou Gabbie, sentando-se perto dele. - Todo mundo da
penso mandou  lembranas. - Havia esquecido de dar o recado na noite
anterior, mas tinha  certeza de que ele j sabia daquilo. - E a sra.
Rosenstein me pediu para lhe dizer que  tome o remdio e no fique
criando caso. - Ela havia mesmo dito aquilo, enxugando os olhos com um
leno. - Todos ns o amamos - disse ela, com toda sinceridade.
  Passara a noite inteira pensando em pedir uma licena para cuidar do
professor  quando ele fosse para casa. Tinha certeza de que Ian
entenderia, pelo menos por  algumas semanas. De qualquer maneira, suas
frias estavam chegando, e no havia nada no  mundo que desejasse mais
do que ficar com ele. Comeou a lhe contar sobre uma histria que
escrevera na semana anterior e falou que Steve adorara. Ao dizer aquilo,
o  professor franziu o cenho outra vez, levantou a mo esquerda e
lentamente  sacudiu o dedo para ela. Estava muito fraco e mal tinha
foras para levantar a mo boa.  Gabriella sorriu ao ver o que a sra.
Rosenstein chamava de "o famoso dedo". Ele  estava sempre apontando e
brandindo o dedo para algum, com o intuito de enfatizar uma  opinio ou
advertir a pessoa de alguma coisa. Gabbie achou que a estava
repreendendo por no escrever com mais freqncia.
  - Eu vou - prometeu, pensando ter compreendido, mas sem de fato
entender. - S  que tenho estado to ocupada com o  trabalho e tentando
ajudar Steve.  difcil para ele ainda estar desempregado -  disse ela,
suavemente, enquanto o dedo tornava a se agitar, e ele parecia  prestes
a chorar. - No tente falar - admoestou Gabriella. - Vo me mandar sair
de novo se  o senhor ficar exaltado. Quando for para casa, faremos a
reviso de algumas  histrias juntos.
  No conseguira vender nenhum conto depois do primeiro, mas sabia que
no  estava escrevendo com tanta dedicao quanto deveria. Os outros
aspectos de sua  vida a  estavam deixando muito perturbada. E agora
isso. No podia se ver escrevendo uma nica  palavra enquanto estivesse
preocupada com o professor. Tudo que queria fazer  agora era instig-lo
a viver e ajud-lo a recuperar a sade. Era a nica coisa que  importava
para ela.
  O professor tornou a fechar os olhos e dormiu por algum tempo, mas era
um sono  agitado e todas as vezes em que abria os olhos e via Gabbie
sentada a seu lado,  encarava-a fixamente, como se quisesse que ela
soubesse o que estava pensando. A enfermeira  de planto naquele dia foi
compreensiva quanto a deix-la ficar ali. Todas as  outras faziam-na
seguir as regras da UTI, obrigando-a a sair do quarto regularmente.
Esta, entretanto, deixou-a ficar ali sentada num canto, em silncio,
vendo o  professor dormir e rezando por ele. Desde os tempos no
convento, Gabriella no rezava com  tanta veemncia e por tanto tempo. E
pensou nas irms e em madre Gregoria,  lembrando-se da comunidade de que
fizera parte, de sua fora silenciosa e da certeza absoluta  que tinham
de que seu Deus sempre as amaria e protegeria. Era isso que pedia
agora: poder recorrer  f que a ajudara a sobreviver a tudo. E queria
que o professor  tambm a sentisse.
  Ele ainda estava cochilando quando Gabriella finalmente o deixou
naquela tarde  para ir em casa tomar banho, mudar de roupa e dar
notcias aos outros. Seu  estado parecia ter se estabilizado, e ela
acreditava que ele ficaria bem por um tempo.  Gabriella beijou-o
suavemente no rosto antes de sair, mas ele no se mexeu dessa vez. Enfim
mergulhara num sono profundo, e Gabbie virou-se da porta, sorrindo.  Ele
iria ficar bom. Era forte, e Gabriella podia sentir que estava lutando
para  manter-se vivo. Foi o que tentou dizer  aos outros. A sra.
Rosenstein ia visit-lo naquela tarde, e a sra. Boslicki j  falava dos
pratos que prepararia para ele quando voltasse para casa. Steve no
estava, mas deixara um bilhete. Tinha ido jogar beisebol com um amigo,
algum que sabia  de um trabalho para ele, e prometeu v-la mais tarde.
  Gabbie ficou debaixo do chuveiro por um longo tempo, deixando a gua
quente  correr sobre o corpo e pensando no homem que lutava pela vida na
UTI, e tudo o  que  ele representava para ela. Era muito mais do que um
simples amigo. Agora fazia parte  de sua alma, e Gabriella sabia que no
podia perd-lo. Faria o que fosse preciso para mant-lo vivo, verteria
sua prpria vida nele se necessrio. Deus lhe dera  o professor, e ela
no deixaria que ele se fosse. No permitiria que Ele o  tomasse dela.
No tinha esse direito. Havia levado tantos. O seu senso de justia lhe
dizia que no o perderi.
  Quando voltou ao hospital, a sra. Boslicki e a sra. Rosenstein estavam
de  sada. As duas tinham lgrimas nos olhos e contaram a ela que o
professor tivera  uma  espcie de recada. A paralisia do lado direito
parecia pior, e ele estava respirando  com dificuldade. Por fim,
fizeram-lhe uma traqueotomia e ligaram-no ao  respirador. Quando Gabbie
o viu, ao entrar no quarto profusamente iluminado, ele parecia  exausto.
  - Ouvi dizer que no se comportou muito bem hoje - disse ela, enquanto
se  sentava. - J me falaram que o senhor fica beliscando todas as
enfermeiras. - Os  olhos do professor sorriram levemente, e ele
continuava a fit-la com intensidade. Mas  o dedo no se agitava mais, e
ele no emitia qualquer som. No podia, com o  respirador. Parecia mais
fraco, mas estava um pouco mais corado. Gabbie tagarelou com ele,
sabendo que podia ouvir o que ela dizia, e falou sobre as coisas que
fariam  quando fosse para casa. Fingiu reclamar que ele no a levava
para jantar fora havia  sculos. - O fato de Steve estar na minha vida
no quer dizer que no possamos  sair. Ele no tem cimes do senhor,
embora devesse ter. - Beijou novamente seu rosto e  os olhos se
fecharam. Ele parecia estar enfrentando uma batalha terrvel.  Gabriella
contou que Steve tinha ido jogar beisebol naquela tarde com algum que
sabia de  um emprego, e os olhos do professor abriram-se novamente,
encarando-a, embora o quarto estivesse repleto de silncio. O rudo das
mquinas que o mantinham vivo  e monitoravam o seu estado era o nico
som entre os dois.
  Gabbie passou toda a tarde com ele e estava pensando em ir para casa 
noite,  mas acabou ligando para a penso e dizendo a Steve que decidira
ficar. Ele falou  que ia jantar com os rapazes com quem tinha jogado
beisebol. Haviam tido um dia  timo, e seu time havia vencido. Eram bons
rapazes e todos trabalhavam em  empresas da Wall Street. Parecia um
contato excelente para ele, e Gabbie ficou aliviada ao  ver que estava
ocupado e no se importava que ela ficasse no hospital. Vinha
sentindo-se culpada por abandon-lo e, depois que desligou, ela se
perguntou como Steve  pagaria o jantar. Ainda pensava no assunto quando
voltou  UTI e sentou-se na  cadeira habitual ao lado do professor.
  Ele passou quase toda a noite tranqilo. O respirador parecia mant-lo
mais  calmo. No precisava mais lutar para respirar. E, no meio da
noite, procurou a  mo  de Gabbie com a que estava boa, segurando-a com
suavidade.
  - Eu amo o senhor - sussurrou ela. s vezes imaginava se ele no
estaria  pensando que ela era Charlotte. Havia uma expresso serena em
seus olhos sempre  que os  abria. Na maior parte do tempo mantinham-se
fechados, mas, s vezes, quando Gabriella  abria os seus, via que o
professor estava olhando para ela. Mais tarde, durante  a noite, ela
teve a estranha sensao de que ele estava feliz. Talvez tambm
soubesse que ficaria bom, pensou Gabriella. Talvez sua fora houvesse
sido  transmitida a ele, motivo por que ela desejava ficar ali com ele.
  Ambos dormiram durante algum tempo, de mos dadas, enquanto a cabea
de Gabbie  pendia e ela pensava em muitas coisas. Naquela noite teve
sonhos esquisitos com  Joe, o pai, Steve e o professor. Pensava nele
quando acordou. O cu estava ficando  cinza, e havia riscas cor-de-rosa
surgindo no horizonte. Era o comeo de um novo  dia, e a luta
continuava. Mas Gabriella no tinha mais dvida de que o professor
sairia desta e, quando se virou para ele, seus olhos estavam fechados e
o  queixo, cado. Parecia completamente relaxado. A mquina respirava
por ele de forma ritmada, e, ao olhar para o respirador, um dos
monitores soltou um gemido agudo e outro  comeou a apitar. Gabriella
no teve nem tempo de se perguntar o que estava  acontecendo;
  imediatamente duas enfermeiras entraram correndo. Uma luz azul
acendeu-se, e  dois enfermeiros chegaram, afastando Gabbie e dando
incio aos procedimentos de  ressuscitao cardiopulmonar, apertando com
fora o trax do professor, enquanto contavam em  silncio as
compresses. O quarto de sbito encheu-se de gente, e Gabbie, tomada
pelo pavor, ouvia o que diziam e comeava a entender o que havia
acontecido. O  respirador ainda respirava por ele, mas o corao parara.
A equipe mdica  trabalhou freneticamente durante um tempo. Depois um
dos homens balanou a cabea, e uma enfermeira falou  gentilmente com
Gabbie.
  - Ele se foi... Eu sinto muito... - Gabriella ficou parada, olhando
para eles  sem acreditar. Sabia que estavam mentindo para ela. Tinham de
estar. Ele no  podia fazer aquilo. Estivera ali ao lado dela... olhara
para ela... ela prpria  segurara sua mo e desejara com toda a sua
fora que ele vivesse. No podia  morrer agora. No podia. Ela no
deixaria. Mas ele tinha morrido. Havia deixado a vida  serenamente e
seguido ao encontro de Charlotte, a quem tanto amava.
  Em seguida, desligaram o respirador e deixaram o quarto. Gabbie
permaneceu  ali, quieta, olhando para ele, recusando-se a acreditar no
que acabara de  acontecer.  Sentou-se perto dele outra vez, pegou sua
mo e falou com ele como se ainda pudesse ouvi- la.
  - O senhor no pode fazer isso comigo - sussurrou, enquanto as
lgrimas  escorriam-lhe pelo rosto. - Eu preciso demais do senhor... no
me deixe sozinha  aqui...  no v embora, por favor... volte... - Mas
sabia que ele no voltaria. Estava em paz  agora. Tivera uma vida plena.
Oitenta e um anos. E no lhe pertencia. Nunca  pertencera. Havia sido
apenas emprestado a ela por um tempo curto, insuficiente. Ele  pertencia
a Deus e a Charlotte. E, assim como todos os outros, ele a deixara.  Sem
maldade, sem raiva, sem acusaes ou recriminaes. Ela no fizera nada
para mago-lo ou  para obrig-lo a ir embora. O professor no a culpava
por nada. S aconteceram  coisas boas entre os dois. Mas, ainda assim,
ele tinha ido embora, em seu tempo, para outra dimenso, outro lugar,
onde ela no podia  estar com ele.
   Uma enfermeira apareceu e perguntou se precisava de alguma coisa, mas
ela  sacudiu a cabea. S queria ficar com ele pelo tempo que pudesse. E
ento  perguntaram-lhe sobre as providncias a serem tomadas.
  - Eu no sei. Terei de ver o que ele queria. - Nem sabia a quem
perguntar.  Talvez  sra. Rosenstein. Ele no tinha familia, filhos ou
parentes, apenas os hspedes da penso onde vivia fazia quase vinte anos
e Gabbie. Era um triste fim para uma  vida to plena e uma grande perda
para todos. Ele dera tanto a ela... tanto  amor, tanta sabedoria, tanto
domnio sobre sua escrita. No sabia o que faria sem ele.
  Finalmente levantou-se e o beijou pela ltima vez, percebendo que ele
de fato  se fora. O esprito havia alado vo. Apenas o corpo ficara,
enfraquecido,  cansado e sem importncia. O melhor dele j no estava
mais ali. E, ao pousar a mo do  professor suavemente sobre a cama,
sussurrou:
  - D lembranas minhas a Joe... - Em sua cabea no havia a menor
dvida de  que estariam juntos.
  Gabriella saiu lentamente da UTI, pegou o elevador e desceu, saindo no
sol  brilhante de julho. Fazia um lindo dia, e no havia nuvens no cu.
As pessoas  entravam e saam do hospital, e lhe pareceu estranho
ouvi-las falar e rir. Era to  esquisito que a vida devesse continuar,
que o mundo no tivesse parado, mesmo  que brevemente, para acusar a
passagem dele. O peso que sentia no corao lembrou-lhe o dia em  que
deixara o convento. Quase pde ouvir uma porta se fechando s suas
costas ao  comear a caminhar lentamente para a penso onde morava, na
parte alta da cidade. No  podia pegar nem txi nem metr dessa vez, mas
no se importava. No tinha  dinheiro na bolsa, mas queria um pouco de
ar e tempo para pensar nele sozinha e, enquanto  caminhava devagar sob o
sol de vero, quase podia senti-lo ao seu lado. Ele no a abandonara,
afinal. Havia lhe deixado tantas coisas, tantas palavras,  sentimentos e
histrias. Embora tivesse ido embora, como todos os outros, Gabbie
sabia que dessa vez era diferente.

Captulo 22

  Para grande surpresa de todos, o professor Thomas deixara os seus
negcios  extremamente bem ordenados. Ele sempre parecera um pouco
reticente a todos, e  Gabbie esperava encontrar tudo confuso, mas, ao
contrrio, ele deixara fichrios  organizados, um testamento selado e
instrues detalhadas. Queria um pequeno  culto fnebre, e no um
funeral pomposo, de preferncia ao ar livre, e desejava que lessem uma
passagem de Tennyson e um pequeno poema de Robert Browning que sempre o
fizera  lembrar-se de Charlotte. Tinha um cofre num banco no centro da
cidade e um arquivo enorme  cheio de correspondncias.
  A sra. Rosenstein estava arrasada e comportou-se como uma viva
aflita. Mas a  sra. Boslicki e Steve foram muito prestativos, tomando as
providncias  necessrias. Foram a uma casa funerria das redondezas e
escolheram um caixo escuro. O  professor deveria ser enterrado em Long
Island, onde estava Charlotte. E fizeram  tudo precisamente como ele
havia pedido.
  Alguns hspedes da penso foram ao enterro em Long Island em uma
limusine  alugada. Gabriella ficou parada durante muito tempo ao lado do
tmulo e deixou  uma rosa vermelha solitria sobre  o caixo. O nico
acrscimo ao que o professor solicitara para o enterro foi um  poema que
Gabbie havia escrito para ele e que ela prpria leu, com a voz  tremendo
de emoo. Steve manteve-se a seu lado, segurando-lhe a mo, e ela
tentou no  pensar em Joe enquanto lia. Era grata  presena de Steve em
sua vida e  fora  que ele lhe dava agora. Ele fora maravilhoso com
todos e at se redimiu junto  sra.  Boslicki.
  O professor Thomas foi enterrado com seu nico terno escuro, e o
restante de  seus pertences foi doado em caridade. Saiu um pequeno
obiturio no The New York  Times, e acabaram por descobrir que a
carreira acadmica do professor fora repleta de  honrarias e prmios de
que nenhum deles ouvira falar. Foi feita uma leitura  formal do
testamento na sala de estar, conduzida por um dos hspedes, que era um
advogado aposentado. Ele os instruiu sobre o que deveriam fazer, e o
testamento  foi aberto pela primeira vez na presena de todos. Estava
escrito com a caligrafia  caprichada e cuidadosa do professor, e era
mais uma formalidade do que uma  circunstncia legal sria, j que todos
sabiam que ele tinha muito pouco.
  Entretanto, o que o advogado leu deixou todos estarrecidos e,  medida
que lia  as doaes, seus olhos iam se arregalando, assim como os de
todos os outros. O  professor tinha juntado e discretamente investido
muito dinheiro. Havia morado na penso  no por necessidade, mas apenas
porque gostava dali.
  Para cada uma de suas boas amigas Martha Rosenstein e Emma Boslicki,
ele  deixava a quantia de cinqenta mil dlares, com amor e gratido
pela bondade que  lhe haviam dispensado ao longo de tantos anos de
amizade. Tambm deixava para a sra.  Rosenstein o relgio de ouro, que
era a nica jia que possua, e sabia que  significaria muito para ela.
A mulher chorou quando o advogado leu essas palavras. Quanto ao  resto
de seus bens materiais, a nica coisa que tinha valor para ele era a
biblioteca, e esta ele deixava inteira para sua jovem amiga e protegida,
Gabriella Harrison,  assim como tambm o que restava de suas contas
bancrias e dos investimentos,  que, quando de sua morte, somavam pouco
mais de seiscentos mil dlares. Houve um  sbito arquejo na sala, quando
o  advogado fez uma pausa para respirar e olhou para Gabriella. As
cautelas das  aes aparentemente estavam todas no cofre do banco e tudo
parecia em ordem. Mas  Gabriella no podia acreditar no que o advogado
acabava de dizer. Era impossvel, uma  piada. Por que deixaria tudo
aquilo para ela? Mas isso ele tambm explicava na  carta. Achava que ela
usaria o dinheiro de maneira inteligente e que ele a ajudaria a  iniciar
uma carreira literria sria sem o peso da preocupao financeira, que
poderia, de outra forma, retardar seu progresso. O professor achava que
ela era jovem o  bastante para que o dinheiro fizesse uma diferena real
em sua vida e que este  lhe daria o tipo de segurana que no tivera nos
ltimos tempos, se  que um dia a  tivera. Disse tambm que a
considerava a filha que nunca teve e lhe oferecia  tudo aquilo com o
amor, o afeto e a grande admirao que sentia por ela como  escritora e
pessoa. Depois, agradecia e desejava felicidade a todos, e assinava  a
carta de maneira formal: Professor Theodore Rawson Thomas. A carta
encontrava-se  devidamente datada e assinada, e o advogado assegurou a
todos que estava  legalmente correta e em ordem.
  Houve um silncio de perplexidade na sala quando o homem terminou;
depois, um  murmrio de vozes, exclamaes e parabenizaes a Gabbie.
Estavam sinceramente  satisfeitos por ela e no invejavam a sua sorte.
Ela se sentia uma herdeira e, ao olhar para  Steve, viu que sorria para
ela. Era fcil ver que estava feliz por Gabbie, e  ficou aliviada ao
constatar que ele no parecia zangado ou com cimes. Ningum  parecia.
Todos achavam que era merecido.
  - Imagino que agora v nos deixar - disse a sra. Boslicki, triste, a
Gabbie. -  Afinal voc pode comprar sua prpria casa falou, sorrindo
entre as lgrimas, e  Gabbie a abraou.
  - No seja boba. No vou a lugar algum. - Ainda no podia acreditar.
  Estavam todos estupefatos com a notvel fortuna discretamente
acumulada pelo  professor. Ningum jamais suspeitara de que ele tivesse
mais do que a sua  aposentadoria, mas isso de fato explicava sua
freqente generosidade em levar Gabbie para  jantar fora. O testamento
explicava muitas coisas, principalmente o quanto  gostava dela.
Gabriella s lamentava no poder lhe agradecer.  Entretanto, os nicos
agradecimentos que ele desejara dela era que seguisse a  carreira de
escritora, e agora ela tinha inteno de faz-lo, tanto em homenagem  ao
professor, quanto por seu prprio prazer.
  - E agora, princesa, uma limusine ou frias em Honolulu? - brincou
Steve,  enquanto a abraava. Mas mesmo ela tinha de admitir que aquele
dinheiro com  certeza reduzia os seus problemas. Mudava muitas coisas, e
Gabbie s estava triste por no poder  compartilhar a notcia com madre
Gregoria e as irms do So Mateus. Talvez  houvesse de fato um aspecto
positivo em todas as coisas. Se no lhe tivessem fechado a  porta do
convento, isso jamais teria acontecido. Fora um ano extraordinrio para
ela, e era difcil acreditar que apenas dez meses haviam se passado
desde que deixara  o convento. O professor escrevera o testamento em
junho, como se tivesse um  pressentimento de que sua hora estava
chegando. Mas com a sra. Rosenstein adoecendo naquela  primavera e sua
prpria sade tornando-se mais delicada, ele quis fazer conhecer  a sua
vontade, o que acabou sendo providencial.
  Naquela noite todos saram para jantar, e Gabriella oficialmente pagou
a  conta, embora a sra. Boslicki tivesse de lhe adiantar o dinheiro.
Quando  voltaram  penso, Gabbie foi silenciosamente ao quarto do
professor e examinou a biblioteca que  herdara. Havia ali belos livros,
inclusive os que ela prpria lhe presenteara no  ltimo Natal. Depois,
ela se sentou  escrivaninha, olhou os fichrios, abriu uma das  gavetas
para ver se tinha mais papis e reparou numa pilha ordenada de cartas
com a etiqueta "Steve Porter". Fcou surpresa por v-las ali e as
retirou da gaveta.  Eram cpias de toda a correspondncia que o
professor mostrara a Steve na semana anterior. As cartas para a Stanford
e a Yale com suas respostas, alm de uma  srie de outras cartas
enviadas por vrios departamentos de correo. Ao olh- las e ler uma
por uma, cuidadosamente, os olhos de Gabriella arregalaram-se de horror.
Descobriu naqueles papis um homem que jamais havia conhecido, vrios
deles, um "monstro", como o professor o chamara. Gabriella leu a lista
dos muitos nomes  falsos, os crimes, as sentenas e o tempo que tinha
passado em vrias cadeias e  pentencirias, na maior parte das vezes
por falsificao e extorso. Tirara dinheiro de  mulheres em  vrios
estados, e era bem conhecido por seu estilo: tinha um caso com elas e
ento as usava de todas as maneiras at esgotar suas economias.
Ocasionalmente  tambm vendia pequenas quantidades de droga. Fazia o que
fosse preciso para extorquir  dinheiro de todo mundo. Gabriella percebeu
numa carta, baseada na entrevista de  uma assistente social com Steve na
cadeia, que ele no conclura nem o curso  secundrio. Quanto mais
freqentar Yale e Stanford. Mas as implicaes daquilo  para ela eram
mais assustadoras do que a falta de um diploma. De repente se deu conta
do  que vinha acontecendo nos ltimos sete meses e o que ele estava
fazendo. Ele a  usara de forma cruel e impiedosa, no dava a mnima para
ela nem se importava com quem  ela era. No havia acontecido nenhum
acidente ou noivado. Seus pais tinham  morrido quando ainda era criana,
e ele crescera em lares de adoo e instituies  estaduais. No havia
nenhuma me doente em Des Moines, e seu pai no morrera no  ano
anterior. Todas as coisas que lhe dissera para conquistar sua simpatia e
aproximar-se dela  eram mentiras. Todas. At o nome que usava no era o
seu de fato. O Steve Porter que ela conhecia e acreditava amar no
passava de uma inveno.
  Isso era pior do que qualquer coisa que lhe acontecera antes, pior at
do que  perder Joe. Aquilo havia sido doloroso, mas era real, e
Gabriella sabia que ele  a  amava. J este homem era um vigarista e um
criminoso. Havia mentido, roubado e tirado  vantagem dela de todas as
formas possveis. De repente se sentiu enjoada e suja.  Sentiu-se mal s
em pensar nele e nas coisas que fizera com ela, nas intimidades que
tinham compartilhado. Sentiu-se como uma prostituta, embora fosse ele o
prostituto. Na verdade, era pior do que isso.
  Ficou ali sentada muito tempo com as cartas na mo e ento tornou a
guard-las  na gaveta, trancando-a. No sabia o que dizer a ele, como
fugir dele. Depois,  com uma sensao de pavor, perguntou-se se o
professor no o teria confrontado, se  Steve no saberia o que o
professor descobrira e se, de alguma forma, no o  tinha machucado.
Aquela idia fez Gabriella tremer. Ela sentiu-se mal ao pensar em tal
hiptese, mas de repente soube que alguma coisa terrvel tinha
acontecido.
  Deixou o quarto do professor em silncio e voltou ao seu. Estava
sentada na  cama, tentando pr ordem no emaranhado de seus pensamentos,
quando Steve entrou  no  quarto e a viu.
  - Voc est bem? - Parecia estranha, mas tivera um dia difcil. Era um
 verdadeiro prmio pelo qual ele nunca esperara. Achava que o velhote
era pobre,  e que teria de continuar vivendo com o salrio de Gabriella
e suas magras economias. Aquela  herana cara do cu, e Steve no tinha
a menor dvida de que tinha Gabriella na palma da sua mo.
  - Eu estou com uma dor de cabea horrvel - disse ela, parecendo
atordoada.  Estava chocada com as coisas que descobrira na escrivaninha
do professor e  virou-se  para olhar Steve como se fosse um estranho. E
era. Nada do que sabia sobre ele  existia.
  - Ora, meu amor - disse ele, loquaz e de bom humor -, voc pode
comprar um  bocado de aspirina com seiscentos mil dlares. O que acha de
jantarmos fora  amanh para comemorar? E quem sabe depois irmos a algum
lugar... Paris... Roma... Atlantic  City... -As possibilidades eram
infinitas. Agora tinha de trabalhla de verdade,  e a Europa seria o
lugar perfeito para isso.
  - No consigo pensar nisso agora, Steve. Alm do mais, no posso
simplesmente  deixar Ian de uma hora para outra. E o professor queria
que eu usasse o dinheiro  para escrever. No posso sair por a gastando
tudo, no seria justo com ele. - Nem  sabia por que estava perdendo seu
tempo em se justificar com ele, mas tinha de  dizer alguma coisa.
Precisava ganhar tempo at resolver o que ia fazer. Entretanto, o
simples ato de olh-lo agora j era doloroso, principalmente se ele
tivesse  mesmo alguma participao no "acidente" do professor, ou em sua
morte, como ela agora  suspeitava.
  - Deixe eu lhe dizer uma coisa - falou ele, parecendo divertir-se com
suas  dores de conscincia - O professor nunca vai saber o que voc fez
com o  dinheiro.   seu agora.
  Ela concordou com a cabea, incapaz de pensar em alguma coisa para
dizer a  ele. Sua verdadeira natureza comeava a se mostrar.
  Naquela noite, como sempre, dormiram no quarto de Gabriella. Steve
usava o  dele apenas como escritrio e para guardar suas coisas.
  Ela tornou a lhe dizer que estava se sentindo mal. Se tentasse tocla,
ela  iria bater nele. O abuso praticado por Steve era de um tipo que
Gabriella no  conhecia, mas, no obstante, se tornara transparente para
ela. No era menos srdido do  que o praticado pela me, no era fsico,
mas,  sua maneira, era igualmente  ofensivo.
  Pela manh, Gabriella fimgiu ir ao trabalho s para livrar-se dele,
mas ligou  para Ian de uma cabine telefnica e disse que estava doente.
Depois foi para o  parque e sentou-se num banco, tentando decidir o que
fazer.
  Sabia que Steve sairia para almoar com amigos. Naquela manh falara
novamente  sobre irem para a Europa, mas Gabriella fingiu estar
entretida demais em vestir- se para responder, e ele no tinha motivo
nenhum para suspeitar de nada.
  A sra. Boslicki tambm ia sair naquele dia. Disse que tinha de comprar
uma  cama nova, pois um dos ltimos hspedes havia posto fogo no
colcho. E a sra.  Rosenstein tinha consulta com o mdico. E todos os
outros trabalhavam. Gabriella sabia que,  se esperasse at a hora do
almoo, poderia ficar sozinha para examinar o quarto do professor.
Queria ver se havia mais documentos incriminando Steve e depois  falar
com o advogado para ver o que deveria fazer. Mas se havia uma coisa que
sabia era que queria Steve longe de sua vida o mais rpido possvel. No
pretendia  passar nem mais uma noite com ele ou deixar que a tocasse.
Queria pedir  sra.  Boslicki que o expulsasse. Ele no pagava o aluguel
havia meses, e Gabriella sabia que,  se ela no o pagasse, ele no o
faria. Mas mesmo isso levaria tempo, pelo menos  semanas. No sabia como
conduzir a situao nesse meio tempo. No havia ningum com quem
pudesse se aconselhar.
  Voltou a casa ao meio-dia, sabendo ter esperado tempo suGciente. A
penso  estava silenciosa quando entrou. Todos tinham sado, e ela
correu pelas escadas  at o  quarto do professor, deixando a porta
aberta. No havia ningum ali para ver o que  estava fazendo. Abriu a
gaveta da escrivaninha, retirou a pilha de cartas  novamente e, ao
l-las dessa vez, viu que eram ainda mais horrendas do que pensava.
Estudou  cuidadosamente cada detalhe, os nomes falsos, os crimes e a
lista de mulheres  que ele usara por todo o pas. Tendo em vista sua
idade, ele andara bastante ocupado.  Gabrella ainda estava absorta na
leitura quando subtamente ouviu um barulho s  suas costas. Virou-se e
viu Steve sorrindo para ela da porta.
  - J est contando o dinheiro, Gabbie? Ou est querendo encantrar
mais? No  seja gananciosa, benzinho. - Sorria de maneira estranha, e
Gabriella deu um pulo  ao  v-lo.
  Seu rosto empalideceu de imediato e ela no sorriu. No conseguia.
  - Eu s queria dar uma olhada em algumas das coisas dele. Ian me deu
um  intervalo grande de almoo. - Steve no disse nada ao caminhar
lentamente em sua  direo. Ela se perguntava se ele cancelara o almoo,
se aquela era ainda mais uma de  suas mentiras ou se tudo era apenas uma
armadilha e ele sabia exatamente o que  ela estava lendo. Talvez
soubesse o tempo todo. Gabriella no sabia o que pensar agora.
  - Leitura interessante, no ? - Ele apontou para a pilha ordenada de
cartas,  e Gabriella soube, pela expresso de seus olhos, que ele as
tinha visto antes. E  no ligava para o que ela sabia agora. Estava
interessado apenas no dinheiro.
  - No sei do que voc est falando - disse ela, evasiva, virando uma
das  cartas para esconder as outras.
  - Sabe, sim. Ele conseguiu lhe contar antes de morrer? Ou voc
simplesmente as  encontrou? - Steve voltara  penso para procurar
cpias das cartas que ainda poderiam existir. O velhote era o tipo de
pessoa que se precaveria.
  - O que voc acha que eu encontrei? - Estava brincando de gato e rato
com ele,  e ambos sabiam disso.
  - Meu pequeno histrico. O professor fez uma pesquisa bastante
meticulosa.   claro que h mais coisas, mas ele conseguiu reunir todos
os pontos altos.
  Parecia ter orgulho de tudo aquilo e estar to confiante que Gabriella
se  sentia mal s de olh-lo. Quem era aquele homem? No era nada para
ela. Um  completo estranho.
  - Ns tivemos uma conversa no dia em que ele... ah... caiu - disse ele
com  nfase estudada, e os olhos de Gabriella faiscaram quando ela se
levantou para  encar-lo.
  - Foi voc, no foi? Seu cafajeste. - Jamais chamara algum assim, mas
ele  merecia. - Voc bateu nele? Ou simplesmente o empurrou? O que foi
que fez a ele,  Steve?
  - Ela queria saber.
  - Absolutamente nada. Ele tornou tudo muito fcil. O velhote ficou to
 perturbado que fez quase todo o servio por mim. Eu s ajudei um
pouquinho. Ele  estava muito preocupado com voc. Mas estou vendo o
motivo agora. Eu no sabia que voc era a  herdeira dele. Foi uma sorte
e tanto, no acha? Para ns dois. Ou voc j sabia, e aquela surpresa
toda na frente dos outros era s encenao?
  -  claro que eu no sabia. Como poderia?
  - Talvez ele tivesse contado a voc.
  - Eu vou dizer a todos o que voc fez - falou Gabriella, com ousadia,
convencida como sempre de que o bem prevaleceria sobre o mal. Tudo o que
se  precisava fazer era manter-se firme e conhecer a verdade, e ento o
diabo fugiria de voc. Mas  no este. Tampouco sua me, antes dele. - E
depois de contar a eles, vamos  chamar a policia.  melhor voc dar o
fora da cidade e rpido, ou pode se arrepender. -  Ela tremia de dio ao
fit-lo. De uma maneira ou de outra, mesmo que  indiretamente, sabia que
ele matara o professor.
  - Acho que no, Gabbie. - Ele a olhava, tranqilo. - No acho que a
gente v  contar nada a ningum. Pelo menos voc no vai. Talvez eu,
sim. Poderia dizer   policia que voc sabia exatamente o que ele ia lhe
deixar de herana, que me falou  muitas vezes sobre isso e queria que eu
o matasse. E claro que eu me recusei e a  convenci a no fazer isso.
Voc at me ofereceu dinheiro. Cinqenta por cento. Trezentos  mil
dlares. Bastante convincente. E tudo o que fiz foi falar com o homem, e
ele teve um derrame. No se pode ir para a cadeia por isso, mas pode-se
ir por  tramar o assassinato de algum, especialmente quando se vai
herdar uma bolada desta pessoa, sim. Na verdade, se eu testemunhar
contra voc e a entregar, eles vo dar  proteo para mim e de dez a
quinze anos de cadeia para voc. O que acha?
  Aquilo era horrvel e ela no podia acreditar no que estava ouvindo.
Ficou  momentaneamente estupefata e sem fala.
  - E juro que  isso que vou fazer se voc no concordar em me dar
quinhentos  mil dlares agora. Esta  a minha hora, Gabbie.  um preo
pequeno pela sua  liberdade. Pense bem. De dez a quinze anos. E a cadeia
no  um lugar nada bom para uma  garota como voc. Eu sei. J estive
l.
  - Como  que voc pode fazer isto comigo? - perguntou ela, com os
olhos  subitamente cheios de lgrimas. - Como pde? - Ele dissera que a
amava. Tinha  fingido tantas coisas, e agora a estava chantageando,
ameaando destruir sua vida, por causa de  meio milho de dlares.
  -  fcil, meu amor.  nisto que o mundo se resume: dinheiro.  E uma
coisa maravilhosa, quando temos. E estou deixando cem mil para voc. Nem
pode reclamar. Voc no precisa de muito.  melhor se decidir logo. Se
ficar  embromando, acabo levando tudo. Acho que agora seria um bom
momento para ligar para o banco  e para o advogado.
  - Como vai explicar o fato de eu estar dando tudo isso para voc? No
tem medo  das suspeitas que vai levantar?
  - Vamos encontrar uma boa explicao. As mulheres fazem um bocado de
maluquice  por amor, Gabbie. Tenho certeza de que voc j sabe disso. -
Afinal de contas,  ela se apaixonara por um padre e ficara grvida dele.
Aquilo j era uma grande  maluquice.
  - Eu no acredito que voc faria isso.
  - Bem,  melhor acreditar, Gabbie. Quinhentos mil dlares, seiscentos
se no  se apressar, e estou fora da sua vida para sempre. O Lobo Mau
vai embora, e voc  pode chorar por mim, encolhida na parte inferior da
cama para o resto da vida, tendo  pesadelos e gemendo pelo Joe e pela
mamezinha. - Usara todas as suas  confidncias contra ela.
  - Seu cafajeste! -xingou pela segunda vez e, instintivamente, avanou
em sua  direo a fim de esbofete-lo. Ele matara o professor e agora
estava destruindo  sua vida, reduzindo-a a farrapos, sem ter a menor
conscincia disso. Matara um  homem, um homem que ela amava e respeitava
profundamente, uma pessoa maravilhosa  que havia sido sua nica salvao
no ltimo ano. E agora ameaava coloc-la na cadeia,  acusando-a de
tentar tramar o seu assassinato.
  Um horror absoluto quilo tudo tomou conta de Gabriella, e de repente
ela  soube que no poderia fazer o que ele queria.
  - Pode me matar se quiser. Conte o que bem entender  polcia. No vou
lhe dar  nem um centavo, Steve Porter, ou seja l qual for o seu maldito
nome. Voc tomou  tudo que eu tinha nos ltimos sete meses. Voc me
enganou, fazendo com que eu  acreditasse que me amava, me usou,
mentiu... no vai tirar mais nada de mim.  Nunca mais!
  Ele pde ver nos olhos de Gabriella que ela estava falando srio, mas
sabia  que era mais forte. E, sem dizer uma s palavra, foi at ela,
agarrou-a pelos  cabelos e puxou-lhe a cabea para trs.
  - Nunca mais fale comigo dessa maneira, Gabbie. No me diga o que vai
fazer ou  no vai. Vai fazer exatamente o que estou mandando ou eu mato
voc. - Os olhos  dela arregalaram-se ao fit-lo. Aquelas palavras lhe
soavam como um eco. - Eu quero o dinheiro. Agora. Entendeu bem? Ou 
mais idiota ainda do que pensei? No vou  bancar o bobo nesta histria.
Agora ligue para o advogado. -Apontou para o telefone e  esperou que ela
recobrasse o juzo.
  - No vou ligar para ningum - disse ela, calma, embora seus joelhos
tremessem. - O jogo acabou.
  - No acabou, no - retrucou ele, imaginando o quanto mais precisaria
engrossar para ela perceber que ele estava falando srio. No muito,
provavelmente. Ela tinha medo at da prpria sombra. - O jogo s est
comeando. O romance  que acabou.  A conversa fiada. O fingimento. No
preciso nem mais dizer que te amo para  conseguir o que quero. Tudo que
preciso  dizer o que vou fazer, se no conseguir. Ficou  claro agora?
  Ela no respondeu e ficou encarando-o a uma pequena distncia, lutando
com  seus prprios demnios silenciosos.
  - Ligue para o banco, Gabbie. Ou vou telefonar para a policia. O velho
morreu.  Voc ficou com o dinheiro. Voc s tinha a ganhar.  claro que
vo acreditar em  mim.
  Gabriella queria mat-lo com as prprias mos e a fria cega que ele
acendeu  nela quase a dominou. Ela tirou o fone do gancho e discou o
nmero da  telefonista,  enquanto ele olhava.
  - O que est fazendo? - Pareceu preocupado de imediato. - Estou
ligando para a  policia por voc. Vamos acabar logo com isto.
  Ele puxou o fone de sua mo no mesmo instante e desligou; depois, com
um gesto  nico, arrancou-o da parede e entregou o aparelho para ela.
  - Sejamos razoveis. Ou voc quer passar a tarde inteira discutindo?
Por que  simplesmente no vamos ao banco e pegamos o dinheiro? Simples e
prtico. Depois  eu  tomo um avio para a Europa e est tudo acabado.
Para voc. Para mim, vai estar  apenas comeando.
  - Como vou saber que voc no vai falar para a policia que eu lhe
paguei por  ter matado o professor? - Era exatamente a prova de que ele
precisava, e ela  podia  ver agora que nada o deteria.
  - No vai saber e, alis, essa no  uma m idia. Mas voc vai ter de
confiar  em mim. No tem escolha. Se no me der o dinheiro, eu posso
matar voc. At que  valeria a pena depois de todo aborrecimento que
voc me causou.
  De repente era sua culpa novamente... era ela... ele tinha de fazer
isso  porque ela havia sido uma menina m... no era culpa dele... ele
no queria  aquilo...  ela o obrigava...
  - Ento me mate - disse Gabriella, bruscamente. No tinha mais
importncia.  Havia sempre algum, alguma coisa, tentando machuc-la,
culpando-a por tudo. Era  sempre sua culpa, e haveria mais algum para
mago-la, abandon-la, mentir para ela e  amea-la de morte, de corpo e
esprito.  sua maneira, j a haviam matado, e  tinha conscincia disso.
  - Voc  uma idiota - disse ele, aproximando-se, ameaador. No se
deixaria  vencer por essa mulher, essa tonta com quem vinha morando e
dividindo as  ninharias  que ela ganhava, tendo de roubar notas de cinco
dlares escondidas em envelopes  debaixo do colcho. Tinha vivido tempo
demais  base de migalhas. Agora queria o  bolo inteiro. - No brinque
comigo, Gabbie. - Mas podia ver nos olhos dela que no  estava
conseguindo nada e no tinha mais tempo a perder. Os outros logo
estariam  de volta, e ele queria o dinheiro. O seu dinheiro. Era dele
agora. Fizera por  merecer.
  Sem dizer palavra, agarrou-lhe o pescoo e comeou a sacudila,
enquanto ela  ficava ali parada. Gabriella deixou-se ficar ali,
passiva... como sempre havia  feito... simplesmente ficou ali. Era a
menina boazinha que sempre fora.
  - Eu vou matar voc, sua puta desgraada! - gritou Steve. - No est
entendendo? - Mas havia uma fora nela com a qual ele no podia
competir, um lugar insondvel que ele no conseguia alcanar e que
ningum jamais alcanara. Teria de mat-la  para conseguir, e ele sabia
disso. Mas queria o dinheiro mais do que jamais  quisera outra coisa em
sua vida e no deixaria que ela o detivesse.
  - Eu odeio voc - disse ela baixinho, falando no s para ele, mas
para um  coro formado por todos os outros... - Eu odeio voc, Steve
Porter.
  Ento ele a esbofeteou, e a familiaridade daquilo era aterradora. Ela
conhecia  aquele rudo, aquela sensao e a fora do golpe. Cambaleou
para trs, batendo  com as costas na quina da escrivaninha. Vendo-a
comear a cair, Steve agarrou seu  brao e a puxou em sua direo,
golpeando-a mais uma vez, agora com o punho.  Desferiu um murro violento
na lateral de sua cabea, e ela ouviu um barulho como sacos de  areia
caindo no cho, mas j no tinha tmpano que ele pudesse danificar. No
havia nada que ele pudesse fazer que j no lhe tivessem feito antes.
Vivera o mesmo  pesadelo durante os dez primeiros anos de sua vida, e
ele no podia atingi-la.  Ento Steve a arremessou do outro lado do
quarto. Desfechou golpe aps golpe, socando- lhe o rosto e o corpo.
Depois bateu sua cabea contra o cho, e ela s conseguia ouvi-lo 
distncia, falando algo sobre o dinheiro. A essa altura, ele perdera
completamente o controle; ela era um animal que devia ser destrudo, o
monstro  que queria impedi-lo de ter tudo aquilo com que sempre sonhara
e que sabia merecer.
  Steve a puxou para que ficasse novamente de p e, quando a jogou
contra a  parede, ela soube que quebrara o brao. Mas no ligava mais
para nada daquilo.  Aquele  homem no levaria nada seu, e a vida que ele
queria tirar j no significava nada para  ela. Houvera mentiras, dores,
sofrimentos e perdas demais. Ele era apenas um a mais. Gabriella
finalmente viu uma luz branca envolvendo-a, enquanto Steve  chutava seu
corpo cado, grtando para ela telefonar para o banco, para lhe dar  o
que ele queria e dizendo que ela era detestvel e ordinria, e que nunca
a  amara. Suas palavras fulminavam-na com o mesmo rancor que as pancadas
e,  enquanto olhava para ele, Gabriella pensou ver Joe, depois, o
professor e finalmente a me,  todos lhe dizendo alguma coisa... Joe
falava que a amava e no podia ficar com  ela... O professor implorava
para que no deixasse Steve fazer isso, e a me lhe dizia  que era tudo
culpa sua, que ela era mesmo ordinria como ele dizia e que merecia
isso. Entretanto, ao ouvir todos eles, Gabriella soube qual era a
verdade do que  diziam. Que no era ela, mas eles... era culpa deles, e
no sua... Steve era o  vilo... Steve matara o professor, e agora
ela... e reunindo uma fora da qual no se  julgava mais capaz, psse de
p, cambaleante, fcando frente a frente com ele.  Tinha sangue por
todos os lados, e o rosto estava completamente deformado. Agora no
havia como lev-la ao banco, como ligar para a polcia ou fazer outra
coisa que  no fugir sem o dinheiro. Com um ltimo mpeto de fria,
Steve a atacou e tentou  arrancar o que ainda lhe restava de vida. Ele a
sacudiu at o quarto girar em  torno de Gabriella e, ainda assim, ela
continuava firme, agarrando-se a ele,  arranhando seu rosto e agora
reagindo. No deixaria que fizesse isso com ela. Ningum jamais faria
isso de novo. Ela se recusava a desistir da vida, enquanto ele tentava
sufoc-la. Depois, por fim, deixou-a tombar no cho, chutou-a uma ltima
vez e  se foi.
  Cada no cho, Gabriella no sabia se vencera ou perdera. E no
importava.   sua maneira, todos haviam tentado mat-la... Joe... a
me... Steve... o pai...  tentaram e no conseguiram. Haviam chegado at
onde podiam dentro dela, tentando destruir  seu esprito, extingui-lo
como se fosse uma chama fraca. Mas este estava sempre fora de alcance,
muito alm deles, e por essa razo odiavam-na mais ainda.  Gabbie rolou,
ficando deitada de costas, fitou o teto e, com olhos cheios de  sangue e
dor, viu Joe l em cima, olhando para ela, dizendo-lhe que sentia muito.
E,  dessa vez, quando ele estendeu a mo para ela, chamando-a com um
gesto,  Gabriella viroulhe as costas e lentamente dirigiu-se sozinha
para a escurido.

Captulo 23

  No fim daquela tarde, a sra. Rosenstein viu Gabriella cada no cho,
ao passar  pelo quarto do professor, a caminho do seu prprio quarto.
Havia sangue por toda parte, a moblia estava revirada e, a princpio,
ela no a viu. Gabriella  parecia uma boneca de pano largada no cho.
Seu rosto estava irreconhecvel, os  cabelos grudados pelo sangue, o
pescoo coberto por hematomas, e a posio do corpo era  to esquisita
que parecia bvio  sra. Rosenstein que Gabriella estava morta.  Tinha
de estar, parecia nem respirar mais. E todos na casa acorreram quando
ouviram os  gritos da sra. Rosenstein.
  Um dos pensionistas ligou para a telefonista imediatamente e viu que o
fio do  telefone fora arrancado da parede no quarto do professor, um dos
poucos hspedes que tivera uma linha telefnica privada.
  Todos na casa ficaram ali reunidos, chorando, enquanto esperavam a
chegada da  ambulncia. Um dos novos pensionistas procurara o pulso de
Gabriella e informara  que continuava viva, mas que a pulsao estava
muito fraca. E era impossvel saber a  extenso do dano causado  jovem,
dado os bvios golpes que levara na cabea. Era inteiramente possvel,
sussurrou um dos pensionistas, que ela  pudesse ter sofrido um dano
irreversvel no crebro... to jovem... to  bonita... Que coisa
horrvel... murmuravam todos, enquanto a sra. Boslicki soluava e eles
perguntavam uns aos outros quem poderia ser o responsvel. Por um
momento, a  sra. Boslicki conjecturou se Steve teria feito aquilo e
fugido, mas, quando algum olhou em  seu quarto, viu que seus pertences
estavam todos l. Comearam a ficar apreensivos, antecipando que teriam
de lhe contar o que acontecera.
  Estavam todos  volta de Gabriella, como num velrio, quando os
paramdicos  chegaram e entraram correndo na casa. Depois de um olhada
nela, levaram-na para  a ambulncia s pressas e, menos de dois minutos
depois, j haviam partido, com as sirenes  ligadas.
  Mas dessa vez Gabriella nada ouviu a caminho do hospital. No teve
nenhuma  viso. No ouviu qualquer voz. Ela entrara em coma pouco depois
de Steve deix- la. Encontrava-se agora num lugar distante, livre de
qualquer dor.
  A equipe inteira da unidade de traumatologia trabalhou nela a tarde
toda: o  brao foi imobilizado na posio correta; os ferimentos,
suturados. Os hematomas  eram assombrosos e, dessa vez, quase todas as
costelas haviam sido quebradas. No  entanto, eram os ferimentos na
cabea que os preocupavam. Fizeram vrios  eletroencefalogramas, mas o
verdadeiro teste seria o crebro sobreviver  inchao. No fim, um
cirurgio plstico veio trabalhar em seu rosto. Havia um corte comprido
no  queixo e outro no superclio esquerdo. Mas, quando terminou, o
mdico ficou satisfeito com o  trabalho reparador. Ele no pde deixar
de notar tambm os hematomas no pescoo  e deixou a sala de cirurgia,
abanando a cabea. Ento, parou para conversar com o chefe  da equipe de
traumatologia, um mdico jovem com o qual trabalhara antes. Era o  chefe
do departamento, Peter Mason.
  - Fizeram um belo trabalho nela - observou o cirurgio plstico,
fazendo suas  anotaes na ficha. Ela passara por duas cirurgias naquela
noite. Uma com ele e  a  outra com o ortopedista, para colocar um pino
no cotovelo. - A moa deve ter deixado algum muito aborrecido. - Era de
fato surpreendente que no a tivessem matado.
  - Talvez ela cozinhe mal - replicou Peter, sem sorrir.
  Era o tipo de humor que os fazia seguir em frente. Viam um imenso
nmero de  casos assim, acidentes de automvel, pessoas que pulavam de
janelas e sobreviviam, por mais que se esforassem em  contrrio, e
espancamentos quase fatais. O que Peter mais odiava era ver as
crianas. A unidade de traumatologia no era um lugar que lhe permitisse
ter muitas  iluses.
  - A polcia j deu uma olhada nela? - perguntou o cirurgio plstico,
casualmente, devolvendo a ficha a Peter.
  - Tiraram muitas fotos depois que imobilizamos o brao. No foi nada
bonito. -  E ainda no era. Nenhum deles tinha como avaliar a aparncia
anterior da jovem.
  - Acha que ela vai sobreviver?
  Peter Mason deu um assovio antes de responder. Sua roupa branca ainda
estava  coberta pelo sangue dela, a lista de leses parecia
interminvel, e as  radiografias mostravam um nmero considervel de
leses anteriores, talvez devido a um  acidente de automvel, era
difcil dizer. Mas o que fizeram com ela dessa vez  estivera muito perto
de ser fatal. O fgado e os rins estavam em pssimo estado graas  aos
chutes, e parecia que no havia uma s parte de seu corpo que no
houvesse  sofrido algum dano.
  - Gostaria de crer que ela vai conseguir sobreviver-afirmou Peter
Mason,  otimista, mas na verdade no acreditava nisso. Os ferimentos na
cabea s vinham  acrescentar mais uma complicao. O resto j teria
sido suficiente para mat-la. At mesmo  um dos olhos fora afetado.
  - Espero que peguem o filho da puta que fez isso - disse o cirurgio
plstico,  afvel, e foi para casa jantar.
  - Provavelmente o marido dela - murmurou Peter para si mesmo. J havia
visto  isso tambm. Maridos ou namorados ciumentos ou bbados, ou que
chegavam em casa  enfurecidos por uma razo qualquer que para eles fazia
sentido e parecia justificar o ato de  tirar a vida de algum a fim de
aplacar seus egos. Tinha visto muitos casos  assim nos ltimos dez anos.
Estava com trinta e cinco  anos, divorciado e temia estar se tornando um
homem amargo. A mulher o deixara,  dizendo que no podia mais suportar
aquela vida. Ele nunca estava em casa,  sempre de sobreaviso, e, mesmo
quando estava, sua presena no era completa. Vivia  sempre pensando nos
pacientes ou saindo correndo pela porta para salvar as  vtimas de um
acidente de automvel. Ela agentou durante cinco anos e ento o trocou
por  um cirurgio plstico que s fazia liftings faciais. E Peter no
tinha muita  certeza se a culpava por isso.
  Ele verificou o estado de Gabbie pessoalmente vrias vezes nessa noite
e  parecia tudo estvel. Ela estava na UTI de traumatologia, ao lado de
uma mulher  que saltara de uma janela no terceiro andar, caindo em cima
de duas crianas e causando a  morte de ambas, e de um dependente
qumico, que tomara uma overdose, caindo  sobre os trilhos do metr, e
que no iria sobreviver. Mas Gabbie ainda era uma incgnita.  Ela
poderia sobreviver, se tivesse vontade e lutasse por isso, e se sasse
do  coma.
  As enfermeiras contaram que vrias pessoas haviam telefonado da penso
onde  ela morava, pedindo notcias dela, mas que no havia parentes
prximos e nenhum  marido. Parecia que s um namorado, que, porm, no
entrara em contato. Peter se  perguntou se no teria sido ele o
responsvel por aquilo e concluiu que essa  hiptese era mais do que
provvel. Estranhos no espancam algum com tanta violncia. Esse  cara
tinha feito tudo que podia e ido longe demais. A nica coisa que no fez
foi atear fogo nela.
  - Alguma alterao? - perguntou ele  enfermeira na UTI, e esta abanou
a  cabea negativamente.
  - Ela est se agentando.
  - Vamos torcer para que continue assim - disse o mdico.
  J era meia-noite, e ele resolveu tirar um cochilo enquanto estava
tudo  tranqilo. Nunca se sabia o que viria a seguir. Trabalhavam em
turnos de 24 horas na UTI, e o seu turno estava apenas comeando.
  - Me chame se acontecer alguma coisa. - Eles trocaram um sorriso.
  Ela gostava de trabalhar com ele. Era um bom sujeito e mais atraente
do que  ela admitiria para o marido. Tinha um ar descuidado, cabelos
castanhos rebeldes  e olhos castanho-escuros, cor de chocolate. Mas
tambm sabia ser exigente, e nem sempre era fcil trabalhar com  ele.
Mas era um excelente mdico.
  Ele desapareceu no quarto que usava quando precisava dormir um pouco.
Era um  depsito, onde guardavam medicamentos e uma maca extra, mas era
muito til.
  Pelo restante da noite, os enfermeiros mantiveram Gabriella em
observao. Ela  no se agitou, no se moveu e mal parecia respirar. Os
monitores, porm,  mostravam que seus sinais vitais permaneciam
constantes. Pela manh, fizeram outro  eletroencefalograma, que pareceu
normal, mas ela ainda no sara do coma.
  Na penso, o estado de esprito era sombrio. A sra. Boslicki
transmitiu as  notcias a todos,  medida que iam saindo para o
trabalho, e prometeu ligar para  eles se houvesse alguma alterao no
estado de Gabriella. Aquela era a pior coisa que  tinha acontecido na
sua casa, alm da morte do professor. Estavam todos cientes do fato de
que Steve no voltara para casa nessa noite e que tambm no havia
telefonado. De manh, a sra. Boslicki informou a polcia sobre o seu
desaparecimento.
  Os policiais tinham conversado com todos na noite anterior e feito
muitas  perguntas sobre Steve. E fora interessante se dar conta do quo
pouco todos  sabiam sobre ele: que freqentara Stanford e Yale, que
morava ali fazia oito meses, que  estava desempregado e que era namorado
de Gabriella. Afora isso, nada sabiam.  Mas os policiais haviam levado
uma pilha de recados telefnicos que a sra. Boslicki estava  guardando
para Steve na cozinha. No entanto, quando ela falou com a policia  nessa
manh, nem esta sabia de coisa alguma.
  Naquela tarde, as notcias do hospital eram desanimadoras. No havia
mudanas  no estado de sade de Gabriella, e quando a sra. Rosenstein
falou com o dr.  Mason, ele no pareceu nada otimista. Disse que o
prognstico para ela era "cauteloso",  independente do que isso
significasse. Seu estado ainda era considerado crtico, e ela continuava
em coma. Nada mais havia a dizer, mas ele prometeu ligar se  surgisse
alguma novidade.
  O planto de Peter devia terminar naquela tarde, mas o mdico que
deveria  substitu-lo telefonou dizendo que a mulher entrara em trabalho
de parto e que  ele se  encontrava no andar de cima, na maternidade,
assistindo o parto de seu primeiro filho. Assim sendo, Peter  concordou
em tirar o planto para ele, o que significava que ficaria ali mais 24
horas. Estava acostumado a isso; alm do mais, no tinha mais nada para
fazer.  Entretanto, fora exatamente por isso que sua mulher se separara
dele.
  - Alguma novidade? - perguntou Peter na recepo, quando voltava da
cantina, e  foi informado de que dois pacientes haviam chegado: um
garoto de dez anos  transferido para a unidade de queimados, depois de
um grave incndio no Harlem, e uma  senhora de oitenta e seis anos, que
cara de uma escada de mrmore. Em outras  palavras, nada de muito
excitante.
  Mais por rotina do que porque estivesse acontecendo alguma coisa, ele
resolveu  ir dar uma olhada em Gabbie. Ficou observando os monitores por
um ou dois  minutos e ento a examinou delicadamente. Mas, ao faz-lo,
viu uma expresso de dor  cruzar o rosto da jovem, e parou para
observ-la. Tornou a toc-la e viu a  expresso se repetir, e era
difcil dizer se ela estava comeando a sair do coma ou se  aquilo era
apenas um reflexo. Ele olhou a Ficha, leu o nome dela e aproximou-se  um
pouco mais.
  - Gabriella?... Gabriella... abra os olhos se puder me ouvir. - Nada
aconteceu. Ento ps um dedo na mo dela e fechoulhe os dedos em torno
do seu,  falando: -  Aperte meu dedo, Gabriella, se estiver me ouvindo.
- Esperou um instante e estava  prestes a retirar o dedo quando percebeu
um movimento mnimo dos dedos da jovem.  Ela o ouvira, e ele no pde
deixar de lhe dirigir um sorriso. Eram essas vitrias que  davam sentido
 sua vida; por elas desistira de um casamento e da maior parte da sua
vida. No era muita coisa, mas era o que fazia sua vida valer a pena.
Ele  tentou novamente e, dessa vez, o aperto parecia mais forte. - Pode
abrir os  olhos para mim? - indagou ele, suavemente. - Ou piscar. Aperte
os olhos ou ento os abra...  Eu gostaria de v-la.
  Por um longo momento, nada aconteceu, e ento, devagar, os cilhos
tremeram,  mas os olhos no se abriram. No entanto, isso significava que
ela o ouvira e que  seu  crebro parara de inchar. E tambm que o
trabalho deles estava apenas comeando. Fez  sinal para uma das
enfermeiras e, quando esta se aproximou, ele contou o que havia
acontecido.
  - J demos o primeiro passo. Por que voc no conversa com ela um
pouco e v o  que acontece? Volto mais tarde para v-la. Ento ele foi
verificar como estava a  senhora que cara na escada de mrmore  e a
encontrou num estado extraordinariamente bom. Estava revoltada por ter
de  ficar ali -quebrara a bacia e uma das articulaes do quadril - e
exigia ser mandada para casa imediatamente. Disse que tinha uma hora
marcada com o  cabeleireiro na manh seguinte.
  Peter ainda sorria quando saiu do quarto dela. Era uma senhora
terrivelmente rabugenta e aristocrtica, e podia imagin-la batendo nele
com a  bengala, se tivesse uma  mo. Prometera lhe dar alta assim que
ela pudesse caminhar com o auxilio de um andador. Mas, na manh
seguinte, ela precisaria submeter-se a uma  cirurgia no quadril.
  Depois de preencher algumas fichas, j era quase meia-noite quando ele
voltou  para ver Gabriella.
  - Alguma novidade com a Bela Adormecida? - perguntou ele,
bem-humorado,   enfermeira, que deu de ombros.
  No houvera qualquer outra resposta da parte dela at ali. Talvez
tivesse sido  um reflexo ou talvez ela tivesse sido to espancada que
no se interessasse mais  pelo mundo. Ela se retirara para um lugar onde
ningum podia alcan-la. s vezes  isso acontecia.
  Ele se sentou na cadeira ao lado da cama, e a enfermeira saiu. Peter
tornou a  colocar o dedo na mo da paciente, mas nada aconteceu. Mais do
que nunca, ela  parecia estar num coma profundo. Ele estava prestes a
desistir, quando a viu mover o  brao e estender dois dedos em sua
direo. Os olhos dela estavam fechados, mas  ele sabia que ela ouvira
sua voz.
  - Est falando comigo? - indagou ele, com delicadeza. Que tal me dizer
alguma  coisa? - Precisavam saber se ela era capaz de falar e, mais, de
raciocinar.  Nesse  momento, porm, uma palavra, um olhar, um som teria
sido suficiente para ele. - Que tal  cantar uma musiquinha para mim?
  Ele conseguia manter o humor e a naturalidade com os pacientes nas
piores  circunstncias, o que fazia com que tanto pacientes quanto
enfermeiras o adorassem. E sua extraordinria habilidade em trazer as
pessoas de volta  vida, quando estavam praticamente mortas ou bem perto
disso,  fizera-o merecedor do respeito de seus colegas.
  - Vamos l, Gabriella, o que me diz? Que tal o hino americano? Ou quem
sabe  Twinkle, Twinkle? - Ele cantarolou para ela, baixinho e bem
desaFnado, e uma  enfermeira, que passava por ali, sorriu para ele.
Apesr de ser meio desvairado, eles o  adoravam. Ou que tal o ABC? E a
mesma melodia, voc sabe. Eu canto ABC e voc  canta Twinkle, Twinkle,
est bem?
  Enquanto ele tagarelava com ela, de repente ouviu um gemido baixinho e
um  rudo que no parecia humano.
  - Qual era essa? -perguntou ele, pressentindo a vitria acenar-lhe e
querendo  agarr-la rapidamente. - Era o ABC ou Twinkle, Twinkle?
Reconheci a msica, mas  no entendi muito bem a letra.
  Ela tornou a gemer, dessa vez mais alto, e ele soube que ela estava
voltando  para eles. Isso no era reflexo. E dessa vez os clios dela
tremularam, e ele  pde  perceber que Gabriella estava tentando abrir os
olhos, mas estes ainda estavam muito  inchados. E, muito delicadamente,
ele estendeu a mo e tentou ajud-la. No  momento em que a tocou, os
olhos dela se abriram devagar. Tudo que ela conseguiu ver foi um
borro, mas dava para perceber a silhueta de algum ali de p. No pde
ver as  lgrimas nos olhos dele, enquanto a observava. Peter queria
gritar: "Conseguimos!" Pela  simples vontade, se nada mais, eles a
haviam arrebatado dos negros recessos da  morte. E talvez, apenas
talvez, ela fosse sobreviver.
  - Ol, Gabriella. Seja bem-vinda. Sentimos a sua falta.
  Ela tornou a gemer. Seus lbios ainda estavam inchados demais para que
pudesse  falar com clareza, mas ele percebia que ela estava tentando.
Havia muitas  perguntas que queriam lhe fazer, sobre o que lhe
acontecera e quem fizera isso com ela,  mas ainda era cedo demais.
  - Como est se sentindo? Ou ser que essa  uma pergunta muito
estpida?
  Dessa vez ela assentiu com a cabea e em seguida fechou os olhos.
Mexer a  cabea era muitssimo doloroso. Ela tornou a gemer e abriu os
olhos um minuto  depois.
  - Aposto que sim. - Mais tarde ele poderia lhe dar um analgsico, mas,
tendo  acabado de sair do coma, no queria dopla por enquanto. Ela
teria de suportar a  dor um pouco mais. Acha que pode me dizer alguma
coisa?... Isto , outra coisa que  no seja cantar Twinkle, Twinkle? -
Podia ver que ela estava tentando sorrir  para ele, mas a careta que
conseguiu fazer era por demais dolorosa.
  - Di - foi a palavra que ela por fim conseguiu pronunciar. Era um
misto de  gemido e sussurro.
  - Posso apostar que sim. - Ele sequer podia imaginar onde doa, tantas
eram as  possibilidades. - A cabea? - ... - sussurrou ela, e sua voz
soou um pouco menos gutural.
  - Brao... rosto... - No havia muitos lugares em seu corpo que no
houvessem  sido machucados. Mas agora tinha coerncia suficiente para
faz-lo lembrar que havia outras perguntas  que precisava lhe fazer. A
polcia viria no dia seguinte de manh. Estavam  acompanhando de perto o
estado dela. Aquela era a pior agresso que tinham visto em anos e
queriam agarrar o sujeito que fizera aquilo.
  - Sabe quem lhe fez isso? - perguntou ele, cauteloso, e ela no
respondeu.  Gabriella fechou os olhos, mas ele insistiu. - Se souber,
gostaria que me  dissesse.  Voc no quer que ele faa a mesma coisa com
outra pessoa, quer? Eu queria que voc  pensasse nisso. - Ele ento se
calou e ficou sentado em silncio.
  Ela abriu os olhos e olhou para ele, parecendo pensar no que ele
dissera. Ela  sempre os protegera, todos eles, mas mesmo nos negros
recessos de onde acabava  de  voltar, ela sabia que dessa vez era
diferente.
  - Sabe quem foi? - Se fosse um estranho, ela no saberia dizer. Mas
Peter  desconfiava que esse no era o caso. E ela no respondeu a sua
pergunta. -  Podemos conversar sobre isso mais tarde.
  Ela piscou, concordando, e ento tentou falar novamente.
  - Nome...
  - O nome da pessoa que a espancou? - Ele agora estava confuso, mas
Gabriella  franziu a testa e pareceu aborrecida por ele no compreender
o que ela dizia. Ento, apontou um dedo para ele, mal erguendo-o  de
sobre o lenol. Ela queria saber quem ele era.
  - Peter... Peter Mason. Sou mdico. Voc est no hospital e ns vamos
cur-la e mand-la para casa, mas queremos que  esteja em segurana l.
 por isso que queremos saber quem fez isso.
  Ela ento se limitou a dar mais um gemido e fechou os olhos, exausta.
Mergulhou no sono, e ele ficou ali mais um minuto, observando-a, e ento
saiu.  Decididamente, ela estava pensando com clareza. Respondera a tudo
que ele dissera e quisera  saber quem ele era. Aquele era um grande
comeo, e Peter sentiu-se encorajado. Ele dormiu pouco nessa noite e
veio v-la de manh. Parecia mais animada do que  na noite anterior;
conseguia falar de maneira mais clara, ainda que num  sussurro, e
lembrou-se de que o nome dele era Peter. O eletroencefalograma parecia
bom,  assim como a resposta de todos os monitores. Ela estava
decididamente se  recuperando, pelo menos segundo os critrios dele,
para os quais no era preciso muito. E ele  ainda estava com ela quando
a polcia chegou. Ficaram satisfeitos ao saber que a jovem sara do
coma, e o que queriam agora eram informaes.
  Peter advertiu-os, quando se aproximaram da cama, de que fossem com
calma. Ela s recuperara a conscincia na noite anterior. Os policiais
fizeram- lhe as mesmas perguntas que Peter, embora com menos delicadeza.
Disseram a ela que queriam  fazer tudo que pudessem para ajud-la e
proteg-la, mas que isso s seria  possvel se ela lhes contasse quem a
agredira. Nesse momento, ela pareceu muito pensativa.  Parecia estar
pesando o que eles lhe diziam, retletindo sobre as suas palavras.  Era
quase como se estivesse ouvindo, atenta, alguma coisa.
  - Voc no pode deixar que isso se repita - disse Peter, sereno, de p
ao lado  da cama, olhando-a com compaixo. - Da prxima vez, pode no
ter tanta sorte.  Quem quer que tenha feito isso com voc queria
machuc-la, Gabriella. Ele fez tudo  que pde para feri-la e mat-la. -
O sujeito a havia machucado, chutado,  quebrado seus ossos, tentado
estrangul-la. Para ele, isso no tinha sido um acidente, nem  mesmo um
crime passional. Fora uma tentativa violenta de destru-la. E chegara
bem perto do xito, ela sabia disso. - O que ele fez foi proposital.
Agora precisa nos ajudar a prend-lo, para que  isso no volte a
acontecer. Voc no estar em segurana at ele ser colocado na  priso,
que  o lugar dele. Pense nisso.
  Era obviamente o que ela estava fazendo, e Gabriella olhou para eles,
movendo  os olhos de um para o outro. Ela passara a vida toda protegendo
outras pessoas,  ocultando seus crimes, inventando desculpas para estes,
dizendo a si mesma que merecera  aquele castigo, mas de repente no
acreditava mais nisso. Ela no merecia  aquilo. Ele, sim. Gabriella
abriu a boca para falar e ento tornou a fech-la
  insegura. O suspense os estava matando. E, finalmente, quando Peter
tinha  certeza de que ela no falaria, Gabriella olhou diretamente para
ele e fez um  gesto afirmativo com a cabea. Alguma coisa dita por ele a
tocara, abrindo a porta, e  ele estava ciente disso.
  - Vamos, Gabriella... conte para a gente... voc precisa. Voc no
merece  isso. - Ela no merecia, sabia disso. Assim como sabia, no
momento em que ele a  espancava, que ele no tinha o direito de fazer
aquilo, no tinha o direito de fazer o que  sua me fizera, assim como
ela tambm no tivera. E foi exatamente o que ela  disse a Steve. Isso
tinha acabado. Ela nunca mais deixaria que acontecesse. Ningum  nunca
mais a tocaria, no desse jeito, no para machuc-la. Ela no deixaria.
  - Steve - sussurrou ela, de forma quase inaudvel a princpio. - Steve
Porter.  - Mas ela sabia que precisava explicar outras coisas tambm, e
mal tinha fora  suficiente para faz-lo.
  No entanto, eles ouviam bem perto dela, enquanto um dos policiais
tomava  notas. Sabiam que Porter era o namorado dela e que morava na
penso, como haviam  informado os outros pensionistas.
  - Outros nomes... cartas na mesa do professor... nomes diferentes...
j esteve  preso.
  Ambos os detetives ergueram os olhos, ao mesmo tempo. Isso iria ser
fcil.  Bingo!?
  - Voc lembra quais eram esses outros nomes, srta. Harrison?
  - Steve Johnson... John Stevens... Michael Houston. - Lembrou-se de
todos eles  surpreendentemente sem esforo. E agora queria colaborar com
a policia. Devia isso a si mesma, depois  de todos esses anos, estava
ciente. Ningum iria machuc-la outra vez. Ou destru- la. E Steve
merecia tudo que lhe acontecesse.
  - Ele j esteve preso no Kentucky... no Texas... na Califrnia...
  - Sabe onde ele est agora? - perguntaram-lhe, e ela disse que no. -
Ele no  esteve aqui, esteve? - Olharam para o mdico, que balanou a
cabea em negativa.  O homem no era to louco assim. - Sabe por que ele
fez isso com voc? Estava com  raiva? Com cimes? Voc estava tentando
romper com ele ou saindo com outro  homem? - Essas eram as razes
habituais.
  - Ele queria meu dinheiro... Eu vinha lhe dando dinheiro h meses -
murmurou  ela, alm de furtar de sua bolsa, mas no tinha fora
suficiente para dizer  isso.  Poderia lhes contar o restante mais tarde.
- E um amigo me deixou uma herana... Ele  queria que eu lhe desse todo
o dinheiro, ou a maior parte... ou ento diria que  eu tentei
convenc-lo a matar o professor... Foi ele quem me deixou o dinheiro.
Steve  queria tudo... queria ir para a Europa... disse que me mataria se
eu no lhe  desse tudo. - E quase cumprira a promessa. Nesse momento,
ela acrescentou a tudo que j  havia lhes contado a gota d'gua: - Acho
que ele matou o professor... tentou  matar... ele o machucou... e ento
o professor teve um derrame... ele me deixou o  dinheiro. - Ela falava
um pouco truncado, mas os dois detetives concluram que  poderiam saber
do resto com a senhoria e os outros hspedes da penso, e haveria tempo
de  sobra para fazer outras perguntas a Gabriella mais tarde, quando ela
se sentisse melhor.
  - Ele usou algum objeto para bater em voc? - perguntaram-lhe ento, e
ela se  surpreendeu com a pergunta.
  - S as mos.
  - Que cara legal! - O policial fechou a caderneta, ambos lhe
agradeceram e  disseram que voltariam quando ela estivesse melhor,
acrescentando que esperavam  ter  boas notcias para ela em breve.
  Gabriella ficou surpresa ao perceber, quando fechou os olhos, que no
lamentava o que acabara de fazer. Fora a coisa certa, tinha certeza. Era
hora de deter as pessoas que a magoavam. Algumas no podiam evitar, como
Joe  e madre Gregoria... mas sua me... e talvez at mesmo o pai... eles
no  precisavam ter feito aquilo... e Steve... tudo que ela podia fazer
agora era det-lo. Era tarde demais para os  outros.
  Gabriella tornou a abrir os olhos depois que eles foram embora e
admirou-se de  ver Peter ainda de p ao seu lado, observando-a. Ele
estava tentando adivinhar  seus pensamentos, se ela amara de verdade
aquele homem e se estava sofrendo muito com  o que acontecra. No
parecia que fosse assim. Ela aparentava estar feliz, at  mesmo
aliviada. E ele podia quase adivinhar que, debaixo de todos aqueles
ferimentos,  hematomas e curativos, ela devia ser bonita. Teria gostado
dela de qualquer  forma, percebeu. Uma espcie de fora emanava dela.
Tinha atravessado o inferno e  estava ali, sorrindo para ele.
  - Bom trabalho - disse ele.
  - Uma pessoa m... terrvel... matou meu amigo.
  - Ele quase a matou. - E isso era mais importante para Peter. Ela era
sua  paciente. - Espero que o prendam.
  - Eu tambm.
  O desejo de ambos foi satisfeito. A polcia voltou s seis, naquela
tarde,  pouco antes de Peter finalmente deixar o planto. Haviam
encontrado Steve s  quatro  da tarde, num cassino, em Atlantic City.
Tinha ficha no FBI, e as policias tanto do Texas quanto da  Califrnia
foram muito prestimosas. Ele negara tudo, naturalmente, dissera-lhes
que estavam loucos, que Gabbie era psictica e que o ameaara. No
entanto, no estado em que  ela se encontrava, no havia a menor chance
de algum acreditar nele. Estava  tudo acabado para Steve. Tinha violado
a condicional em trs estados e, ainda que no  houvesse encostado a mo
nela, teria penas a cumprir por todo o pas. Era um  milagre que no o
houvessem apanhado antes. Se isso tivesse acontecido, talvez ele no a
houvesse machucado. Depois do que ele fizera a Gabriella, porm, ficaria
na  cadeia por muito tempo. Os policiais leram seus direitos legais e o
prenderam na mesma  hora. Ele foi acusado de tentativa de assassinato, e
a polcia iria tentar  provar sua participao na morte do professor,
incriminando-o por homicdio culposo. No  fim, Steve tinha mesmo razo.
Essa era a sua hora. Gabbie ouviu com assombro o  que eles contavam.
  - Ele vai ficar preso? - perguntou, ainda atravs de sussurros. Estava
sem  foras, e ainda doa demais falar num tom mais alto. Suas costelas
rilhavam  todas as  vezes em que se mexia ou falava, ou at mesmo
sussurrava.
  - Por muito tempo - asseveraram-lhe, e ela assentiu.
  Gabriella lamentava que tudo aquilo tivesse acontecido. Era tudo to
feio, to  terrvel, e ainda se sentia pesarosa por causa do professor.
Preferia t-lo a ter seu dinheiro. Antes de irem embora,  os detetives
lhe disseram que a penso estava em alvoroo naquela noite e que  todos
lhe desejavam melhoras. At ali, porm, ela no tinha permisso para
receber  visitas. O pessoal da penso viria assim que os mdicos
permitissem.
  - O culpado sou eu. Eu sou o malvado. Voc precisa descansar -
disse-lhe Peter  depois da sada dos policiais. - Como est se sentindo?
- Parecia preocupado.  Ela havia passado por muitas emoes desde a
manh. A deciso de denunciar o ex- namorado no devia ter sido fcil
para ela; e muito menos saber das  conseqncias de sua deciso. Era uma
coisa difcil saber que era a responsvel pela ida de  algum para a
priso, ainda que essa pessoa merecesse. E o conflito devia ser  ainda
maior, j que Peter supunha que ela o amava. De certa forma, ela de fato
o amara, mas  tinha sido mais um vnculo doentio, uma dependncia. Ela
no soubera como sair  daquela relao, como parar de lhe dar dinheiro,
principalmente depois que ele comeara  a pression-la nesse sentido.
Steve era um vigarista e a manipulara, e ela fora  presa fcil para ele.
Mas agora sabia que nunca o amara de verdade.
  - Tudo bem com voc? - perguntou Peter outra vez, e ela assentiu.
  - Acho que sim. - Ela ainda no tinha certeza do que sentia. Era tudo
to  confuso.
  - Deve ser difcil. Voc acreditou que ele era seu amigo. Peter podia
apenas  imaginar que o sentimento de traio fosse desmedido.
  - No creio que tenha chegado a conhec-lo. No sei quem ele era -
disse ela  baixinho, e ele viu algo em seus olhos que o comoveu. Ento
Gabriella o olhou e  perguntou: Quanto tempo vou ficar aqui?
 - De repente, ela o fez lembrar-se da senhora que cara da escada na
noite  anterior e queria ir ao cabeleireiro de manh.
  - Voc tem hora marcada no cabeleireiro? - indagou ele com um sorriso.
  - No exatamente. - Os cabelos dela estavam perdidos em meio s
ataduras. Ele sequer podia imaginar de que cor eram; no havia prestado
ateno.
  - S queria saber. - Ela falava com muita suavidade.
  - Algumas semanas. Pelo tempo suficiente para voltar ao sapateado ou
seja l o  que voc faz. Trabalha em qu? - Ele sabia pela ficha que ela
estava com vinte e  trs anos, era solteira, no tinha familia, morava
numa penso e trabalhava numa  livraria. Nada alm disso.
  - Estou tentando ser escritora-respondeu ela, timdamente.
  - J publicou alguma coisa? - perguntou ele com interesse.
  - Uma vez. Na The New Yorker, de maro.
  Era uma revista de grande prestgio, e ele ficou impressionado.
  - Deve escrever muito bem.
  - Ainda no - replicou ela, com modstia. - Mas estou me esforando
para isso.
  - Bem, no escreva sobre esse caso por enquanto. Vamos fazer com que
fique boa  antes de voltar ao trabalho. Onde foi que conheceu esse cara?
Numa conveno  para ex-presidirios?
  Ela sorriu. Gostava dele. Tinha sido bom para ela, e Gabriella
percebia que  ele se importava com o que lhe acontecera. Todos tinham
sido muito bons para ela  ali; tanto os mdicos como os enfermeiros.
  - Ele morava na mesma penso que eu.
  - Talvez fosse bom voc pensar em alugar um apartamento. Por falar
nisso -  disse ele, consultando o relgio -, estou prestes a me
transformar numa abbora.  Tente no se meter em muita confuso. Vou me
ausentar por dois dias. - E com isso ele  deu uns tapinhas de leve na
perna dela, por cima do lenol. - Cuide-se,  Gabriella.
  - Gabbie - corrigiu ela. Quisera fazer isso antes, mas acabara se
esquecendo.  Gabriella parecia formal demais depois de tudo que haviam
passado juntos. Ela lamentava v-lo ir embora. Era o seu nico amigo
ali. O mdico acenou ao deixar o quarto.
  Quando voltou dois dias depois, Gabriella foi a primeira paciente que
ele foi  ver em sua ronda. Ficou impressionado com o seu progresso. Ela
j estava falando  com a voz quase normal, mas ainda sentia dor ao rir,
e portanto no se arriscava a  faz-lo com freqncia. Eles a sentavam
duas vezes por dia na beira da cama, e  ela agora j conseguia fazer
isso sem desmaiar, o que tinha acontecido da primeira  vez. E tinham-lhe
prometido que, no final da semana, ela poderia se levantar,  coisa que a
Gabbie parecia uma tarefa impossvel. A sra. Rosenstein e a sra.
Boslicki  tinham ido visit-la. Todos os outros mandaram cartes e
presentinhos, e as duas senhoras trouxeram-lhe rosas.
  Eles ainda estavam transtornados por causa de Steve, e fora publicado
no  jornal um extenso artigo sobre ele e os crimes de que era acusado.
  - Imaginem s, ele estava morando conosco! - exclamou a sra.
Rosenstein,  horrorizada. Alm disso, todos se sentiam perturbados
tambm com a possibilidade  de que ele pudesse ter machucado o
professor. Era difcil de acreditar.
  Gabriella nada sabia sobre Steve e esperava nunca mais saber. A
lembrana de  ter dormido com ele, vivido com ele, de que o sustentara,
ainda fazia revirar  seu  estmago. Um dia teria de enfrentlo no
tribunal, o que no seria nada fcil, e Gabbie  tinha certeza de que ele
falaria mentiras sobre ela, mas quando chegasse a hora,  estaria mais
fortalecida e em melhores condies de enfrent-lo.
  Ian Jones tinha telefonado da livraria, dizendo-lhe que esperariam o
tempo  necessrio para que ela se recuperasse e voltasse ao trabalho.
Ela queria  continuar  no emprego, apesar do dinheiro herdado. Adorava
trabalhar na livraria, e o emprego  lhe dava bastante tempo para
escrever. Tampouco tinha planos de se mudar da casa da sra. Boslicki.
Agora que Steve no estava mais l, ela se sentia segura.
  - Ento o que esteve aprontando durante a minha ausncia? - perguntou
Peter  depois de examin-la. - Saiu para jantar? Danar? O de sempre?
  - O de sempre. Algum veio lavar meu cabelo e ainda no me deixam ir
ao  banheiro. - Ela riu. Seus progressos eram ainda muito pequenos, mas
estava  contente em  v-lo.
  - Talvez possamos mudar isso. - Ele fez uma anotao na ficha,
examinou-lhe o  brao e verificou o progresso do trabalho do cirurgio
plstico. Ela estava indo  muito bem. Ento ele perguntou sobre o que o
deixara curioso quando vira suas  radiografias. Voc j sofreu um
acidente de carro, Gabbie? Parece que j teve  alguns ossos quebrados
antes. Suas costelas parecem ter atravessado uma guerra. -Alm disso,
ele tinha visto cicatrizes no couro cabeludo quando verificava se no
havia  inchaes na cabea.
  - Mais ou menos - respondeu ela, vagamente, com uma expresso estranha
nos  olhos.
  Ele percebeu o seu retraimento imediato. Era uma mulher com muitos
segredos.
  -  uma resposta interessante. Teremos de conversar sobre isso
qualquer hora  dessas. - Mas agora precisava visitar outros pacientes.
  Mais tarde, naquela noite, ele voltou e trouxe um refrigerante para
ela e uma  xcara de caf.
  - Vim ver como est. Acabei de jantar. Eles mantm uma bomba estomacal
na  cantina para o caso de envenenarem algum.  usada pelo menos quatro
vezes por  noite.  - Ele sentou-se na cadeira, e Gabbie riu de sua
brincadeira. Percebeu que parecia  cansado nessa noite e se deu conta do
quanto ele trabalhava ali.
  Peter perguntou sobre seu trabalho e onde ela estudara. Ele era do
sudoeste e,  em certos aspectos, achava que ele se parecia com um
caubi. Cruzava os  corredores com passos longos e elsticos, e
observara que ele usava botas de caubi com as  roupas brancas de
mdico. Peter tinha notado a intensidade do azul dos olhos  dela e que,
 medida que diminua o inchao do rosto, exatamente como ele havia
suspeitado, ela ia se mostrando muito bonita. E muito jovem. E, ao mesmo
tempo,  muito velha. Era uma mulher de muitos contrastes. Havia um qu
de sabedoria e de  tristeza em seus olhos que o fascinava, mas outra vez
ele pensou que ser  espancada at quase a morte pelo homem com quem
morava no devia ser uma coisa fcil. Ele perguntou um pouco mais sobre
o  namorado, e ela no parecia ansiosa por falar dele. Uma das
enfermeiras lhe  mostrara o artigo no jornal, mas ele no o mencionou a
Gabbie.
  - Ento, onde voc foi criada? - perguntou, descontrado, curioso
sobre ela,  enquanto bebericava o caf. Era bom conversar com ela.
  - Aqui. Em Nova York. - Mas ela no mencionou o convento.
  Descobriram que eram ambos filhos nicos. Ele estudara medicina na
Universidade de Columbia, motivo por que tinha ido para Nova York e um
ponto em  comum entre  eles. Em muitos aspectos, porm, eram muito
diferentes. Ele era muito descontrado e  franco, e tinha visto muita
crueldade na vida, mas nunca a sentira na carne.  Alguma coisa nela
sugeria-lhe que havia visto mais coisas do que a maioria das pessoas  da
sua idade ou do que muitos bem mais velhos. Havia portas que ele sabia
estarem fechadas para ele, mas Peter no sabia onde encontrar a chave
para destranc- las. Ela parecia pensar muito. E ento, por mera
coincidncia, ele mencionou que um de seus amigos de escola  tornara-se
padre e que ainda eram muito ligados. Ele parecia gostar muito desse
amigo, e Gabriella sorriu, enquanto ouvia. Ele pensou que ela estivesse
zombando dele e  tentou convenc-la de que os padres tambm so gente.
Ela no pde resistir e  contou que tinha sido postulante e que havia
crescido num convento. Mas no contou  sobre Joe nem nada do que
acontera no ano anterior.
  Ele ficou fascinado com sua histria e com o fato de ela ter sido
quase  freira, e por fim perguntou-lhe o que a fizera mudar de idia.
  -  uma longa histria - replicou ela com um suspiro, ignorando a
pergunta.
  Ele precisava voltar ao trabalho e prometeu v-la no dia seguinte. Mas
voltou  naquela mesma noite, certo de que ela estaria adormecida, j
tendo passado da  meia-noite, e ficou surpreso ao v-la desperta. Gabbie
estava deitada na cama, quieta, com  os olhos abertos. Havia algo de
muito tranqilo e sereno nela
  - Posso entrar? - Pensara nela a noite toda e sentiu-se atrado ao seu
quarto,  quando passara por ele, ao terminar de verificar os pacientes.
  - Claro. - Ela sorriu e se ergueu, apoiando-se no cotovelo so. Havia
uma  pequena lmpada acesa no quarto, mas este estava quase totalmente
escuro e  aconchegante. Ela estava ali deitada, pensando nos pais. Vinha
pensando muito neles nos  ltimos tempos, especialmente no pai.
  - Voc me parece muito sria. Voc est bem?
  Ela assentiu. Na verdade, estava mesmo, considerando-se tudo que tinha
 acontecido. Steve desaparecera de sua vida como um sonho. Era quase
como se ele  nunca tivesse existido. De uma maneira ou de outra, todas
as pessoas de quem ela gostara  haviam desaparecido. Ultimamente, porm,
ela parecia estar encarando isso com  mais tranqilidade.
  - Estava pensando nos meus pais - admitiu ela, e ele se sensibilizou.
  De acordo com sua ficha, ela no tinha parentes prximos. Ele imaginou
que os  pais houvessem morrido e perguntou-lhe quando isso tinha
acontecido. Gabbie  hesitou antes de responder.
  - No morreram. Acho que meu pai est em Boston e minha me mora na
Califrnia. No o vejo h quatorze anos; e minha me, h treze.
  Ele parecia perplexo.
  - Voc foi uma menina levada? Fugiu com o circo? - perguntou Peter, e
ela  sorriu com aquela idia.
  - No, fugi para o convento - mas ele j sabia disso. -  uma longa
histria,  mas meu pai saiu de casa quando eu era pequena, e ento minha
me me deixou no  convento e nunca mais voltou.
  Parecia uma histria bastante simples, mas ele desconfiava de que no
fosse.
  - Isso  um pouco estranho. Por que no podiam ficar com voc? Voc
fez alguma  coisa grave para aborrec-los?
  - Eles achavam que sim. No gostavam muito de crianas.
  - Parecem pessoas encantadoras - comentou ele, observando-a, querendo
chegar  mais perto dela. Mas estava trabalhando, e era sua paciente. J
estava passando muito tempo com ela, e no queria provocar  comentrios.
  - No eram - disse Gabriella suavemente, chegando  concluso ento de
que no  tinha nada para esconder dele. Sentia-se estranhamente segura
conversando com  ele. E aquele era um segredo sinistro tanto dos pais
quanto dela. Sempre sentira  muita vergonha daquilo, mas agora no
sentia. - Foram eles o acidente de carro  sobre o qual voc me
perguntou. Ou, melhor, ela foi. Ele era apenas a testemunha  casual.
  - No sei se estou entendendo. - Parecia perturbado ao dizlo. No
queria  entender, no podia conceber o que ela estava dizendo.
  - As costelas quebradas. Foram um presente de Natal de minha me,
vrios anos seguidos. Na verdade, era o presente  favorito dela. Ela me
presenteava com ele com freqncia. - Tentou amenizar o  que  dizia, mas
era um assunto difcil de suavizar.
  - Ela espancava voc? - Peter parecia perplexo. - Foi isso que vi nas
radiografias?
  - Provavelmente. Nunca quebrei nada de outra maneira. Ela passou dez
anos  sempre me espancando antes de me abandonar. - Seus olhos estavam
arregalados e  tristes, e ele estendeu a mo e a tocou. Ficou
segurando-lhe a mo. No podia imaginar o  que ela passara.
  - Gabbie... que coisa horrvel... Ningum ajudou voc ou a deteve? -
Isso era  ainda mais inconcebvel para ele; que ela tivesse sido uma
criana sem amigos.
  - No. Meu pai costumava presenciar as agresses, mas nunca dizia
nada. Acho  que tinha medo dela. E, no fim, no conseguiu mais suportar,
e a deixou.
  - Por que no levou voc com ele? - Aquela era uma pergunta em que ela
nunca  tinha tido coragem de pensar, mas nesse momento se fez a pergunta
e deu de  ombros  ao levantar os olhos para Peter.
  - No sei a resposta para essa pergunta. So muitas as perguntas sobre
eles  sem respostas. Venho pensando nisso desde que tudo isso aconteceu.
Entendo por  que  Steve fez o que fez. Estava tudo muito claro. Eu o
deixei com raiva. Queria dinheiro,  e no lhe dei. Pelo menos ele foi
franco. Quanto aos meus pais, porm, eu nunca soube por  que me odiavam
tanto. Nunca entendi isso. Sempre diziam que eu era muito m...
terrvel... que, se eu no fosse to m, eles no precisariam agir
daquela forma. Mas como  uma criana pede ser to m? - Era uma pergunta
que se fazia ultimamente.
  - Nunca m o bastante para que algum quebre os seus ossos. Eu tambm
no  compreendo. Voc j perguntou isso a eles?
  - Nunca mais vi nenhum dos dois. Uma vez, h um ano, liguei para o meu
pai. Tentei ligar, mas no consegui encontrar o seu  nome em nenhuma
lista telefnica de Boston.
  - E quanto  sua me? Ela me parece uma boa pessoa para se afastar
tanto.
  - E era mesmo - disse Gabbie com sinceridade, as cordas da lembrana
ainda  vibrando no seu ntimo. O fato de Steve t-la quase matado
despertara muitos  sentimentos antigos, e agora era difcil aquiet-los.
- Fico me perguntando se ela estar  diferente agora, se mudou, se
poderia me dar uma explicao, se se arrepende  agora, depois de tantos
anos. Aquilo quase arruinou a minha vida, deve ter quase  arruinado a
dela tambm. - Os olhos de Gabbie fitaram-no com tanta sinceridade  que
ele quase ficou sem ar, to franca, honesta e corajosa ela era. - Sempre
quis saber  por que ela me odiava tanto. O que havia em mim que fazia
com que me odiasse? -  Era importante para ela entender isso.
  - Alguma doena que ela tem na alma, eu diria - afirmou ele,
pensativo. - No  poderia ser nada em voc, Gabbie. - Ele tinha visto
vtimas de violncia  infantil  na unidade de trauma antes, e sempre se
compadecia delas, daqueles olhos  aterrorizados e os corpinhos
machucados, dizendo que no tinha sido culpa de  ningum, que ningum
fizera aquilo a elas, e protegendo os pais. Eram to indefesas, vtimas
de  pessoas doentes e violentas. Fazia apenas dois meses que ele perdera
uma criana  ali no hospital, espancada pela prpria me at a morte
cerebral. Para ele, aquilo era  inaceitvel, e tudo que queria fazer na
noite em que a criana morreu era sair  correndo do quarto e matar a
me. No momento, ela estava presa,  espera do julgamento, e  seus
advogados estavam pleiteando a condicional.
  - No sei como voc conseguiu sobreviver - disse ele com gentileza. -
Ningum  a ajudou?
  - Nunca. No at eu ir para o convento.
  - Foram bons com voc l? - Ele esperava que sim, no podia suportar
pensar no  que sua vida devia ter sido antes disso. Embora mal a
conhecesse, aquela  histria despertou nele o desejo de proteg-la. Mas
tudo que podia fazer nesse momento  era ouvir.
  - Foram muito bons comigo. Eu adorava morar l, e fui muito feliz.
  - Ento, por que saiu? - Havia tanto a saber sobre ela. Queria
descobrir tanta  coisa.
  - Tive de sair. Fiz uma coisa horrvel, e elas no puderam me deixar
ficar. -  No ano anterior, ela aprendera a aceitar aquele fato, embora
soubesse que nunca  seria capaz de se perdoar completamente.
  - Que coisa to horrvel assim foi essa? -perguntou ele, num tom
alegre. - O  que foi que voc fez? Roubou o hbito de outra freira?
  - Um homem morreu por minha causa. Fui responsvel pela sua morte.
Isso  algo  com que terei de viver. Sempre.
  Por um momento, ele no soube o que dizer.
  - Foi um acidente? - Devia ter sido. Ela jamais mataria algum. Por
menos que  a conhecesse, sabia que no faria isso. Mas ela o estava
olhando intensa e  demoradamente, perguntando-se at onde podia confiar
nele. Por alguma estranha razo, ela sabia  que podia confiar totalmente
nele. Sentia e via isso em seus olhos, enquanto ele a olhava.
  - Ele cometeu suicdio por minha causa. Era padre, e estvamos
apaixonados. Eu  estava grvida dele.
  Peter olhou-a em silenciosa perplexidade. Ela fora ao inferno e
voltara, e  fora um pouco alm.
  - H quanto tempo foi isso? - Embora ele no tivesse muita certeza de
que isso  tivesse importncia.
  - H um ano. Onze meses, para ser precisa. No sei como foi acontecer.
Eu  nunca tinha olhado para um homem antes. No creio que nenhum de ns
compreendesse o que estvamos fazendo, at que era tarde demais. Durou
trs meses. Iamos morar juntos. Mas ele no  pde. No podia deixar a
igreja. Era a nica vida que ele conhecia e, alm  disso, tinha de
conviver com seus prprios demnios. No conseguia forar-se a sair nem
me abandonar. Ento se matou e me deixou uma carta explicativa.
  - E o beb? - perguntou o mdico, apertando a mo dela, desejando
desesperadamente abra-la.
  - Eu o perdi. -Agora tudo no passava de uma nvoa, uma impresso
surrealista  de tragdia que sempre a fazia sentir como se algum
estivesse apertando seu  corao.
  - Foi em setembro passado.
  - E agora isso. Este no foi um ano muito bom para voc, Gabbie, no
? -  Tambm no fora uma vida muito boa para ela antes disso. Pais que
a espancavam e  a haviam abandonado num convento, e um homem que se
suicidara em vez de ficar ao  seu lado e do beb. Era muito para se
suportar. Peter estava assombrado que ela  tivesse sobrevivido.
  - Agora foi diferente - disse ela, referindo-se a Steve. - 
engraado, mas foi mais honesto. Eu me senti usada e trada por ele, e
doeu  terrivelmente quando descobri, mas no creio que o tenha amado de
verdade. Eu  simplesmente estava numa situao muito difcil. Agora
percebo que ele preparou uma armadilha  desde o incio.
  - Voc era uma presa fcil para ele - afirmou Peter, com sensatez,
fitando-a,  admirando quem ela era e o que tinha passado. Espero que ele
pegue uma pena bem  longa. - Sentia-se aliviado por saber que a polcia
parecia pensar que isso era mais do  que provvel. - O que voc vai
fazer agora? - perguntou, pensando nela.
  - No sei... escrever... trabalhar... recomear... ser mais esperta...
Eu  tinha muito a aprender quando sa do convento. Nunca tinha
enfrentado o mundo  antes;  l dentro,  um mundo to irreal to
protegido e seguro. Acho que foi isso que apavorou Joe. Ele no sabia
como  sobreviver sem isso.
  Peter, no entanto, no via o suicdio como uma opo. Joe a deixara
sozinha  para agentar as conseqncias e ser culpada pela sua morte.
Era uma soluo  somente para um homem fraco e egosta,  e Peter no o
admirava por isso, embora no comentasse a respeito com Gabbie.
  - Voc precisa de tempo para ficar boa - disse ele, com serenidade -,
e no s  dos ferimentos, mas de tudo isso. Voc j viveu umas dez
vidas. - E nenhuma  delas fora fcil.
  - Escrever me ajuda nesse sentido. Tem feito maravilhas por mim. O
professor  de que lhe falei me ajudou de verdade. Abriu portas que eu
nunca soube  existirem,  para o meu corao e a minha mente, para os
lugares dos quais preciso falar,  principalmente nos meus textos.
  - No estou muito certo de que outra pessoa possa fazer isso por voc.
Acho  que todas essas coisas esto dentro de voc, Gabbie, e
provavelmente sempre  estiveram. Talvez ele s tenha lhe mostrado onde
estava a chave.
  - Talvez - disse ela.
  Alguns minutos depois, uma das enfermeiras chegou. Tinha havido um
acidente de  automvel com uma criana de quatro anos, sem cinto de
segurana.
  - Ai, meu Deus, odeio quando isso acontece - afirmou ele, olhando-a,
ansioso.  Gostaria de ficar ali conversando com ela para sempre. Saiu do
quarto, dizendo  que voltaria pela manh.
  Depois que ele saiu, Gabbie ficou deitada, pensando nele, surpresa com
as  coisas que tinha lhe contado. Agora ele sabia de tudo. E tinha sido
to fcil  contar-lhe.
  Mais tarde, naquela mesma noite, passando pelo quarto dela, ele deu
uma  espiada e viu que ela dormia profundamente. Ficou ali parado,
olhando para ela,  por muito tempo, e ento voltou para o depsito a fim
de se deitar na maca. Mas as coisas  que ela lhe contara impediam-no de
dormir. Ele se perguntava como um ser humano  podia suportar tanta dor e
decepo, e por que coisas assim tinham de acontecer. Era  uma pergunta
que ela se fazia com freqncia e para a qual nenhum dos dois tinha
resposta.

Captulo 24

  As s semanas de seu restabelecimento pareceram longas para ambos, mas
o tempo  que passavam conversando era agradvel tanto para Gabbie quanto
para Peter. Ela  precisava fazer fisioterapia no brao, e as costelas
levaram muito tempo para se  recuperar, assim como alguns dos ferimentos
na cabea. Mas, ao fim de quatro  semanas, ele j no tinha desculpas
para mant-la no hospital. Estava praticamente  recuperada. E, em sua
ltima manh no hospital, Peter veio v-la, trazendo  flores, e lhe
disse o quanto sentiria a sua falta. Na verdade, vinha querendo
perguntar-lhe uma  coisa, mas precisara de muito tempo para criar
coragem. Nunca tinha feito uma  coisa assim antes, e era estranho para
ele, enquanto Gabbie estava internada, pois era um de  seus pacientes.
Uma vez tendo alta, porm, no havia restries que o impedissem de
v-la.
  - Eu estava pensando - comeou ele, sem jeito, sentindo-se de repente
muito  jovem e idiota -, o que voc acharia de... se voc... se ns
sassemos para  jantar  um dia... ou para almoar... ou para tomar um
caf... - O apartamento dele no  fcava muito longe da penso dela,
depois da Rua 80, ao leste.
  - Gostaria muito - disse ela, com reservas. No entanto, vinha pensando
muito  nesses ltimos das, e havia uma coisa que sabia que precisava
fazer primeiro,  para o seu prpro bem. Quando viu que ele estava
perturbado pela sua hesitao,  tentou falar sobre o assunto. - Vou
tentar encontrar meus pais.
  - Por qu? - Depois de tudo que lhe contara, no queria que ela fosse
v-los,  e sentiu uma necessidade premente de proteg-la deles. Gabbie
era muito mais  bonita do que ele imaginara a princpio, mas tambm
muito mais delicada e, em alguns  aspectos, muito frgl. Havia nela uma
fora que a sustentava e ao mesmo tempo  uma vulnerabilidade que o
levava a temer por ela. - Tem certeza de que  uma boa  idia? -
perguntou ele, parecendo preocupado.
  - Talvez no. - Ela sorriu, com muita coragem, muito mais do que ele
achava  que seria prudente.
  Mas isso era parte do que Peter gostava nela. Gabbie estava disposta a
fazer  valer os seus direitos, a manter-se firme naquilo em que
acreditava. At ali, porm, essa sua atitude lhe custara vrios golpes
que quase a tnham matado. Peter  sabia melhor do que ningum que ela
precisava de algum para proteg-la.  Suspeitava que soubesse disso
melhor do que ela prpria. Ele era doze anos mais velho do que  ela,
tinha experinca do mundo, e agora compreendia o que ela precisava. E
desejava saber se seria capaz de lhe dar isso. Ele tambm cometera erros
na vida, e  fracassara no seu casamento, mas aprendera muito com isso e
queria ser uma  pessoa melhor do que antes, por causa de Gabbie.
  - Mas eu sei que tenho de fazer isso, Peter - explicou ela,
referindo-se ao  seu desejo de rever os pais. - Se no fizer, se nunca
conseguir deles as  respostas,  uma parte de mim vai estar sempre
faltando.
  - Talvez voc j tenha essas respostas, Gabbie. Talvez elas estejam
dentro de  voc e no com eles. - Tambm no tinha certeza disso, mas
no queria que voltassem a mago-la. Aquilo tudo agora ficara para trs,
e Gabbie tinha muito por que  viver. Mas ela sabia dsso. Ele tambm
passara a significar muito para ela. E  desejava dedicar-se inteiramente
a ele, sem ter uma metade sua vivendo no passado,  perguntando-se por
que os pais nunca a tinham amado.
  - Preciso fazer isso. - Resolvera telefonar para madre Gregoria e ver
que  informaes esta estaria disposta a lhe dar. Gabbie, porm, sabia
que at mesmo  isso  seria doloroso. Se a freira se recusasse a atender
a seu telefonema, ento lembraria  novamente o quanto havia perdido ao
deixar o convento. Elas nunca mais tinham se  falado desde o dia em que
aquela porta se fechara s suas costas, e Gabriella sabia que  no
deveria telefonar-lhe. Mas agora sentia que tinha de faz-lo e pensou
que  madre Gregoria iria compreender.
  Peter planejava ficar no planto pelos prximos dois dias, e estava
preocupado  com ela. Disse-lhe que telefonaria naquela noite. Quando
ligou, ela ficou feliz  em falar com ele. Admitiu que estava se sentindo
cansada e que subir a escada at o  seu quarto tinha sido difcil.
Percebeu, ao entrar, que o quarto parecia repleto de lembranas de Steve
e que no desejava ficar ali. Algumas coisas haviam  mudado nesse ltimo
ms. O quarto do professor fora alugado e os livros que ele  deixara
para Gabbie estavam guardados em caixas no poro. O quarto de Steve
tambm j  estava alugado. Ela contou que a sra. Boslicki tinha sido
muito boa com ela e que levara o  jantar em seu quarto. Ele odiava
imaginar Gabbie l e, de repente, tudo que  queria era estar com ela.
Depois da facilidade de v-la todos os dias no hospital, parecia  to
estranho agora ficar longe dela. Mas Gabbie mantinha uma certa distncia
entre os dois. Queria ir em busca de seu passado, e ainda no estava
pronta para o  futuro.
  Gabbie acordou vrias vezes durante aquela noite, pensando, ansiosa,
nos  telefonemas que precisava dar. Ao acordar no dia seguinte, ligou
para madre  Gregoria.  Quando pediu para falar com ela e deu o seu nome,
teve medo de que lhe dissessem que a  madre superiora no poderia falar
com ela. Houve uma longa espera, e Gabbie  ficou pensando que no se
lembrava da voz da freira que atendera ao telefone. E,  ento,
fnalmente, esta disse que iria transferir a ligao. Uma breve
campainha  se fez soar, e de repente Gabriella a ouviu. Seus olhos
encheram-se de lgrimas no  momento em que ouviu aquela voz que amava e
de que sentira falta por tantos  meses.
  - Voc est bem, Gabbie? - Madre Gregoria lera a notcia no jornal e
precisara  de toda a sua fora para respeitar seus votos de obedincia e
no telefonar para  Gabbie. No entanto, ligara para o hospital at que
lhe confirmassem que Gabriella sara  do coma.
  - Estou bem, madre. Um pouco machucada e com escoriaes, mas j estou
 acostumada - disse ela, suavemente, mas ambas sabiam que dessa vez
tinha sido  muito pior.
  Ento Gabriella explicou por que estava telefonando. Queria saber os
ltimos  endereos que madre Gregoria tinha de seus pais. A madre
superiora hesitou por  um  longo momento; sabia que no deveria dar-lhe
os endereos, de acordo com a instruo  da me de Gabriella. Mas fazia
cinco anos agora que no tinham notcia da  mulher, e, no fundo, madre
Gregoria no via mal algum no pedido da jovem. Talvez fosse  bom para
Gabbie entrar em contato com a me. Entendia perfeitamente por que
Gabriella queria fazer isso. E ento lhe deu o ltimo endereo da me em
San Francisco, de  cinco anos atrs, e um endereo ali perto do
convento, do pai.
  - Em Nova York? - Gabbie parecia perplexa. - Ele est aqui? Eu nunca
soube  disso.
  - Ele s ficou em Boston por alguns meses, Gabbie. Ele sempre esteve
aqui.
  - Ento por que no foi me ver?
  - No sei a resposta a essa pergunta - disse a velha freira,
gentilmente,  embora tivesse suas desconfianas.
  - Alguma vez ele telefonou para a senhora?
  - Nunca. Mas sua me me deu o endereo dele para o caso de eu um dia
precisar,  se alguma coisa acontecesse a ela. Mas ns nunca precisamos
procur-lo.
  - Ele nunca deve ter sabido onde eu estava. - Agora, em retrospecto,
isso  parecia terrvel. Ele estivera a apenas algumas quadras de Gabbie,
e ela o tempo  inteiro pensando que ele estivesse em Boston.
  - Voc mesma pode lhe dizer isso agora. - Madre Gregoria fornecera-lhe
o  endereo do escritrio e o de casa, assim como os respectivos nmeros
de  telefone, embora aquelas informaes tivessem mais de doze anos.
Pelo menos, era um comeo.
  Telefonaria para ele o mais rpido possvel, e torcia para que algum
num  daqueles nmeros soubesse onde o encontrar agora.
  - Obrigada, madre - disse Gabriella com brandura, e ento acrescentou,
com  cautela: - Tenho sentido muito a sua falta. Tantas coisas haviam
lhe acontecido.
  - Rezamos sempre por voc. - E ento ela sorriu, orgulhosa. - Li sua
histria  na The New Yorker.  maravilhosa. - Gabbie ,
  ento, contou sobre o professor e o dinheiro que ele lhe deixara, o
quanto ele  fora bom para ela. E a madre superiora fechou os olhos,
enquanto ouvia,  regozijando-se com a voz que ela tanto amara, da
criana a quem quisera tanto bem, agradecida  por ao menos uma pessoa
ter sido generosa com ela depois de sua sada do  convento, onde ainda
era proibido pronunciar seu nome.
  - Posso escrever para a senhora contando o que aconteceu com meus
pais? -  perguntou Gabbie, hesitante, e fez-se uma pausa triste antes
que a madre  respondesse.
  - No, minha criana. Nenhuma de ns pode fazer isso. Deus a abenoe,
Gabbie.
  - Eu amo a senhora, madre... Sempre vou amar... - afirmou Gabbie,
engasgando- se com um soluo.
  - Cuide-se bem - sussurrou madre Gregoria, incapaz de dizer qualquer
outra  coisa, enquanto as lgrimas escorriam pelo seu rosto. Ela parecia
mais velha do  que  h um ano. A perda custaralhe muito.
  Gabbie tinha a inteno de lhe contar sobre Peter, mas no teve
coragem. Ainda  havia muito pouco para dizer. Talvez ele a esquecesse,
agora que ela deixara o  hospital, ou pensasse melhor, ou talvez ele s
conversasse com ela pela facilidade, por  ela estar ali, perto dele.
Gabbie aprendera que no podia confiar em que nenhum  homem no fosse
mago-la ou abandon-la.
  - Deus a abenoe, minha criana - tornou a dizer madre Gregoria, e
ambas  estavam chorando quando desligaram. Gabbie no tinha a menor
idia se um dia  voltaria  a falar com ela. Era insuportvel pensar que
nunca mais voltaria a ouvir a voz da  madre superiora, mas sabia que era
mais do que provvel que isso acontecesse.
  Gabriella esperou alguns minutos para que sua respirao voltasse ao
normal e  discou o nmero do escritrio fornecido por madre Gregoria.
No queria esperar  at ele chegar em casa quela noite para telefonar.
Sabia que o nmero era antigo,  de treze ou quatorze anos atrs, e que
ele poderia no trabalhar mais l. No entanto, quando ela pediu para
falar com John Harrison, pareceulhe que sabiam de quem  estava falando.
Pediram-lhe que aguardasse e, sem muita demora, ele atendeu.
  - Gabriella? - disse ele de um s flego, parecendo bastante surpreso.
Mas sua  voz era exatamente como Gabbie se lembrava, e tudo em que pde
pensar foi na imagem que ainda tinha do pai, de quando achava que ele se
parecia com o Prncipe  Encantado.
  - Papai? - Sentiu-se com se tivesse outra vez nove anos, ou bem menos.
  - Onde voc est? - Parecia preocupado.
  - Aqui em Nova York. Acabei de conseguir o seu nmero, depois de todos
estes  anos. Pensei que estivesse em Boston.
  - Voltei h treze anos - disse ele, de modo casual, e Gabbie no podia
sequer  imaginar o que ele estava sentindo. Provavelmente o mesmo que
ela. Era-lhe inconcebvel que no fosse assim.
  - Mame me deixou num convento - falou ela, de repente, ainda se
sentindo como  uma criana, querendo explicar onde estivera durante a
ausncia do pai.
  - Eu sei - replicou ele, parecendo tranqilo. - Ela me contou.
Escreveu para  mim de San Francisco.
  - Quando? - Gabriella agora estava confusa. Ento ele sabia? Por que
no  telefonara ou fora v-la? O que poderia t-lo impedido de ligar
para ela?
  - Ela escreveu para mim assim que chegou l. Nunca mais tive notcias
dela.  Mas queria que eu soubesse onde deixara voc. Creio que ela se
casou outra vez -  disse ele, calmamente.
  - Voc sabia h treze anos? - Gabriella parecia confusa, e o que ele
disse em  seguida no lhe ofereceu a resposta que ela desejava.
  - A vida segue em frente, Gabriella. As coisas mudam. As pessoas
mudam. Aqueles foram tempos difceis para mim -  replicou ele, como se
esperasse que a filha entendesse. Mas aqueles tempos tinham sido ainda
mais difceis para Gabbie. Mais difceis do que ele quereria  saber,
considerar ou dar importncia.
  - Quando posso v-lo? - perguntou ela, bruscamente.
  - Eu... - Ele no esperava que ela lhe pedisse aquilo e perguntou-se
se seria  dinheiro o que ela queria. John no tivera uma carreira
brilhante, mas fora  moderadamente bem-sucedido na rea de investimentos
bancrios. - Tem certeza de que essa  uma  boa idia? - Sua voz soava
insegura.
  - Eu gostaria muito - afirmou ela, muito nervosa.
  Ele no ficara to entusiasmado ao receber notcias suas como ela
esperara. No  entanto, quatorze anos era muito tempo para no se ver uma
pessoa, e ela no o  avisara de que iria telefonar. Gabriella ponderou
se no teria sido melhor entrar de  repente no escritrio dele e
fazer-lhe uma surpresa.
  - Posso ir hoje? - Ainda tinha um pouco da exuberncia da infncia e,
desde o  momento em que ouvira a voz do pai, sentia-se como se tivesse a
idade da ltima  vez em que o tinha visto. De repente, era difcil
lembrar-se de que se tornara  adulta.
  Novamente ele hesitou e, do outro lado da linha, John mostrava uma
expresso  sofrida. No tinha a menor idia do que dizer a ela. Ento,
ela acabou  conseguindo  o que queria.
  - Por que no me encontra no escritrio hoje  tarde? - Ele queria
acabar com  aquilo de uma vez por todas. Seria um encontro doloroso para
ambos. No tinha  sentido adi-lo ainda mais. - s trs horas est bom?
  - Estarei a. - Ela estava radiante ao pousar o fone no gancho.
Gabriella  passou a tarde com os nervos  flor da pele, pensando nele,
imaginando que  aparncia  teria, o que diria, como explicaria tudo que
tinha acontecido. Precisava perguntar isso  a ele. Sabia que era culpa
da me, mas queria ouvir dele agora por que tudo  tinha acontecido, e
por que ele a deixara.
  Gabriella vestiu seu melhor terninho de linho azul-marinho, que s
vezes usava  para ir ao trabalho, e deu-se ao luxo de ir de txi at a
esquina da Park Avenue  com a Rua 53, onde ficava o escritrio dele.
Tratava-se de um edifcio comercial de  aparncia notvel, e quando ela
subiu, viu-se num escritrio  impressionante. Ele trabalhava para uma
firma pequena, mas de excelente  reputao.
  A secretria informou que ele estava  sua espera, e, exatamente s
15:01,  Gabriella foi conduzida por um corredor comprido, at uma sala
de canto, com um  amplo sorriso no rosto. Estava to feliz por rev-lo
que mal podia se segurar e, por  mais nervosa que estivesse, sabia que
seus terrores se dispersariam no instante  em que o visse.
  A porta foi aberta muito devagar pela secretria, que ento deu um
passo para  o lado, enquanto Gabriella entrava numa sala com uma linda
vista. Ali de p, por  trs da mesa, ela o viu. A princpio, pensou que
ele no mudara nada, que estava  bonito como sempre, mas quando olhou
com mais ateno, viu que havia algumas  rugas no seu rosto e alguns
fios de cabelo grisalhos. Podia calcular facilmente que ele  acabara de
completar cinqenta anos.
  - Ol, Gabriella - disse ele, olhando-a intensamente, surpreso ao ver
o quanto  estava bonita e graciosa. No entanto, no se parecia em nada
com a me; puxara  mais a ele. Tinha a mesma beleza loura, e os olhos, a
cor exata dos seus. E, enquanto  a olhava, no fez qualquer movimento
para aproximar-se dela. - Sente-se convidou ele, pouco  vontade,
apontando uma cadeira do outro lado da mesa.
  Estava louca para dar a volta  mesa e toc-lo, abra-lo e beijlo,
mas o  ambiente de repente pareceu-lhe muito intimidador. Ento se
sentou na cadeira  que ele indicava, deduzindo que o pai viria beij-la
mais tarde, depois que houvessem se  colocado a par da vida um do outro,
e ele a conhecesse um pouco melhor.
  Gabbie viu que havia fotografias de crianas sobre a mesa, quatro, ao
todo,  todas em molduras de prata: duas moas que pareciam ter sua
idade, talvez um  pouco  mais velhas, e dois meninos bem mais novos, que
obviamente ainda eram crianas. As  fotos pareciam recentes. E via-se
uma fotografia maior de uma mulher com um  vestido vermelho, parecendo
um pouco severa e no muito feliz. Gabriella percebeu  imediatamente que
no havia fotografias suas quando criana, mas isso era  compreensvel,
pois, pelo que podia se lembrar, eles nunca tinham tirado fotos suas.
  - Como tem passado? - perguntou ele, formalmente, parecendo um pouco
aflito, e  ela imaginou que devia estar se sentindo culpado. Afnal, ele
as abandonara.  Tinha de ser difcil para ele, ou pelo menos assim ela
imaginava, e ento no  conseguiu conter o impulso de perguntar:
  - Esses so seus filhos, papai?
  Ele assentiu com a cabea, em resposta.
  - As duas moas so filhas de Barbara, os meninos so nossos filhos.
Jeffrey e  Winston. Esto com doze e nove anos agora. - E ento olhou
para ela, ansioso por  acabar logo com aquilo e ir direto ao motivo da
sua visita. - Por que veio aqui?
  - Eu queria v-lo. No sabia que estava aqui em Nova York. - Ele
estivera o  tempo todo to perto, com uma famlia, levando sua vida
totalmente  parte da  filha. Sem outros esclarecimentos, esse era um
fato doloroso.
  - Barbara no gostou de Boston - disse ele, como se isso servisse de
explicao. Mas, na verdade, para Gabriella, no explicava nada.
  - Se voc sabia que eu estava l, por que no foi me ver no convento?
- No  momento em que fez a pergunta, viu no rosto dele uma expresso de
que se  lembrava da  infncia, uma expresso indefesa, encurralada, que
dizia que ele no se sentia em  condies de enfrentar a situao.
Diversas vezes ele havia exibido aquela mesma  expresso, vendo-a ser
espancada, parado  porta.
  - Qual o sentido de ir visit-la? - indagou ele, penosamente. - Todos
ns  tnhamos pssimas lembranas de meu casamento com sua me. Tenho
certeza de que  voc  tambm. Achei que seria melhor se fechssemos
aquela porta e tentssemos esquecer tudo.  - Mas como ele podia esquecer
a prpria filha? - Ela era uma mulher muito  doente. - E, em seguida,
acrescentou um comentrio que a deixou verdadeiramente chocada:  -
Sempre pensei que ela acabaria matando voc. - Sua voz saiu engasgada.
  Antes que pudesse evitar, Gabbie lhe fez uma das perguntas cuja
resposta  esperara toda a sua vida.
  - Por que voc no impedia que ela fizesse aquilo? - Gabriella prendeu
a  respirao, aguardando a resposta. Era importante para ela saber
isso.
  - Eu no poderia t-la impedido. De que maneira? - Fora, ameaas,
separao,  divrcio, a polcia, eram muitas as opes. - O que eu
poderia fazer? Se eu a  criticasse pelo que ela fazia com voc, ela
seria ainda pior para ns dois; para voc,  principalmente. Tudo que eu
podia fazer era ir embora e comear uma vida nova em  algum lugar. Era a
nica soluo para mim.
  E quanto a mim?, queria gritar para ele. Que vida nova havia para mim?
  - Achei que voc ficaria melhor com as freiras. E sua me nunca teria
me  deixado Ficar com voc.
  - Voc perguntou isso a ela, depois que me deixou l? - Gabriella
queria saber  de tudo. Eram essas as respostas que precisava obter dele.
Eram a chave para uma  nova vida agora.
  - No, no perguntei - respondeu ele com honestidade. Barbara teria
recusado.  Voc fazia parte de outra vida, Gabriella. Seu lugar no era
conosco. - E, em  seguida, ele desferiu o golpe final: - E continua no
sendo. Nossas vidas tomaram rumos  separados h anos,  tarde demais
para retomar agora. E, se Barbara soubesse que  eu a vi hoje, ficaria
furiosa comigo. Veria isso como uma traio aos nossos  filhos.
  Gabriella estava horrorizada diante do que o pai estava dizendo. Ele
no a  queria, nunca quisera, e simplesmente a havia abandonado,
deixando-a  merc de  seu  prprio destino.
  - Mas e quanto s filhas dela? Elas no moravam com vocs?
  -  claro, mas isso era diferente.
  - Diferente em qu?
  - So filhas dela. Naquela poca voc era para mim uma recordao
ruim, um  lembrete de um pesadelo do qual eu queria escapar. Eu no
podia lev-la junto  comigo. Assim como no posso agora. Gabriella,
nossas vidas esto separadas h muitos  anos. J no temos nada a ver um
com o outro. - Mas ele tinha dois filhos, duas  enteadas e uma mulher.
Ela no tinha ningum.
  - Como pode dizer isso? - Havia lgrimas em seus olhos, mas Gabriella
se  recusava a deix-las vencerem-na.
  - Porque  verdade. Para ns dois. Todas as vezes em que voc me
olhasse,  lembraria da dor que lhe infligimos, das vezes em que fui
incapaz de ajud-la.  Com o  tempo, viria a me odiar por isso. Isso j
estava comeando a acontecer. Ele no era nada daquilo que ela sonhara.
Tinha sido fraco no passado e ainda o era. No tinha a coragem de ser
seu pai.
  - Como  que voc pde sequer me telefonar em todos esses anos? -
indagou ela  agora,  beira das lgrimas. Mas j no lhe importava o que
ele pensasse dela.  Era um homem indiferente e cruel, e a havia
decepcionado por completo. No sentia  absolutamente nenhum amor por ela
e no tinha nada a oferecer a ningum. Era  egosta e fraco. E, da mesma
forma como fora dominado pela me de Gabriella anos atrs,  agora era
dominado por uma mulher chamada Barbara.
  - O que eu tinha para lhe dizer, Gabriella? - Ele a fitou, do outro
lado da  mesa, exasperado. Estava claro para ela que o pai no a queria
ali. - Eu no  tinha  vontade de v-la. - Era simples assim. Ele no
tinha nada no corao para lhe dar,  possivelmente a ningum, nem mesmo
queles meninos bonitos nas fotografias.  Gabriella sentiu pena de todos
eles e, principalmente, do seu pai, por tudo que ele no  era. No era
nem mesmo uma pessoa. Estava mais para uma figura de papelo.
  - Voc algum dia me amou? Algum de vocs? - perguntou ela, engasgando
com um  soluo.
  Ele achou aquela demonstrao de sentimentos detestvel. Parecia
agoniado com  aquilo, e Gabriella sabia que ele gostaria que ela
desaparecesse. Mas no estava  preocupada com isso. Estava fazendo
aquilo por si mesma, no por ele. O que tinha acabado  de saber era tudo
que ela precisava levar para o seu futuro. Ele no respondeu,  e ela o
fitou com olhos que no davam trgua.
  - Eu lhe fiz uma pergunta.
  - Eu no sei o que sentia naquela poca.  claro que devia am-la.
Voc era  uma criana.
  - Mas no me amava o suficiente para me querer ao seu lado pelo resto
da vida.  Tudo que eu tinha eram nove anos. Por qu?
  - Porque foi tudo um fracasso. Mais do que isso: foi um desastre. E
voc era  um smbolo desse desastre.
  - Eu fui uma vtima dele.
  - Isso foi uma infelicidade - disse ele, com tristeza, admitindo
tacitamente.  - Fomos todos vtimas.
  - Mas vocs nunca foram parar no hospital, eu sim. - Agora ela estava
implacvel em sua busca da verdade. Por mais doloroso que fosse,
sentia-se  satisfeita por  ter vindo.
  - Eu sabia que voc iria nos odiar por isso. Eu disse isso a ela. Sua
me no  tinha nenhum controle sobre si mesma.
  - Por que ela me odiava tanto? - E por que voc me amava to pouco?,
foi a  pergunta que ela no fez. Agora, porm, sabia que ele no tinha
capacidade para  isso  e, provavelmente, nunca teria.
  Ele suspirou e afundou na cadeira de couro, parecendo exausto.
  - Tinha cimes de voc. Sempre teve. Desde o instante em que voc
nasceu. No  creio que ela tivesse vocao para ser me. No fazia a
menor idia disso quando me casei com ela.  Creio que devesse ter
suspeitado. - E ele no tinha vocao para ser pai,  independente do
nmero de fotos que houvesse sobre sua mesa. Ento, olhou para ela,
ansioso  para pr fim quele encontro. - Isso  tudo, Gabriella?
Respondi a todas as suas  perguntas?
  - Quase todas - replicou ela, triste, embora se desse conta nesse
momento de  que algumas jamais teriam resposta. Ele simplesmente no
tinha as qualidades  necessrias para ser pai. Era uma pessoa ainda pior
do que ela havia imaginado. Mas, talvez,  no ntimo, Gabriella tivesse
sempre sabido disso e nunca tivesse querido  enfrentar a realidade.
Talvez, como sugerira Peter, as respostas estivessem dentro dela.
  Seu pai ento se levantou e a fitou. Ele no deu a volta  mesa, vindo
at  ela, como a princpio ela pensara que faria. No se aproximou e a
abraou ou  tentou  toc-la. Manteve-se o mais distante possvel e,
mesmo de posse do que agora sabia, isso  ainda a magoava.
  - Obrigado pela visita - disse ele, indicando que o encontro havia
chegado ao  fim. Apertou um boto na mesa, e a secretria tornou a
aparecer e ficou ali,  segurando a porta aberta para Gabbie.
  - Obrigada - replicou Gabriella. Dessa vez ela no o chamou de "papai"
nem  tentou beij-lo. No havia sentido nisso. Se o homem do qual se
lembrava tinha  sido  ruim, esse era ainda pior. E o que quer que ele
fosse, ou que tivesse sido para ela no  passado, aquele no era mais o
seu pai. Tinha desistido desse papel fazia  quatorze anos, abdicando
dele por completo. Isso estava totalmente claro agora. O pai que  ela
conhecera, tal como ele era, tinha morrido no dia em que as abandonara.
  Ela parou no vo da porta por um ltimo momento e o olhou, querendo
lembrar-se  dele, e ento deu meia-volta e se foi, sem lhe dirigir outra
palavra. No havia  mais nada a dizer. Estava tudo definitivamente
acabado.
  E to logo a secretria tornou a fechar a porta, ele deu a volta 
mesa, com  uma expresso agoniada. Era como olhar atravs de uma janela
e ver o passado,  lembrar-se de todo aquele sofrimento. Era uma moa
bonita, mas ele nada sentia por ela.  Havia fechado aquela porta muito
tempo atrs e no tinha como reabri-la. Ele  sempre soubera dsso. E
tentando no pensar mais nela, e na expresso daqueles olhos  que o
queimavam como carves em brasa, ele abriu o armrio, serviu-se uma dose
reforada de martni e ficou olhando pela janela, enquanto bebia.

Captulo 25

  Quando Gabriella saiu do escritrio do pai naquela tarde, seguiu
imediatamente  para a loja de uma companhia de aviao na Quinta Avenida
e comprou uma passagem para San Francisco. Ao compr-la, ainda estava
pensando no encontro com o pai.  Nada havia transcorrido como ela
esperara. Por um lado, sentia-se triste; por outro, aliviada. Percebia
agora que o que tinha acontecido no fora culpa dela, por ela  ter sido
m, mas sim por falha deles. Aquilo no se devia ao que ela era na
ocasio, mas a quem eles no eram. E Gabbie estava apenas comeando a
compreender isso.
  Seu pai era um homem to vazio, to frio, to covarde, to incapaz de
enfrentar a realidade ou as emoes sinceras. Ainda se sentia perplexa
por ele  no t-la  tocado uma s vez durante todo o tempo que ficara em
seu escritrio, e sabia que ele  teria recuado se ela tentasse faz-lo.
No a queria em sua vida; e era assim  fazia anos. Na cabea dele, ela
ainda tinha uma ligao muito estreita com a me. Mas  pelo menos agora
Gabriella compreendia uma coisa sobre ele. Quando a abandonara, ele no
a tinha privado de algo que como pai tinha para lhe dar. A verdade  que
ele nunca tivera coisa alguma a lhe oferecer; talvez nem mesmo  sua
me. E ele tambm tinha razo sobre um fato: era tarde demais agora. Por
mais que tivesse ansiado  por ele durante todos aqueles anos, e sonhado
com ele e dito a si mesma que ele  viria em seu socorro se soubesse onde
ela estava, Gabriella agora sabia que o tempo  todo ele tinha
conhecimento de seu destino, mas no se dera ao trabalho de ir  v-la.
  Ele no a amava nem a queria, no havia como negar esse fato agora.
Doa  reconhecer isso, mas, de certa forma, tambm a libertava. Era
quase como se o  pai tivesse morrido havia quatorze anos, e s agora ela
pudesse dar descanso ao seu corpo.  Durante todos aqueles anos, ele
estivera apenas desaparecido e agora ela tinha  um corpo para enterrar.
Ainda podia visualiz-lo, observando-a sair de seu  escritrio.
  E quando voltou  penso, Gabriella soube que Peter tinha telefonado
para ela  do hospital. Ela ligou, pediu que o chamassem e lhe contou
sobre o encontro.
  - Est se sentindo melhor agora? -perguntou ele, parecendo preocupado.
  - Pode-se dizer que sim - respondeu ela, com franqueza.
  Ainda lhe doa o fato de o pai no ter querido nem abra-la ou
beij-la. Mas afinal ele fora sempre assim. Ele tambm no a tocava
quando ela era criana, agora Gabbie se lembrava. Ao v- lo, muitas
lembranas voltaram  sua mente, nenhuma delas agradvel. A nica vez em
que se lembrava de ele ter sido terno com ela, ou pelo menos algo
prximo  disso, foi na noite de sua partida. E provavelmente porque,
sabendo o que ia  fazer, se sentia culpado.
  - Voc tinha razo numa coisa - disse ela a Peter. - Acho que algumas
das  respostas que estou procurando esto em mim mesma. Eu s no sabia
disso.
  Sentiu-se aliviado com aquelas palavras. Estava preocupado com essa
odissia  ao passado em que ela havia embarcado. Tinha a suspeita de que
seria muito  dolorosa para Gabriella, e no o regresso ao lar que ela
desejava.
  - O que voc vai fazer agora? - quis saber ele. Estava sendo
solicitado outra  vez no hospital e sabia que no podia ficar
conversando muito tempo com ela.
  - Vou para San Francisco amanh.
  Ele no sabia por que, mas teve a sensao de que deveria ir com ela.
Sabia,  porm, que ela no aceitaria. Estava determinada a matar seus
drages sozinha,  no  importando o quanto isso fosse perigoso ou
doloroso. E ele a admirava por isso.
  - Voc vai ficar bem indo at l sozinha?
  - Acho que sim - disse ela, sincera. Ainda se sentia amedrontada
diante da  perspectiva de ver a me. Mas sabia que precisava fazer isso.
Era ela quem tinha  as  verdadeiras respostas para lhe dar.
Principalmente aquela  pergunta final: Por que nunca me  amou?
Gabriella sentia-se como uma criana num conto de fadas, procurando
respostas debaixo de cogumelos. Alice no Pas das Maravilhas ou Dorothy,
em O mgico de  Oz, e foi o que disse a Peter.
  - Se esperar mais um pouco, posso ir com voc. Tenho alguns dias
livres no  final da semana, e talvez seja mais fcil para voc.
  - Preciso fazer isso agora - explicou ela, prometendo telefonar-lhe de
San Francisco.
  - Cuide-se, Gabbie. - E, ento, inesperadamente: - Estou com saudades.
  - Eu tambm - disse ela, suavemente. Era um preldio de coisas
melhores por  vir entre os dois, mas no at que ela resolvesse por
completo seu passado.  Sabia que, sem aquelas respostas, no teria nada
para oferecer a Peter, e ele nunca  conseguiria alcan-la totalmente. O
sofrimento de sua infncia e da conscincia  de que no fora amada
estaria sempre entre eles. Nunca teria confiana nele e ficaria 
espera do dia em que ele a abandonaria, exatamente como os outros. E o
terror  que ela viveria com essa espera destruiria a ambos, ou pelo
menos a ela.
  - Ligue para mim quando chegar l - pediu ele, ansioso, e ento teve
de  desligar para ir ver seus pacientes.
  Ela subiu a escada, pensativa, dirigindo-se ao quarto para arrumar a
maleta,  e, como na noite anterior, achou o quarto deprimente. O
ambiente estava repleto  demais de Steve, de sonhos ruins e terrveis
pesadelos. Passou a noite insone, pensando  na viagem a San Francisco,
mas era muito esforo descer quatro lances de escada para telefonar para
Peter, e ento ficou l deitada, esperando amanhecer.
  Todos ainda dormiam na penso quando ela saiu, deixando um bilhete
para a sra.  Boslicki, informando aonde estava indo. "Vou para San
Francisco ver minha me." Essas palavras prenunciariam algo agradvel,
pensou Gabbie, se se tratasse de outra  me.
  O vo para San Francisco transcorreu tranqilamente, e no aeroporto
Gabriella  embarcou num nibus para a cidade, levando sua maleta com
poucos pertences.  Surpreendeu-se com o frio que fazia, embora
estivessem em agosto. O dia estava nublado, um  vento revigorante
soprava, e a temperatura estava decididamente fria, o que  todos diziam
ser tpico de um vero em San Francisco.
  Ela parou para comer alguma coisa, em seguida ligou para o nmero que
a madre  lhe dera e ento se deu conta do quanto fora tola em no
telefonar antes de  tomar  o avio. E se eles estivessem viajando de
frias? Em vez disso, porm, o que ouviu  foi uma gravao informando
que aquele telefone fora desconectado. No sabia o  que fazer. Tomou um
txi e seguiu para o endereo, mas, quando tocou a campainha,  disseram
que ali no morava ningum com aquele nome. A essa altura, Gabriella j
estava  beira das lgrimas, e o motorista do txi sugeriu que parassem
numa cabine  telefnica e ela ligasse para o servio de informaes.
Tudo que sabia era que o  nome do homem com que a me se casara havia
anos era Frank Waterford. Lembrava-se  dele vagamente, como um homem
bonito que nunca lhe dirigia a palavra. Mas com  certeza agora ele o
faria. Resolveu seguir o conselho do taxista, que veio a ser
proveitoso. O endereo de Frank Waterford, que constava da lista, era na
Avenida  28, numa rea que o motorista disse chamar-se Seacliff.
  Ela discou o nmero obtido no servio de informaes. Uma mulher
atendeu, mas  no era a voz de sua me. Ela pediu para falar com a sra.
Waterford e foi  informada de que eles tinham sado e que s quatro e
meia estariam de volta. O que queria  dizer que ela s tinha uma hora
para esperar. Gabriella debateu consigo mesma se deveria telefonar antes
ou simplesmente aparecer l, e decidiu-se por fim em ir  sem se
anunciar. Pararam diante da casa exatamente s quatro e meia. Via-se um
Bentley prateado parado  entrada.
  Segurando a maleta numa das mos, Gabriella tocou a campainha com a
outra. Era  a mesma maleta surrada que recebera ao sair do convento.
Muito embora seu  guarda-roupa houvesse melhorado no ltimo ano, a
bagagem no. Essa era a primeira viagem que  fazia.
  - Pois no? - Uma mulher num suter de cashmere amarelo abriu a porta.
Ela  usava um colar de prolas e tinha cabelos louros, cuja cor se
mantinha graas   "ajuda" da tintura. Parecia ter cinqenta e poucos
anos, e recebeu Gabriella com  amabilidade. - Posso ajud-la? - Gabbie
parecia uma fugitiva com os cabelos louros  embaraados pelo vento, os
olhos azuis imensos e a velha maleta, e parecia ter menos do que  os
seus vinte e trs anos. A mulher que atendera  porta no tinha a menor
idia de quem era Gabriella, quando esta perguntou educadamente pela
"sra. Waterford",  ficando ento perplexa quando a mulher apresentou-se
como tal. Ento ela viera  casa errada; era bvio que eram outros os
sr. e sra. Waterford que moravam  ali. - Sinto muito - disse a mulher,
com simpatia, quando Gabriella contou que  estava procurando a me, no
momento em que um homem alto, com um bom fsico e cabelos  ficando
grisalhos, surgiu por trs dela. Aquele era o Frank Waterford de que ela
se lembrava, s que treze anos mais velho do que quando o vira pela
ltima vez.
  - Algum problema? - Ele aparentava interesse, e ento viu a jovem com
a maleta  parada  porta. Parecia perdida, porm inofensiva.
  - Esta jovem est procurando a me - explicou amavelmente sua mulher
-, e veio  parar no endereo errado. Eu estava tentando ajud-la a
resolver o que fazer  agora.
  - Gabriella? -perguntou ele, franzindo a testa, confuso. Ele a ouvira
dizer o  nome, e ainda se lembrava deste, embora mal a tivesse visto
algumas vezes e ela  agora estivesse muito diferente. Tornara-se uma
mulher.
  - Eu mesma. - Ela assentiu. - Sr. Waterford?
  Ele sorriu para ela, ento, mais do que surpreso em v-la.
  - Eu gostaria de falar com minha me.
  O casal Waterford se entreolhou, agora compreendendo.
  - Pelo que vejo, ela no mora aqui.
  - No, no mora - disse ele, com cuidado. - Por que no entra um
minuto? -  Parecia muito mais feliz em v-la do que seu prprio pai, e
parecia bem mais  generoso.
  Convidaram-na a deixar a maleta no cho e segui-los at a sala de
estar. Ele  ofereceu-lhe alguma coisa para beber, e ela disse que
ficaria satisfeita com um  copo d'gua, e a mulher loura foi busc-lo.
  - O senhor e minha me esto divorciados? - perguntou Gabriella,
parecendo um  pouco nervosa, e ele hesitou. Mas no havia como esconder
a verdade dela e  tampouco motivos para isso.
  - No, Gabriella, no nos divorciamos. Sua me morreu faz quatro anos.
Eu  sinto muito. - Por um momento, Gabriella ficou muda pela surpresa.
Ento ela se  fora,  levando com ela todos os seus segredos. Gabbie
soube instantaneamente que agora nunca se  sentiria livre. - Eu estava
certo de que seu pai iria lhe contar. Ele tinha um  leve sotaque sulista
arrastado, do qual ela agora se lembrava, e ocorreu-lhe que  tinha
ouvido a me dizer que ele vinha do Texas. - Eu mandei uma cpia do
obiturio para ele, para que soubesse, e imaginei que fosse lhe dizer.
-A situao era confusa  para ele at Gabriella explicar tudo.
  - Vi meu pai pela primeira vez, depois de quatorze anos, ontem. Ele
no me  disse nada. Mas eu tambm no lhe disse que viria aqui.
  - Mas voc no morava com ele? - Frank Waterford parecia
desconcertado. - Ela  me disse que tinha aberto mo da sua guarda em
favor de seu pai a fim de se  casar  comigo e que ele nunca mais a
deixou ver voc. Ela nem colocava fotos suas em lugar  algum, dizendo
que seria doloroso demais.
  Eram pessoas interessantes, seus pais. O que haviam feito com ela no
fora por  acaso; exigira deles um esforo considervel.
  Ela deixou escapar um suspiro e ento lhe respondeu, pasma diante das
mentiras  que os pais haviam contado  mulher e ao marido, tudo com o
intuito de abandon- la.
  - No havia fotografias minhas, sr. Waterford, eles nunca as tiraram.
E ela me  deixou no Convento de So Mateus, em Nova York, quando foi
para o Reno. Ela jamais voltou. Nunca mais tive notcias dela.
Simplesmente chegava um cheque todos os meses para pagar pela minha
hospedagem,  e estes cessaram assim que completei dezoito anos. E isso 
tudo.
  - Ela morreu um ano depois - explicou ele, juntando finalmente as
peas  daquela histria. - Ela sempre me disse que aquele dinheiro era
um donativo de  caridade, que as freiras daquele convento certa vez
tinham sido boas para ela. Nunca tive  a menor idia de que voc morava
l. - De repente ele se sentiu como se lhe  devesse desculpas, como se
tivesse feito parte daquela perfdia, mas Gabriella sabia que  no era
assim. Fora tudo obra da sua me e aquilo era bem prprio dela.
  - Como foi que ela morreu?
  - De cncer no seio - respondeu ele, olhando para Gabriella. Havia uma
 tristeza to grande nos olhos daquela jovem, que ele sentiu vontade de
abra- la. - No  era uma mulher muito feliz afirmou, diplomaticamente,
sem querer ofender a filha ou  destruir as iluses que ela pudesse ter
em relao  me. - Talvez sentisse  saudades suas. Tenho certeza que
sim.
  - Foi por isso que vim aqui - explicou Gabriella em voz baixa,
pousando o copo  sobre a mesinha. - Eu tinha algumas perguntas para
fazer a ela.
  - Talvez eu possa ajud-la - prontificou-se ele, enquanto sua mulher
ouvia com  compaixo e interesse.
  - No creio. Eu queria perguntar a ela por que me abandonou e por
que... -  Gabriella viu-se lutando contra as lgrimas diante daquelas
pessoas que eram  estranhas para ela e sentiu-se constrangida, mas
estavam sendo gentis com ela, e esse era  um momento difcil. - Eu
queria lhe perguntar por que fez tantas coisas antes de me abandonar.
  Ele pde ver facilmente que as perguntas eram dolorosas e comeou a
desconfiar  que havia mais coisas naquela histria do que ele poderia
sonhar. Resolveu ento  ser franco com ela. Agora era tarde demais para
agir de outra forma. E sentiu que  Gabriella merecia pelo menos isso
dele. Era tudo que ele tinha para lhe dar.
  - Gabriella, vou lhe dizer toda a verdade. Talvez no goste do que vai
ouvir,  mas isso pode ajud-la. Fui casado com sua me durante os piores
nove anos da  minha vida. Estvamos falando em nos divorciar quando ela
adoeceu, e eu no achei que  fosse certo deix-la naquelas
circunstncias. Achei que devia ficar ao seu lado, e foi o que fiz. Mas
ela era uma mulher fria, difcil, colrica, maldosa e  vingativa, e no
creio que houvesse nada de bom nela. No sei que tipo de me  ela foi
para voc, mas eu me arriscaria a dizer que no foi melhor com voc do
que  comigo, e talvez a coisa melhor que tenha feito a voc foi deix-la
no So  Mateus. Ela era uma mulher detestvel. - Ele dizia essas coisas
com imparcialidade, e a  mulher afagava-lhe a mo, enquanto ele falava.
- Lamento que ela a tenha  abandonado - prosseguiu -, mas no posso
imaginar que voc pudesse ser feliz com ela, mesmo  eu estando por
perto.
  "Quando eu estava saindo com ela em Nova York, ela me proibiu de falar
com  voc, e eu nunca pude compreender. Voc era a coisa mais bonitinha
que eu tinha  visto, e eu adoro crianas. Tenho cinco filhos no Texas,
mas, depois que me casei com  ela, eles no vinham aqui nem me visitar.
Ela os odiava, e eles tambm a odiaram  at a sua morte, e no sei bem
se os culpo por isso. Quando ela morreu, eu tambm  no estava cado de
amores por ela. Era uma mulher sem muitas qualidades. Seu  obiturio foi
o mais breve que j vi, pois ningum conseguia pensar em algo agradvel
para  dizer a seu respeito - falou ele.
  E ento, revendo o passado, lembrou-se de algo que tinha esquecido.
  - Sabe, ainda em Nova York, ela tentou me dizer que voc tinha
destrudo o  casamento dela com seu pai. Nunca consegui entender o que
ela quis dizer com  isso, mas fiquei com a impresso de que ela sentia
cimes de voc e que por isso havia  cedido sua guarda ao ex-marido. Ela
no a queria por perto, minha querida. Mas  eu nunca imaginei por um s
segundo que ela a houvesse abandonado. No teria me casado  com ela se
soubesse disso. Uma mulher capaz de fazer uma coisa dessas... bem,  isso
j lhe diz algo sobre ela... Mas sabendo como sua me era, acredito que
fosse  capaz de faz-lo.  impressionante que durante todos aqueles anos
eu nunca tivesse sabido nada a respeito. Simplesmente conclu que era
doloroso  para ela falar sobre o fato de t-la deixado com seu pai e
ento nunca tocvamos  no assunto.
  Aquela era de fato uma histria impressionante. Todos eles tinham se
esquecido  dela, enterrando-a com o passado, tanto sua me quanto seu
pai. Ela fora  verdadeiramente abandonada por eles.
  Gabriella ento comeou a contar aos Waterfords como fora a sua vida,
o que a  me fizera com ela e como o pai deixara tudo aquilo acontecer -
as surras, os  hospitais, os machucados, o dio, as acusaes. Sua
histria era longa, e ela levou muito  tempo contando, mas, quando
chegou ao fim, os trs estavam chorando. Frank  Waterford segurava-lhe a
mo, e a mulher, Jane, a abraava. Eles eram as pessoas mais  bondosas
que ela j conhecera, e sabia, sem a menor dvida, que sua me nunca o
tinha merecido. Ela simplesmente tivera sorte, e ele pagara um preo
alto pelo prazer  de sua companhia. Ainda parecia sombrio quando falava
sobre ela, mas o mesmo  acontecia a Gabbie.
  - Eu queria perguntar a ela - disse Gabbie, em meio s lgrimas,
sentada ao  lado deles - por que nunca me amou. - Para ela, aquela era a
chave de tudo. A  resposta final. E agora jamais saberia. O que havia
nela que os impedia de am-la? O  problema estava nela ou neles? Era
como se esperasse que a me pedisse  desculpas, que implorasse o seu
perdo, que lhe dissesse que a amara, mas que nunca soubera  demonstrar
esse sentimento. Qualquer coisa teria sido melhor do que o dio
violento que Gabriella tinha conhecido nas mos da me e visto em seus
olhos durante os  dez anos que suportara antes de a me abandon-la.
Agora, porm, j no poderia  lhe fazer aquela pergunta.
  - H uma resposta muito simples para isso, Gabbie - afirmou Frank,
enxugando  os olhos. - Ela no era capaz de amar ningum. No tinha nada
para dar. Lamento  falar mal dos mortos, mas ela era podre por dentro,
venenosa como uma cobra. Havia  alguma coisa errada com ela. Nenhum ser
humano pode ser to rancoroso. Eu sempre  pensei que fosse culpa minha.
Durante os primeiros cinco anos do nosso casamento,  pensei que o erro
estivesse em mim, que eu a houvesse decepcionado de alguma  forma, ou
que no fosse bom o bastante, que tivesse falhado com ela. E ento
percebi  que no tinha nada a ver comigo. O problema era ela. Foi muito
mais fcil depois  disso. Eu sentia pena dela, mas ainda assim no era
fcil conviver com sua me.
  "O que ela lhe fez  imperdovel, e voc ter de viver com essas
cicatrizes  pelo resto da vida. Ter de decidir se voc tem no corao a
capacidade de  perdo-la ou se deseja simplesmente dar-lhe as costas,
como ela fez com voc, e esquec- la. Mas, qualquer que seja a sua
deciso, precisa saber que o que ela fez no  tinha nada a ver com voc.
Qualquer outro ser humano no mundo, exceto esses dois de  quem voc
nasceu filha, teriam-na amado. Foi puro azar seu. Voc acabou caindo
nas mos de pais desprezveis. Talvez essa resposta seja simplista
demais para voc,  mas acho que foi isso o que aconteceu. Ela era uma
pessoa terrvel. Faltava nela uma coisa muito importante, e sempre
faltaria. Se estivesse aqui hoje, tambm  no poderia lhe dar as
respostas que voc procura. Desde o dia em que a conheci,  seu corao
nunca teve nenhum amor. Era muito bonita e, no comeo, s vezes era
muito divertida, mas isso no durou muito tempo. Sua mesquinhez veio 
tona  rapidamente, to logo nos casamos. E foi assim at o dia de sua
morte. No tinha nada a ver  com voc, Gabbie. Voc estava no lugar
errado, na hora errada, na fla errada no  cu, no momento em que
designavam os pais.
  Ento era isso?, perguntou-se ela. Simples assim? Mas, ouvindo-o, ela
sabia  que era verdade, que aquilo tudo no tinha nada a ver com ela,
nem agora, nem no  passado. Encontrara a resposta. Foi tudo um acidente
do destino, uma aberrao da  natureza, uma coliso entre dois planetas
que nunca deveriam ter coexistido lado  a lado, e ela, Gabriella, fora
atingida pela exploso resultante. No havia resposta  para a pergunta
que ela tantas vezes se fizera. Por que a me nunca a amara?  Eloise
Harrison Waterford jamais gostara de pessoa alguma. No tinha amor para
dar, nem  mesmo para a prpria filha. E Gabbie sentia-se estranhamente
em paz agora,  enquanto ouvia as palavras de Frank. Sabia que afinal
chegara ao fim da estrada, e que  agora podia ir para casa. Chegava ao
fim de uma odissia que levara vinte e trs  anos para completar. Outras
pessoas levavam mais tempo. Mas ela tivera coragem suficiente para
enfrentar a  dela. Tinha querido saber as respostas. E tinha tido a
coragem de passar pelas  provaes que lhe custara chegar ali. O tempo
todo eles tinham razo, todos eles. Ela era  mesmo forte. E agora tambm
sabia disso. No podiam mais machuc-la com isso.  Gabriella conseguira
sobreviver a eles.
  Convidaram-na a ficar para o jantar, e ela adorou a compania dos dois.
Pensar  que Frank tinha sido seu padrasto durante treze anos e que nunca
o conhecera de  alguma forma a comovia. E Jane era uma mulher adorvel.
Era viva tambm, e os dois  haviam se casado fazia trs anos, e era
bvio que se amavam. Jane contou que  Frank estava arrasado quando ela o
conheceu e, graas a Eloise, comeava a odiar as mulheres,  mas que ela
o havia recuperado. E ele riu com a verso da histria contada pela
mulher.
  - No acredite numa s dessas palavras, Gabbie. Ela era uma viva
solitria, e  eu a salvei, roubando-a bem de baixo do nariz de um ricao
tolo de Palm Beach. E  me casei com ela antes que o homem soubesse o que
o tinha atingido - disse ele, com  um sorriso largo.
  Eles sugeriram que Gabriella passasse a noite ali, mas ela no queria
impor a  sua presena e disse que se hospedaria num hotel no aeroporto e
que voltaria  para  casa de manh. Mas os dois queriam que ela ficasse.
Frank disse que lhe devia pelo  menos isso por no t-la tido por perto
durante aqueles anos todos. E Gabriella  no pde deixar de pensar o
quanto sua vida teria sido diferente se tivesse vivido  ali. Mas a me
estragaria tudo, de qualquer forma, e chegou  concluso de que
provavelmente ele estava certo. A melhor coisa que Eloise tinha feito
por ela fora abandon- la. Aquela acabou sendo a causa de sua salvao;
Gabriella no poderia  sobreviver aos espancamentos para sempre.
  Os Waterford lhe deram um lindo quarto de hspede, com vista para a
baa e  para a Golden Gate Bridge, e pela manh uma empregada lhe serviu
o caf na cama.  Sentiu-se como uma princesa. Resolveu ligar para Peter
antes de ir para o aeroporto. Dessa  vez, para variar, ele estava de
folga e ficou entusiasmado com seu telefonema.
  Gabriella contou sobre os Waterford, e ele ficou feliz que tudo
tivesse  corrido to bem, e tambm que a me dela no estivesse mais l.
Assim como Frank  Waterford, tinha certeza de que nada teria mudado e
que a me encontraria algum meio de  magoar Gabbie. Ele no se
surpreendeu com nenhuma das coisas ditas por Frank e  sentiu-se
muitssimo aliviado que a sua busca tivesse chegado ao fim. Ela parecia
muito  tranqila. Disse que voltaria para casa naquela noite, mas, ao
ouvi-la, Peter  teve uma idia melhor. Tinha quatro dias de folga,
extraordinariamente, e disse que  adorava San Francisco.
  - Por que no espera e eu vou encontrar voc a? - sugeriu ele. Ela
hesitou  por um longo instante, incerta sobre o que responder. Esse era
s o comeo para  eles. Mas pelo menos tinha a sensao de que
finalmente deixara todos os fantasmas  para trs. Por fim, fizera as
pazes com eles. Joe, Steve, at mesmo com seus  pais. Agora compreendia
melhor o que lhe acontecera. Frank tinha razo num certo sentido.  Ela
no tivera muita sorte na hora de designarem seus pais. Era como se
tivesse  sido atingida por um raio. E, durante todos aqueles anos, ela
acreditara que a culpa  era toda sua. Dos espancamentos, da crueldade,
do fato de terem-na abandonado,  at mesmo de no a terem amado. Ela
aceitara, passivamente, a culpa por tudo. E  agora percebia que no
tinha sido inteiramente responsvel nem mesmo pelo que  acontecera a
Joe. Afinal, ele tomara sua prpria deciso.
  - O que acha? - tornou a perguntar Peter sobre sua ida at l, e ela
abriu um  lento sorriso, enquanto olhava pela janela do quarto de
hspede dos Waterford.
  - Acho que  uma boa idia - respondeu Gabriella, disposta a se
permitir  aquela chance, pronta para deix-lo entrar em sua vida. No
sabia o que iria  acontecer  entre os dois, mas, se fosse algo bom, e
certo para eles, parecia possvel agora que  ela merecesse. Gabriella j
no se acreditava amaldioada ou destinada a ser  castigada por toda a
eternidade. Fora por isso que procurara sua me, para se aliviar dos
fardos com os quais haviam-na condenado a viver, e ela finalmente
conseguira.  Sua pena perptua tinha sido suspensa.
  - Vou tomar o avio hoje  tarde. Posso encontr-la em algum lugar e
ento me  hospedo num hotel - disse Peter, entusiasmado.
  Mas, quando ela contou aos Waterford que Peter ia encontr-la e que
ela iria  se transferir para um hotel, o casal insistiu em que ficasse
ali com ele. Eram  as  pessoas mais gentis e hospitaleiras que Gabriella
j havia conhecido e pareciam desejar  sinceramente que ela ficasse com
eles.
  - Quero dar uma olhada nesse meu novo genro antes que voc cometa um
erro -  brincou Frank. Ela lhes contara como tinha conhecido Peter e o
que acontecera  com Steve Porter, ou qualquer que fosse o seu nome. Os
dois ficaram horrorizados com  aquela histria, mas ansiosos por
conhecer Peter.
  Depois de ela tomar um txi para o aeroporto, Frank disse  mulher o
quanto  lamentava por Gabbie, comentando o inferno que deveria ter sido
sua vida quando  criana. E ele culpava-se por no ter visto aquilo ou o
monstro que fora Eloise. Sentia- se bem agora fazendo o que pudesse para
compensar Gabbie de alguma forma. Ficou  satisfeito em ver que ela tinha
uma cabea boa. Para ele, era extraordinrio que tivesse  sobrevivido a
tudo por que passara.
  -  uma boa menina - disse ele a Jane, que concordou. E enquanto
passeavam  pelo jardim, admirando a vista de que tanto gostavam, Peter
aterrissava no  aeroporto.

Captulo 26

  O avio pousou suavemente na pista, enquanto Gabriella observava.
Estava  contente por v-lo, mas ainda se sentia um pouco nervosa. Eles
haviam conversado  tanto  no hospital, mas ela no o vira mais desde
ento, aqui fora, no mundo real. Parecia  difcil acreditar que
estivesse fora do hospital havia somente trs dias. Tantas coisas tinham
acontecido, tantos fantasmas finalmente tiveram descanso. E  sentia-se
to feliz que ele houvesse ido v-la. Ela e Peter aceitaram passar o
final de semana com os Waterford, e, ento, ele tinha de voltar ao
hospital e ela queria  retornar  livraria.
  Gabriella estava de p, um pouco afastada, quando ele desceu do avio,
e assim  Peter no a viu de imediato. Estava olhando para a frente e
abriu um amplo  sorriso quando ela de repente deu um passo adiante,
surpreendendo-o. Quando ele a olhou,  com seus olhos azuis, os cabelos
louros brilhantes, sentiu uma vontade  irresistvel de beij-la. Mas, em
vez disso, passou o brao em torno de seus ombros e os dois  comearam a
atravessar devagar o aeroporto. Ela falava com desembarao sobre o  que
tinha acontecido desde a sua chegada ali, as descobertas que fizera, e
seus  olhos pareciam felizes como ele nunca os tinha visto antes. Ainda
havia neles aquela gravidade que Peter amava, e que primeiro o tinha
atrado para ela,  mas Gabriella j no parecia to angustiada. E ento,
enquanto ouvia o que ela  dizia, ele parou e a fitou, sorrindo, feliz em
v-la.
  - Senti sua falta. A unidade de traumatologia no  a mesma sem voc.
- Nada  mais era igual sem ela. E ficara aflito desde a partida dela
para a Califrnia.
  - Tambm senti a sua falta, Peter. - Ergueu o rosto para ele,
sorrindo, vendo- o com os olhos de uma mulher. Olhos sbios, olhos
fortes, olhos corajosos, olhos  que no tinham medo de v-lo. - Obrigada
por vir at aqui.
  - Obrigado por ir parar na unidade de traumatologia - e por
recuperar-se, por  sobreviver a toda a droga de vida que levara at ali.
Ele estivera  sua espera,  havia anos, s no sabia disso. Durante todo
aquele tempo nunca houve algum que ele  amasse de verdade, ningum que
fosse perfeito para ele, ningum que tivesse a  coragem de ficar ao seu
lado, mas, por algum motivo, sabia que Gabriella era essa  pessoa. Ela
no tinha medo de nada e, se tivesse, ele estaria sempre ao seu  lado,
para ajud-la a superar esse medo. Assim como sabia que ela faria o
mesmo por ele.  Eram ambos o tipo de pessoa que tinha a coragem de fazer
o que fosse preciso, de  buscar o que queria, de se prontificar a ajudar
o outro. Os dois haviam aprendido isso  da maneira mais difcil. A
estrada no tinha sido fcil para eles,  principalmente para Gabbie. Ela
era a verdadeira herona daquela histria; tinha ido at o  inferno,
voltado e sobrevivido, e agora estava ali, sorrindo para ele, com toda
a coragem que ela mesma procurara a vida toda. As sombras agora haviam
desaparecido.
  Ele segurou-lhe a mo com firmeza e lentamente comearam a se dirigir
para a  sada. Ele levava a bolsa pendurada no ombro; e ela, a
liberdade. No tinham um  lugar especial para ir, e tampouco estavam com
pressa de chegar l. Tinham tempo e uma  vida inteira  frente deles, e
j no havia fantasmas para assombr-los. Tudo de que precisavam agora
era um do outro e de tempo para desfrutar dessa companhia.  E Gabriella
no precisava mais procurar respostas. Agora estava livre.
  E, j fora do aeroporto, enquanto caminhavam sob o sol de agosto, de
mos  dadas, ele baixou os olhos para ela, que lhe sorriu. Tudo parecia
to fcil. A  estrada que os levara at ali tinha sido tortuosa e, s
vezes, lhes parecera  interminvel. Agora, porm, olhando a paisagem que
se descortinava do topo da  montanha, a estrada no parecia assim to
cheia de pedras. Tinha sido muito dura. E muito longa.  Mas, onde quer
que estivesse agora, Gabriella sabia que chegara em casa.

fim


